É uma coisa recorrente. De vez em quando surgem notícias de que o povo acha que vivia melhor antes do 25 de Abril do que hoje e de todas as vezes se dizem as mesmas coisas. Seria de esperar que nesta altura da história das omeletas já se tivesse percebido que não é de esperar uma resposta diferente. É claro que quase toda a gente estava melhor quando quem pergunta está directa ou indirectamente ligado a quem comanda o nosso destino. Para os que são próximos a resposta é outra: as histórias da roupa partilhada e remendada, de uma sardinha para toda a família, dos quilómetros percorridos a pé descalço para ir à escola onde se apanhava muita porrada, etecetera, saltam do baú a cada oportunidade para moralizar os “esbanjadores” e são sempre rematadas pelo "nem te passa pela cabeça o que eu sofri que isto agora são só facilidades".
Ninguém esqueceu coisa nenhuma, mas a memória é selectiva, depende de quem pergunta e das intenções que quem responde julga ser as de quem pergunta.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
dantes é que era bom
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
matriosca
A Última estava vazia.
A Penúltima sabia que a Última estava vazia e sentia-se alegre porque pensava que era a única que sabia que a Última estava vazia.
A Terceira não sabia bem o que fazia ali mas sabia que a Penúltima, que estava alegre porque pensava que era a única que sabia que a Última estava vazia, tinha um segredo.
A Quarta, como nada tinha para dizer e nada podia resolver, agradecia a todas pelos sacrifícios que suportavam como boas donas de casa que eram, sobretudo a Terceira que não sabia bem o que fazia ali apesar de saber que a Penúltima, que estava alegre porque pensava que era a única que sabia que a Última estava vazia, tinha um segredo.
A Quinta, que tinha visitado a Mãe na sua terra de origem, não tinha mãos a medir com todas as coisas que tinha para dizer sobre os sacrifícios que a Quarta, como nada tinha para dizer e nada podia resolver, agradecia a todas como boas donas de casa que eram, sobretudo a Terceira que não sabia bem o que fazia ali apesar de saber que a Penúltima, que estava alegre porque pensava que era a única que sabia que a Última estava vazia, tinha um segredo.
A Mãe, que não se integrava em nada porque nunca tirava o lenço da cabeça, pensou que a Quinta enlouquecera por não ter mãos a medir com todas as coisas que tinha para dizer sobre os sacrifícios que a Quarta, como nada tinha para dizer e nada podia resolver, agradecia a todas como boas donas de casa que eram, sobretudo a Terceira que não sabia bem o que fazia ali apesar de saber que a Penúltima, que estava alegre porque pensava que era a única que sabia que a Última estava vazia, tinha um segredo,
e assim percebeu que era muito velha e que estava cansada, tão cansada que se esqueceu de tudo dentro dela, como todas temos de fazer no fim.
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
guimarães
A fotografia publicada pelo NYT é da Pousada de Santa Marinha, local onde fiz muitos piqueniques na adolescência (na altura o mosteiro estava em ruínas). Façam o favor de seguir o conselho que vale bem a pena.
fundos FMI/UE
O sucesso foi um falhanço.
A few more successes and the European periphery will be destroyed. - Paul Krugman
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
bom ano novo
We pass and dream. Earth smiles. Virtue is rare.
Age, duty, gods weigh on our conscious bliss.
Hope for the best and for the worst prepare.
The sum of purposed wisdom speaks in this.
(...)
This covers me, that erst had the blue sky.
This soil treads me, that once I trod. My hand
Put these inscriptions here, half knowing why;
Last, and hence seeing all, of the passing band.
- Fernando Pessoa : Inscriptions, English Poems
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
sex by surprise
A forma como tudo se desenrolou, coincidindo com a publicação dos telegramas e a perseguição que foi montada a Assange, lança muitas suspeitas sobre estas alegações. De facto parece existir aqui uma dinâmica que faz lembrar outras histórias de gente acusada injustamente, presa e transferida para prisões obscuras sem terem cometido qualquer crime, o que nos torna cépticos e receosos em relação a tudo isto.
O cepticismo é muito saudável, mas é interessante verificar como o mesmo é trocado pela certeza com base em artigos de tablóides que se preocupam mais em desenterrar o passado das duas mulheres, a cor do cabelo delas e da roupa que usam, o tamanho do decote e outras informações disparatadas, do que em verificar correctamente as alegações que elas fazem. Parece haver muita gente pronta a acreditar, sem nenhuma pontinha de cepticismo, que há mesmo um país europeu onde não usar preservativo é crime e que o mesmo dá pelo nome de sex by surprise.
O crime "sex by surprise" não existe no código penal sueco, mas existe o crime de sexo sem consentimento. Este pode ser retirado a qualquer momento durante a relação sexual. Se a meio do sexo consensual um dos parceiros retira o consentimento (por exemplo, quando o preservativo se rompe) e o outro ignora esse pedido, continuando a relação contra a vontade do primeiro, trata-se de violação.
É possível defender a presunção da inocência de Assange, suspeitar de manobras por trás das acusações, achá-lo um herói ou um cromo, e tudo mais arroz com pardais, sem alimentar campanhas misogenistas que visam desacreditar a generalidade das vítimas de violação. Parece incrível, mas é mesmo possível.
domingo, 12 de dezembro de 2010
sábado, 11 de dezembro de 2010
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
poesia da realidade
o homem-cujo-nome-tem-três-letras
A lista dos nomeados incluía Bill Gates e Jimmy Carter, mas julgo que ninguém estava à espera que um deles levasse o Confúcio.
sábado, 4 de dezembro de 2010
Il Corpo Delle Donne
Assediadas pelo moralismo católico de um lado e pela escola machista e cultura de harém de Berlusconi do outro, Lorella mostra como a liberdade do corpo, uma das lutas do feminismo, foi usurpada por uma cultura machista que ininterruptamente representa as mulheres de forma pornográfica e humilhante, de preferência caladas, submissas e sem vestígios de inteligência. O corpo da mulher foi substituído por caricaturas insufladas de silicone e botox que se impõem como modelos a todas numa espiral competitiva que se estende aos contextos estritamente profissionais, onde a mulher também tem de se apresentar como objecto de desejo. Por outro lado, as mulheres que não cabem nessa representação aparecem no papel de megeras invejosas e raivosas insultando as mais jovens e mais belas. Uma mulher apenas pode ser uma barbie de plástico ou uma bruxa de rosto distorcido e verruga, zangada com a barbie por não ser também uma barbie. Não há meio-termo.
Cada vez mais descaracterizada, a mulher passou a ter um prazo de validade. Um programa televisivo de entretenimento não se ficou pela propagação subtil dessa ideia: apresenta mesmo mulheres penduradas nos ganchos de um talho exibindo as nádegas que um talhante carimba com uma data de validade. Esta cena, sem dúvida a mais chocante no documentário, é o resumo directo de todas as outras.
Porquê esta humilhação? Lorella interroga-se e interroga-nos sobre esta violência exercida tanto sobre a mulher como sobre o homem. Uma violência contra a qual as mulheres não se revoltam, pelo contrário, subscrevem - a profissão velina é apontada pelas jovens como a sua carreira de sonho - e à qual chamam feminismo.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
chegou o inverno
vida extraterrestre na terra
Mono Lake
Segundo Felisa Wolfe-Simon, a astrobióloga da NASA que lidera a equipa de investigadores, o ecossistema no Lago Mono poderia ter levado algumas formas de vida a seguir um caminho na evolução diferente daquele que conhecemos. A possibilidade de existir vida extraterrestre em planetas com ambientes diferentes do da Terra e com necessidades químicas diferentes expande-se.
O que nos atraiu nesta história foi o facto de a informação inicial, originada numa fuga, ter propagado a ideia de que a NASA iria anunciar a descoberta de vida extraterrestre.
Apesar de nunca ter visto nenhum sempre gostei de extraterrestres. Hoje leio pouca Ficção Científica, mas era uma das minhas preferidas na adolescência. A FC sempre soube da existência de vida noutros planetas, assim como dos super computadores inteligentes e da ideia da Internet, a qual foi perfeitamente visualizada por Arthur C. Clark em 1964.
Mas a World Wide Web nunca teria sido inventada por um mensch do CERN. Na FC quase tudo acontecia nos EUA. Em miúda perdia horas a olhar para o céu à procura de um OVNI até desistir, convencida de que os ETs não queriam nada com os portugueses. Por cá era mesmo só a Nossa Senhora que descia das nuvens.
Ao visualizar um futuro cheio de promessas a FC não previu o enfraquecimento da nossa capacidade de concentração e que o armazenamento da informação seria um enorme problema, nem tão pouco a propagação viral de factos completamente inventados travestidos de rigor. Estava ainda agora a ler a Cidade de Deus que interrompi para ler mais alguma coisa sobre a GFAJ-1 que por sua vez me levou a um site de cartoons e por aí fora, acabando a escrever este post. Saber coisas é talvez a actividade mais excitante da humanidade, mas precisamos muito de desenvolver uma espécie de hiper concentração e de auto detecção de falsidades naqueles assuntos que nos interessam mas não dominamos. Talvez as gerações que estão a crescer com as novas tecnologias comecem alguma coisa. Toda esta nova forma de estar no mundo deve também estar a mudar estruturas cerebrais e se uma bactéria consegue adaptar-se a novos ambientes, incorporando substâncias tóxicas no seu ADN de formas que antes não fazia, talvez nós possamos fazer o mesmo com a Internet.
Apesar de todo o nosso interesse no ET, a Terra ainda está cheia de mistérios e esta descoberta deveria ser tão fascinante como a descoberta de vida noutros planetas, ou até mais. O ET pode ser inteligente o que, segundo Stephen Hawking, é um perigo. Aconselha a humanidade a não tentar atrair as suas atenções porque, olhando para nós próprios, a inteligência é capaz de todas as crueldades e não há qualquer motivo para esperarmos que os alienígenas sejam melhores. De facto, olhando para a história da humanidade, um dia destes um Cristóvão Colombo galáctico, seguido pela escravatura, doenças, genocídio e um livro sagrado ditado por um deus furioso com a humanidade por esta se ter desenvolvido sem a sua ajuda, poderá descer num feixe de luz lá de cima e a culpa será toda nossa. Por outro lado, não é espantoso que o destino da vida pareça ter sido sempre o de se voltar para o infinito, para as estrelas de cujo pó somos feitos? Pulvis es, et in pulverem reverteris, mas somos nós que intencionalmente caminhamos para ele.












