quinta-feira, 7 de abril de 2011

ângulo

Há coisas para as quais não se fizeram palavras. Exprimimo-las com imagens, música, alegorias, citações e, às vezes, humor. “Não lembra ao diabo. Com uma gravata daquelas e preocupa-se com o lado do nariz que fica melhor?”, dizia a Prazeres arrancando gargalhadas da clientela, mesmo sem dizer palavrões.

Hoje o país descobriu que há ângulos melhores que outros para dar as más notícias e que eles são de extrema importância. Haverá um ângulo melhor para as receber? Se nos posicionarmos de certa forma em relação ao televisor…

sexta-feira, 1 de abril de 2011

interzona


espaço interzona
Rua Bernardino Machado, loja 40, Quinta da Maia
Coimbra, Portugal

peixinhos

Numa passagem de Cem Anos de Solidão, o coronel Aureliano Buendía, desencantado com a guerra e a política, fechou-se na oficina cortando todo o contacto com a realidade embora ecos dela lhe chegassem por via do comércio dos peixinhos de ouro que fazia e vendia.

«“Não me fales de política”, dizia-lhe o coronel. “A nós, o que nos interessa é vender peixinhos”. O rumor público de que não queria saber nada da situação política porque estava a enriquecer com a sua oficina, fez Úrsula rir com vontade quando chegou aos seus ouvidos. Com o seu tremendo sentido prático ela não conseguia perceber o negócio do coronel, que trocava os peixinhos por moedas de ouro e depois transformava as moedas de ouro em peixinhos e assim sucessivamente, de modo que cada vez tinha de trabalhar mais à medida que mais vendia, para satisfazer um círculo vicioso e exasperante.»

Sempre achei esta incompreensão de Úrsula estranha. Se há coisa que as mulheres, com sentido prático ou não, compreendem muito bem são os círculos viciosos e exasperantes. É por isso que há poucas mulheres interessadas numa carreira política. Não sei, não posso afirmar com certeza, mas havendo tantas mulheres de esquerda, também deve ser por isso que é lá onde menos as vemos chegar aos lugares de topo. É uma pena porque eu gostaria muito de votar numa mulher, a ver se deixávamos de fazer peixinhos.

quinta-feira, 31 de março de 2011

alma lusa

Já ninguém quer ser português. Fora do país fazem os possíveis para que ninguém perceba qual é a sua origem. Vejo-os nas minhas viagens – topam-se de longe, os lusitanos – falando idiomas europeus entre si, aderindo aos tiques de cosmopolitas que não são, fingindo nada ter a ver com o patrício imigrante do lado, o trolha e a mulher-a-dias semi-analfabetos, que ainda não ganharam vergonha na cara de serem os mais pobres e atrasados da Europa e lhes arranham os ouvidos com pronúncias do interior, a lembrar-lhes aquilo que também são. Gostariam de ser espanhóis, qualquer coisa que cheire a progresso. A respeito.


De saída para Lisboa onde obterei os passaportes alemães dos meus filhos, penso nisto tudo com tristeza. Pesando as duas costelas, o mais velho não tem dúvidas sobre a que prefere que o defina. Penso na costela portuguesa que também têm e gostaria de lhes dizer que oito séculos de história valem qualquer coisa. Uma determinação, vinda sabe-se lá de onde; uma vontade dos avós que têm mortos em panteões arejados para os turistas, e que acreditaram sempre, mesmo quando acreditar foi a pior escolha, nessa coisa a que chamam alma lusa. Mas é uma alma inventada num Viriato que nunca foi português. De certeza vem daí o engano. Fomos iludidos pela história a sermos epígonos de um mito que nos ensinaram nas lousas da primária, onde desenhávamos Afonsos de espada em punho e Rainhas Isabéis que se desfaziam em rosas; e onde nunca perdíamos braços de ferro com o estrangeiro excepto quando era necessário justificar a santidade de um Infante. Enganaram-se na figura, diz-me o mais velho. Mais valia fazer recuar a tal de alma aos que traíram o herói.

sexta-feira, 25 de março de 2011

plano inclinado

Cagle Cartoons

gruta

Num sítio onde morei havia uma ponte. Por baixo das escadas que lhe davam acesso havia uma divisão minúscula à qual não faltava o rectângulo onde nunca foi colocada uma porta. Nunca percebi porque teriam construído a ponte com um quarto sob as escadas, um buraco negro escavado no betão onde a luz nunca entrava e de onde os aracnídeos nunca saíam, mas alguém encontrou uso para ele. Vivia lá um casal, proprietário de uma mochila, um colchão inundo, alguns cobertores e uma lanterna. Era uma gruta com vista para os relvados circundantes e para o riacho que ali passava, um curso de água psicadélico que mudava de cor, uns dias sim, outros dias não, construída por mão humana, com projecto, licenças, empreitada.
Por altura do último censo a gruta ardeu. Vieram os bombeiros e a polícia. Fogo posto, disseram. Ainda bem, pensou a vizinhança. Foda-se, disse o o homem do casal. Agora somos sem-abrigo, disse a mulher.

sábado, 19 de março de 2011


Esta manhã, no meu jardim.

lua

Enquanto não chega o adaptador para as lentes da outra máquina, apetrechei-me com  uma  lente velhinha. Por cá a Lua não está maior do que o costume, mas aqui fica o registo.

quarta-feira, 16 de março de 2011

paralelismos sem pés dem cabeça

«Importa que os jovens deste tempo se empenhem em missões e causas essenciais ao futuro do país com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar.» - Cavaco Silva

Não sei o que é mais chocante nas coisas que de vez em quando Cavaco Silva diz: se é a aparente ignorância da História, a sombra Salazarista que nunca o abandonou ou se é o atrevimento. Como se atreve a fazer paralelismos destes? O insulto chega a todos, aos jovens de há 50 anos e aos jovens de hoje. Aos de ontem porque eram autêntica carne para canhão, sem possibilidade de questionar sequer a utilidade da guerra colonial quanto mais rejeitá-la. Aos de hoje porque os toma por parvos. Deprimente.

Quando os meus tios regressaram do Ultramar, logo a seguir ao 25 de Abril, era isto o que mais ouviam.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Libia

Quanto tempo até a comunidade internacional voltar a abrir os braços a Gadhafi? Quem será o primeiro a condecorá-lo por ter massacrado o seu próprio povo?

12 de Março

Vozes megafónicas calam-se e relaxam dando lugar aos intérpretes de um desfecho que não previram e que os confunde. Apontam a ausência de liderança, o espírito mais ou menos caótico da manifestação. Surgem os rótulos, as caricaturas e os candidatos a cabeça. É uma chatice quando as ovelhas se movimentam, mas não o fazem em rebanho sob o comando de pastores. Obriga a ver para lá das instituições, além das ideologias políticas e protagonistas instalados, a ter em conta o público como ele é, não como julgam que é. Obriga à procura de soluções que não as mesmas do costume. Não é para qualquer um. Para muitos será sempre mais fácil derreter um dia de protesto no mundano. Não percebem, talvez, que o 12 de Março foi uma coisa verdadeiramente extraordinária.

sábado, 12 de março de 2011

a democracia prejudica o país



«Sonho com uma retrete massiva e imaculada.Torneiras douradas brilhantes, mármore branco virginal, um assento esculpido em ébano, um autoclismo cheio de Chanel Number 5 e um lacaio entregando-me pedaços de rolo de seda pura. Mas, nestas circunstâncias, contento-me com qualquer coisa.»
- Trainspotting - 1996

(um bom resumo do que alguns pensam que os jovens pensam e do que gostariam que eles fizessem)

quarta-feira, 9 de março de 2011

Tahir hoje, Eduardo VII ontem

Maria João Pires, lembra aqui as semelhanças entre estes dois acontecimentos. Uma reflexão que é importante fazer, não só pelos "piadistas do 8 de Março", como também pelos que apostam no falhanço da revolução egípcia. Os homens de murro no peito, que perseguiram as mulheres na Praça Tahir, são os mesmos do Parque Eduardo VII, muitos deles de esquerda.Pensem bem nisso.

É o véu, estúpida

O que elas pensam pouco interessa, a menos que o que elas pensam seja o mesmo que nós. Não é, por isso, surpresa que agora se calculem as intenções das revoltas nos países árabes usando o mesmo algoritmo de sempre: o que lhes cobre a cabeça. “É o véu, estúpida”. Esta frase cliché que foi interiorizada no Ocidente é demasiado simples para significar alguma coisa para os milhões de mulheres que o usam. Se fossemos todos mulheres árabes, analfabetas, sem emprego, economicamente dependentes dos homens, sem as mínimas condições de vida, sujeitas à ausência de direitos civis tão básicos como o de transmitir a nossa nacionalidade aos filhos ou aos maridos, ao falseamento do nosso voto, às manipulações repressivas do clero, que os déspotas ora perseguiam, ora aparicavam, mas a quem sempre entregaram a ajuda à pobreza, provavelmente acharíamos hilariante, se isto fosse para rir, a obsessão do Ocidente com o que cobre o cabelo. Esta ironia foi muito bem registada na música de Master Minz: first give me a job, then let's talk about my hijab.

Para além de servir como barómetro para calcularmos a probabilidade de nos tornarmos em alvos a abater, recusar o véu passou a ser visto como um direito, o principal deles todos sem o qual nenhum outro é possível, enquanto que o direito, o verdadeiro, à auto determinação do corpo vai sendo menorizado e esquecido. Compreensível, por um lado, e hipócrita por outro. Este direito significa também que se pode optar por cobrir o rosto e todo o corpo, degenerando na perversão do próprio direito quando é instrumentalizado a favor da submissão e inferiorização da mulher, o que, justificadamente, nos revolta e preocupa e deve sempre preocupar, como deveria preocupar, mas não preocupa nada, a degeneração e instrumentalização em sentido oposto.

Hoje, é o Dia Internacional da Mulher. Enquanto por cá quase ninguém assinala o dia, no Egipto um grupo de mulheres resolveu fazer precisamente isso. Assinalar o dia e o seu centenário, desfilando na Praça Tahir para exigir a igualdade.

Não correu bem, mas sabiam que seria assim. Foram insultadas, agredidas, sexualmente assediadas. Tentaram correr com elas e ridicularizaram os homens que se associaram à manifestação. Houve polémica também entre as mulheres, prova de que elas pensam sobre o que as afecta e sobre as formas como devem expressar as suas preocupações no sentido de encontrarem o melhor caminho para chegarem aos seus objectivos, assim como as prioridades entre essas preocupações. Para umas e para outras, o véu não é uma delas.

 
Tahseen Bakr

Ao ler os sites e blogues das organizações feministas e de mulheres árabes, verifiquei também aí a quase total ausência do tema do véu. Quando aparece, geralmente é para se oporem à sua imposição, invocando por vezes versículos do Corão e pareceres de imãs mais progressistas que desaconselham o uso contra a vontade, não para se oporem ao véu per se. É a literacia, os problemas económicos e sociais (como o assédio sexual), que mais as preocupam.

The Guardian

Interessante a quase não utilização da palavra feminista. É uma palavra que cheira a Ocidente e o que cheira a Ocidente é perigoso. Um povo que se sente historicamente injustiçado por esse mesmo Ocidente, que ainda não venceu as elevadíssimas taxas de analfabetismo, cuja maioria não tem ainda acesso à internet, desconfia dos símbolos desse Ocidente. Forças repressivas sempre souberam capitalizar esse aspecto psicológico a seu favor, utilizando as ideias de moralidade, desintegração cultural e identitária, assim como a invasão estrangeira, para se auto justificarem. A frase “É o véu, estúpida” poderá ser verdadeira, mas não da forma como julgamos ser. É verdadeira porque percebemos, quando nos damos ao trabalho de as escutar, que ao vivermos obcecados com o seu uso alimentamos a obsessão dos que vivem obcecados com as mulheres que não o usam.

(texto escrito ontem)