segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

promessa

O que é uma jovem promessa? Um jovem que promete qualquer coisa, geralmente de forma involuntária. Uma expressão que pretende identificar os que vão fazer qualquer coisa para o avanço da humanidade dos que não vão, dos que os vão adular, dos que vão votar neles, dos que vão trabalhar para eles, dos que vão passar fome por eles.

Gostaria de pensar na minha pessoa como uma promessa. Na minha juventude as promessas não passavam dos 18 anos. Éra-se uma promessa na infância e na adolescência. Hoje, um velho de trinta anos ainda pode ser uma jovem promessa, mas os trinta já lá vão. Depois dos quarenta ninguém é jovem e muito menos promessa. Amanhã talvez a juventude se estenda aos quarenta e eu terei cinquenta. É sempre assim década a década. Fora do tempo nunca prometo nada.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Haiti

«A true revolution of values will soon cause us to question the fairness and justice of many of our past and present policies. On the one hand we are called to play the good Samaritan on life’s roadside; but that will be only an initial act. One day we must come to see that the whole Jericho road must be transformed so that men and women will not be constantly beaten and robbed as they make their journey on life’s highway. True compassion is more than flinging a coin to a beggar; it is not haphazard and superficial. It comes to see that an edifice which produces beggars needs restructuring. A true revolution of values will soon look uneasily on the glaring contrast of poverty and wealth.»

Martin Luther King - “Beyond Vietnam.”

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

bomboca

A Quitéria separa cuidadosamente o lixo, lava as embalagens e os vidros à mão e coloca-o em sacos do supermercado. Ralha aos filhos quando se descuidam e misturam o plástico com o cartão. O homem adaptou-se, finalmente, e já é quase tão exigente quanto ela. Ainda não se habituou a lavar as embalagens da manteiga e as latas do atum mas a Quitéria sabe que é uma questão de tempo. O trabalho sobre os três erres (reciclar, reduzir, reutilizar) já está pronto e arrumado na mochila do filho. A Quitéria fê-lo no computador sem precisar de copiar e colar o texto da Wikipédia como fazem os outros pais quando os filhos trazem trabalhos da escola. Veste o casaco e agarra nos quatro sacos de lixo. Desce no elevador, atravessa a rua, abre a tampa do contentor e coloca lá um dos sacos. Ao lado há um vidrão para onde atira as garrafas de vidro, uma a uma. Os contentores para cartão e para embalagens ficam na outra rua, por isso, a Quitéria olha para um lado, para o outro e deposita os dois sacos que restam no chão, muito encostadinhos à bomboca do lixo doméstico, antes de voltar a entrar no prédio, subir no elevador e dar o beijo de boas-noites nos filhos.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

avc

O 26 fez-me sinal com a mão para que me aproximasse. Cheguei-me ao pé dele e a mão agarrou a minha com toda a força, muita para corpo tão pouco, quase caí por cima dele. Não entendia o que dizia sob a máscara de oxigénio. Enfiei-lhe o braço por baixo do lençol, seria frio? O braço estava gelado embora o quarto estivesse muito quente. Será um doente terminal como o 25 antes do 25 ser o padre? O padre que tem mais visitas que o São Bentinho da Porta Aberta. São muitas mas demoram-se pouco. Não quero cansar o senhor padre, diz uma, não se preocupe com nada que nós tratamos de tudo, diz outro – o padre não parece nada preocupado -, eu vejo o que está marcado e despacho as missas, diz um padre pequenino e gorducho. Uma mulher em forma de barril apresenta-se, “o senhor padre não me conhece, sou do voluntariado” e aponta para as mamas onde ondula a identificação estampada na t-shirt, e que a dona fulana de tal lhe pediu que fosse ao piso nove ver se o senhor padre precisava de alguma coisa; falava muito alto como se tivesse engolido um megafone, como se o padre fosse surdo e, quem sabe, burro porque repetia tudo duas vezes às vezes três. Nos intervalos das visitas o padre adormece sem esforço soltando roncadelas fenomenais que fazem estremecer os soros pendurados por cima das camas. Uma mulher de passo elegante e pulsos finos entrou. Percebe-se que aquela era a visita que ele esperava e falam carinhosamente um com o outro, baixinho, segurando-se pelas mãos. Depois de ela sair já não adormece.
O 26 continuava agarrado à minha mão e finalmente entendi. Queria falar urgentemente com a mulher e chamou-me Paula. Os confusos inquietam-me. Não é preciso muito para duvidar se são eles se sou eu quem confunde tudo.
O 27, de costas viradas para o 26 e o 25, observa os néones pela janela, as filas de trânsito na circular que entopem os desvios para o hospital e para o shopping, a chuva que tem caído sem parar, os pequenos diamantes nos vidros das janelas. Junto a si o telemóvel e a Der Spiegel de há quinze dias que ele vai lendo aos soluços. É por ele que estou aqui, à conta do arrastar da fala e da perda de força na metade esquerda do corpo, tal como nos anúncios que este Natal se materializaram em todas as paragens de autocarro.

domingo, 3 de janeiro de 2010

sábado, 2 de janeiro de 2010

máquinas de ouvir

Antes da descoberta do radar era assim que os exércitos tentavam prever a aproximação dos aviões antes de entrarem no campo visual. Fascinante.




to be continued

O 26 tem um tubo enfiado no nariz e uma máscara de oxigénio que cobre o tubo, o nariz e a boca. O 25 de ontem morreu. Foi substituído por outro que tem setenta anos e é padre. “É preciso ter muito azar”, disse o meu filho, “morrer a poucos dias de completar cem anos”. Para ele o azar é a impossibilidade de alcançar um número raro. Seria um azar estar perto de Plutão e não aterrar para podermos brincar com o nosso peso. O azar não é morrer, é morrer com noventa e nove anos e 360 dias. O padre ocupa agora a cama 25, insuspeito da morte do predecessor que ainda agora ali respirava. Alisou os lençóis sobre o pijama de flanela às riscas azuis e brancas, recostou-se dentro da cova deixada pelo cadáver no colchão e adormeceu inspirando roncos e expirando sibilos. Brevemente um colega de profissão estará a rezar a ladainha dos funerais sobre o féretro e a carimbar o passaporte do 25 de 99 para o paraíso. Não é essa ideia do depois uma forma de evitar celebrar devidamente uma vida? Quando morremos essa é a nossa história e acaba ali. Não há nada de reconfortante em chegar à última cena de um filme e descobrir que a história afinal não acabou, que termina sem terminar em to be continued.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

lata é coisa que nunca lhe há-de faltar

«The Danish police are resorting to brutal methods to crush resistance; many protesters are being preventively arrested.
(...)
As television channels have broadcast the footage, the world has been able to see the fascist methods used against the people in Copenhagen. The protesters, young people in the main, who have been repressed, have earned the solidarity of the peoples.»

Estas palavras saíram da pena desse grande defensor das liberdades civis dos cubanos, Fidel Castro.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

bom natal



Era véspera de Natal e dizia eu aos meus filhos que na minha meninice não havia Pai-Natal. Havia o menino Jesus que era quem trazia as prendas. O mais novo vira-se para mim:
- Que lhe aconteceu? Cansou-se?

sábado, 12 de dezembro de 2009

sê homem, usa o hijab

Majid Tavakoli, estudante iraniano que discursou numa manifestação anti-governo na universidade de Teerão, foi preso esta semana pelas autoridades iranianas. Para o humilharem, publicaram fotografias suas onde aparece com o hijab (véu), uma prática antiga que se destina a provar ao público que os membros da oposição são "menos que homens" a quem falta coragem e bravura. Mas, desta vez, os homens do movimento anti-governo responderam prontamente trocando as fotografias dos seus perfis na internet por outras onde aparecem com o hijab, transformando uma táctica de humilhação num símbolo de coragem e respeito pelos presos políticos. O hijab, normalmente visto como símbolo da opressão feminina, é assim subvertido e recriado como símbolo de resistência masculina e de solidariedade entre os membros do movimento de libertação iraniano.

Criaram ainda este vídeo impressionante.



Be a man é o site que está a recolher as fotografias.


sábado, 5 de dezembro de 2009

livros com vida

rapaz de veludo

Numa casa na baixa do Porto havia um pátio onde nas tardes delicadas de Março o rapaz de calções de veludo entretinha as convidadas do chá. Um pequeno Mozart, dizia a mãe. Um prodígio, diziam as outras. Ele sorria e atacava de novo o violino comovendo os vidros das clarabóias e as areias do granito.
Uma rapariga com um vestido preto desmedido cintado por um avental branco devorava uma fatia de pão com queijo na sala de costura. Era uma criança, não mais de dez anos, aproximadamente os mesmos do rapaz de veludo. Uma maravilha, pensava. Os dedos imitando uma pinça recolhiam uma a uma as pérolas de milho que caíam no regaço. Sôfrega, fazia-as descer pelo esófago aos trambolhões com o último átomo de queijo, mantendo-se imóvel até ouvir o estrondo da queda numa caverna maior que ela. Magríssima, não andava muito longe do esqueleto que encontrara nessa manhã dentro do caixão que estava debaixo da cama. A curiosidade rendida ao medo acabou por ceder às noites mal dormidas; não era fácil adormecer com um caixão sob a cama. Puxou a enorme caixa negra para fora do seu túmulo, os caracteres escritos a giz junto aos ferrolhos diziam: Mozart. Abriu-a e lá de dentro um sorriso ossudo ameaçou comê-la. A tampa caiu com um alarido de metal, madeiras e ossos, julgou também de vozes, talvez as vozes dos pequenos seres, alguns muito parecidos com bebés, conservados em frascos dentro dos armários da sala contínua àquela onde estava proibida de entrar. Lembrou-se do pai e das mãos que guardaram as suas durante toda a viagem na camioneta que atravessou colinas e vales, por estradas de paralelos ladeadas por vinhas, campos de milho, pastos de vacas, girassóis orgulhosos nos jardins dos solares. Mãos que nunca descolaram das suas quando cruzaram ruas e praças invictas nem quando se detiveram em frente da casa destino. Beijou o anel da mulher que surgiu à porta ao som do batente, “a sua bênção, tia” e o pai pousou a mão dela na mão da tia-avó dizendo-lhe, “aqui está a minha menina” e perdeu-se no meio da multidão. Escorregou pela rua em direcção ao rio, o pai, imaginando a filha médica, demasiado confiante no mecenato da tia, a tia que não tinha filhos e tinha posses e lhe tinha escrito “manda-me a menina” quando soube que a menina era inteligente e que pena seria ficar apenas com o ensino primário.
O rapaz de veludo recolhia os aplausos do público do pátio. A rapariga ajeitou o laço do avental e os punhos de renda do uniforme que a tia a fazia vestir quando recebia familiares, outros convidados ou as senhoras que introduzia na sala que lhe estava proibida.
- Quando estiveres de uniforme não me chames tia. Chama-me “minha senhora”.
Encostou o nariz à vidraça observando o rapaz de veludo inchado de acordes de violino. Que bem que o primo tocava e como gostaria ela de aprender violino para chorar assim os abortados nos frascos e fazer dançar o esqueleto nas noites de insónia.

domingo, 29 de novembro de 2009

King & King


O livro conta a história de um príncipe que procura alguém com quem casar. São-lhe apresentadas várias princesas por quem ele não sente qualquer entusiasmo. Uma delas vem acompanhada do irmão e é por este que o príncipe se apaixona. Casam-se e são felizes para sempre.

Na opinião de algumas pessoas, ler esta história aos nossos filhos na escola é uma das consequências catastróficas da legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Entendem que é preciso proteger as crianças da imoralidade que é o amor destes dois príncipes e exigem um referendo ao casamento, que vêem como uma espécie de conspiração gay que inclui a adopção de crianças e a educação sexual nas escolas com o objectivo de destruir a família tradicional, para impedir que essa Hidra de Lerna infecte as cabeças dos mais jovens.

Esta estória transmite a ideia de que a felicidade dos que não se encaixam no padrão da maioria é uma aspiração tão humana como a dessa maioria. Como é possível ver através dela – como faz o casal no vídeo incluído neste texto – a introdução da sexualidade nas escolas e não ver o mesmo nas estórias em que o príncipe casa com uma princesa? E como é que se “protege” uma criança da descoberta de uma realidade, que um dos seus colegas de turma tem dois papás ou duas mamãs ou que a mamã tem uma namorada e o papá tem um namorado? Não será necessário exigir também que esses meninos sejam censurados, que não falem da sua família na escola, que sejam proibidos de desenhar o agregado familiar?

É compreensível que as pessoas se assustem quando uma realidade subterrânea, que toda a gente sabe que existe mas prefere ignorar, passa a ser assumida e integrada com honestidade no nosso quotidiano. O casamento é um contracto mas para muita gente está carregado de simbolismo emocional. Não é fácil aceitar um modelo diferente daquele no qual fomos educados e no qual educamos os nossos filhos, mas o casamento entre pessoas do mesmo sexo acabará por ser uma realidade. O desafio não é tentar impedir uma inevitabilidade mas sim o de nos educarmos para ela.