terça-feira, 10 de janeiro de 2012

mercado

De manhã cedo a cidade dirigia-se para lá. Donas de casa apressadas contavam tostões no porta-moedas assediadas por cabeças de homens adultos em corpos de bebé, cotos nas extremidades de braços e de pernas, olhos de onde tinham desaparecido as pupilas, tumescências surgindo de crânios rapados, bebés raquíticos fundidos no colo de mulheres gordas e tudo o mais que rendesse esmola. Os comerciantes escancaravam portas e mercadoria deixando voar as fazendas porta fora e tilintar as panelas e as colheres de pau. Meios torsos de porcos e bovinos dançavam nos ganchos abrindo caminho aos aromas das flores e dos frutos que anunciavam a proximidade do centro do mercado onde, segundo a minha mãe, as lavradeiras carregadas de legumes e arrecadas de ouro roubavam no peso das batatas e dos nabos. Junto aos portões de ferro afunilava-se o formigueiro sob a nuvem de fumo que os tubos de escape dos autocarros deixavam na rua junto com os passageiros. Suspendia a respiração até se desvanecer a nuvem enegrecida que ao diluir-se no ar da manhã voltava a imprimir nos passeios os mendigos estropiados, como sebastiões revelados em manhãs de nevoeiro.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

classe fumadora


Apesar de todas as boas intenções em deixar de pertencer à classe fumadora, parece que não é desta. Acontece-me sempre isso quando o governo decide embarcar em mais um campanha proibicionista. 


sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

As grandes lojas do amor

Enquanto uma passava o espanador nas teias de aranha e a outra puxava o lustro aos móveis, pusemos a conversa em dia. Deu notícias do marido, a recuperar de uma anemia, dos filhos emigrados que vieram para a consoada, da filha mais velha que mora já ali e da mais nova, licenciada em Matemática, que ainda não conseguiu sair da precariedade. 

Tem trabalhado intermitentemente nas grandes lojas do amor. A última foi a Worten. Cumpriu o máximo de contratos temporários previstos na lei e, chegando a hora que marca a fronteira entre a precariedade e a estabilidade, dispensaram-na como fazem com toda a gente, batalhões sucessivos de desesperados de vidas adiadas, nunca esquecendo de sublinhar o seu amor por eles. Chamaram-na de novo para trabalhar uns dias em Dezembro porque gostam muito dela. Gostam muito dela e gostariam muito que ficasse para sempre, diz o gerente que elogia a sua competência, esforço, pontualidade, inteligência e tem muita pena de não ser ele quem faz as regras. 

Nas raras vezes em que os nossos horários coincidem a mãe vai-me pondo a par da saga da filha pelas lojas do amor, repetindo sempre a mesma frase: “mas gostam muito dela”, como se quisesse iludir-se com uma esperança que talvez saiba ser vã, de que desse amor saia um dia um emprego estável e que a filha possa finalmente sair daquilo a que chamam zona de conforto. 

Há uma lógica nesse amor que escapa à mãe. “Mas gostam muito dela/dele” é uma frase comum na vida das gerações tornadas hiper flexíveis. Não será surpreendente, por certo, que na era em que empobrecer se tornou sinónimo de enriquecer, precariedade em sinónimo de conforto e tantos outros antónimos em sinónimos de si próprios, o amor se tenha tornado sinónimo de rejeição. 


quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

fado (2)

Havia dias em que chegava a casa esbaforida depois da corrida pela rua mais antiga do burgo, entre a escola primária e a minha casa. Entrava e ouvia cantar o fado. Parava à escuta. Não era o disco da Amália. Era a minha mãe. Sentava-me nos degraus de pedra com a pasta pousada nos joelhos e o pescoço dobrado para trás fitando a clarabóia lá em cima, no topo da espiral de escadas. A voz da minha mãe vinha do céu. Os fados eram todos tristes, todos da Amália, todos sofridos.

Mas ela cantava-os melhor. Cantava-os enquanto picava cebolas para o estrugido, cortava cenouras aos bocadinhos, dividia batatas em palitos, descascava feijões e grãos-de-bico, enquanto partia unhas e decepava dedos.

Havia uma tristeza sem fim dentro da minha mãe, uma tristeza que eu não entendia. Calava-se quando ouvia os meus passos nas escadas. Eu sabia que engolia as lágrimas para ninguém a ver chorar, mas a humidade ficava agarrada às pestanas, o inchaço vermelho às pálpebras; e ela dizia que era das cebolas e eu dizia que era do fado. O fado era o exorcismo dessa tristeza, compreendi depois, e não a razão da mesma.
O fado é o esconjuro das almas nascidas no fado errado.

(9 Junho 2009)

domingo, 27 de novembro de 2011

fado

Fado era assim, e assim continua, o que fazia quem puxava pela voz quando tinha ganas de puxar da pistola.

- Excerto do melhor texto que li recentemente sobre o fado, do Rui Bebiano n'A Terceira Noite.

a lusitana ordem natural das coisas

Medita na textura física do empobrecimento. Empobrecer significa voltar ao passado, à lusitana ordem natural das coisas, ao desconforto dos invernos húmidos intermináveis numa casa de papelão que não lhe pertence, onde o bolor desenha caricaturas nos muros e nos tectos; tachos e alguidares recolhendo a chuva que o telhado deixa verter, um sabão escuro para lavar o cabelo e o corpo e a louça e as meias sintéticas de odores ofensivos e a roupa interior esburacada; recorrer a instituições de caridade para alimentar os filhos; pô-los a trabalhar escondidos em casa, como dantes se fazia no Vale do Ave; reconciliar-se com o ex-marido que não suporta, mas que ajudará na despesa se ela se submeter.

Se houve coisa que aprendeu numa vida de altos e baixos é que só os que ultrapassam a sua condição são permanentemente chamados a provar que o merecem, que não roubaram nada a ninguém, que não enganaram o sistema. Provam-no consentindo no empobrecimento pois não são esses os primeiros a serem chamados para a viagem de regresso ao passado onde, dizem, haverão de enriquecer?

Não consegue afastar o pressentimento de que lhe estão a cobrar alguma coisa que já pagou com muito trabalho e dificuldades, a roubar alguma coisa a que tem direito, mas cala na alma a revolta que mal se forma lhe parece intolerável. Porque haveria alguém de a achar tolerável se está em completo desacordo com a lusitana ordem natural das coisas?

sábado, 26 de novembro de 2011

língua

A noite passada sonhei que me caiu a língua. Assim, literalmente. E eu, com muito cuidado para não a mastigar e engolir, tentava desesperadamente mantê-la na boca e colocá-la no sítio. Um desespero, uma angústia, tão reais como o são sempre nos sonhos, e um alívio transpirado quando acordei e percebi que há muitas coisas que com a idade nos vão caindo, mas a língua não é uma delas.

domingo, 20 de novembro de 2011


"But real flowers can never be dispensed with. If they could, human life would be a different affair altogether" - Virginia Woolf, Jacob's Room, 1922

sábado, 19 de novembro de 2011

Em breve esta casa regressará à solidão. Os aracnídeos e as centopeias poderão refazer-se da matança. Arrumam-se loiças, lençóis, toalhas. Fecham-se cantos à casa, enchem-se gavetões e abandonam-se os lugares sombrios do jardim. Empilham-se livros abandonados a meio, outros lidos de fio a pavio e relidos, sublinhados em excesso. Fotografias. A casa volta-se para Sul.

O coro do Exército Vermelho entoa pelo granito, agora que o filho mais velho desenvolveu uma curiosidade por tudo o que é de outro tempo. Trabalho no jardim, enchendo e despejando carrinhos-de-mão de folhas de todas as cores. Encho e despejo. Encho e despejo. Ai-da da ai-da, burlak. Tenho a certeza de que não são todas minhas; o vento traz para cá todas as folhas das redondezas.

A Isabel deixou-me cebolas e batatas no alpendre. Uma abundância a que nunca damos vazão. O senhor Luís aproveitou as férias de imigrante para refazer a fachada da sua casa. Aumentou-a para os lados, colocou isolamento nas paredes e pintou-a de branco. Fitas de granito a emoldurar as janelas. Um portão demasiado imponente para os muros que o flanqueiam. A casa que começou por ser um buraco húmido e escuro está quase a chegar a solar. A Isabel, que vive no rés-do-chão, está contente com as melhorias, mas, embora não o confesse, ansiosa que se vão todos embora.

Em breve. A agitação que atravessa a aldeia é estridente. e rápida. Regressará o silêncio.

domingo, 23 de outubro de 2011

a era pós-género

Já toda a gente ouviu falar, frequentemente vindo de mulheres jovens, de como as sociedades europeias já alcançaram a igualdade de género e de como todos têm as mesmas oportunidades, blá, blá,blá. Na Alemanha, há um partido - o partido dos Piratas (não são os das Caraíbas, mas sim nerds vindos da cultura online) – que defende precisamente isso. Não se preocupam com a ausência delas porque acreditam, segundo uma das poucas mulheres deste partido que nunca usa calças porque gosta de se apresentar como mulher (e desde quando é que usar calças nos torna menos femininas?), que a verdadeira igualdade começa quando deixamos de contar mulheres. Já ultrapassaram essas questões e dizem-se pós-género.

Acho muito interessante, sobretudo o facto de a era pós-género, praticamente, só ter homens.

sábado, 22 de outubro de 2011

Kadaffi e o croché

De uma entrevista ao escritor líbio Hisham Matar, na Guernica. Tradução livre.
(..)E a Líbia tem mais de 150 revistas e jornais que apareceram nos últimos seis meses. Este é um país que não tinha, sabe, revistas ou jornais (...) que não pertencessem ao governo. E a maior parte é muito má. Mas não faz mal. É um início. Alguém, por exemplo, anda a falar em começar uma maratona. Pode não parecer um grande acontecimento, mas não nos era permitido ter o raio de uma maratona. Agora podemos falar sobre fazer uma maratona! É muito excitante! E estes pequenos gestos de expressão são – há um comité de mulheres que se reúne e discute em termos muito abstractos e muito concretos o que significa ser mulher no mundo. Maravilhoso! A vida na Líbia era extraordinariamente diferente da vida no Egipto e na Tunísia, e na maioria dos outros países árabes, no sentido em que a vida cívica tinha sido completamente dizimada. Por isso, não se podia fazer uma reunião e ter uma sociedade que debate… a lua. Não interessava o que fosse. Não se podia começar uma revista… uma revista de croché. E esquecemo-nos de como estas revistas são importantes. E o processo de nos reunirmos para dar início a uma revista de croché… são talentos transferíveis, sabe?
(Vale a pena ler toda a entrevista)

sábado, 15 de outubro de 2011

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

morcegos

De manhã cedo, a melhor maneira de tirar um filho da cama é dizer-lhe que tem um morcego pendurado no estore da janela do seu quarto.



terça-feira, 30 de agosto de 2011

Fiquem aqui connosco

Enquanto se procuram e encontram as provas dos massacres levados a cabo por Kadhafi e os seus apoiantes, as forças rebeldes perseguem e massacram homens negros que encontram, incluindo imigrantes e feridos dentro de ambulâncias e tendas do Crescente Islâmico. Gritam aos jornalistas que os matam porque são mercenários ao serviço de Kadhafi, como se o mundo, perante essa informação que deduzem apenas com base na cor da pele e no facto de não terem mulheres consigo, desculpasse a barbárie com um"Ah! Então está bem".

Nesta reportagem do Channel 4, um grupo de homens negros implora aos jornalistas que fiquem junto deles. Testemunhos do terror agora perpetrado pelo outro lado. O lado que apoiámos.