quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

caixão

Não vos acontece, às vezes, acordar e ter a impressão que acordaram noutra cama? De precisar de alguns momentos para se lembrarem do vosso quarto, dos objectos familiares, a forma como a luz incide na janela e para que lado abre a porta? E depois repararem que afinal estão mesmo na vossa cama, no vosso quarto, na vossa aldeia, no vosso país e que tudo faz sentido na sua forma tão peculiar de não fazer sentido algum?

Foi isso que me aconteceu quando vi portugueses numa manifestação carregando caixões.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

inclinação

Andava com saudades de soltar uma gargalhada em frente ao monitor. A culpa é toda deste post da Ana Cristina Leonardo.

dantes é que era bom

É uma coisa recorrente. De vez em quando surgem notícias de que o povo acha que vivia melhor antes do 25 de Abril do que hoje e de todas as vezes se dizem as mesmas coisas. Seria de esperar que nesta altura da história das omeletas já se tivesse percebido que não é de esperar uma resposta diferente. É claro que quase toda a gente estava melhor quando quem pergunta está directa ou indirectamente ligado a quem comanda o nosso destino. Para os que são próximos a resposta é outra: as histórias da roupa partilhada e remendada, de uma sardinha para toda a família, dos quilómetros percorridos a pé descalço para ir à escola onde se apanhava muita porrada, etecetera, saltam do baú a cada oportunidade para moralizar os “esbanjadores” e são sempre rematadas pelo "nem te passa pela cabeça o que eu sofri que isto agora são só facilidades".

Ninguém esqueceu coisa nenhuma, mas a memória é selectiva, depende de quem pergunta e das intenções que quem responde julga ser as de quem pergunta.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

matriosca

A Última estava vazia.

A Penúltima sabia que a Última estava vazia e sentia-se alegre porque pensava que era a única que sabia que a Última estava vazia.

A Terceira não sabia bem o que fazia ali mas sabia que a Penúltima, que estava alegre porque pensava que era a única que sabia que a Última estava vazia, tinha um segredo.

A Quarta, como nada tinha para dizer e nada podia resolver, agradecia a todas pelos sacrifícios que suportavam como boas donas de casa que eram, sobretudo a Terceira que não sabia bem o que fazia ali apesar de saber que a Penúltima, que estava alegre porque pensava que era a única que sabia que a Última estava vazia, tinha um segredo.

A Quinta, que tinha visitado a Mãe na sua terra de origem, não tinha mãos a medir com todas as coisas que tinha para dizer sobre os sacrifícios que a Quarta, como nada tinha para dizer e nada podia resolver, agradecia a todas como boas donas de casa que eram, sobretudo a Terceira que não sabia bem o que fazia ali apesar de saber que a Penúltima, que estava alegre porque pensava que era a única que sabia que a Última estava vazia, tinha um segredo.

A Mãe, que não se integrava em nada porque nunca tirava o lenço da cabeça, pensou que a Quinta enlouquecera por não ter mãos a medir com todas as coisas que tinha para dizer sobre os sacrifícios que a Quarta, como nada tinha para dizer e nada podia resolver, agradecia a todas como boas donas de casa que eram, sobretudo a Terceira que não sabia bem o que fazia ali apesar de saber que a Penúltima, que estava alegre porque pensava que era a única que sabia que a Última estava vazia, tinha um segredo,

e assim percebeu que era muito velha e que estava cansada, tão cansada que se esqueceu de tudo dentro dela, como todas temos de fazer no fim.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

guimarães


O New York Times publica uma lista de 41 lugares a visitar em 2011. Um deles é Guimarães.

A fotografia publicada pelo NYT é da Pousada de Santa Marinha, local onde fiz muitos piqueniques na adolescência (na altura o mosteiro estava em ruínas). Façam o favor de seguir o conselho que vale bem a pena.

fundos FMI/UE



O sucesso foi um falhanço.

A few more successes and the European periphery will be destroyed. - Paul Krugman


segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

bom ano novo




We pass and dream. Earth smiles. Virtue is rare.
Age, duty, gods weigh on our conscious bliss.
Hope for the best and for the worst prepare.
The sum of purposed wisdom speaks in this.
(...)

This covers me, that erst had the blue sky.
This soil treads me, that once I trod. My hand
Put these inscriptions here, half knowing why;
Last, and hence seeing all, of the passing band.

- Fernando Pessoa : Inscriptions, English Poems


sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

sex by surprise

A forma como as mulheres que apresentaram queixa contra Julian Assange têm sido descritas, independentemente de as alegações terem fundamento ou não, coisa que só a justiça sueca poderá apurar, deveria incomodar porque repete todos os clichés sobre as vítimas de violação, mas parece que a defesa da liberdade de expressão de Assange também passa por julgar as queixosas na praça pública. Desenterram-se alguns factos sobre as mesmas - uma delas é feminista radical, entre outras coisas, informação muito importante porque sozinha é meio caminho andado para a condenação pública das duas mulheres - e distorce-se o teor da queixa. A lógica é assim: quanto mais bruxas parecerem as suecas e mais banana a Suécia, mais se confirma a teoria da conspiração da CIA e mais herói parece o Assange.

A forma como tudo se desenrolou, coincidindo com a publicação dos telegramas e a perseguição que foi montada a Assange, lança muitas suspeitas sobre estas alegações. De facto parece existir aqui uma dinâmica que faz lembrar outras histórias de gente acusada injustamente, presa e transferida para prisões obscuras sem terem cometido qualquer crime, o que nos torna cépticos e receosos em relação a tudo isto.

O cepticismo é muito saudável, mas é interessante verificar como o mesmo é trocado pela certeza com base em artigos de tablóides que se preocupam mais em desenterrar o passado das duas mulheres, a cor do cabelo delas e da roupa que usam, o tamanho do decote e outras informações disparatadas, do que em verificar correctamente as alegações que elas fazem. Parece haver muita gente pronta a acreditar, sem nenhuma pontinha de cepticismo, que há mesmo um país europeu onde não usar preservativo é crime e que o mesmo dá pelo nome de sex by surprise.

O crime "sex by surprise" não existe no código penal sueco, mas existe o crime de sexo sem consentimento. Este pode ser retirado a qualquer momento durante a relação sexual. Se a meio do sexo consensual um dos parceiros retira o consentimento (por exemplo, quando o preservativo se rompe) e o outro ignora esse pedido, continuando a relação contra a vontade do primeiro, trata-se de violação.

É possível defender a presunção da inocência de Assange, suspeitar de manobras por trás das acusações, achá-lo um herói ou um cromo, e tudo mais arroz com pardais, sem alimentar campanhas misogenistas que visam desacreditar a generalidade das vítimas de violação. Parece incrível, mas é mesmo possível.

sábado, 11 de dezembro de 2010

vergonha

Como povo devemos sempre envergonhar-nos de alguém que lá de cima nos manda ter vergonha da fome que passamos.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

poesia da realidade

Através do meu filho cheguei a este projecto que, recorrendo ao remix de excertos de documentários e de entrevistas, transforma frases de grandes figuras da ciência na letra de canções e os cientistas em cantores. Um tributo belíssimo à ciência que cumpre a dupla função de entretenimento e divulgação da mesma através da música.




o homem-cujo-nome-tem-três-letras

Um grupo de patriotas chineses decidiu, em resposta ao Prémio Nobel da Paz, criar o Nobel chinês ao qual deram o nome de Prémio Confúcio da Paz. O vencedor foi Lien Chan, do Taiwan, que não pôs os pés na cerimónia. Quem receberia o prémio em nome dele? A solução foi encontrada numa menina, aparentemente sem qualquer ligação a Lien Chan, a quem foi entregue o Confúcio. De seguida os jornalistas convidados, a maioria estrangeiros, puderam fazer perguntas. Adivinhem o que perguntaram. 

A ingenuidade chinesa é comovente. Aflitos, lá tentaram desviar o assunto do homem-cujo-nome-tem-três-letras – foi assim que o presidente do comité se referiu a Liu Xiaobo – perguntando quem pôs o ovo: foi o Nobel que influenciou Confúcio ou foi Confúcio quem influenciou o Nobel? E como se atreve aquele país minúsculo e insignificante a dar mais cartas que a gigantesca China em questões de paz? Para além disso, os noruegueses atribuíram o Nobel a Obama que anda agora a ensaiar operações militares com… a Coreia do Sul no Mar Amarelo.

A lista dos nomeados incluía Bill Gates e Jimmy Carter, mas julgo que ninguém estava à espera que um deles levasse o Confúcio.


No final, o presidente do comité profetizou que, no que se refere a Liu Xiaobo, dentro de 500 anos a história estaria do lado deles. Os historiadores, ao contrário da Maia, não são muito bons a adivinhar o futuro, mas têm um conhecimento do passado que lhes permite desenvolver um sexto sentido para o que é mais provável que o futuro pense dos acontecimentos de hoje. Não é preciso esperar 500 anos para saber que a História não dará razão ao lado que oprime.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Il Corpo Delle Donne

Lorella Zanardo passou 3 meses a documentar a programação de entretenimento do Canal 5, da Rete 4 e da RAI, que deu origem ao documentário Il Corpo Delle Donne, também disponível online. Uma análise das imagens que as mulheres deixaram de saber ler, sobretudo as mais jovens.

Assediadas pelo moralismo católico de um lado e pela escola machista e cultura de harém de Berlusconi do outro, Lorella mostra como a liberdade do corpo, uma das lutas do feminismo, foi usurpada por uma cultura machista que ininterruptamente representa as mulheres de forma pornográfica e humilhante, de preferência caladas, submissas e sem vestígios de inteligência. O corpo da mulher foi substituído por caricaturas insufladas de silicone e botox que se impõem como modelos a todas numa espiral competitiva que se estende aos contextos estritamente profissionais, onde a mulher também tem de se apresentar como objecto de desejo. Por outro lado, as mulheres que não cabem nessa representação aparecem no papel de megeras invejosas e raivosas insultando as mais jovens e mais belas. Uma mulher apenas pode ser uma barbie de plástico ou uma bruxa de rosto distorcido e verruga, zangada com a barbie por não ser também uma barbie. Não há meio-termo.

Cada vez mais descaracterizada, a mulher passou a ter um prazo de validade. Um programa televisivo de entretenimento não se ficou pela propagação subtil dessa ideia: apresenta mesmo mulheres penduradas nos ganchos de um talho exibindo as nádegas que um talhante carimba com uma data de validade. Esta cena, sem dúvida a mais chocante no documentário, é o resumo directo de todas as outras.

Porquê esta humilhação? Lorella interroga-se e interroga-nos sobre esta violência exercida tanto sobre a mulher como sobre o homem. Uma violência contra a qual as mulheres não se revoltam, pelo contrário, subscrevem - a profissão velina  é apontada pelas jovens como a sua carreira de sonho - e à qual chamam feminismo.




sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

chegou o inverno


Frio, frio, frio. Quase todos os anos neva um bocadinho no meu telhado. Oxalá neve este fim-de-semana.