domingo, 17 de outubro de 2010

narrativa

Fala-me do Ruanda. Saudades da cozinha, das bananas e das papaias que nada têm a ver com os frutos que por cá conhecemos por esses nomes, mas que não são bananas nem papaias. Saudades dos cheiros, das paisagens, da escola católica, das brincadeiras de criança. Nesta narrativa não existe um genocídio que lhe esquartejou toda a família. Descreve-os todos, os mais velhos que eram meios-irmãos e primos simultaneamente, os mais novos com quem partilhou a mesma mãe e as roupas herdadas dos mais velhos. Nesta narrativa ainda vivem todos algures no centro de Kigali. O pai não acumulou riqueza para espólio de guerra de outrem. A mãe não pariu filho atrás de filho para a matança.


domingo, 10 de outubro de 2010

liu xiaobo




«I hope that I’m not the type of person who, standing at the doorways to hell, strikes an heroic pose and then starts frowning with indecision.»




«Rationality and order, calmness and moderation must be the rules of our struggle for democracy; hatred must be avoided at all costs. Popular resentment towards authoritarianism in China can never lead us to wisdom, only to an identical form of blind ignorance, for hatred corrupts wisdom. If our strategy in the struggle for democracy is to act like slaves rebelling against their master, assuming for ourselves a position of inequality, then we might as well give up right here and now.»

Citações retiradas de Confession, Redemption and Death: Liu Xiaobo and the Protest Movement of 1989, de Geremie Barmé.

nevoeiro

Por vezes zangávamo-nos num dia de chuva. Tu agarravas a gabardina e saías batendo a porta. Da janela seguia os teus passos pela avenida adivinhando o jardim que irias contornar para chegar à praça onde, ao centro, dois leões gigantescos abriam a boca para o céu. Espiava a tua ausência pela janela pensando que a vida era demasiado complicada para se gastar a vida nela. Uma brutalidade. Pensava – pensava tantas coisas – em D. Sebastião. E se ele soubesse quando partiu do Tejo que nunca mais voltaria? Que seria esperado numa manhã de nevoeiro? Há dia mais bonito que esse, em que se espera alguém que não regressa?

Horas depois a tua silhueta reaparecia ao fundo da avenida. Ouvia o bater pacífico da porta da rua, os passos nas escadas, as chaves nas mãos que não chegavas a usar porque eu abria a porta antes de ti e tu sorrias e o teu sorriso esperava que te beijasse e te perdoasse e eu não te beijava nem te perdoava. A vida era demasiado complicada para se gastar a vida nela. Uma brutalidade. Pensava - pensava tantas coisas - em D. Sebastião. E se ele soubesse quando partiu do Tejo que voltaria numa manhã de nevoeiro? Há dia mais bonito que esse, em que já não se espera quem regressa?

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

convite

A convite do Delito de Opinião escrevi um texto que foi hoje publicado. O Delito é um dos melhores blogues que conheço, não apenas pela qualidade da escrita e a diversidade de temas, mas também por ser um local onde nos sentimos sempre muito bem e onde os leitores são sempre bem recebidos. Agradeço ao Delito a hospitalidade.

Publico aqui também.

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Diana

Entrou por fim no casarão onde uma estátua da deusa Diana se debruçava do terraço sobre a rua. Anos antes, quando Diana ameaçara suicidar-se, prenderam-na com cordas de ferro ao chão poupando a vida do formigueiro da rua e a solidão dos cães azul-marinho que a ladeavam. Remendos de cimento foram aplicados no pedestal para conter o esboroamento das argamassas antigas, sujando-lhe a fímbria do vestido, e a fenda que o trepava foi interrompida por um abraço de ferro que depressa enferrujou na cintura estrangulada. O parapeito branco ao qual a estátua estava encostada, de frente para os telhados da cidade e de costas para a casa, parecia ceder sob a vertigem que sentia ao espreitar a rua. Benvinda aproximou-se dele para estudar o perfil de Diana. Logo recuou no terraço com o coração aflito.

Havia muitas crianças e adolescentes na casa, para além do irmão mais velho já adulto, explicara Teresa à Benvinda quando trepavam a imensa escadaria. A família de Teresa, grande à moda antiga, ocupava o rés-do-chão e os três andares. No último situava-se a cozinha e a sala de jantar ligadas por um corredor premiado com a luz de uma clarabóia imponente. A sala comunicava com o terraço separado desta por uma fila de janelas que preenchia toda a parede.

Quando recomeçou a chover Benvinda abandonou o terraço e regressou à sala. Os contornos de Diana esbatiam-se sob a chuva diluindo o seu desenho de mármore nas vidraças. A irmã, imediatamente a seguir à Teresa, fazia os trabalhos da escola esfarelando a borracha contra os cadernos que enchia de formigas brancas. Os livros expandiam-se pela mesa, entre eles a enciclopédia onde iriam procurar Diana. Sem vontade, mas não querendo que se notasse, Benvinda concordou com a ideia de fazerem pequenas bonecas com vestidos cónicos de cartolina e cabeças de pingue-pongue onde colariam fios de seda branca ornamentados com uma lua crescente feita com meio botão de madrepérola.

Recortou o lado direito da base do cone da sua deusa para simular um pé boto. Igual ao dela. Incomodava-a o interesse das amigas na deusa Diana, tão concentradas no adorno das bonecas, pintando o contorno dos olhos, pestanas oblíquas e lábios vermelhos nas bolas de pingue-pongue. Arcos e flechas de papel colados nos cones.

Pressentia ali uma ameaça. Os ícones de pau-preto que vieram de África embrulhados com ela em papel de jornal, que ela usava para as encher de terror e inventar rituais que deveriam cumprir para se protegerem, estavam a perder o seu poder. Já não estavam interessadas neles nem na aparição que ela inventara sobre um penedo, exigindo-lhes que comessem o chão. Era óbvio que já tinham esquecido o sabor da relva que evitava apocalipses. Substituíam-no por uma caçadora e agora o seu pé boto iria comer-lhe a carne pela perna acima e depois o tronco e os braços. Iria triturar a ossatura de passarinho, consumindo até os dentes, tomando por fim o seu lugar.

Por um momento pareceu-lhe que se precipitava sobre um parapeito que cedia. Carecia de um abraço de ferro que lhe estrangulasse a cintura, um tremeluzir no cabelo, uma argamassa de ternura.


quinta-feira, 30 de setembro de 2010

post-it

“O povo tem que sofrer as crises como o Governo as sofre.” - Almeida Santos

Queria dizer qualquer coisa sobre isto, mas faltam-me as palavras.

the girl effect

«No século XIX o desafio moral primordial era a escravidão. No século XX, era o totalitarismo. Neste século, é a brutalidade exercida sobre tantas mulheres e raparigas em todo o mundo: o tráfico sexual, ataques com ácido, queima de noivas e violações em massa.»

Assim abria este ensaio publicado no ano passado no New York Times, baseado no livro Half the Sky: Turning Oppression Into Opportunity for Women Worldwide, de Nicholas D. Kristof e Sheryl WuDunn.

Este século é sem dúvida o século das mulheres. Elas representam 70% do trabalho humano que suporta as famílias, as comunidades e a economia mas são também elas quem mais sofre a opressão e a descriminação que as exclui da educação e dos cuidados de saúde.

Estudo atrás de estudo relacionam o bem-estar das raparigas com o desenvolvimento económico e a melhoria das condições de vida nas suas comunidades. Elas aplicam melhor os seus salários (compram uma rede para proteger os filhos dos mosquitos que propagam a malária, por exemplo, em vez de gastarem esse dinheiro em bebidas alcoólicas ou tabaco), investem mais na educação dos seus filhos contribuindo, com o seu próprio esforço, para a redução da pobreza e para a sua emancipação.

Esta ideia, The Girl  Effect, que já tinha corrido pela Internet através de um vídeo realizado há cerca de dois anos, está de volta com um novo vídeo. Uma oportunidade para relembrar um projecto que merece todo o nosso apoio. Por elas, por nós, pelos nossos filhos, pelas nossas filhas.



quinta-feira, 23 de setembro de 2010

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

na palma da mão

Proibir alguma coisa, deportar milhares de pessoas (que daqui a nada estarão de volta), retirar a nacionalidade francesa a quem viver em poligamia, debates sobre identidade…
Somos muito pouco exigentes com os nossos governantes. Não exigimos medidas que resolvam os nossos problemas, exigimos vingança e mão pesada sobre os que se assemelham ao inimigo, ao gajo que nos roubou o portátil. Talvez outra coisa não fosse de esperar de uma cultura que se informa nos tablóides, se aconselha nos horóscopos e nas médiums, se distrai com telenovelas, desvaloriza a educação e o conhecimento e transforma as suas escolas e universidades em linhas de produção para o desemprego.

Achamos mais provável os islamistas converterem as mulheres europeias do que a Europa converter as mulheres dos islamistas. Partilhamos o pesadelo de Sarazzin de uma Europa cheia de meninas com um lenço na cabeça que acreditamos estar a um passo das pedras, mas recusamos associar-nos a iniciativas contra a lapidação, porque é imperialista, porque é a cultura deles oprimir as mulheres, porque não muda nada. A cultura europeia deixou de acreditar em si própria e agora o país que nos deu a liberdade, a fraternidade e a igualdade deporta ciganos, cidadãos da União Europeia, eternamente remetidos à categoria de Morlocks da Europa.

Estamos tão longe de realizar o nosso potencial como indivíduos capazes de construir um destino comum que seja de facto livre, fraterno e igual para todos. Talvez nunca chegaremos lá. Talvez uma cigana o tenha lido na palma da mão.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

convidada

Computer Technique Group (CTG), Return to a Square, 1969

A chávena faz lembrar mulheres em saletas onde não faltaria uma natureza morta e uma mesa de pé de galo à roda da qual, talvez, depois do chá, se fizessem sessões espíritas, num ambiente doméstico característico dessa espécie de xamanismo. Mulheres à procura no mundo de lá de respostas a perguntas do mundo de cá, demandas do destino das coisas que não sendo da ciência dos vivos talvez fosse do conhecimento dos mortos. Almas rendilhadas que a médium teria engolido durante o transe, flutuariam pela penumbra da sala iludindo cientistas e a rainha do império onde o sol nunca se punha que também falava assim com o seu falecido príncipe Alberto.

As sessões a que a avó assistia não eram tão sofisticadas. Não se encenavam gestos dramáticos ao estilo de Florence Cook. Os espíritos arranhavam as cordas vocais daquela que fazia de canal de comunicação entre os vivos e os mortos, bastando à credulidade dos vivos as alterações da voz e as caretas que as acompanhavam. Foi assim que a avó ficou a saber por uma voz cavernosa e masculina que o tio Miranda tinha assassinado um preto na mesa de operações e que por causa dessa morte não tinha descanso no mundo entre o de cá e o de lá. Precisava de missas.

Em criança esforçava-se por encerrar o riso nos pulmões ao imaginar o rosto contorcido da médium a falar como um trombone e a avó, com uma cara séria, repreendia-a. Quando o riso era maior do que ela, sinal de falta de respeito, mostrava-lhe o crucifixo com o Cristo agonizante que gerações anteriores usaram para meter medo às crianças. Dizia, quando há boas razões nos dois lados de um argumento a forma mais correcta de proceder é parar de pensar e julgar pelas aparências e o tio Miranda tinha aparência de assassino, segundo a recordação que ela tinha dele, e um medo patológico do miasma que habitava os moribundos, causa dos tiques que lhe traduziam a excentricidade. Para além disso era ateu. Uma ironia que andasse a penar até se fazer de convidado, não para trazer notícias do outro mundo ou para dar o derradeiro juízo sobre o alho cru evitar ou não o cancro no estômago, mas para suplicar missas. Seria uma invenção da avó para dar um recado ao avô, também ele ateu? Talvez sim. Talvez não. A avó vivia espaventada pelo espírito da mãe que se divertia desenhando-se numa tábua do tecto, espiando-a na cama numa censura silenciosa que lhe destroçava os momentos de intimidade. Nessas noites fechava os olhos com força e via a cozinha da mãe numa tarde inundada pela luz do sol tardio que se esvaía em lava pela encosta do vulcão há muito falecido, no tempo em que a mãe se punha entre ela e o poente projectando-lhe nos olhos a sombra gigantesca de um corpo mindinho. Dizia-lhe que regressaria depois de morta, mas nunca lhe disse que o faria muda e que recusaria os convites enviados pelos canais apropriados, rebeldia aproveitada por outros mortos para aparecerem no lugar dela. Talvez a medium a fizesse falar se a levasse lá a casa, dizer ao que vinha, cumprir um qualquer ritual que lhe permitisse fechar a mãe numa caixinha minúscula e deitá-la ao rio, rumo ao paraíso talvez, mas mais certo ao inferno.

A médium admirou as flores azuis pintadas à mão na chávena da bisavó. Bebeu por ela o chá de ervas que trouxera consigo, voltou a enchê-la e ofereceu-a à avó. Quando o quarto entrou em centrifugação deitaram-se as duas na cama de olhos fixos na tábua, contando as órbitas gravadas nos nós de pinho escurecido.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

contra a lapidação e a pena de morte

É normal neste tipo de campanhas surgirem críticas a quem organiza e a quem se associa aos protestos contra a violação dos direitos humanos. Haverá críticas inteligentes, outras nem por isso, mas a mais estúpida nunca falta à chamada. Falo da que defende a santidade das leis internas de determinado país que  nos deveria impedir de falar e de nos manifestarmos contra a barbárie praticada por esse país. A barbárie não é um assunto interno deste ou daquele país, desta ou daquela cultura ou religião. Diz respeito a toda a humanidade.

a rússia há um século

Algumas fotografias de uma colecção comprada pela Library of Congress em 1948 com imagens da Rússia entre 1910 e 1912, do fotógrafo Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii que usou uma câmara que tirava três fotografias a preto e branco quase em simultâneo mas com filtros diferentes (vermelho, verde e azul), podem ser vistas no site do Boston Globe de onde copiei estas três. Mais tarde eram recombinadas e projectadas conseguindo assim uma cor muito próxima da realidade.




Gosto especialmente desta aula a crianças judias e do vestido florido do Emir de Bukhara (hoje Uzbequistão) mas todas são de uma beleza extraordinária.


domingo, 22 de agosto de 2010

mercado de mulheres

As checas são princesas, as lituanas são sérias, as portuguesas nem por isso - são hot e cobram pelos serviços - mas as ucranianas é que são as verdadeiras mulheres perfeitas. Cozinham sopa de beterraba todos os dias que é tudo o que um homem quer.

E que tal uma mulher que nunca ouviu falar (bem) de feminismo? Também há, garante este site que afirma ter um programa desenhado para homens solteiros que procuram a parceira ideal para toda a vida, bonita, significantemente mais nova, educada, não "estragada" pelo feminismo, oriundas de uma cultura de apoio e respeito pelos maridos (apoio e respeito por elas parece não fazer parte da tal cultura o que faz todo o sentido uma vez que ainda não foram estragadas pela igualdade) e que ficarão maravilhadas com as coisas materiais que estes terão para lhes oferecer. Fazer sopa de beterraba todos os dias, apoiar e respeitar o marido - e aqui tratam-se de eufemismos para submissão - é muito bonito mas se ele não ganha o suficiente para lhes oferecer o paraíso material o melhor é apoiar e respeitar maridos ricos mais a oeste. Qualquer oprimido pelo feminismo pode candidatar-se desde que tenha uma boa situação económica,  único requesito que o site faz questão de sublinhar. 

Elena Petrova que dirige o site Women in Russia nega que a motivação das (suas) russas seja uma carteira recheada.

The common misconception is that the women only want a way out of their misery and terrible economic situation. Being incompetent in Filipino, Thailand, Colombian, Mexican and other mail order brides, I can tell you with confidence that this is NOT the case with Russian women seeking husbands abroad.

(...)With their fair complexion, their intelligence and their astounding beauty, men have often asked me if our selection is real! Our women appear too beautiful to be seeking husbands on the Internet.


São brancas e inteligentes! Isso explica a diferença de motivações entre as russas e as outras mais a sul. Mas Elena, enquanto defende as suas damas (e o seu negócio), nem por um minuto se esquece que a submissão feminina é a melhor estratégia de venda. Garante uma boa carteira de clientes americanos e europeus à procura de uma mulher jovem, bonita e sexy, cujo único desejo seja cozinhar para eles e brunir-lhes as camisas.

Being intelligent and educated, Russian women are still feminine, warm and gentle. Competing with men is the last thing they seek in their family lives. The Russian ideal of a man is the man with whom she feels like she is "behind the stone wall", the leader, the provider and the protector. Believe it or not, the reason for all these beautiful Russian women seeking their destiny over the Internet is that they cannot find their ideal man in Russia. It is that simple - even if it sounds unbelievable. 

They believe, Elena, they believe, ou não estivessem as autoridades fartas de lidar com denúncias de desiludidos a quem foi extorquido dinheiro, sonhos e o coração.