Apesar de não existir homossexualidade no Irão, segundo Ahmadinejad, as autoridades contam com o apoio do mundo livre na perseguição aos homossexuais iranianos que vivem fora do país. O crime de Kiana não é apenas o de ser lésbica mas também o de se atrever a participar num filme, baseado na sua vida e na perseguição de que são vítimas os homossexuais no seu país, crítico do regime. O Irão que tem tentado a deportação de Kiana do Reino Unido desde a publicação do trailer no YouTube, ao que tudo indica terá a sua vontade satisfeita. O Home Office recusou o pedido de asilo da actriz iraniana porque acredita que nada lhe acontecerá no Irão se ela ocultar a sua homossexualidade.
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Kiana Firouz
sexta-feira, 14 de maio de 2010
falamos pouco disto
Julgo que nem reparamos nisto, mas talvez devêssemos reparar. O Papa veio e foi-se. Houve debate, houve missa, houve quem se chateasse com os incómodos do trânsito, católicos contra a tolerância de ponto, ateus que fizeram circular formulários para a desvinculação da igreja católica, houve preservativos e fiéis que recolheram um número suficiente para fazer candeeiros, salamaleques de políticos, a costumeira referência ao aborto e casamento gay, e até houve uma dose de Fátima Campos Ferreira superior à que qualquer ser humano pode suportar, para além do Padre Borba que vê sempre o lado positivo das coisas, até no assassinato do Papa, mas demos muito descanso às forças de segurança cujas operações foram observadas pela polícia britânica com horror. Então não é que deixamos Bento XVI pertinho do povo à distância de um ovo? E ninguém lhe atirou nenhum.
basqueiro
Nada disto é novidade. De longe a longe (felizmente na minha aldeia não acontece muitas vezes) sou bombardeada com as Avé-Marias estridentes que os altifalantes da igreja fazem atravessar o planalto sem que ninguém me tenha alguma vez perguntado se concordo ou não com a poluição que me entra pelas janelas. Nunca me queixei. Não fiz abaixo-assinados nem andei a moer o juízo do Presidente da Junta. O povo daqui é assim. Vive e deixa viver. O Berto, que para ter música no trabalho punha as colunas da aparelhagem na janela quando ia para o campo, foi finalmente integrado no silêncio. Em vez de lhe fazer guerra oferecemos-lhe um MP3, o que resolveu o problema da música pimba matinal sem que ninguém se zangasse.
Isto para dizer que nós, os nortenhos, fazemos muito basqueiro e gostamos pouco que nos mandem calar. É verdade isto do barulho, como se pode ver comparando as imagens do Terreiro do Paço e as da Avenida dos Aliados antes de Bento XVI lá chegar e que eu vi na televisão da igreja de todos nós.
ovelhas
Anda tanto crente preocupado com a contestação que é feita à igreja, ao catolicismo e às religiões em geral, como se a religião estivesse em vias de extinção e fosse necessário preservá-la a todo o custo como se faz com algumas espécies. A religião, se é para ter algum significado na sociedade, tem de ser desafiada, debatida e posta em dúvida. Isto é de difícil compreensão para muitos crentes, acomodados nas certezas que assumiram por doutrinação e pela ausência de espírito crítico que a má educação escolar de que tomos fomos (e continuamos a ser) vítimas, não soube desenvolver. Uma igreja de gente fechada à crítica e à dúvida não está mais perto da verdade.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
laura
domingo, 2 de maio de 2010
out on the edge you see all kinds of things you can’t see from the center*
quinta-feira, 8 de abril de 2010
selecção
«I loathed the game, and since I could see no pleasure or usefulness in it, it was very difficult for me to show courage at it. Football, it seemed to me, is not really played for the pleasure of kicking a ball about, but is a species of fighting.» – George Orwell
Gritava o povo da aldeia sentado em círculos junto ao rádio e eu, entretida com as primas sem fazer caso do relato, abandonava o jogo das pedrinhas no passeio e observava os homens que pediam decilitros a brincar como crianças e os rapazes com bigodes tintos a brincar aos adultos, autorizados que eram a aspirar um golo de vinho das malgas muito brancas da Rosinha e a fumar um Kentucky para acalmar o nervoso miudinho. Gritavam pelo Eusébio, a pessoa mais importante de Portugal, como se as ondas que o traziam também os levassem.
Lembro-me – não sei se ainda é assim – que se inscrevia um filho num clube mal se sabia o sexo dele entregando o nado vivo ao futebol antes de se o entregar a Deus. Por baixo da roupa de anjinho do baptismo o rapaz já levava as cores do clube e a par do catecismo o dicionário de palavrões e insultos indispensáveis à sua educação futebolística.
As raparigas eram poupadas à mania nacional – o ritual de nascimento delas consistia em furar-lhes as orelhas onde mais tarde se pendurariam as filigranas das avós – mas vibravam com a selecção, ainda que dando como certa a derrota final o que acontecia sempre. Sempre. Depois de confirmada a humilhação encolhiam-se os ombros; que havemos de fazer, o árbitro fez batota e um et cetera et cetera que se prolongava por vários dias. Daí a nada eu voltava às pedrinhas com as primas da aldeia e os rapazes à bola na rua, fintando nos pés que prometiam dar ao país um exército de Eusébios a certeza no falhanço eterno.
O primeiro e último contacto que as crianças têm com o patriotismo é o futebol. Começa-se por amar a família, mesmo quando ela não presta, depois a rua, depois o bairro e a freguesia a que se segue a vila ou a cidade. Quando chega a vez da província já o coração foi entregue à selecção. O país nunca se chega a amar excepto quando se imigra e mesmo longe não é bem o país que nos falta, mas sim o braço acolhedor do berço, os chouriços caseiros pendurados no fumeiro, a broa acabada de cozer embrulhada em folha de couve, os decilitros da ramada própria, as histórias dos velhotes à fogueira e a as ruas antigas sob a luz das cidades ao entardecer.
Com a aprendizagem do abecedário decoram-se os rudimentos das nossas origens como país e o significado dos seus símbolos. Milhares de crianças aprendem os feitos da espada de D. Afonso Henriques, cantam o hino dizendo igrejos em vez de egrégios e decoram o rosto do Presidente da República. Tenta-se convencer a canalha de que há muito que nos une, como se um algarvio tivesse mais a ver com um minhoto do que este com um galego, como se os bês do Norte fossem iguais aos bês do Sul, mas tirem os símbolos ao povo e nada resta que nos una.
Em Valença do Minho troca-se de bandeira e pensamos logo na selecção – e agora, vão de bandeira espanhola para a África do Sul? A selecção é o único sítio onde as nossas diferenças e o muito que nos desune desaparecem, onde até as mulheres são bonitas de bigode. É uma espécie de luta por um nós que nunca somos. Nada tem a ver com pés, pernas e bola e o fora de jogo que eu nunca hei-de entender por falta de esforço e de vontade. Há mistérios que prefiro que não deixem de o ser.
cor
Conforme se lê nesta notícia do CM, há muitas crianças que não são adoptadas porque ninguém as quer e não porque a lei impede a sua adopção. Há mais crianças para adoptar do que casais a quererem adoptá-las.
Não sei se uma lei que permitisse a adopção por casais homossexuais mudaria alguma coisa para as crianças que ninguém quer. Um casal gay terá menos exigências (idade, cor da pele, saúde da criança, se tem ou não irmãos) que um heterossexual? Julgo que haverá de tudo como entre os que agora se podem candidatar, mas à partida e sem mais dados parece-me que aumentando o número de potenciais adoptantes também aumentará o numero de adoptados entre as crianças rejeitadas.
Chocante na notícia do CM é isto:
«Dos 2493 candidatos a pais, (...) 1994 dão como critério a raça branca»
Até certo ponto consigo entender a preferência por crianças mais novas, saudáveis e sem irmãos. Nem toda a gente tem as condições necessárias para adoptar crianças que se afastem desses critérios, mas a cor como critério (mais de metade) é coisa que não entendo.
quarta-feira, 31 de março de 2010
monte dos vendavais
Aqui a chuva é sempre mais intensa, o vento mais forte e o nevoeiro mais denso. Chamo-lhe o meu Monte dos Vendavais, onde a Primavera se atrasa, os rebentos das árvores são mais tímidos e os frutos amadurecem tarde. Não há flores nem limões nos limoeiros e o granito gela-me a ossatura. Acendemos a lareira e não pára de chover.
Raindrops, 1902 - Clarence H. White (1871-1925)
The rain drums down like red ants,
each bouncing off my window.
The ants are in great pain
and they cry out as they hit
as if their little legs were only
stitche don and their heads pasted.
And oh they bring to mind the grave,
so humble, so willing to be beat upon
with its awful lettering and
the body lying underneath
without an umbrella.
Depression is boring, I think
and I would do better to make
some soup and light up the cave.
The Fury Of Rainstorms de Anne Sexton
sábado, 20 de março de 2010
pés de asfalto
Agora, olho pela janela e vejo a pequena igreja do outro lado do planalto. A igreja tem apenas um sacerdote porque esta é uma pequena aldeia perdida no interior de Portugal que os bispos e a gente importante nunca visitam. O sacerdote é jovem e bonito. Conheci-o uma noite quando ele e um grupo de aldeões me bateram à porta e perguntaram se podiam cantar as Janeiras. Eu disse que sim em sintonia com a tradição. Encheram-me o alpendre de vozes perfeitas e o meu filho fez um filme. Comemos doces de Natal e bebemos vinho do Porto. Havia moças bonitas no grupo, escuteiras de faces rosadas e cabelos da cor do Minho, riso e sensualidade da lua. Havia moços troncos de árvore e olhos claros. Nessa noite conheci também o enfermeiro que vive na casa de pau do outro lado da estrada. Adivinhei a inteligência do padre por trás dos óculos anos cinquenta e não acreditei, um momento só, que se dedicasse ao celibato porque se assim fosse seria um esbanjamento. Via-se logo que foi feito para amar, mulheres ou homens, pelo corpo.
Agora, dizem que a autoridade moral da igreja se perdeu para sempre à conta dos escândalos, do encobrimento e da hipocrisia. Não percebem nada de nada. A igreja nunca teve autoridade moral. O padre bonito tem a chave da igreja e a sua autoridade está na chave. É na igreja que se guardam os santos que o povo beatificou e a Virgem Maria. São esses quem o povo reverencia. Os santos fazem os milagres – Deus, como todas as inteligências superiores, não pode ser incomodado com as trivialidades do povo pequeno – e a Virgem é a mãe deles cujo sofrimento compreendem melhor do que o de Jesus. O papa é o invólucro de Deus. Não se preocupam com o seu intelecto, não compreendem as suas palavras. Dirigem-se em rebanho a Fátima quando vem a banhos de multidões, esfolando joelhos e coleccionando pés de asfalto. Acenam-lhe com lenços brancos. Acena-lhes de volta com uma mão velha. Prega a moral católica do contraceptivo e do aborto a mulheres que engoliram a pílula nessa manhã para regular úteros que carregam cicatrizes de abortos realizados sob telhados de lata. O povo faz o que tem de fazer. Ninguém manda nele.
Amanhã, continuará a precisar de quem lhes guarde a mãe, os santos e os mortos.
sexta-feira, 19 de março de 2010
Vivian Maier





Fotografias de Vivian Maier (1926-2009), fotógrafa anónima de rua, Chicago, anos 50. O seu trabalho foi descoberto durante um leilão de antiguidades por John Maloof que se tem dedicado à sua divulgação, assim como à recolha dos dados biográficos de Vivian.
quinta-feira, 18 de março de 2010
a rua de Fidel
Quando a oposição das pessoas ao regime não agrada há que retirar-lhes a capacidade de decidirem pela sua própria cabeça. Diminuir a sua luta com o argumento da marioneta – não são as Damas de Branco que decidem, são as forças estrangeiras contra-revolucionárias que as manipulam – dá muito jeito. Pode ser aplicado a todos os protestos contra o regime, não importa quais, apelando ao sentimento nacionalista da restante população ao remeter quem se manifesta para a categoria de traidor da pátria.
Erguem-se contra as “marionetas” em defesa de Castro e da rua que “é de Fidel” encenando o espectáculo da sua própria contradição. Os que protegem a propriedade de Fidel estão imunes a todas as manipulações incluindo as que saem do próprio regime embora ainda não tenham percebido que a rua é de todos os cubanos, incluindo os que se lhe opõem, e não de Fidel.
a forma como as coisas são e como poderiam ser
Tony Judt numa entrevista publicada na London Review of Books - The Way Things Are and How They Might Be - que vale a pena ler na totalidade porque é muito interessante, da qual traduzi este excerto sobre a linguagem (método Speedy Gonzalez como diz a Helena):
«Na América a má utilização da linguagem é mais cultural do que política. As pessoas acusam Obama de ser socialista. No entanto, ninguém leva isso muito a sério (…) Descreve-se toda a gente como tendo as mesmas oportunidades quando na realidade alguns têm mais oportunidades do que outros. E com esta linguagem enganadora de igualdade é muito mais fácil permitir que a desigualdade profunda aconteça.
Na Grã-Bretanha o abuso mais marcante da linguagem é a redefinição de privado, actividades económicas com fins lucrativos como serviços prestados pelo Estado. Um exemplo concreto é a forma como foi dado aos empresários privados o direito de gerir os lares de idosos. No entanto, ninguém quer soletrar isto dessa forma pelo que são descritos como 'fornecendo' um serviço, como se eles fossem o leiteiro que entrega o leite aos idosos. Impede as pessoas de compreenderem totalmente que o Estado entregou o seu mandato de responsabilidade a um agente privado cuja motivação é a de prestar o serviço mais barato possível e obter o maior lucro.
Na França acontece outra coisa, uma espécie de reformulação abusiva do republicanismo. O antigo ideal francês de republicanismo igualitário sem distinções, sem compromissos com a religião ou localismo, onde todos têm as mesmas oportunidades, falam a mesma língua, vivem na mesma França – um ideal inventado no fim do século XVIII como forma de fazer uma ruptura radical com o Ancient Régime – é agora usado para encobrir as desvantagens dos jovens, particularmente se são pretos ou morenos, dos subúrbios ou do Norte de África. A velha linguagem igualitária tem sido transfigurada ao dizer que todos temos as mesmas oportunidades, somos todos iguais, não falaremos do facto de seres mulher e morena, ou dar-te permissão para te vestires de forma diferente porque isso não seria republicano. Este subterfúgio permite um comportamento muito iliberal em nome de um “ideal liberal”.
(…)
Penso que precisamos é de um retorno à crença não na liberdade, porque isso é facilmente convertido noutra coisa, como vimos, mas na igualdade. Igualdade que não é a mesma coisa que mesmice. Igualdade de acesso à informação, igualdade de acesso ao conhecimento, igualdade de acesso à educação, igualdade de acesso ao poder e à política. Deveríamos estar mais preocupados do que estamos com as desigualdades de oportunidade, seja entre os jovens e os velhos ou entre aqueles com habilidades diferentes ou de diferentes regiões de um país. É outra maneira de falar de injustiça. Precisamos de redescobrir uma linguagem de dissidência. Não pode ser uma linguagem económica porque parte do problema é andarmos há demasiado tempo a falar sobre política numa linguagem económica onde tudo tem sido sobre crescimento, eficiência, produtividade e riqueza, e não suficientemente sobre ideais colectivos em torno dos quais nos podemos unir, em torno dos quais podemos zangar-nos juntos, em torno dos quais podemos ser colectivamente motivados, seja na questão da justiça, desigualdade, crueldade ou comportamento antiético. Livrámo-nos da linguagem com a qual o poderíamos fazer. E até redescobrirmos essa linguagem como seria possível vincularmo-nos? Não nos podemos reunir com base nas ideias do século XIX ou XX do progresso inevitável ou a progressão histórica natural do capitalismo para o socialismo ou o que quer que seja. Já não podemos acreditar nisso. E de qualquer maneira não pode fazer o trabalho por nós. Precisamos de redescobrir a nossa própria linguagem da política.»
domingo, 14 de março de 2010
pasion
Escrevo, escrevo, arabescos corridos da esquerda para a direita. A caligrafia dança no passo dos dedos que esgravatam almas de papel.
Ay, abrázame esta noche
aunque no tengas ganas
prefiero que me mientas
tristes breves nuestras vidas
acércate a mí
abrázame a ti por Dios
entrégate a mis brazos.
Canta a Lula Pena. Que pena, que pena que já não se dança.
