Hoje o país descobriu que há ângulos melhores que outros para dar as más notícias e que eles são de extrema importância. Haverá um ângulo melhor para as receber? Se nos posicionarmos de certa forma em relação ao televisor…
quinta-feira, 7 de abril de 2011
ângulo
Hoje o país descobriu que há ângulos melhores que outros para dar as más notícias e que eles são de extrema importância. Haverá um ângulo melhor para as receber? Se nos posicionarmos de certa forma em relação ao televisor…
quarta-feira, 6 de abril de 2011
sexta-feira, 1 de abril de 2011
peixinhos
«“Não me fales de política”, dizia-lhe o coronel. “A nós, o que nos interessa é vender peixinhos”. O rumor público de que não queria saber nada da situação política porque estava a enriquecer com a sua oficina, fez Úrsula rir com vontade quando chegou aos seus ouvidos. Com o seu tremendo sentido prático ela não conseguia perceber o negócio do coronel, que trocava os peixinhos por moedas de ouro e depois transformava as moedas de ouro em peixinhos e assim sucessivamente, de modo que cada vez tinha de trabalhar mais à medida que mais vendia, para satisfazer um círculo vicioso e exasperante.»
Sempre achei esta incompreensão de Úrsula estranha. Se há coisa que as mulheres, com sentido prático ou não, compreendem muito bem são os círculos viciosos e exasperantes. É por isso que há poucas mulheres interessadas numa carreira política. Não sei, não posso afirmar com certeza, mas havendo tantas mulheres de esquerda, também deve ser por isso que é lá onde menos as vemos chegar aos lugares de topo. É uma pena porque eu gostaria muito de votar numa mulher, a ver se deixávamos de fazer peixinhos.
quinta-feira, 31 de março de 2011
alma lusa
De saída para Lisboa onde obterei os passaportes alemães dos meus filhos, penso nisto tudo com tristeza. Pesando as duas costelas, o mais velho não tem dúvidas sobre a que prefere que o defina. Penso na costela portuguesa que também têm e gostaria de lhes dizer que oito séculos de história valem qualquer coisa. Uma determinação, vinda sabe-se lá de onde; uma vontade dos avós que têm mortos em panteões arejados para os turistas, e que acreditaram sempre, mesmo quando acreditar foi a pior escolha, nessa coisa a que chamam alma lusa. Mas é uma alma inventada num Viriato que nunca foi português. De certeza vem daí o engano. Fomos iludidos pela história a sermos epígonos de um mito que nos ensinaram nas lousas da primária, onde desenhávamos Afonsos de espada em punho e Rainhas Isabéis que se desfaziam em rosas; e onde nunca perdíamos braços de ferro com o estrangeiro excepto quando era necessário justificar a santidade de um Infante. Enganaram-se na figura, diz-me o mais velho. Mais valia fazer recuar a tal de alma aos que traíram o herói.
sexta-feira, 25 de março de 2011
gruta
Num sítio onde morei havia uma ponte. Por baixo das escadas que lhe davam acesso havia uma divisão minúscula à qual não faltava o rectângulo onde nunca foi colocada uma porta. Nunca percebi porque teriam construído a ponte com um quarto sob as escadas, um buraco negro escavado no betão onde a luz nunca entrava e de onde os aracnídeos nunca saíam, mas alguém encontrou uso para ele. Vivia lá um casal, proprietário de uma mochila, um colchão inundo, alguns cobertores e uma lanterna. Era uma gruta com vista para os relvados circundantes e para o riacho que ali passava, um curso de água psicadélico que mudava de cor, uns dias sim, outros dias não, construída por mão humana, com projecto, licenças, empreitada.
Por altura do último censo a gruta ardeu. Vieram os bombeiros e a polícia. Fogo posto, disseram. Ainda bem, pensou a vizinhança. Foda-se, disse o o homem do casal. Agora somos sem-abrigo, disse a mulher.
sábado, 19 de março de 2011
lua
quarta-feira, 16 de março de 2011
paralelismos sem pés dem cabeça
«Importa que os jovens deste tempo se empenhem em missões e causas essenciais ao futuro do país com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar.» - Cavaco Silva
Não sei o que é mais chocante nas coisas que de vez em quando Cavaco Silva diz: se é a aparente ignorância da História, a sombra Salazarista que nunca o abandonou ou se é o atrevimento. Como se atreve a fazer paralelismos destes? O insulto chega a todos, aos jovens de há 50 anos e aos jovens de hoje. Aos de ontem porque eram autêntica carne para canhão, sem possibilidade de questionar sequer a utilidade da guerra colonial quanto mais rejeitá-la. Aos de hoje porque os toma por parvos. Deprimente.
Quando os meus tios regressaram do Ultramar, logo a seguir ao 25 de Abril, era isto o que mais ouviam.
segunda-feira, 14 de março de 2011
Libia
12 de Março
sábado, 12 de março de 2011
a democracia prejudica o país
«Sonho com uma retrete massiva e imaculada.Torneiras douradas brilhantes, mármore branco virginal, um assento esculpido em ébano, um autoclismo cheio de Chanel Number 5 e um lacaio entregando-me pedaços de rolo de seda pura. Mas, nestas circunstâncias, contento-me com qualquer coisa.»
- Trainspotting - 1996
(um bom resumo do que alguns pensam que os jovens pensam e do que gostariam que eles fizessem)
quarta-feira, 9 de março de 2011
Tahir hoje, Eduardo VII ontem
É o véu, estúpida
Para além de servir como barómetro para calcularmos a probabilidade de nos tornarmos em alvos a abater, recusar o véu passou a ser visto como um direito, o principal deles todos sem o qual nenhum outro é possível, enquanto que o direito, o verdadeiro, à auto determinação do corpo vai sendo menorizado e esquecido. Compreensível, por um lado, e hipócrita por outro. Este direito significa também que se pode optar por cobrir o rosto e todo o corpo, degenerando na perversão do próprio direito quando é instrumentalizado a favor da submissão e inferiorização da mulher, o que, justificadamente, nos revolta e preocupa e deve sempre preocupar, como deveria preocupar, mas não preocupa nada, a degeneração e instrumentalização em sentido oposto.
Hoje, é o Dia Internacional da Mulher. Enquanto por cá quase ninguém assinala o dia, no Egipto um grupo de mulheres resolveu fazer precisamente isso. Assinalar o dia e o seu centenário, desfilando na Praça Tahir para exigir a igualdade.
Não correu bem, mas sabiam que seria assim. Foram insultadas, agredidas, sexualmente assediadas. Tentaram correr com elas e ridicularizaram os homens que se associaram à manifestação. Houve polémica também entre as mulheres, prova de que elas pensam sobre o que as afecta e sobre as formas como devem expressar as suas preocupações no sentido de encontrarem o melhor caminho para chegarem aos seus objectivos, assim como as prioridades entre essas preocupações. Para umas e para outras, o véu não é uma delas.
The Guardian
Interessante a quase não utilização da palavra feminista. É uma palavra que cheira a Ocidente e o que cheira a Ocidente é perigoso. Um povo que se sente historicamente injustiçado por esse mesmo Ocidente, que ainda não venceu as elevadíssimas taxas de analfabetismo, cuja maioria não tem ainda acesso à internet, desconfia dos símbolos desse Ocidente. Forças repressivas sempre souberam capitalizar esse aspecto psicológico a seu favor, utilizando as ideias de moralidade, desintegração cultural e identitária, assim como a invasão estrangeira, para se auto justificarem. A frase “É o véu, estúpida” poderá ser verdadeira, mas não da forma como julgamos ser. É verdadeira porque percebemos, quando nos damos ao trabalho de as escutar, que ao vivermos obcecados com o seu uso alimentamos a obsessão dos que vivem obcecados com as mulheres que não o usam.
(texto escrito ontem)










