quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Item of mortality

AMONG OTHER public buildings in a certain town, which for many reasons it will be prudent to refrain from mentioning, and to which I will assign no fictitious name, there is one anciently common to most towns, great or small – to wit, a workhouse; and in this workhouse was born, on a day and date which I need not trouble myself to repeat, inasmuch as it can be of no possible consequence to the reader, in this stage of the business at all events, the item of mortality whose name is prefixed to the head of this chapter.

O “item of mortality” é Oliver Twist e é assim que Charles Dickens o introduz no primeiro parágrafo do livro, uma expressão que ficaria comigo para sempre associada às imagens que em criança fui construindo através das letras de Dickens, preenchendo-as com retalhos de uma realidade que, em certa medida, não me era estranha; um mundo violento e dolorosamente injusto onde as crianças estavam sempre a um milímetro da morte, vítimas das vítimas e, no entanto, donos de uma força que os levava a cometer o derradeiro crime: pedir mais do que o que lhes era permitido ter quando o que lhes era permitido ter pouco mais além ia da autorização para respirar.

O bicentenário do nascimento do escritor acontece num momento deveras apropriado para que seja lembrado e relido, ou não vivêssemos num tempo onde querer mais manter o que se tem se tornou uma espécie de lesa-pátria e a destituição um acto de patriotismo. Isto não é uma comparação entre a nossa realidade e a de Dickens. É antes a velha questão das verdades abstractas da economia nua e crua, tal como os donos dela as entendem e que agora nos governam, se sobreporem à nossa humanidade. Temo que seja nessa direcção que caminhamos, a passos largos até nos tornarmos em meros itens de mortalidade.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

piegas


O Calvin resolve seguir o conselho do PM e tornar-se mais exigente.



quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

igualdade

Dantes a igualdade era dar às pessoas as mesmas oportunidades para que pudessem melhorar as suas vidas. Hoje tornou-se numa competição entre ricos sobre quem mais consegue vitimizar-se para disputarem aos  pobres a condição de vítimas.


isto deve querer dizer alguma coisa

Parece que comprámos um bilhete para o passado: empobrecimento, emigração (para Angola, em força!),  um presidente pobrezinho e censura. Faltavam as aparições. Ontem testemunhei este fenómeno no Toural, em Guimarães (foto não manipulada) sobre a torre da igreja. Não sei, mas acho que isto deve querer dizer alguma coisa… 


quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

na Coreia do Norte a Natureza é cúmplice do regime


When beggars die, there are no comets seen; 
The heavens themselves blaze forth the death of princes.

Shakespeare, Julius Caesar (II, ii, 30-31)

Não consta nas memórias de Hyok Kang*, que o gelo do lago Chon no sagrado Monte Paektu se tenha rompido com estrondo por aqueles que sucumbiram à fome durante a liderança de Kim Jon-Il, ou que um grou tenha voado três vezes em torno dos cadáveres que Kang viu indiferentes na neve em sinal de luto. Os simbolismos dos fenómenos da natureza estão reservados para a morte dos príncipes, não para aqueles que se situam à margem de todas as decisões, nascidos para serem simultaneamente vítimas e colaboradores involuntários da mecânica que mantém o regime.

A vida continua inalterável na Coreia do Norte e os líderes vão-se sucedendo sobre a ameaça constante da fome e a ausência de dissidência. Provavelmente as crianças subalimentadas de hoje também encaram tudo com a mesma normalidade com que Hyok Kang viveu esses anos no Paraíso. Descreve os factos como se fossem normais, com uma quase ausência de emoção que apenas se torna perceptível quando fala do pai. Uma ausência que contrasta fortemente com o que vemos nas imagens do funeral de Kim Jon-Il, como se toda a emoção tivesse sido sugada das entranhas do povo e armazenada para explodir em orquestrações grotescas nos dias em que morrem os deuses e outros lhes sucedem.

*This is Paradise, My North Korean Childhood, com a colaboração do jornalista francês Philippe Grangereau

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

mercado

De manhã cedo a cidade dirigia-se para lá. Donas de casa apressadas contavam tostões no porta-moedas, assediadas por cabeças de homens adultos em corpos de bebé, cotos nas extremidades de braços e de pernas, olhos de onde tinham desaparecido as pupilas, tumescências surgindo de crânios rapados, bebés raquíticos fundidos no colo de mulheres gordas e tudo o mais que rendesse esmola. Os comerciantes escancaravam portas e mercadoria, deixando voar as fazendas porta fora e tilintar as panelas e as colheres de pau. Meios torsos de porcos e bovinos dançavam nos ganchos, abrindo caminho aos aromas das flores e dos frutos que anunciavam a proximidade do centro do mercado. Aí, segundo a minha mãe, as lavradeiras carregadas de legumes e arrecadas de ouro, roubavam no peso das batatas. Junto aos portões de ferro afunilava-se o formigueiro sob a nuvem que os tubos de escape dos autocarros deixavam na rua junto com os passageiros. Suspendia a respiração até se desvanecer a nuvem enegrecida que ao diluir-se no ar da manhã, voltava a imprimir nos passeios os mendigos estropiados, como sebastiões revelados em manhãs de nevoeiro.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

classe fumadora


Apesar de todas as boas intenções em deixar de pertencer à classe fumadora, parece que não é desta. Acontece-me sempre isso quando o governo decide embarcar em mais um campanha proibicionista. 


sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

As grandes lojas do amor

Enquanto uma passava o espanador nas teias de aranha e a outra puxava o lustro aos móveis, pusemos a conversa em dia. Deu notícias do marido, a recuperar de uma anemia, dos filhos emigrados que vieram para a consoada, da filha mais velha que mora já ali e da mais nova, licenciada em Matemática, que ainda não conseguiu sair da precariedade. 

Tem trabalhado intermitentemente nas grandes lojas do amor. A última foi a Worten. Cumpriu o máximo de contratos temporários previstos na lei e, chegando a hora que marca a fronteira entre a precariedade e a estabilidade, dispensaram-na como fazem com toda a gente, batalhões sucessivos de desesperados de vidas adiadas, nunca esquecendo de sublinhar o seu amor por eles. Chamaram-na de novo para trabalhar uns dias em Dezembro porque gostam muito dela. Gostam muito dela e gostariam muito que ficasse para sempre, diz o gerente que elogia a sua competência, esforço, pontualidade, inteligência e tem muita pena de não ser ele quem faz as regras. 

Nas raras vezes em que os nossos horários coincidem a mãe vai-me pondo a par da saga da filha pelas lojas do amor, repetindo sempre a mesma frase: “mas gostam muito dela”, como se quisesse iludir-se com uma esperança que talvez saiba ser vã, de que desse amor saia um dia um emprego estável e que a filha possa finalmente sair daquilo a que chamam zona de conforto. 

Há uma lógica nesse amor que escapa à mãe. “Mas gostam muito dela/dele” é uma frase comum na vida das gerações tornadas hiper flexíveis. Não será surpreendente, por certo, que na era em que empobrecer se tornou sinónimo de enriquecer, precariedade em sinónimo de conforto e tantos outros antónimos em sinónimos de si próprios, o amor se tenha tornado sinónimo de rejeição. 


quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

fado (2)

Havia dias em que chegava a casa esbaforida depois da corrida pela rua mais antiga do burgo, entre a escola primária e a minha casa. Entrava e ouvia cantar o fado. Parava à escuta. Não era o disco da Amália. Era a minha mãe. Sentava-me nos degraus de pedra com a pasta pousada nos joelhos e o pescoço dobrado para trás fitando a clarabóia lá em cima, no topo da espiral de escadas. A voz da minha mãe vinha do céu. Os fados eram todos tristes, todos da Amália, todos sofridos.

Mas ela cantava-os melhor. Cantava-os enquanto picava cebolas para o estrugido, cortava cenouras aos bocadinhos, dividia batatas em palitos, descascava feijões e grãos-de-bico, enquanto partia unhas e decepava dedos.

Havia uma tristeza sem fim dentro da minha mãe, uma tristeza que eu não entendia. Calava-se quando ouvia os meus passos nas escadas. Eu sabia que engolia as lágrimas para ninguém a ver chorar, mas a humidade ficava agarrada às pestanas, o inchaço vermelho às pálpebras; e ela dizia que era das cebolas e eu dizia que era do fado. O fado era o exorcismo dessa tristeza, compreendi depois, e não a razão da mesma.
O fado é o esconjuro das almas nascidas no fado errado.

(9 Junho 2009)

domingo, 27 de novembro de 2011

fado

Fado era assim, e assim continua, o que fazia quem puxava pela voz quando tinha ganas de puxar da pistola.

- Excerto do melhor texto que li recentemente sobre o fado, do Rui Bebiano n'A Terceira Noite.

a lusitana ordem natural das coisas

Medita na textura física do empobrecimento. Empobrecer significa voltar ao passado, à lusitana ordem natural das coisas, ao desconforto dos invernos húmidos intermináveis numa casa de papelão que não lhe pertence, onde o bolor desenha caricaturas nos muros e nos tectos; tachos e alguidares recolhendo a chuva que o telhado deixa verter, um sabão escuro para lavar o cabelo e o corpo e a louça e as meias sintéticas de odores ofensivos e a roupa interior esburacada; recorrer a instituições de caridade para alimentar os filhos; pô-los a trabalhar escondidos em casa, como dantes se fazia no Vale do Ave; reconciliar-se com o ex-marido que não suporta, mas que ajudará na despesa se ela se submeter.

Se houve coisa que aprendeu numa vida de altos e baixos é que só os que ultrapassam a sua condição são permanentemente chamados a provar que o merecem, que não roubaram nada a ninguém, que não enganaram o sistema. Provam-no consentindo no empobrecimento pois não são esses os primeiros a serem chamados para a viagem de regresso ao passado onde, dizem, haverão de enriquecer?

Não consegue afastar o pressentimento de que lhe estão a cobrar alguma coisa que já pagou com muito trabalho e dificuldades, a roubar alguma coisa a que tem direito, mas cala na alma a revolta que mal se forma lhe parece intolerável. Porque haveria alguém de a achar tolerável se está em completo desacordo com a lusitana ordem natural das coisas?

sábado, 26 de novembro de 2011

língua

A noite passada sonhei que me caiu a língua. Assim, literalmente. E eu, com muito cuidado para não a mastigar e engolir, tentava desesperadamente mantê-la na boca e colocá-la no sítio. Um desespero, uma angústia, tão reais como o são sempre nos sonhos, e um alívio transpirado quando acordei e percebi que há muitas coisas que com a idade nos vão caindo, mas a língua não é uma delas.

domingo, 20 de novembro de 2011


"But real flowers can never be dispensed with. If they could, human life would be a different affair altogether" - Virginia Woolf, Jacob's Room, 1922

sábado, 19 de novembro de 2011

Em breve esta casa regressará à solidão. Os aracnídeos e as centopeias poderão refazer-se da matança. Arrumam-se loiças, lençóis, toalhas. Fecham-se cantos à casa, enchem-se gavetões e abandonam-se os lugares sombrios do jardim. Empilham-se livros abandonados a meio, outros lidos de fio a pavio e relidos, sublinhados em excesso. Fotografias. A casa volta-se para Sul.

O coro do Exército Vermelho entoa pelo granito, agora que o filho mais velho desenvolveu uma curiosidade por tudo o que é de outro tempo. Trabalho no jardim, enchendo e despejando carrinhos-de-mão de folhas de todas as cores. Encho e despejo. Encho e despejo. Ai-da da ai-da, burlak. Tenho a certeza de que não são todas minhas; o vento traz para cá todas as folhas das redondezas.

A Isabel deixou-me cebolas e batatas no alpendre. Uma abundância a que nunca damos vazão. O senhor Luís aproveitou as férias de imigrante para refazer a fachada da sua casa. Aumentou-a para os lados, colocou isolamento nas paredes e pintou-a de branco. Fitas de granito a emoldurar as janelas. Um portão demasiado imponente para os muros que o flanqueiam. A casa que começou por ser um buraco húmido e escuro está quase a chegar a solar. A Isabel, que vive no rés-do-chão, está contente com as melhorias, mas, embora não o confesse, ansiosa que se vão todos embora.

Em breve. A agitação que atravessa a aldeia é estridente. e rápida. Regressará o silêncio.