domingo, 24 de abril de 2011

lisboa

Esqueço-me de como é bonita. As viagens são de contorno, imperativo de um destino que nunca passou por lá, excepto quando é necessário tratar de papelada entre fachadas imponentes que se esboroam como se disso dependesse a atracção turística. Não fosse a contradição da tinta dos carimbos "Aqui poderia viver gente" estampados na decadência quase poderíamos pensar que se conservam assim como se conservam ruínas antigas. Os meus filhos não se cansam de me lembrar como Lisboa é bonita, chamando-me a atenção para pormenores de fachadas, perguntando-me pela identidade das estátuas, as suas vozes sobrepondo-se à voz enfadonha do GPS. Toda a cidade está pachorrenta, cheia de uma paciência que me parece tão incomum enquanto aguarda o veredicto de uma troika. Nem as buzinas que os lisboetas parecem adorar são actos de agressão, antes meros avisos de presença. Estou aqui. Já te vi. E sorriem, acenam. Uma infinidade de gestos simpáticos. Ninguém poderá nunca desprezar um povo assim.

Há um fim de tarde para gastar sob um céu de cal e reparo com estranheza que está mais frio que no Norte. Os rapazes querem ver os Jerónimos e a Torre de Belém. Vão vocês que eu tenho muito frio e fico a observá-los enquanto vão tocar as pedras; para se certificarem, talvez, de que ainda nada se desvaneceu.

sábado, 16 de abril de 2011

jarros

Foram-se as camélias e regressaram os jarros e, como sempre, com a sua chegada lembro-me da Grace, uma escocesa que deixou as highlands para se vir enterrar entre colinas e serras minhotas. Portugal assentava-lhe como uma luva, dizia.


Grace gostava muito dos jarros que na Primavera desabrochavam por todos os cantos húmidos da aldeia, enchiam os altares das igrejas e as jarras de todas as casas. Impressionava-a não custarem nada, absolutamente nada pois nasciam onde lhes apetecia sem que ninguém os tivesse plantado, adubado, apaparicado. Na terra dela eram flores exóticas que custavam muito dinheiro e não tardou muito que o seu forte espírito de iniciativa a pusesse a sonhar com uma empresa de exportação de jarros para a Escócia. Os aldeões respondiam a todas as suas perguntas, divertidos com todo aquele interesse nos jarros, superior ao dos caracóis que lhes trepavam os caules. Não era a primeira forasteira que passava por lá. Antes dela houve um holandês barbudo e solitário que comprou um velho moinho em ruínas que ele próprio restaurou; um casal alemão de professores universitários com três filhos pequenos que cresceram entre cabras e ovelhas, violinos e pianos e outros apaixonados pela rugosidade dos rostos, pelas mãos calejadas na natureza e pela aspereza da vida simples que tudo arrancava da terra, vindos atrás de uma qualquer utopia à qual acabavam sempre por sucumbir. Mais tarde ou mais cedo iam-se todos embora, tão inesperadamente como tinham chegado.


Grace investigou, estudou, planeou e tudo recolheu sobre a criação de empresas em Portugal assim como sobre responsabilidades fiscais e, sobretudo, muito praguejou contra a burocracia kafkiana que caracterizava o país ainda não vai assim há tanto tempo. Mas os anos foram passando sobre uma Grace que se sentava no jardim nas noites primaveris à espera dos jarros e a empresa nunca foi criada. Quando o marido, aproveitando uma curta ausência sua, se suicidou com vinho do Porto e dióxido de carbono, enterrou-o no cemitério da aldeia, fechou a casa e partiu. Os vizinhos tiveram pena. Gostavam da Grace que, apesar de ser vegetariana, quis aprender com eles a matar os pica-no-chão e dava explicações de inglês às crianças da aldeia sem aceitar um tostão em troca. Também prestava primeiros socorros e diagnosticava maleitas pois Grace, antes de ser professora, tinha sido enfermeira.


Nunca mais regressou, mas todas as primaveras, por consideração por ela e porque no vaivém de forasteiros um tinha finalmente ficado, os aldeões enchem a campa do escocês com jarros.

(os jarros nas fotografias são do meu jardim e também eles nascem sem que ninguém os tenha mandado)

agências de rating e o abuso de poder

Poderá ser um gesto meramente simbólico, poderá levar a lado nenhum em termos práticos, mas isso nunca foi um bom argumento para calarmos a denúncia das injustiças e de abuso de poder. É essa denúncia que se faz na Petição Pública contra três agências de rating, que li e assinei.

As agências de notação financeira são entidades que avaliam os riscos financeiros, classificando os instrumentos financeiros de países, empresas ou bancos, atribuindo notações (rating) que indiciam, nomeadamente, o grau de risco de que os classificados não paguem atempadamente as suas dívidas. (...)
Quanto maior for o risco inerente a uma emissão de dívida, maior será o retorno exigido pelos investidores, ou seja, maiores serão os juros por eles impostos. Compreende-se assim a grande importância que revestem as classificações feitas por estas agências: elas servem de referência aos investidores, emissores e administradores públicos para as suas decisões de investimento e financiamento.
Sendo este o papel que reconhecidamente tem sido atribuído no mercado a estas agências, não pode permitir-se que ajam por forma a alterar o preço dos juros, direccionando o mercado para situações em que elas próprias ou os seus clientes tenham interesse e retirem benefícios.

Para mais, as três agências de notação financeira aqui denunciadas contam com 90% de participação no mercado das classificações creditícias, e o FMI reconhece-as como sendo as que maior influência têm a nível global. Por isso mesmo, o FMI tem alertado, como por exemplo na sua informação de 2010 sobre a “Estabilidade Financeira Mundial”, que “estas agências usam e abusam do poder que têm” e “ necessitam de uma supervisão mais estreita porque as suas actividades têm um impacto significativo nos custos de endividamento dos países, podendo afectar a sua estabilidade financeira”. Concluindo, considera o FMI que as decisões das agências podem alterar a estabilidade financeira dos mercados, alterando os preços do financiamento em termos que suscitam problemas jurídico-penais (em http://www.imf.org/external/pubs/ft/gfsr/2010/02/pdf/chap3.pdf).

A idêntica conclusão chegou a investigação realizada pelo Comittee on Homeland Security and Governmental Affairs do Senado dos Estados Unidos sobre o papel das agências de classificação de crédito centradas nas duas agências aqui denunciadas, Moody’s e Standard & Poor’s. (http://hsgac.senate.gov/public/_files/Finantial_Crisis/042310Exhibits.pdf). Precisamente pelos mesmos motivos, estão agora em curso, nos Estados Unidos da América, diversos processos penais, um no Tribunal Superior da Califórnia contra a MOODY’S e a FITCH, outro no Tribunal Distrital de Ohio contra a STANDARD & POOR’S e no Tribunal Superior de Connecticut contra as referidas três agências de notação financeira.

(...)

Excerto do texto da denúncia facultativa contra três agências de rating, que pode ser lido na íntegra e subscrito aqui.


quinta-feira, 7 de abril de 2011

ângulo

Há coisas para as quais não se fizeram palavras. Exprimimo-las com imagens, música, alegorias, citações e, às vezes, humor. “Não lembra ao diabo. Com uma gravata daquelas e preocupa-se com o lado do nariz que fica melhor?”, dizia a Prazeres arrancando gargalhadas da clientela, mesmo sem dizer palavrões.

Hoje o país descobriu que há ângulos melhores que outros para dar as más notícias e que eles são de extrema importância. Haverá um ângulo melhor para as receber? Se nos posicionarmos de certa forma em relação ao televisor…

sexta-feira, 1 de abril de 2011

interzona


espaço interzona
Rua Bernardino Machado, loja 40, Quinta da Maia
Coimbra, Portugal

peixinhos

Numa passagem de Cem Anos de Solidão, o coronel Aureliano Buendía, desencantado com a guerra e a política, fechou-se na oficina cortando todo o contacto com a realidade embora ecos dela lhe chegassem por via do comércio dos peixinhos de ouro que fazia e vendia.

«“Não me fales de política”, dizia-lhe o coronel. “A nós, o que nos interessa é vender peixinhos”. O rumor público de que não queria saber nada da situação política porque estava a enriquecer com a sua oficina, fez Úrsula rir com vontade quando chegou aos seus ouvidos. Com o seu tremendo sentido prático ela não conseguia perceber o negócio do coronel, que trocava os peixinhos por moedas de ouro e depois transformava as moedas de ouro em peixinhos e assim sucessivamente, de modo que cada vez tinha de trabalhar mais à medida que mais vendia, para satisfazer um círculo vicioso e exasperante.»

Sempre achei esta incompreensão de Úrsula estranha. Se há coisa que as mulheres, com sentido prático ou não, compreendem muito bem são os círculos viciosos e exasperantes. É por isso que há poucas mulheres interessadas numa carreira política. Não sei, não posso afirmar com certeza, mas havendo tantas mulheres de esquerda, também deve ser por isso que é lá onde menos as vemos chegar aos lugares de topo. É uma pena porque eu gostaria muito de votar numa mulher, a ver se deixávamos de fazer peixinhos.

quinta-feira, 31 de março de 2011

alma lusa

Já ninguém quer ser português. Fora do país fazem os possíveis para que ninguém perceba qual é a sua origem. Vejo-os nas minhas viagens – topam-se de longe, os lusitanos – falando idiomas europeus entre si, aderindo aos tiques de cosmopolitas que não são, fingindo nada ter a ver com o patrício imigrante do lado, o trolha e a mulher-a-dias semi-analfabetos, que ainda não ganharam vergonha na cara de serem os mais pobres e atrasados da Europa e lhes arranham os ouvidos com pronúncias do interior, a lembrar-lhes aquilo que também são. Gostariam de ser espanhóis, qualquer coisa que cheire a progresso. A respeito.


De saída para Lisboa onde obterei os passaportes alemães dos meus filhos, penso nisto tudo com tristeza. Pesando as duas costelas, o mais velho não tem dúvidas sobre a que prefere que o defina. Penso na costela portuguesa que também têm e gostaria de lhes dizer que oito séculos de história valem qualquer coisa. Uma determinação, vinda sabe-se lá de onde; uma vontade dos avós que têm mortos em panteões arejados para os turistas, e que acreditaram sempre, mesmo quando acreditar foi a pior escolha, nessa coisa a que chamam alma lusa. Mas é uma alma inventada num Viriato que nunca foi português. De certeza vem daí o engano. Fomos iludidos pela história a sermos epígonos de um mito que nos ensinaram nas lousas da primária, onde desenhávamos Afonsos de espada em punho e Rainhas Isabéis que se desfaziam em rosas; e onde nunca perdíamos braços de ferro com o estrangeiro excepto quando era necessário justificar a santidade de um Infante. Enganaram-se na figura, diz-me o mais velho. Mais valia fazer recuar a tal de alma aos que traíram o herói.

sexta-feira, 25 de março de 2011

plano inclinado

Cagle Cartoons

gruta

Num sítio onde morei havia uma ponte. Por baixo das escadas que lhe davam acesso havia uma divisão minúscula à qual não faltava o rectângulo onde nunca foi colocada uma porta. Nunca percebi porque teriam construído a ponte com um quarto sob as escadas, um buraco negro escavado no betão onde a luz nunca entrava e de onde os aracnídeos nunca saíam, mas alguém encontrou uso para ele. Vivia lá um casal, proprietário de uma mochila, um colchão inundo, alguns cobertores e uma lanterna. Era uma gruta com vista para os relvados circundantes e para o riacho que ali passava, um curso de água psicadélico que mudava de cor, uns dias sim, outros dias não, construída por mão humana, com projecto, licenças, empreitada.
Por altura do último censo a gruta ardeu. Vieram os bombeiros e a polícia. Fogo posto, disseram. Ainda bem, pensou a vizinhança. Foda-se, disse o o homem do casal. Agora somos sem-abrigo, disse a mulher.

sábado, 19 de março de 2011


Esta manhã, no meu jardim.

lua

Enquanto não chega o adaptador para as lentes da outra máquina, apetrechei-me com  uma  lente velhinha. Por cá a Lua não está maior do que o costume, mas aqui fica o registo.

quarta-feira, 16 de março de 2011

paralelismos sem pés dem cabeça

«Importa que os jovens deste tempo se empenhem em missões e causas essenciais ao futuro do país com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar.» - Cavaco Silva

Não sei o que é mais chocante nas coisas que de vez em quando Cavaco Silva diz: se é a aparente ignorância da História, a sombra Salazarista que nunca o abandonou ou se é o atrevimento. Como se atreve a fazer paralelismos destes? O insulto chega a todos, aos jovens de há 50 anos e aos jovens de hoje. Aos de ontem porque eram autêntica carne para canhão, sem possibilidade de questionar sequer a utilidade da guerra colonial quanto mais rejeitá-la. Aos de hoje porque os toma por parvos. Deprimente.

Quando os meus tios regressaram do Ultramar, logo a seguir ao 25 de Abril, era isto o que mais ouviam.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Libia

Quanto tempo até a comunidade internacional voltar a abrir os braços a Gadhafi? Quem será o primeiro a condecorá-lo por ter massacrado o seu próprio povo?

12 de Março

Vozes megafónicas calam-se e relaxam dando lugar aos intérpretes de um desfecho que não previram e que os confunde. Apontam a ausência de liderança, o espírito mais ou menos caótico da manifestação. Surgem os rótulos, as caricaturas e os candidatos a cabeça. É uma chatice quando as ovelhas se movimentam, mas não o fazem em rebanho sob o comando de pastores. Obriga a ver para lá das instituições, além das ideologias políticas e protagonistas instalados, a ter em conta o público como ele é, não como julgam que é. Obriga à procura de soluções que não as mesmas do costume. Não é para qualquer um. Para muitos será sempre mais fácil derreter um dia de protesto no mundano. Não percebem, talvez, que o 12 de Março foi uma coisa verdadeiramente extraordinária.