quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Dardos


Um Dardo do excelente 2 Dedos de Conversa para o Segunda Língua que daqui envio a dois blogues que comecei a seguir recentemente e que juntei aos meus blogues de estimação: Bandeira ao Vento porque gosto dos cartoons e da escrita do José Bandeira e Dias Assim que é muito bonito, também pela fotografia diária que a Sofia publica. 


«O Prémio Dardos é o reconhecimento dos ideais que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc.... que, em suma, demonstrem a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre as suas letras e as suas palavras. Estes selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre blogueiros, uma forma de demonstrar o carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.»

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Aung San Suu Kyi




Tenho uma enorme admiração por Aung San Suu Kyi. Queria escrever sobre as eleições para inglês ver em Myanmar mas a Joana Lopes fá-lo melhor que eu. Recomendo a leitura do seu texto.

Será libertada no dia 13 deste mês, data em que termina a sentença a que foi injustamente condenada, completando um total de 15 anos de cativeiro.

sábado, 6 de novembro de 2010

dançando sob a forca

Alice Herz-Sommer, a sobrevivente mais velha do Holocausto completa 107 anos este mês. A pianista de Praga foi deportada para o campo de concentração de Theresienstadt, espécie de antecâmara do destino final para artistas, aos 39 anos de idade. Sabia que poderia tocar e  pensou que o lugar onde  o pudesse fazer não seria assim tão terrível.  A música era para ela a fonte da esperança, uma religião. É uma inspiração ouvi-la com a sabedoria que só os velhos têm.



Everyday in life is beautiful. That we are here, that we can speak about everything, not? It's beautiful.

Reductio ad crise


Dizem-nos repetidamente que o tempo se esgotou para aquilo que julgávamos garantido e que temos de ser flexíveis. Mas a crise tem de ser exclusiva, como se essa exclusividade fosse condição para a suportarmos. Não há lugar para aqueles que para além de terem as mesmas preocupações têm mais algumas. Sugam-nos o tempo, mas não o suficiente para os ignorar. Há sempre tempo para lhes mostrar o nosso ressentimento por se atreverem a "distraír-nos" da crise com coisas que não nos afectam directamente.

Esta urgência em registar a crise como forma de diminuir e desclassificar os problemas dos outros funciona, paradoxalmente, como uma alienação da própria crise. Se a cada protesto acoplarmos o enunciar das dificuldades presentes talvez essas dificuldades desapareçam. Não sei, mas julgo ser esse o raciocínio.

submarinos

A nossa dívida é tão grande que já não se mede em Euros. Mede-se em submarinos.

doçura





Hu Jintao está de visita à Europa e, segundo o Editorial do Global Times de ontem, intitulado "Open minds needed for China-EU ties", a chatice toda não é levantar a questão dos direitos humanos. A chatice é fazê-lo numa altura imprópria.
Out of traditional prejudice over the ideological path China chose to take, some European countries opted to side with the Dalai Lama, to issue the Nobel Peace Prize to China's dissidents, and to raise human rights issues during improper occasions.

It should not take too much effort for European countries to develop a sweet relationship with China that benefits everyone.

(...)
Europeans need to keep an open mind when dealing with China. They need to learn that just because Chinese people have a different lifestyle and value system, it does not mean that China wants to topple traditional European values.

This exchange is an extension of freedom in the world.
Este discurso, tão comum vindo de onde vem, que pretende dar a ideia de que haverá um tempo apropriado para os direitos humanos faz exactamente o oposto: eterniza o tempo em que é impróprio tratar desta questão. O Nobel da Paz expôs esta falsa premissa da evolução gradual do governo chinês, mas por lá continuam a pensar que por cá ninguém percebeu. Querem um "relacionamento doce" com o resto do mundo numa tentativa patética de reconciliar uma visão estreita desse mundo com uma cacofonia de perspectivas alternativas que teimam entrar-lhes pela casa dentro. Pedem-nos uma mente aberta à sua mente fechada. Querem de facto que fechemos a nossa mente.

Pressionar os países europeus para não se fazerem representar na cerimónia de atribuição do Nobel a Liu Xiaobo, depois de ter feito todos os possíveis para impedir a atribuição desse Nobel (nunca um país que tanto sonha com um Nobel fez tanto lobby para não receber um), deve fazer parte desse "relacionamento doce" que o partido único chinês quer ter com a Europa.  Esta doçura toda não é para atropelar os nossos valores, como o da liberdade de expressão, é para aprendermos uma ou duas coisas sobre a liberdade. O governo chinês não quer amigos. Quer bajuladores e, sorte deles, vai encontrá-los por cá.

(Interessante como a palavra "doce" aparece ligada a ideologias que praticam a supressão nada doce das vozes da oposição. O grupo de apoio de Mahmoud Ahmadinejad chama-se "Sweet Scent of Service", o doce perfume do serviço.)

Adenda: Existe uma petição pela representação portuguesa na cerimónia de entrega do Nobel da Paz a Liu Xiaobo que pode ser assinada aqui.

abençoada preguiça

A preguiça não é um defeito, é uma qualidade. O nosso problema é não sermos tão preguiçosos como um sueco ou um alemão. É por serem preguiçosos que são tão produtivos. Um alemão está sempre a pensar em formas de trabalhar o menos possível o que o torna criativo, eficiente e bem pago. Trabalha menos e produz mais. Nós trabalhamos para aquecer.


terça-feira, 2 de novembro de 2010

dilma rousseff

Eleita a primeira mulher presidente do Brasil.

«Este fato, para além de minha pessoa, é uma demonstração do avanço democrático do nosso país: pela primeira vez uma mulher presidirá o Brasil. Já registro portanto aqui meu primeiro compromisso após a eleição: honrar as mulheres brasileiras, para que este fato, até hoje inédito, se transforme num evento natural. E que ele possa se repetir e se ampliar nas empresas, nas instituições civis, nas entidades representativas de toda nossa sociedade. » - Início do Pronunciamento de Dilma Rousseff

Oxalá, Dilma. Oxalá.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

autocomplete

As crianças desapareceram. Cresceram e emigraram todas.
Dantes os pais iam para Espanha, hoje vão os filhos para a Suíça. O filho da Prazeres, que costumava fugir da escola saltando as grades e tinha jeito para a mecânica, também foi. Dispensando a cerimónia católica, casou à pressa no civil porque não queria ir sem a namorada. Quem vem da Suíça matar saudades nunca parte só, leva sempre consigo mais alguns braços para trabalhar na construção civil. Há um interesse mútuo: dos que vão porque querem uma vida melhor e dos que recrutam para o patrão suíço, sempre com muita pressa, tudo tem de ser feito da noite para o dia para que não se percam oportunidades de ouro.
"Para o próximo Verão", disse-lhe a mãe, "fazemos a festa na igreja. Ela terá o seu vestido de noiva e tu, o teu fato de casamento. Convidaremos a família e faremos o copo-de-água cá em casa. Temos muito espaço" - a Prazeres tem um café numa rua e um restaurante noutra, mas ficam ambos na mesma casa que é também a casa dela - "e teremos muita música". Parece-me uma ameaça - a Prazeres tem altifalantes no café por onde sai a música pimba que me fere os ouvidos em certas noites de Verão.

O Google sabe tudo isto. Vai registar e guardar as minhas observações no seu cache, mas não precisa delas.


É possível saber tudo sobre um povo pelo autocomplete. O que o povo é coincide com o que o preocupa que seja.


sábado, 23 de outubro de 2010

moda para ele em tempos de crise



Vamos lá dar uso aos naperons em croché. O designer estaria a pensar na austeridade, criando um visual muito fácil de replicar em casa, ou apenas a rir-se?

depressão

The unspeakable depression of lighting the fires every morning with papers of a year ago, and getting glimpses of optimistic headlines as they go up in smoke
 
George Orwell, em 19 de Outubro de 1940, mas que poderia ter sido escrito hoje.

my home is my shoes

I don't know what that is 
but whatever it is 
it is something that I thought I was doing with my feet


My home is my shoes, Will from Debbie Anzalone on Vimeo.

Will Gains nasceu em Detroit mas o registo do seu nascimento não existe. Dançou ao lado de músicos como Louis Armstrong e Ella Fitzgerald. Na casa dos oitenta permanece um dos melhores tap dancers do mundo. Vive no Reino Unido há mais de 50 anos.

"Magia é andar na lua", diz Will. Eu diria que magia também é ouvir o som que sai dos seus pés e a sua voz, pois até quando fala o faz com o ritmo que tem dentro dele.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

multikulti

Multikulti, Interkulti e ainda Leitkulti. Alguns posts interessantes (incluindo comentários) no 2 Dedos de Conversa sobre o discurso onde Angela Merkel declarou o falhanço do Multiculturalismo alemão, que, como explica a Helena, se refere a sociedades onde várias culturas vivem lado a lado de costas voltadas. Mas, pergunta Henryk Broder na Spiegel, qual é o problema das sociedades paralelas que tanto incomodam Angela Merkel? É assim tão mau quando os imigrantes preferem estar entre os seus?

Resposta genial da Rita a Henrique Raposo que confunde as coisas.

Entretanto, o Presidente da Alemanha foi à Turquia dizer aos turcos que o Cristianismo também pertence àquele país (já antes tinha dito aos alemães que o Islão também pertence à Alemanha).

«In Germany, he said, Muslims were able to practice their religion, pointing to the growing number of mosques being built there. "At the same time, we expect that Christians in Muslim countries be given the same rights to practice their beliefs in public, to educate new religious leaders and to build churches." Wulff was alluding to the problems faced by Christians in Turkey, who make up less than 1 percent of the population of 70 million, but who nationalists often consider a threat to the country's unity»

Como o meu coração também é alemão, sinto-me orgulhosa deste Presidente que diz o que pensa e tem pensado bem.


domingo, 17 de outubro de 2010

harmonia chinesa

Um comité de historiadores e linguistas chineses encarregue de descobrir o caracter mais chinês da China chegou à conclusão que é o que significa harmonia, paz. O é a primeira sílaba de "sociedade harmoniosa" e de "levantamento pacífico", expressões impressas ad nauseum nos jornais e na propaganda do partido, mas aparece também na expressão Prémio Nobel da Paz, o que, ironicamente, o coloca na lista de palavras sujeitas a censura devido à sua atribuição a Liu Xiaobo. O partido único da China, que tanto promove o ideal social da paz e da harmonia tradicional chinesa (vem de Confúcio), e que tanto quer ser visto pelo resto do mundo como uma sociedade harmoniosa, embora não engane ninguém (como escreve Zizek no London Review of Books, o excesso no uso das expressões harmonia e paz aponta para uma realidade oposta, para a ameaça sempre iminente de caos e desordem.), vê-se assim nesta contradição: bombardear os chineses com paz e harmonia, que não é nada daquilo que estes vêm em seu redor, e ao mesmo tempo impedi-los de saber e discutir a atribuição de um prémio internacional ao que de mais chinês existe aos seus próprios olhos. Talvez seja por este motivo que o verbo harmonizar se tornou sinónimo de censurar e, justiça lhes seja feita, por detrás da Grande Firewall, nesse aspecto os chineses são todos iguais: qualquer um pode ser harmonizado, incluindo Wen Jiabao quando pede reformas políticas.



narrativa

Fala-me do Ruanda. Saudades da cozinha, das bananas e das papaias que nada têm a ver com os frutos que por cá conhecemos por esses nomes, mas que não são bananas nem papaias. Saudades dos cheiros, das paisagens, da escola católica, das brincadeiras de criança. Nesta narrativa não existe um genocídio que lhe esquartejou toda a família. Descreve-os todos, os mais velhos que eram meios-irmãos e primos simultaneamente, os mais novos com quem partilhou a mesma mãe e as roupas herdadas dos mais velhos. Nesta narrativa ainda vivem todos algures no centro de Kigali. O pai não acumulou riqueza para espólio de guerra de outrem. A mãe não pariu filho atrás de filho para a matança.