quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

as imagens contam a história

Expondo a carcaça de Mubarak.
O desespero e a dor pelos que tombam.

As imagens das mulheres que se manifestam correm mundo satisfazendo a procura. A presença das mulheres afasta receios de uma orquestração islâmica e confirma a determinação do povo egípcio.

O black-out não parou a revolução.

A foto de Mubarak que parece ter sido pensada para ficar a jeito do beijo dos aduladores.

 Fotos daqui.

depois das cassandras, os coveiros

o que a oposição quer

"It will look like Turkey. With a Prime Minister elected between the people and parties and a President, and a very strong Army to serve the constitution and the respect of the constitution -- and the respect of all the international agreements."

"The reality is that for the last 30 years there was no real peace with Israel. There was peace between Mubarak and them, but there was no peace between the nation of Egypt and the Israelis. And if we become elected and come with democracy I think a nation with democracy can talk to another nation with democracy. I'm sure the Israelis want to live in peace; like the Egyptians, like the Palestinians."

"A real democratic Egypt, where the people will choose their leaders, like you have here in the United States...like you in the countries who took their road and right path. We want the right path. We think democracy is our only way out and it's your only way out in the United States or in Europe. Democracy in our country means you will ally the nation, not a man...Choose between the nation and the man."

Mustafa el-Gindy, antigo membro independente do parlamento egípcio e actualmente membro da oposição, numa entrevista ao FP.

afinal o que quer Mubarak?



quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

caixão

Não vos acontece, às vezes, acordar e ter a impressão que acordaram noutra cama? De precisar de alguns momentos para se lembrarem do vosso quarto, dos objectos familiares, a forma como a luz incide na janela e para que lado abre a porta? E depois repararem que afinal estão mesmo na vossa cama, no vosso quarto, na vossa aldeia, no vosso país e que tudo faz sentido na sua forma tão peculiar de não fazer sentido algum?

Foi isso que me aconteceu quando vi portugueses numa manifestação carregando caixões.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

inclinação

Andava com saudades de soltar uma gargalhada em frente ao monitor. A culpa é toda deste post da Ana Cristina Leonardo.

dantes é que era bom

É uma coisa recorrente. De vez em quando surgem notícias de que o povo acha que vivia melhor antes do 25 de Abril do que hoje e de todas as vezes se dizem as mesmas coisas. Seria de esperar que nesta altura da história das omeletas já se tivesse percebido que não é de esperar uma resposta diferente. É claro que quase toda a gente estava melhor quando quem pergunta está directa ou indirectamente ligado a quem comanda o nosso destino. Para os que são próximos a resposta é outra: as histórias da roupa partilhada e remendada, de uma sardinha para toda a família, dos quilómetros percorridos a pé descalço para ir à escola onde se apanhava muita porrada, etecetera, saltam do baú a cada oportunidade para moralizar os “esbanjadores” e são sempre rematadas pelo "nem te passa pela cabeça o que eu sofri que isto agora são só facilidades".

Ninguém esqueceu coisa nenhuma, mas a memória é selectiva, depende de quem pergunta e das intenções que quem responde julga ser as de quem pergunta.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

matriosca

A Última estava vazia.

A Penúltima sabia que a Última estava vazia e sentia-se alegre porque pensava que era a única que sabia que a Última estava vazia.

A Terceira não sabia bem o que fazia ali mas sabia que a Penúltima, que estava alegre porque pensava que era a única que sabia que a Última estava vazia, tinha um segredo.

A Quarta, como nada tinha para dizer e nada podia resolver, agradecia a todas pelos sacrifícios que suportavam como boas donas de casa que eram, sobretudo a Terceira que não sabia bem o que fazia ali apesar de saber que a Penúltima, que estava alegre porque pensava que era a única que sabia que a Última estava vazia, tinha um segredo.

A Quinta, que tinha visitado a Mãe na sua terra de origem, não tinha mãos a medir com todas as coisas que tinha para dizer sobre os sacrifícios que a Quarta, como nada tinha para dizer e nada podia resolver, agradecia a todas como boas donas de casa que eram, sobretudo a Terceira que não sabia bem o que fazia ali apesar de saber que a Penúltima, que estava alegre porque pensava que era a única que sabia que a Última estava vazia, tinha um segredo.

A Mãe, que não se integrava em nada porque nunca tirava o lenço da cabeça, pensou que a Quinta enlouquecera por não ter mãos a medir com todas as coisas que tinha para dizer sobre os sacrifícios que a Quarta, como nada tinha para dizer e nada podia resolver, agradecia a todas como boas donas de casa que eram, sobretudo a Terceira que não sabia bem o que fazia ali apesar de saber que a Penúltima, que estava alegre porque pensava que era a única que sabia que a Última estava vazia, tinha um segredo,

e assim percebeu que era muito velha e que estava cansada, tão cansada que se esqueceu de tudo dentro dela, como todas temos de fazer no fim.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

guimarães


O New York Times publica uma lista de 41 lugares a visitar em 2011. Um deles é Guimarães.

A fotografia publicada pelo NYT é da Pousada de Santa Marinha, local onde fiz muitos piqueniques na adolescência (na altura o mosteiro estava em ruínas). Façam o favor de seguir o conselho que vale bem a pena.

fundos FMI/UE



O sucesso foi um falhanço.

A few more successes and the European periphery will be destroyed. - Paul Krugman


segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

bom ano novo




We pass and dream. Earth smiles. Virtue is rare.
Age, duty, gods weigh on our conscious bliss.
Hope for the best and for the worst prepare.
The sum of purposed wisdom speaks in this.
(...)

This covers me, that erst had the blue sky.
This soil treads me, that once I trod. My hand
Put these inscriptions here, half knowing why;
Last, and hence seeing all, of the passing band.

- Fernando Pessoa : Inscriptions, English Poems


sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

sex by surprise

A forma como as mulheres que apresentaram queixa contra Julian Assange têm sido descritas, independentemente de as alegações terem fundamento ou não, coisa que só a justiça sueca poderá apurar, deveria incomodar porque repete todos os clichés sobre as vítimas de violação, mas parece que a defesa da liberdade de expressão de Assange também passa por julgar as queixosas na praça pública. Desenterram-se alguns factos sobre as mesmas - uma delas é feminista radical, entre outras coisas, informação muito importante porque sozinha é meio caminho andado para a condenação pública das duas mulheres - e distorce-se o teor da queixa. A lógica é assim: quanto mais bruxas parecerem as suecas e mais banana a Suécia, mais se confirma a teoria da conspiração da CIA e mais herói parece o Assange.

A forma como tudo se desenrolou, coincidindo com a publicação dos telegramas e a perseguição que foi montada a Assange, lança muitas suspeitas sobre estas alegações. De facto parece existir aqui uma dinâmica que faz lembrar outras histórias de gente acusada injustamente, presa e transferida para prisões obscuras sem terem cometido qualquer crime, o que nos torna cépticos e receosos em relação a tudo isto.

O cepticismo é muito saudável, mas é interessante verificar como o mesmo é trocado pela certeza com base em artigos de tablóides que se preocupam mais em desenterrar o passado das duas mulheres, a cor do cabelo delas e da roupa que usam, o tamanho do decote e outras informações disparatadas, do que em verificar correctamente as alegações que elas fazem. Parece haver muita gente pronta a acreditar, sem nenhuma pontinha de cepticismo, que há mesmo um país europeu onde não usar preservativo é crime e que o mesmo dá pelo nome de sex by surprise.

O crime "sex by surprise" não existe no código penal sueco, mas existe o crime de sexo sem consentimento. Este pode ser retirado a qualquer momento durante a relação sexual. Se a meio do sexo consensual um dos parceiros retira o consentimento (por exemplo, quando o preservativo se rompe) e o outro ignora esse pedido, continuando a relação contra a vontade do primeiro, trata-se de violação.

É possível defender a presunção da inocência de Assange, suspeitar de manobras por trás das acusações, achá-lo um herói ou um cromo, e tudo mais arroz com pardais, sem alimentar campanhas misogenistas que visam desacreditar a generalidade das vítimas de violação. Parece incrível, mas é mesmo possível.

sábado, 11 de dezembro de 2010

vergonha

Como povo devemos sempre envergonhar-nos de alguém que lá de cima nos manda ter vergonha da fome que passamos.