Quando a oposição das pessoas ao regime não agrada há que retirar-lhes a capacidade de decidirem pela sua própria cabeça. Diminuir a sua luta com o argumento da marioneta – não são as Damas de Branco que decidem, são as forças estrangeiras contra-revolucionárias que as manipulam – dá muito jeito. Pode ser aplicado a todos os protestos contra o regime, não importa quais, apelando ao sentimento nacionalista da restante população ao remeter quem se manifesta para a categoria de traidor da pátria.
Erguem-se contra as “marionetas” em defesa de Castro e da rua que “é de Fidel” encenando o espectáculo da sua própria contradição. Os que protegem a propriedade de Fidel estão imunes a todas as manipulações incluindo as que saem do próprio regime embora ainda não tenham percebido que a rua é de todos os cubanos, incluindo os que se lhe opõem, e não de Fidel.
quinta-feira, 18 de março de 2010
a rua de Fidel
a forma como as coisas são e como poderiam ser
Tony Judt numa entrevista publicada na London Review of Books - The Way Things Are and How They Might Be - que vale a pena ler na totalidade porque é muito interessante, da qual traduzi este excerto sobre a linguagem (método Speedy Gonzalez como diz a Helena):
«Na América a má utilização da linguagem é mais cultural do que política. As pessoas acusam Obama de ser socialista. No entanto, ninguém leva isso muito a sério (…) Descreve-se toda a gente como tendo as mesmas oportunidades quando na realidade alguns têm mais oportunidades do que outros. E com esta linguagem enganadora de igualdade é muito mais fácil permitir que a desigualdade profunda aconteça.
Na Grã-Bretanha o abuso mais marcante da linguagem é a redefinição de privado, actividades económicas com fins lucrativos como serviços prestados pelo Estado. Um exemplo concreto é a forma como foi dado aos empresários privados o direito de gerir os lares de idosos. No entanto, ninguém quer soletrar isto dessa forma pelo que são descritos como 'fornecendo' um serviço, como se eles fossem o leiteiro que entrega o leite aos idosos. Impede as pessoas de compreenderem totalmente que o Estado entregou o seu mandato de responsabilidade a um agente privado cuja motivação é a de prestar o serviço mais barato possível e obter o maior lucro.
Na França acontece outra coisa, uma espécie de reformulação abusiva do republicanismo. O antigo ideal francês de republicanismo igualitário sem distinções, sem compromissos com a religião ou localismo, onde todos têm as mesmas oportunidades, falam a mesma língua, vivem na mesma França – um ideal inventado no fim do século XVIII como forma de fazer uma ruptura radical com o Ancient Régime – é agora usado para encobrir as desvantagens dos jovens, particularmente se são pretos ou morenos, dos subúrbios ou do Norte de África. A velha linguagem igualitária tem sido transfigurada ao dizer que todos temos as mesmas oportunidades, somos todos iguais, não falaremos do facto de seres mulher e morena, ou dar-te permissão para te vestires de forma diferente porque isso não seria republicano. Este subterfúgio permite um comportamento muito iliberal em nome de um “ideal liberal”.
(…)
Penso que precisamos é de um retorno à crença não na liberdade, porque isso é facilmente convertido noutra coisa, como vimos, mas na igualdade. Igualdade que não é a mesma coisa que mesmice. Igualdade de acesso à informação, igualdade de acesso ao conhecimento, igualdade de acesso à educação, igualdade de acesso ao poder e à política. Deveríamos estar mais preocupados do que estamos com as desigualdades de oportunidade, seja entre os jovens e os velhos ou entre aqueles com habilidades diferentes ou de diferentes regiões de um país. É outra maneira de falar de injustiça. Precisamos de redescobrir uma linguagem de dissidência. Não pode ser uma linguagem económica porque parte do problema é andarmos há demasiado tempo a falar sobre política numa linguagem económica onde tudo tem sido sobre crescimento, eficiência, produtividade e riqueza, e não suficientemente sobre ideais colectivos em torno dos quais nos podemos unir, em torno dos quais podemos zangar-nos juntos, em torno dos quais podemos ser colectivamente motivados, seja na questão da justiça, desigualdade, crueldade ou comportamento antiético. Livrámo-nos da linguagem com a qual o poderíamos fazer. E até redescobrirmos essa linguagem como seria possível vincularmo-nos? Não nos podemos reunir com base nas ideias do século XIX ou XX do progresso inevitável ou a progressão histórica natural do capitalismo para o socialismo ou o que quer que seja. Já não podemos acreditar nisso. E de qualquer maneira não pode fazer o trabalho por nós. Precisamos de redescobrir a nossa própria linguagem da política.»
domingo, 14 de março de 2010
pasion
Escrevo, escrevo, arabescos corridos da esquerda para a direita. A caligrafia dança no passo dos dedos que esgravatam almas de papel.
Ay, abrázame esta noche
aunque no tengas ganas
prefiero que me mientas
tristes breves nuestras vidas
acércate a mí
abrázame a ti por Dios
entrégate a mis brazos.
Canta a Lula Pena. Que pena, que pena que já não se dança.
sábado, 13 de março de 2010
the man who isn't there

Look at the sky
It belonged to a guy
That I know
And I thought I forgot
Long ago
Look at the trees
Didnt stop at the top
Not for him
Used to borrow the wind
For a walk
Look in his eyes for a dying flare
Look for the wind in his yellow hair
And pretend
You see the man
Who isnt there
Look at the sea
used to save all his waves
for hellos
used to climb up
his highs, down his lows
Look at the birds
used to flock as he walked
through the street
used to fly down
and march at his feet
Look in his eyes for a dying flare
Look for the wind in his yellow hair
And pretend
You see the man
Who isnt there
>Oren Lavie - The Man Who Isn't There
sábado, 6 de março de 2010
quadro
Às vezes parece que vivemos o mesmo dia todos os dias. Há detalhes que mudam e funcionam como prevenção da monotonia, como se a vida fosse o genérico dos Simpsons em que o Bart é perpetuamente castigado mas escreve sempre uma coisa diferente no quadro.
Chuva e muito vento no monte dos vendavais. Uma macieira caiu derrubada pelo vento, depois um carvalho. O homem da casa perdeu metade da força e o televisor derreteu-se num curto-circuito.
Preocupo-me com os rapazes, se amanhã não escreverão nada no quadro. E se resolvem desistir e tombar um atrás do outro? Medos de que as crianças estejam infelizes, com mais preocupações e depressões que as gerações anteriores. Às vezes parece que vivemos um dia diferente e não sobrevivemos.
quinta-feira, 4 de março de 2010
dos blogues políticos e das suas motivações

The researchers found the three strongest initial motivations for blogging — “to let off steam,” “to keep track of your thoughts” and “to formulate new ideas” — were all based on the bloggers’ personal emotional or intellectual needs. Blogging, at the outset, was an outlet to clarify the person’s thoughts and/or express feelings such as frustration or anger.
But when asked why they’re blogging today, those three foundational motivations either decreased in importance or increased very slightly. In contrast, the extrinsic motivations — notions such as “to serve as a political watchdog” and “to influence public opinion” — saw “significant and sizable increases.” (The one exception was “to critique your political opponent,” which only increased marginally.)
(...)
In other words, if you feel your job is to inform the public, fact-check the mainstream media or simply help society, you’re more likely to present a fuller picture of the politicians you report on, even if you have a specific point of view. On the other hand, if you’re basically using the blog as an outlet to channel your anger or hone your already-solidified positions, you’re less likely to admit the other side may have a point.

Eu colocaria a maioria dos blogues políticos portugueses na categoria dos hone your already-solidified positions, alguns na categoria channel your anger e pouquíssimos na formulate new ideas mas, of course, todos querem influenciar a opinião pública. Ainda assim, o debate na blogosfera é mais interessante que o debate televisivo. Não tenho paciência para conversas em que todos falam ao mesmo tempo, uns por cima dos outros.
cartoons daqui
é a maternidade, não são os búfalos
“Zero vírgula 23 pontos percentuais por ano. É a este ritmo que tem diminuído o intervalo entre o rendimento médio de homens e mulheres em Portugal.
(...)
Mas a esperança continua longe de morrer. A prazo, as empresas terão de rever as estratégias porque "caçar búfalos deixou de ser uma função" diz Filomena Mónica, que conclui: "As coisas têm mudado, muito lentamente, mas têm mudado". Vão é mudando a zero vírgula 23 pontos percentuais por ano”
Interessante maneira de ver as coisas. Filomena Mónica acredita que os empresários ainda não perceberam que já não se caçam búfalos. Desde quando, salvo algumas honrosas excepções, é que as empresas revêem estratégias para pagar salários iguais? E se o fizessem, que estratégia seria essa? A estratégia de lucrar com tudo, ou seja, a diminuição do salário dos homens.
Hoje, em conversa com um empresário a propósito desta questão, fiquei a saber que há empresas que gostariam que as suas trabalhadoras tivessem mais filhos porque as despesas diminuiriam.
As empresas não vão resolver o problema da reprodução. As estratégias têm de vir de cima.
bicicleta
Um dia de indignação derrete-se no mundano. Vozes de protesto mingam e relaxam-se. Para a semana haverá outra indignação e depois outra e ainda outra. A política é uma bicicleta de ginástica que nos mantém a pedalar mas nos deprime. Olhos postos no coração que pulsa rodeado pelo contador de quilómetros ganhos e calorias perdidas, verificamos que se perdem quilómetros e se ganham calorias. Não estamos a ganhar músculo. É apenas mais gordura.
segunda-feira, 1 de março de 2010
miniatura
A Inge e o Kurt têm sempre um ou dois coelhos no jardim porque os netos gostam e porque atraem as crianças da vizinhança que vêm brincar com eles à sua porta e lhes enchem as janelas de risos e conversas infantis. Kurt foi perdendo os dedos ao longo dos anos, decepados pela maquinaria da carpintaria, mas os que lhe restam ainda servem para fazer trabalhos em madeira. Com uma perfeição que já não se usa, saem-lhe das mãos miniaturas de cozinhas, salas, escadas, casas de banho, e toda a mobília das inquilinas das casas de bonecas. Inge faz as cortinas, as toalhas de mesa, as colchas das camas, o guarda-roupa, os tapetes, todo o enxoval. Vão construindo uma aldeia onde não falta a pequena igreja e a escola. O Kurt e a Inge são namorados de infância e disseram-me em segredo que vão morrer no mesmo dia à mesma hora. As duas campas já estão prontas, deitadas lado a lado na miniatura do cemitério da aldeia.
repulsa
O pior da repulsa é quando ela é tão grande que não conseguimos lidar com o bicho. Ficamos paralisados de corpo inteiro fingindo a morte, como fazem algumas criaturas ameaçadas pelo predador.
Acontece-me isso com as baratas.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
mini

A publicidade da mini stout recupera e promove os desequilíbrios de poder na nossa cultura para servir o capitalismo. Isto nunca foi nem é uma visão feminista. Nada tem a ver com o controlo da mulher sobre a sua sexualidade. Tem a ver com o machismo e sexismo a que a mulher está sujeita todos os dias, incluindo os adolescentes onde este tipo de mentalidade – servir o homem - vai ganhando terreno; onde a mulher se submete (e tem de gostar de o fazer) a um prazer que é todo dele - o dela nem aparece no radar - para não ser vista como puritana e retrógrada.
Super Bock? Obrigada, mas não, obrigada.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
domingo, 21 de fevereiro de 2010
segunda língua
Não consegui ainda descobrir-lhe o sentido. As coisas oferecem-se-me como retalhos com os quais vou fazendo a manta. O que está por trás de tudo o que aparece; os movimentos, as palavras, a música, as imagens, as pequenas atenções – ainda - o ódio e a revolta, envolvem uma série de motivações profundas. Enriquecem o seu conteúdo e enriquecem o tipo de pessoas que somos, as nossas vidas, os relacionamentos, as crenças, os motivos, satisfações ou insatisfações; acalma os nossos medos. Empobrece-nos também porque se perde muito tempo com a insignificância, sobretudo a travestida de génio. O objectivo inicial de todos os objectivos é o mesmo, mas há muita coisa que nunca deveria ver a luz do dia. Algumas, felizmente, nunca a verão.
Há uma ruptura constante do blogue com o próprio blogue. Há sempre algo de novo, todos os dias, nem que seja no simples retomar das conversas do dia anterior, algumas do primeiro dia. Mas, dentro desse espaço o mais cativante não é isso. Há uma encenação trágico cómica com o melhor e o pior de nós. Pontos de encontro de vários pequenos mundos que se acotovelam enviando mensagens uns para os outros, como vizinhas palrando de janela para janela, ligam-se numa teia de interesses, de opiniões e de gostos comuns e desligam-se com fúria ou indiferença à mínima contrariedade. Não convém esquecer construir barreiras e demarcar fronteiras; de assinalar devidamente as trincheiras e as estradas sem saída. Sim, as estradas sem saída.

