sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

o homem-cujo-nome-tem-três-letras

Um grupo de patriotas chineses decidiu, em resposta ao Prémio Nobel da Paz, criar o Nobel chinês ao qual deram o nome de Prémio Confúcio da Paz. O vencedor foi Lien Chan, do Taiwan, que não pôs os pés na cerimónia. Quem receberia o prémio em nome dele? A solução foi encontrada numa menina, aparentemente sem qualquer ligação a Lien Chan, a quem foi entregue o Confúcio. De seguida os jornalistas convidados, a maioria estrangeiros, puderam fazer perguntas. Adivinhem o que perguntaram. 

A ingenuidade chinesa é comovente. Aflitos, lá tentaram desviar o assunto do homem-cujo-nome-tem-três-letras – foi assim que o presidente do comité se referiu a Liu Xiaobo – perguntando quem pôs o ovo: foi o Nobel que influenciou Confúcio ou foi Confúcio quem influenciou o Nobel? E como se atreve aquele país minúsculo e insignificante a dar mais cartas que a gigantesca China em questões de paz? Para além disso, os noruegueses atribuíram o Nobel a Obama que anda agora a ensaiar operações militares com… a Coreia do Sul no Mar Amarelo.

A lista dos nomeados incluía Bill Gates e Jimmy Carter, mas julgo que ninguém estava à espera que um deles levasse o Confúcio.


No final, o presidente do comité profetizou que, no que se refere a Liu Xiaobo, dentro de 500 anos a história estaria do lado deles. Os historiadores, ao contrário da Maia, não são muito bons a adivinhar o futuro, mas têm um conhecimento do passado que lhes permite desenvolver um sexto sentido para o que é mais provável que o futuro pense dos acontecimentos de hoje. Não é preciso esperar 500 anos para saber que a História não dará razão ao lado que oprime.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Il Corpo Delle Donne

Lorella Zanardo passou 3 meses a documentar a programação de entretenimento do Canal 5, da Rete 4 e da RAI, que deu origem ao documentário Il Corpo Delle Donne, também disponível online. Uma análise das imagens que as mulheres deixaram de saber ler, sobretudo as mais jovens.

Assediadas pelo moralismo católico de um lado e pela escola machista e cultura de harém de Berlusconi do outro, Lorella mostra como a liberdade do corpo, uma das lutas do feminismo, foi usurpada por uma cultura machista que ininterruptamente representa as mulheres de forma pornográfica e humilhante, de preferência caladas, submissas e sem vestígios de inteligência. O corpo da mulher foi substituído por caricaturas insufladas de silicone e botox que se impõem como modelos a todas numa espiral competitiva que se estende aos contextos estritamente profissionais, onde a mulher também tem de se apresentar como objecto de desejo. Por outro lado, as mulheres que não cabem nessa representação aparecem no papel de megeras invejosas e raivosas insultando as mais jovens e mais belas. Uma mulher apenas pode ser uma barbie de plástico ou uma bruxa de rosto distorcido e verruga, zangada com a barbie por não ser também uma barbie. Não há meio-termo.

Cada vez mais descaracterizada, a mulher passou a ter um prazo de validade. Um programa televisivo de entretenimento não se ficou pela propagação subtil dessa ideia: apresenta mesmo mulheres penduradas nos ganchos de um talho exibindo as nádegas que um talhante carimba com uma data de validade. Esta cena, sem dúvida a mais chocante no documentário, é o resumo directo de todas as outras.

Porquê esta humilhação? Lorella interroga-se e interroga-nos sobre esta violência exercida tanto sobre a mulher como sobre o homem. Uma violência contra a qual as mulheres não se revoltam, pelo contrário, subscrevem - a profissão velina  é apontada pelas jovens como a sua carreira de sonho - e à qual chamam feminismo.




sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

chegou o inverno


Frio, frio, frio. Quase todos os anos neva um bocadinho no meu telhado. Oxalá neve este fim-de-semana.

vida extraterrestre na terra

No laboratório, a bactéria GFAJ-1, quando exposta a um ambiente rico em arsénico e ao mesmo tempo pobre em fósforo, parece substituir este pelo primeiro na construção de partes do seu ADN, mas não o faz no seu ambiente natural que é o Lago Mono na Califórnia. Não se trata de uma forma de vida baseada no arsénico, mas mostra a imensa flexibilidade dos organismos.

Mono Lake

Segundo Felisa Wolfe-Simon, a astrobióloga da NASA que lidera a equipa de investigadores, o ecossistema no Lago Mono poderia ter levado algumas formas de vida a seguir um caminho na evolução diferente daquele que conhecemos. A possibilidade de existir vida extraterrestre em planetas com ambientes diferentes do da Terra e com necessidades químicas diferentes expande-se.

O que nos atraiu nesta história foi o facto de a informação inicial, originada numa fuga, ter propagado a ideia de que a NASA iria anunciar a descoberta de vida extraterrestre.

Apesar de nunca ter visto nenhum sempre gostei de extraterrestres. Hoje leio pouca Ficção Científica, mas era uma das minhas preferidas na adolescência. A FC sempre soube da existência de vida noutros planetas, assim como dos super computadores inteligentes e da ideia da Internet, a qual foi perfeitamente visualizada por Arthur C. Clark em 1964.



Mas a World Wide Web nunca teria sido inventada por um mensch do CERN. Na FC quase tudo acontecia nos EUA. Em miúda perdia horas a olhar para o céu à procura de um OVNI até desistir, convencida de que os ETs não queriam nada com os portugueses. Por cá era mesmo só a Nossa Senhora que descia das nuvens.

Ao visualizar um futuro cheio de promessas a FC não previu o enfraquecimento da nossa capacidade de concentração e que o armazenamento da informação seria um enorme problema, nem tão pouco a propagação viral de factos completamente inventados travestidos de rigor. Estava ainda agora a ler a Cidade de Deus que interrompi para ler mais alguma coisa sobre a GFAJ-1 que por sua vez me levou a um site de cartoons e por aí fora, acabando a escrever este post. Saber coisas é talvez a actividade mais excitante da humanidade, mas precisamos muito de desenvolver uma espécie de hiper concentração e de auto detecção de falsidades naqueles assuntos que nos interessam mas não dominamos. Talvez as gerações que estão a crescer com as novas tecnologias comecem alguma coisa. Toda esta nova forma de estar no mundo deve também estar a mudar estruturas cerebrais e se uma bactéria consegue adaptar-se a novos ambientes, incorporando substâncias tóxicas no seu ADN de formas que antes não fazia, talvez nós possamos fazer o mesmo com a Internet.

Apesar de todo o nosso interesse no ET, a Terra ainda está cheia de mistérios e esta descoberta deveria ser tão fascinante como a descoberta de vida noutros planetas, ou até mais. O ET pode ser inteligente o que, segundo Stephen Hawking, é um perigo. Aconselha a humanidade a não tentar atrair as suas atenções porque, olhando para nós próprios, a inteligência é capaz de todas as crueldades e não há qualquer motivo para esperarmos que os alienígenas sejam melhores. De facto, olhando para a história da humanidade, um dia destes um Cristóvão Colombo galáctico, seguido pela escravatura, doenças, genocídio e um livro sagrado ditado por um deus furioso com a humanidade por esta se ter desenvolvido sem a sua ajuda, poderá descer num feixe de luz lá de cima e a culpa será toda nossa. Por outro lado, não é espantoso que o destino da vida pareça ter sido sempre o de se voltar para o infinito, para as estrelas de cujo pó somos feitos? Pulvis es, et in pulverem reverteris, mas somos nós que intencionalmente caminhamos para ele.


terça-feira, 16 de novembro de 2010

Olga Ivanova andou na região russa de Vologda a fotografar estilos de vida em vias de extinção.




quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Dardos


Um Dardo do excelente 2 Dedos de Conversa para o Segunda Língua que daqui envio a dois blogues que comecei a seguir recentemente e que juntei aos meus blogues de estimação: Bandeira ao Vento porque gosto dos cartoons e da escrita do José Bandeira e Dias Assim que é muito bonito, também pela fotografia diária que a Sofia publica. 


«O Prémio Dardos é o reconhecimento dos ideais que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc.... que, em suma, demonstrem a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre as suas letras e as suas palavras. Estes selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre blogueiros, uma forma de demonstrar o carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.»

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Aung San Suu Kyi




Tenho uma enorme admiração por Aung San Suu Kyi. Queria escrever sobre as eleições para inglês ver em Myanmar mas a Joana Lopes fá-lo melhor que eu. Recomendo a leitura do seu texto.

Será libertada no dia 13 deste mês, data em que termina a sentença a que foi injustamente condenada, completando um total de 15 anos de cativeiro.

sábado, 6 de novembro de 2010

dançando sob a forca

Alice Herz-Sommer, a sobrevivente mais velha do Holocausto completa 107 anos este mês. A pianista de Praga foi deportada para o campo de concentração de Theresienstadt, espécie de antecâmara do destino final para artistas, aos 39 anos de idade. Sabia que poderia tocar e  pensou que o lugar onde  o pudesse fazer não seria assim tão terrível.  A música era para ela a fonte da esperança, uma religião. É uma inspiração ouvi-la com a sabedoria que só os velhos têm.



Everyday in life is beautiful. That we are here, that we can speak about everything, not? It's beautiful.

Reductio ad crise


Dizem-nos repetidamente que o tempo se esgotou para aquilo que julgávamos garantido e que temos de ser flexíveis. Mas a crise tem de ser exclusiva, como se essa exclusividade fosse condição para a suportarmos. Não há lugar para aqueles que para além de terem as mesmas preocupações têm mais algumas. Sugam-nos o tempo, mas não o suficiente para os ignorar. Há sempre tempo para lhes mostrar o nosso ressentimento por se atreverem a "distraír-nos" da crise com coisas que não nos afectam directamente.

Esta urgência em registar a crise como forma de diminuir e desclassificar os problemas dos outros funciona, paradoxalmente, como uma alienação da própria crise. Se a cada protesto acoplarmos o enunciar das dificuldades presentes talvez essas dificuldades desapareçam. Não sei, mas julgo ser esse o raciocínio.

submarinos

A nossa dívida é tão grande que já não se mede em Euros. Mede-se em submarinos.

doçura





Hu Jintao está de visita à Europa e, segundo o Editorial do Global Times de ontem, intitulado "Open minds needed for China-EU ties", a chatice toda não é levantar a questão dos direitos humanos. A chatice é fazê-lo numa altura imprópria.
Out of traditional prejudice over the ideological path China chose to take, some European countries opted to side with the Dalai Lama, to issue the Nobel Peace Prize to China's dissidents, and to raise human rights issues during improper occasions.

It should not take too much effort for European countries to develop a sweet relationship with China that benefits everyone.

(...)
Europeans need to keep an open mind when dealing with China. They need to learn that just because Chinese people have a different lifestyle and value system, it does not mean that China wants to topple traditional European values.

This exchange is an extension of freedom in the world.
Este discurso, tão comum vindo de onde vem, que pretende dar a ideia de que haverá um tempo apropriado para os direitos humanos faz exactamente o oposto: eterniza o tempo em que é impróprio tratar desta questão. O Nobel da Paz expôs esta falsa premissa da evolução gradual do governo chinês, mas por lá continuam a pensar que por cá ninguém percebeu. Querem um "relacionamento doce" com o resto do mundo numa tentativa patética de reconciliar uma visão estreita desse mundo com uma cacofonia de perspectivas alternativas que teimam entrar-lhes pela casa dentro. Pedem-nos uma mente aberta à sua mente fechada. Querem de facto que fechemos a nossa mente.

Pressionar os países europeus para não se fazerem representar na cerimónia de atribuição do Nobel a Liu Xiaobo, depois de ter feito todos os possíveis para impedir a atribuição desse Nobel (nunca um país que tanto sonha com um Nobel fez tanto lobby para não receber um), deve fazer parte desse "relacionamento doce" que o partido único chinês quer ter com a Europa.  Esta doçura toda não é para atropelar os nossos valores, como o da liberdade de expressão, é para aprendermos uma ou duas coisas sobre a liberdade. O governo chinês não quer amigos. Quer bajuladores e, sorte deles, vai encontrá-los por cá.

(Interessante como a palavra "doce" aparece ligada a ideologias que praticam a supressão nada doce das vozes da oposição. O grupo de apoio de Mahmoud Ahmadinejad chama-se "Sweet Scent of Service", o doce perfume do serviço.)

Adenda: Existe uma petição pela representação portuguesa na cerimónia de entrega do Nobel da Paz a Liu Xiaobo que pode ser assinada aqui.

abençoada preguiça

A preguiça não é um defeito, é uma qualidade. O nosso problema é não sermos tão preguiçosos como um sueco ou um alemão. É por serem preguiçosos que são tão produtivos. Um alemão está sempre a pensar em formas de trabalhar o menos possível o que o torna criativo, eficiente e bem pago. Trabalha menos e produz mais. Nós trabalhamos para aquecer.


terça-feira, 2 de novembro de 2010

dilma rousseff

Eleita a primeira mulher presidente do Brasil.

«Este fato, para além de minha pessoa, é uma demonstração do avanço democrático do nosso país: pela primeira vez uma mulher presidirá o Brasil. Já registro portanto aqui meu primeiro compromisso após a eleição: honrar as mulheres brasileiras, para que este fato, até hoje inédito, se transforme num evento natural. E que ele possa se repetir e se ampliar nas empresas, nas instituições civis, nas entidades representativas de toda nossa sociedade. » - Início do Pronunciamento de Dilma Rousseff

Oxalá, Dilma. Oxalá.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

autocomplete

As crianças desapareceram. Cresceram e emigraram todas.
Dantes os pais iam para Espanha, hoje vão os filhos para a Suíça. O filho da Prazeres, que costumava fugir da escola saltando as grades e tinha jeito para a mecânica, também foi. Dispensando a cerimónia católica, casou à pressa no civil porque não queria ir sem a namorada. Quem vem da Suíça matar saudades nunca parte só, leva sempre consigo mais alguns braços para trabalhar na construção civil. Há um interesse mútuo: dos que vão porque querem uma vida melhor e dos que recrutam para o patrão suíço, sempre com muita pressa, tudo tem de ser feito da noite para o dia para que não se percam oportunidades de ouro.
"Para o próximo Verão", disse-lhe a mãe, "fazemos a festa na igreja. Ela terá o seu vestido de noiva e tu, o teu fato de casamento. Convidaremos a família e faremos o copo-de-água cá em casa. Temos muito espaço" - a Prazeres tem um café numa rua e um restaurante noutra, mas ficam ambos na mesma casa que é também a casa dela - "e teremos muita música". Parece-me uma ameaça - a Prazeres tem altifalantes no café por onde sai a música pimba que me fere os ouvidos em certas noites de Verão.

O Google sabe tudo isto. Vai registar e guardar as minhas observações no seu cache, mas não precisa delas.


É possível saber tudo sobre um povo pelo autocomplete. O que o povo é coincide com o que o preocupa que seja.