Escrevo, escrevo, arabescos corridos da esquerda para a direita. A caligrafia dança no passo dos dedos que esgravatam almas de papel.
Ay, abrázame esta noche
aunque no tengas ganas
prefiero que me mientas
tristes breves nuestras vidas
acércate a mí
abrázame a ti por Dios
entrégate a mis brazos.
Canta a Lula Pena. Que pena, que pena que já não se dança.
domingo, 14 de março de 2010
pasion
sábado, 13 de março de 2010
the man who isn't there

Look at the sky
It belonged to a guy
That I know
And I thought I forgot
Long ago
Look at the trees
Didnt stop at the top
Not for him
Used to borrow the wind
For a walk
Look in his eyes for a dying flare
Look for the wind in his yellow hair
And pretend
You see the man
Who isnt there
Look at the sea
used to save all his waves
for hellos
used to climb up
his highs, down his lows
Look at the birds
used to flock as he walked
through the street
used to fly down
and march at his feet
Look in his eyes for a dying flare
Look for the wind in his yellow hair
And pretend
You see the man
Who isnt there
>Oren Lavie - The Man Who Isn't There
sábado, 6 de março de 2010
quadro
Às vezes parece que vivemos o mesmo dia todos os dias. Há detalhes que mudam e funcionam como prevenção da monotonia, como se a vida fosse o genérico dos Simpsons em que o Bart é perpetuamente castigado mas escreve sempre uma coisa diferente no quadro.
Chuva e muito vento no monte dos vendavais. Uma macieira caiu derrubada pelo vento, depois um carvalho. O homem da casa perdeu metade da força e o televisor derreteu-se num curto-circuito.
Preocupo-me com os rapazes, se amanhã não escreverão nada no quadro. E se resolvem desistir e tombar um atrás do outro? Medos de que as crianças estejam infelizes, com mais preocupações e depressões que as gerações anteriores. Às vezes parece que vivemos um dia diferente e não sobrevivemos.
quinta-feira, 4 de março de 2010
dos blogues políticos e das suas motivações

The researchers found the three strongest initial motivations for blogging — “to let off steam,” “to keep track of your thoughts” and “to formulate new ideas” — were all based on the bloggers’ personal emotional or intellectual needs. Blogging, at the outset, was an outlet to clarify the person’s thoughts and/or express feelings such as frustration or anger.
But when asked why they’re blogging today, those three foundational motivations either decreased in importance or increased very slightly. In contrast, the extrinsic motivations — notions such as “to serve as a political watchdog” and “to influence public opinion” — saw “significant and sizable increases.” (The one exception was “to critique your political opponent,” which only increased marginally.)
(...)
In other words, if you feel your job is to inform the public, fact-check the mainstream media or simply help society, you’re more likely to present a fuller picture of the politicians you report on, even if you have a specific point of view. On the other hand, if you’re basically using the blog as an outlet to channel your anger or hone your already-solidified positions, you’re less likely to admit the other side may have a point.

Eu colocaria a maioria dos blogues políticos portugueses na categoria dos hone your already-solidified positions, alguns na categoria channel your anger e pouquíssimos na formulate new ideas mas, of course, todos querem influenciar a opinião pública. Ainda assim, o debate na blogosfera é mais interessante que o debate televisivo. Não tenho paciência para conversas em que todos falam ao mesmo tempo, uns por cima dos outros.
cartoons daqui
é a maternidade, não são os búfalos
“Zero vírgula 23 pontos percentuais por ano. É a este ritmo que tem diminuído o intervalo entre o rendimento médio de homens e mulheres em Portugal.
(...)
Mas a esperança continua longe de morrer. A prazo, as empresas terão de rever as estratégias porque "caçar búfalos deixou de ser uma função" diz Filomena Mónica, que conclui: "As coisas têm mudado, muito lentamente, mas têm mudado". Vão é mudando a zero vírgula 23 pontos percentuais por ano”
Interessante maneira de ver as coisas. Filomena Mónica acredita que os empresários ainda não perceberam que já não se caçam búfalos. Desde quando, salvo algumas honrosas excepções, é que as empresas revêem estratégias para pagar salários iguais? E se o fizessem, que estratégia seria essa? A estratégia de lucrar com tudo, ou seja, a diminuição do salário dos homens.
Hoje, em conversa com um empresário a propósito desta questão, fiquei a saber que há empresas que gostariam que as suas trabalhadoras tivessem mais filhos porque as despesas diminuiriam.
As empresas não vão resolver o problema da reprodução. As estratégias têm de vir de cima.
bicicleta
Um dia de indignação derrete-se no mundano. Vozes de protesto mingam e relaxam-se. Para a semana haverá outra indignação e depois outra e ainda outra. A política é uma bicicleta de ginástica que nos mantém a pedalar mas nos deprime. Olhos postos no coração que pulsa rodeado pelo contador de quilómetros ganhos e calorias perdidas, verificamos que se perdem quilómetros e se ganham calorias. Não estamos a ganhar músculo. É apenas mais gordura.
segunda-feira, 1 de março de 2010
miniatura
A Inge e o Kurt têm sempre um ou dois coelhos no jardim porque os netos gostam e porque atraem as crianças da vizinhança que vêm brincar com eles à sua porta e lhes enchem as janelas de risos e conversas infantis. Kurt foi perdendo os dedos ao longo dos anos, decepados pela maquinaria da carpintaria, mas os que lhe restam ainda servem para fazer trabalhos em madeira. Com uma perfeição que já não se usa, saem-lhe das mãos miniaturas de cozinhas, salas, escadas, casas de banho, e toda a mobília das inquilinas das casas de bonecas. Inge faz as cortinas, as toalhas de mesa, as colchas das camas, o guarda-roupa, os tapetes, todo o enxoval. Vão construindo uma aldeia onde não falta a pequena igreja e a escola. O Kurt e a Inge são namorados de infância e disseram-me em segredo que vão morrer no mesmo dia à mesma hora. As duas campas já estão prontas, deitadas lado a lado na miniatura do cemitério da aldeia.
repulsa
O pior da repulsa é quando ela é tão grande que não conseguimos lidar com o bicho. Ficamos paralisados de corpo inteiro fingindo a morte, como fazem algumas criaturas ameaçadas pelo predador.
Acontece-me isso com as baratas.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
mini

A publicidade da mini stout recupera e promove os desequilíbrios de poder na nossa cultura para servir o capitalismo. Isto nunca foi nem é uma visão feminista. Nada tem a ver com o controlo da mulher sobre a sua sexualidade. Tem a ver com o machismo e sexismo a que a mulher está sujeita todos os dias, incluindo os adolescentes onde este tipo de mentalidade – servir o homem - vai ganhando terreno; onde a mulher se submete (e tem de gostar de o fazer) a um prazer que é todo dele - o dela nem aparece no radar - para não ser vista como puritana e retrógrada.
Super Bock? Obrigada, mas não, obrigada.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
domingo, 21 de fevereiro de 2010
segunda língua
Não consegui ainda descobrir-lhe o sentido. As coisas oferecem-se-me como retalhos com os quais vou fazendo a manta. O que está por trás de tudo o que aparece; os movimentos, as palavras, a música, as imagens, as pequenas atenções – ainda - o ódio e a revolta, envolvem uma série de motivações profundas. Enriquecem o seu conteúdo e enriquecem o tipo de pessoas que somos, as nossas vidas, os relacionamentos, as crenças, os motivos, satisfações ou insatisfações; acalma os nossos medos. Empobrece-nos também porque se perde muito tempo com a insignificância, sobretudo a travestida de génio. O objectivo inicial de todos os objectivos é o mesmo, mas há muita coisa que nunca deveria ver a luz do dia. Algumas, felizmente, nunca a verão.
Há uma ruptura constante do blogue com o próprio blogue. Há sempre algo de novo, todos os dias, nem que seja no simples retomar das conversas do dia anterior, algumas do primeiro dia. Mas, dentro desse espaço o mais cativante não é isso. Há uma encenação trágico cómica com o melhor e o pior de nós. Pontos de encontro de vários pequenos mundos que se acotovelam enviando mensagens uns para os outros, como vizinhas palrando de janela para janela, ligam-se numa teia de interesses, de opiniões e de gostos comuns e desligam-se com fúria ou indiferença à mínima contrariedade. Não convém esquecer construir barreiras e demarcar fronteiras; de assinalar devidamente as trincheiras e as estradas sem saída. Sim, as estradas sem saída.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
ainda sobre as burcas
Estive alguns dias ausente da blogosfera e só agora tenho oportunidade de voltar a este assunto.
A proibição da burca em alguns locais por motivos de segurança faz todo o sentido assim como nas escolas, onde a burca não está em causa porque já é proibida. Os meus comentários aqui e no Jugular referiam-se à proibição total.
As opiniões sobre a proibição da burca servem de teste de litmus ideológico. Se questionamos a proibição da burca logo aparece alguém a perguntar se usamos burca, se somos anti-feministas e pró taliban. Questionar a proibição não é sinónimo de ser pró burca. Ser a favor do livre arbítrio também não. Dizer que a proibição diminui os direitos da mulher não é o mesmo que dizer que a burca e tudo o que lhe está associado é um direito da mulher. É dizer que a proibição as faz menos iguais porque as torna únicas em não poderem vestir o que querem. Malalai Joya odeia a burca, usa-a por questões de segurança porque lhe permite deslocar-se anonimamente (tem uma sentença de morte a pairar sobre ela) mas, enquanto encoraja as mulheres a deixar de usá-la e arrisca a vida lutando pelos direitos delas no Afeganistão, defende que deixar a burca tem de ser uma decisão delas. É contra a burca, mas tem uma ideia diferente sobre como livrar o Afeganistão dela. Eu concordo com esta perspectiva.
Sobre a negociação; negociar com as opções oferecidas pelo opressor não é uma escolha livre, não é um sinal de liberdade, mas elas usarão todos os meios que julguem melhorar, por pouco que seja, as suas vidas. Da minha parte não se trata de admitir “em 2010 e no coração da Europa, que uma mulher negoceie a sua liberdade em troca de uma burqa”, mas sim de não admitir que o estado colabore com o encarceramento dentro de casa daquelas que só podem sair com uma burca. A Helena lembra o caso do Fritzl a propósito da lei punir o opressor mas o facto é que ele esteve impune por muitos anos e foi descoberto devido a um acaso.
O ridículo da polícia nas ruas europeias interpelando mulheres com burca para as multar, a par da humilhação delas - uma imagem que nos remete para as ruas de Teerão - é suficiente para ser contra a proibição.
Nesta entrevista à revista Elle em Agosto de 2009, Fadela Amara, fundadora das Ni Putes Ni Soumisses, defensora da proibição total da burca e do hijab, reconhece a dificuldade de aplicação de uma lei contra a burca.
«Si on me pose abruptement la question, je suis évidemment pour. Mais je comprends et j’imagine très bien les difficultés à appliquer une telle loi. Je pense que le débat de la commission chargée de réfléchir à cette question va permettre d’orienter efficacement les décisions qui doivent être prises. Très honnêtement, je souhaiterais qu’elles permettent de faire disparaître étape par étape les voiles intégraux. »
A proibição não resolve a desproporção nas relações de poder entre homens e mulheres. Resolve-se com o empenho do estado no apoio a programas eficazes de assistência, informação e educação para a igualdade. A luta pela igualdade é um esforço permanente de longo prazo, mas o sucesso desse esforço fica comprometido com a hostilização das mulheres que usam a burca, e das que não usam mas apoiam as primeiras. Como é que se integram as mulheres na igualdade sem a colaboração delas? A tradição pode ser opressora mas nunca o é tanto como a tradição dos outros quando ela se impõe pela força. A força e a estigmatização do outro aumentam a frustração na qual o radicalismo recruta e se consolida.


