
Peter Nencini, Gelb
"Gelb is a growing image kit, a kind of ode to Berlin."
Não haverá uma espécie de condecoração feminista para honrar as pessoas que sem querer fazem muito pela igualdade? Se há, acho que deveria ser entregue à Nigella Lawson, a mulher que finalmente está a pôr o macho latino na cozinha.
(acho-a fantástica, ela percebe mesmo daquilo)
Nunca entendi muito bem as sondagens. Como é que perguntas feitas a 100, 500 ou mesmo 1000 pessoas podem representar a totalidade do país? E porque é que nunca ninguém me sondou? Nem conheço alguém que tenha sido sondado. Suspeito que as sondagens são feitas sempre às mesmas pessoas, uma espécie de sociedade secreta que tem por objectivo pôr o país a pensar como pensa a percentagem maior do resultado.
Inquietações dum rapaz de 16 anos.
«Esta anacrónica mania portuguesa de fazer substituir os duques, marqueses e viscondes de antanho pelos “doutores” e “engenheiros” de agora, muitos deles aliás sem terem qualificações académicas para merecerem ser tratados desta forma, devia terminar – com a Assembleia da República a dar o exemplo. »
- Pedro Correia no Delito de Opinião
«tivessem escolhido outro dos 365 dias que o ano tem para uma exaltação deste tipo. Porque, para quem já era suficientemente crescido no 25 de Abril, soldados e condecorações em 10 de Junho estarão para sempre associados a uma guerra muito concreta. »
- Joana Lopes no Brumas
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
- Luís de Camões
O desfile dos meninos de Aveiro decorreu como qualquer pessoa de bom senso sabia que iria decorrer. Podemos voltar ao Mundial dos clichés e das vuvuzelas que não vai ser preciso salvar os meninos dos “fascistas” dos professores.
Uma vez, quando eu era pequenina, vestiram-me de anjinho e puseram-me em cima de uma camioneta, ao lado doutros anjinhos vestidos com uma túnica de cetim branco até aos pés, uma corda a fazer de cinto e duas asas penduradas nas costas. Despacharam-nos para uma vila do concelho para desfilarmos na procissão num dia insuportavelmente quente que nunca mais acabava. O carro dos anjinhos tinha escadas forradas a azul que subiam em forma de pirâmide, para simular a hierarquia dos anjos, talvez. Logicamente eu estava no patamar de baixo.
A coreografia era simples: numas ruas podíamos descansar e sentarmo-nos nos degraus e noutras tínhamos de nos levantar e cantar uma coisa qualquer de louvor ao Senhor. Entrámos na rua que desembocava na praça central, onde deveríamos entoar o hino principal, e uma coisa extraordinária aconteceu.
Com o queixo apoiado na mão e o braço apoiado no joelho, observava as pessoas que nos observavam, única fonte de entretenimento num dia dolorosamente aborrecido, quando comecei a perder a audição. Não foi súbita a perda, os sons foram morrendo devagarinho, tão suavemente que eu não dei por ela. Já não ouvindo nada mas vendo tudo, ia construindo estórias na minha cabeça com aquelas personagens que pareciam desfilar para mim, sem fazer caso dos outros anjos a quem voltei as costas para me debruçar sobre a rua. As pessoas levantavam os braços e mexiam os lábios e conforme o cortejo se movia, os braços e os lábios iam tornando-se cada vez mais expressivos, cada vez mais altos e mais abertos, as fronhas cada vez mais carregadas. Algumas mãos começaram a diminuir para um dedo indicador, alguns braços esticavam-se na nossa direcção e começou a tornar-se evidente que o que os lábios gritavam era para nós. Mais ainda, logo percebi, para mim. Que queriam eles comigo e porque é que eu os enervava tanto? Estava surda, não percebia.
Nisto, um anjo do patamar de cima puxou-me por uma asa enquanto o do lado me puxava pela corda e eu, sem saber bem se deveria ir atrás da asa ou da corda, pensei em saltar da camioneta mas a audiência não era nada convidativa. Como em caso de dúvida o lado mais forte tem sempre razão, fui para o lado da gorda que me puxava pela corda. Este anjinho papudo estava de pé e, como pude então verificar, os outros também, escada acima até ao paraíso. Caí por cima dela que por sua vez caiu sobre a seguinte e o anjo de cima, que segurava ainda a minha asa, sentindo que perdia o equilíbrio mas não querendo largar a aselha, agarrou-se ao cetim da que estava acima dela.
Rasgou-se a asa e o cetim e esse estrondo abriu-me os tímpanos. Lentamente os sons começaram a fazer sentido. “Põe-te de pé!”, gritavam uns, “Canta!”, gritavam outros e foi então que percebi tudo. Surda, não reparei que tinha de me levantar e cantar. Estraguei a composição angélica e dei cabo do paraíso. Não era de admirar que estivessem tão zangados comigo, o público e os outros anjos. Ninguém gostava de um anjo dissidente a remar contra a maré.
Mulheres que rejeitam a igualdade na Arábia Saudita.
O melhor parágrafo é este:
«Ms. Yousef, whose guardian is her elder brother, said that she enjoyed a great deal of freedom while respecting the rules of her society. Guardian rules are such that she could start her campaign, for instance, without seeking her guardian’s permission.»
I wonder why...
A activista Wajeha al-Huwaider tem tanta liberdade que foi impedida de sair do país apenas com o seu passaporte. Faltava o guardião.
Um diálogo típico da blogosfera:
- O bloqueio a Gaza é ilegal e o assalto ao barco turco em águas internacionais também o é.
- Anti-semita!
Aqui, o "anti-semita" deve desatar num pranto e retirar-se do debate.
Com todas as comparações a anti-semitas, os jovens ainda começam a pensar que os aliados derrotaram a Alemanha nazi porque Hitler dava muita importância à lei internacional.
Uma taça com cerejas no regaço e uma gata confusa que se lambe e lambe um dedo do meu pé julgando ser parte do corpo dela. Em Maio come a velha as cerejas ao borralho. Eu, mais para velha do que para nova, engulo cereja atrás de cereja coleccionando caroços sob o borralho a poente. O meu filho faz dezasseis anos e já vou em dezasseis caroços. É demasiado grande para o enroscar inteiro nos meus braços – tenho de o abraçar aos bocadinhos, as mãos, depois o tronco, a cabeça - e tudo o que eu queria era que as cerejas saíssem inteiras da minha boca e se reunissem aos caroços, que voltassem à árvore e diminuíssem na flor. Depois começaria tudo de novo, o prazer de o fazer, a dor de o ter e mais uma vez, enroscá-lo inteirinho no meu regaço, todo de uma vez.
Depois da Bélgica, a França prepara-se para proibir globalmente o véu integral apesar do parecer negativo do Conselho de Estado segundo o qual a lei viola a Constituição Francesa. A Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa também se manifestou contra a proibição global do véu integral.
A proibição permite às pessoas sentirem que estão a fazer qualquer coisa de bom pelas mulheres e pela igualdade, mas a lei em nada vai melhorar a situação das que são de facto sujeitas à violação dos seus direitos (e não é o caso de todas as que usam o véu integral). Oferece ao estado uma saída face ao extremismo que vai ganhando terreno nos guetos onde despeja os imigrantes e os ignora, saída essa que poderá servir de álibi para não se empenhar a fundo no terreno na construção de um relacionamento igualitário entre homens e mulheres. Ao retirar o que na nossa cultura é um símbolo da opressão feminina da rua, cria a ilusão de uma sociedade igualitária - o que não se vê não existe. É como proibir os grilhões e esperar que isso acabe com a escravatura.
Apesar de não existir homossexualidade no Irão, segundo Ahmadinejad, as autoridades contam com o apoio do mundo livre na perseguição aos homossexuais iranianos que vivem fora do país. O crime de Kiana não é apenas o de ser lésbica mas também o de se atrever a participar num filme, baseado na sua vida e na perseguição de que são vítimas os homossexuais no seu país, crítico do regime. O Irão que tem tentado a deportação de Kiana do Reino Unido desde a publicação do trailer no YouTube, ao que tudo indica terá a sua vontade satisfeita. O Home Office recusou o pedido de asilo da actriz iraniana porque acredita que nada lhe acontecerá no Irão se ela ocultar a sua homossexualidade.
Julgo que nem reparamos nisto, mas talvez devêssemos reparar. O Papa veio e foi-se. Houve debate, houve missa, houve quem se chateasse com os incómodos do trânsito, católicos contra a tolerância de ponto, ateus que fizeram circular formulários para a desvinculação da igreja católica, houve preservativos e fiéis que recolheram um número suficiente para fazer candeeiros, salamaleques de políticos, a costumeira referência ao aborto e casamento gay, e até houve uma dose de Fátima Campos Ferreira superior à que qualquer ser humano pode suportar, para além do Padre Borba que vê sempre o lado positivo das coisas, até no assassinato do Papa, mas demos muito descanso às forças de segurança cujas operações foram observadas pela polícia britânica com horror. Então não é que deixamos Bento XVI pertinho do povo à distância de um ovo? E ninguém lhe atirou nenhum.