sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

mini II



Subscrevo e deixo o link do Facebook para quem quiser associar-se.

mini



A publicidade da mini stout recupera e promove os desequilíbrios de poder na nossa cultura para servir o capitalismo. Isto nunca foi nem é uma visão feminista. Nada tem a ver com o controlo da mulher sobre a sua sexualidade. Tem a ver com o machismo e sexismo a que a mulher está sujeita todos os dias, incluindo os adolescentes onde este tipo de mentalidade – servir o homem - vai ganhando terreno; onde a mulher se submete (e tem de gostar de o fazer) a um prazer que é todo dele - o dela nem aparece no radar - para não ser vista como puritana e retrógrada.

Super Bock? Obrigada, mas não, obrigada.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

segunda língua

Não consegui ainda descobrir-lhe o sentido. As coisas oferecem-se-me como retalhos com os quais vou fazendo a manta. O que está por trás de tudo o que aparece; os movimentos, as palavras, a música, as imagens, as pequenas atenções – ainda - o ódio e a revolta, envolvem uma série de motivações profundas. Enriquecem o seu conteúdo e enriquecem o tipo de pessoas que somos, as nossas vidas, os relacionamentos, as crenças, os motivos, satisfações ou insatisfações; acalma os nossos medos. Empobrece-nos também porque se perde muito tempo com a insignificância, sobretudo a travestida de génio. O objectivo inicial de todos os objectivos é o mesmo, mas há muita coisa que nunca deveria ver a luz do dia. Algumas, felizmente, nunca a verão.

Há uma ruptura constante do blogue com o próprio blogue. Há sempre algo de novo, todos os dias, nem que seja no simples retomar das conversas do dia anterior, algumas do primeiro dia. Mas, dentro desse espaço o mais cativante não é isso. Há uma encenação trágico cómica com o melhor e o pior de nós. Pontos de encontro de vários pequenos mundos que se acotovelam enviando mensagens uns para os outros, como vizinhas palrando de janela para janela, ligam-se numa teia de interesses, de opiniões e de gostos comuns e desligam-se com fúria ou indiferença à mínima contrariedade. Não convém esquecer construir barreiras e demarcar fronteiras; de assinalar devidamente as trincheiras e as estradas sem saída. Sim, as estradas sem saída.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

ainda sobre as burcas

Estive alguns dias ausente da blogosfera e só agora tenho oportunidade de voltar a este assunto.

A proibição da burca em alguns locais por motivos de segurança faz todo o sentido assim como nas escolas, onde a burca não está em causa porque já é proibida. Os meus comentários aqui e no Jugular referiam-se à proibição total.

As opiniões sobre a proibição da burca servem de teste de litmus ideológico. Se questionamos a proibição da burca logo aparece alguém a perguntar se usamos burca, se somos anti-feministas e pró taliban. Questionar a proibição não é sinónimo de ser pró burca. Ser a favor do livre arbítrio também não. Dizer que a proibição diminui os direitos da mulher não é o mesmo que dizer que a burca e tudo o que lhe está associado é um direito da mulher. É dizer que a proibição as faz menos iguais porque as torna únicas em não poderem vestir o que querem. Malalai Joya odeia a burca, usa-a por questões de segurança porque lhe permite deslocar-se anonimamente (tem uma sentença de morte a pairar sobre ela) mas, enquanto encoraja as mulheres a deixar de usá-la e arrisca a vida lutando pelos direitos delas no Afeganistão, defende que deixar a burca tem de ser uma decisão delas. É contra a burca, mas tem uma ideia diferente sobre como livrar o Afeganistão dela. Eu concordo com esta perspectiva.

Sobre a negociação; negociar com as opções oferecidas pelo opressor não é uma escolha livre, não é um sinal de liberdade, mas elas usarão todos os meios que julguem melhorar, por pouco que seja, as suas vidas. Da minha parte não se trata de admitir “em 2010 e no coração da Europa, que uma mulher negoceie a sua liberdade em troca de uma burqa”, mas sim de não admitir que o estado colabore com o encarceramento dentro de casa daquelas que só podem sair com uma burca. A Helena lembra o caso do Fritzl a propósito da lei punir o opressor mas o facto é que ele esteve impune por muitos anos e foi descoberto devido a um acaso.

O ridículo da polícia nas ruas europeias interpelando mulheres com burca para as multar, a par da humilhação delas - uma imagem que nos remete para as ruas de Teerão - é suficiente para ser contra a proibição.

Nesta entrevista à revista Elle em Agosto de 2009, Fadela Amara, fundadora das Ni Putes Ni Soumisses, defensora da proibição total da burca e do hijab, reconhece a dificuldade de aplicação de uma lei contra a burca.

«Si on me pose abruptement la question, je suis évidemment pour. Mais je comprends et j’imagine très bien les difficultés à appliquer une telle loi. Je pense que le débat de la commission chargée de réfléchir à cette question va permettre d’orienter efficacement les décisions qui doivent être prises. Très honnêtement, je souhaiterais qu’elles permettent de faire disparaître étape par étape les voiles intégraux. »

A proibição não resolve a desproporção nas relações de poder entre homens e mulheres. Resolve-se com o empenho do estado no apoio a programas eficazes de assistência, informação e educação para a igualdade. A luta pela igualdade é um esforço permanente de longo prazo, mas o sucesso desse esforço fica comprometido com a hostilização das mulheres que usam a burca, e das que não usam mas apoiam as primeiras. Como é que se integram as mulheres na igualdade sem a colaboração delas? A tradição pode ser opressora mas nunca o é tanto como a tradição dos outros quando ela se impõe pela força. A força e a estigmatização do outro aumentam a frustração na qual o radicalismo recruta e se consolida.

sábado, 30 de janeiro de 2010

chatos

Ao ler as caixas de comentários onde se discute a problemática da burqa reparo que o comentário mais recorrente é deste género:

Se querem andar de véu que vão para o país delas.

Há uma multidão desejosa de espalhar este pedaço de alma por tudo quanto é sítio, não apenas cá mas também nos sites estrangeiros. Que se passa com as pessoas? Acham que é sexy? Das 1.900 mulheres que usam o véu em França, dois terços são francesas e um pouco menos da metade são-no de segunda e terceira geração. Mas mesmo que assim não fosse, este tipo de comentário continuaria a não ser inteligente, a nada acrescentar ao debate e a ser revelador de uma mente profundamente chata.



via Liberation

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

guerra dos véus

Malak Hifni Nassef (1886 - 1918), feminista egípcia, dizia a propósito do livro “Emancipação da Mulher” de Qasim Amin, que se no passado o homem as mandava cobrir o rosto, elas cobriam-no e se agora as mandava descobri-lo, elas descobriam-no, afirmando de seguida que se não havia dúvidas que ele tinha errado contra elas diminuindo os seus direitos no passado, errava agora também diminuindo os seus direitos no presente. A decisão de tirar ou pôr nunca era delas.

Na luta dos véus, estou com Malak. Construímos toda uma simbologia baseada na burqa mas ela assenta em grande parte no seu uso obrigatório e na punição violenta das infractoras. Lá no fundo a maior repulsa é essa. Convém não esquecer.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Network


Do filme Network (1976)

«You are an old man who thinks in terms of nations and peoples. There are no nations. There are no peoples. There are no Russians. There are no Arabs. There are no third worlds. There is no West. There is only one holistic system of systems, one vast and immane, interwoven, interacting, multivariate, multinational dominion of dollars. Petro-dollars, electro-dollars, multi-dollars, reichmarks, rins, rubles, pounds, and shekels.
(...)
We no longer live in a world of nations and ideologies, Mr. Beale. The world is a college of corporations, inexorably determined by the immutable bylaws of business. The world is a business, Mr. Beale. It has been since man crawled out of the slime. And our children will live, Mr. Beale, to see that perfect world in which there's no war or famine, oppression or brutality -- one vast and ecumenical holding company, for whom all men will work to serve a common profit, in which all men will hold a share of stock, all necessities provided, all anxieties tranquilized, all boredom amused.

And I have chosen you, Mr. Beale, to preach this evangel.

Beale: But why me?

Jensen: Because you're on television, dummy. Sixty million people watch you every night of the week, Monday through Friday.»


feminismo

Eu não sou feminista, mas as mulheres têm de ter as mesmas oportunidades que os homens. Não sou feminista mas as mulheres têm de ganhar o mesmo que os homens. Não sou feminista mas sou contra o sexismo. Estas e outras frases semelhantes, que se podem resumir numa só - não sou feminista, mas sou a favor da igualdade dos géneros - são afirmações que nos habituamos a ouvir à nossa volta no meio dos aplausos de interlocutores masculinos.

Ao contrário dos outros “ismos” o feminismo tem a particularidade de poder ser definido e vivido individualmente e ao mesmo tempo ser visto como uma ameaça quando se assume como colectivo. Cada mulher define-o como quer, como lhe dá mais jeito, retira dele as partes que lhe interessam e recusa as que estorvam os seus objectivos pessoais ou que esbarram nas suas convicções. Podemos até tirar-lhe a palavra. Podemos dizer que somos femininas e não feministas e assim ridicularizar quem acredita que o primeiro não existe no segundo. Ficam à toa sem saber como atacar aquilo que é na sua essência feminista mas já não parece feminista porque se declara feminino.



Por cá quase ninguém milita no feminismo mas toda a gente milita na feminilidade. De facto, o feminismo tem de tal forma má reputação (em parte, graças ao estereótipo representado na imagem), que a coisa mais feminista a fazer no Portugal de hoje talvez seja proclamar a feminilidade como antónimo do palavrão. Libertem-se pois as oprimidas pela palavra feminismo, mas não sejam estúpidas. Não se ponham a definir a feminilidade pois correm o risco de acabarem a comparar o tamanho dos pêlos com as próximas gerações enquanto eles continuam a passar-vos a perna.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

castigo

A ciência da Educação já deve ter inventado de tudo para disciplinar as mentes e os corpos mais rebeldes mas ainda não perdeu a capacidade de nos surpreender. Numa escola do Reino Unido a disciplina passa por Mozart, Verdi e Bach. Parece que a música desses compositores tem efeitos positivos no comportamento e aproveitamento escolar dos alunos. Não, não se trata de elevar a experiência musical dos pupilos. É castigo.

Youngsters at other schools might expect lines or a 30-minute detention, but those caught breaking the rules at West Park have to sit in silence for an hour listening to classical music on a Friday evening.
(…)
"I can hear the groans as it starts but I always ensure the volume is high. Hopefully, I open their ears to an experience they don't normally have and it seems many of them don't want to have it again, so it's both educational and acts as a deterrent."

Se falhar a longo prazo - os alunos podem começar a gostar do castigo - a escola pode sempre tentar o método Clockwork Orange.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

nojo

As escutas feitas a Pinto da Costa estão no You Tube, leio no Conquilhas. Quando julgamos que isto não pode piorar, piora.