Antes da descoberta do radar era assim que os exércitos tentavam prever a aproximação dos aviões antes de entrarem no campo visual. Fascinante.


Antes da descoberta do radar era assim que os exércitos tentavam prever a aproximação dos aviões antes de entrarem no campo visual. Fascinante.


O 26 tem um tubo enfiado no nariz e uma máscara de oxigénio que cobre o tubo, o nariz e a boca. O 25 de ontem morreu. Foi substituído por outro que tem setenta anos e é padre. “É preciso ter muito azar”, disse o meu filho, “morrer a poucos dias de completar cem anos”. Para ele o azar é a impossibilidade de alcançar um número raro. Seria um azar estar perto de Plutão e não aterrar para podermos brincar com o nosso peso. O azar não é morrer, é morrer com noventa e nove anos e 360 dias. O padre ocupa agora a cama 25, insuspeito da morte do predecessor que ainda agora ali respirava. Alisou os lençóis sobre o pijama de flanela às riscas azuis e brancas, recostou-se dentro da cova deixada pelo cadáver no colchão e adormeceu inspirando roncos e expirando sibilos. Brevemente um colega de profissão estará a rezar a ladainha dos funerais sobre o féretro e a carimbar o passaporte do 25 de 99 para o paraíso. Não é essa ideia do depois uma forma de evitar celebrar devidamente uma vida? Quando morremos essa é a nossa história e acaba ali. Não há nada de reconfortante em chegar à última cena de um filme e descobrir que a história afinal não acabou, que termina sem terminar em to be continued.
«The Danish police are resorting to brutal methods to crush resistance; many protesters are being preventively arrested.
(...)
As television channels have broadcast the footage, the world has been able to see the fascist methods used against the people in Copenhagen. The protesters, young people in the main, who have been repressed, have earned the solidarity of the peoples.»
Estas palavras saíram da pena desse grande defensor das liberdades civis dos cubanos, Fidel Castro.
Majid Tavakoli, estudante iraniano que discursou numa manifestação anti-governo na universidade de Teerão, foi preso esta semana pelas autoridades iranianas. Para o humilharem, publicaram fotografias suas onde aparece com o hijab (véu), uma prática antiga que se destina a provar ao público que os membros da oposição são "menos que homens" a quem falta coragem e bravura. Mas, desta vez, os homens do movimento anti-governo responderam prontamente trocando as fotografias dos seus perfis na internet por outras onde aparecem com o hijab, transformando uma táctica de humilhação num símbolo de coragem e respeito pelos presos políticos. O hijab, normalmente visto como símbolo da opressão feminina, é assim subvertido e recriado como símbolo de resistência masculina e de solidariedade entre os membros do movimento de libertação iraniano.
Criaram ainda este vídeo impressionante.
Be a man é o site que está a recolher as fotografias.
Numa casa na baixa do Porto havia um pátio onde nas tardes delicadas de Março o rapaz de calções de veludo entretinha as convidadas do chá. Um pequeno Mozart, dizia a mãe. Um prodígio, diziam as outras. Ele sorria e atacava de novo o violino comovendo os vidros das clarabóias e as areias do granito.
Uma rapariga com um vestido preto desmedido cintado por um avental branco devorava uma fatia de pão com queijo na sala de costura. Era uma criança, não mais de dez anos, aproximadamente os mesmos do rapaz de veludo. Uma maravilha, pensava. Os dedos imitando uma pinça recolhiam uma a uma as pérolas de milho que caíam no regaço. Sôfrega, fazia-as descer pelo esófago aos trambolhões com o último átomo de queijo, mantendo-se imóvel até ouvir o estrondo da queda numa caverna maior que ela. Magríssima, não andava muito longe do esqueleto que encontrara nessa manhã dentro do caixão que estava debaixo da cama. A curiosidade rendida ao medo acabou por ceder às noites mal dormidas; não era fácil adormecer com um caixão sob a cama. Puxou a enorme caixa negra para fora do seu túmulo, os caracteres escritos a giz junto aos ferrolhos diziam: Mozart. Abriu-a e lá de dentro um sorriso ossudo ameaçou comê-la. A tampa caiu com um alarido de metal, madeiras e ossos, julgou também de vozes, talvez as vozes dos pequenos seres, alguns muito parecidos com bebés, conservados em frascos dentro dos armários da sala contínua àquela onde estava proibida de entrar. Lembrou-se do pai e das mãos que guardaram as suas durante toda a viagem na camioneta que atravessou colinas e vales, por estradas de paralelos ladeadas por vinhas, campos de milho, pastos de vacas, girassóis orgulhosos nos jardins dos solares. Mãos que nunca descolaram das suas quando cruzaram ruas e praças invictas nem quando se detiveram em frente da casa destino. Beijou o anel da mulher que surgiu à porta ao som do batente, “a sua bênção, tia” e o pai pousou a mão dela na mão da tia-avó dizendo-lhe, “aqui está a minha menina” e perdeu-se no meio da multidão. Escorregou pela rua em direcção ao rio, o pai, imaginando a filha médica, demasiado confiante no mecenato da tia, a tia que não tinha filhos e tinha posses e lhe tinha escrito “manda-me a menina” quando soube que a menina era inteligente e que pena seria ficar apenas com o ensino primário.
O rapaz de veludo recolhia os aplausos do público do pátio. A rapariga ajeitou o laço do avental e os punhos de renda do uniforme que a tia a fazia vestir quando recebia familiares, outros convidados ou as senhoras que introduzia na sala que lhe estava proibida.
- Quando estiveres de uniforme não me chames tia. Chama-me “minha senhora”.
Encostou o nariz à vidraça observando o rapaz de veludo inchado de acordes de violino. Que bem que o primo tocava e como gostaria ela de aprender violino para chorar assim os abortados nos frascos e fazer dançar o esqueleto nas noites de insónia.

O livro conta a história de um príncipe que procura alguém com quem casar. São-lhe apresentadas várias princesas por quem ele não sente qualquer entusiasmo. Uma delas vem acompanhada do irmão e é por este que o príncipe se apaixona. Casam-se e são felizes para sempre.
Na opinião de algumas pessoas, ler esta história aos nossos filhos na escola é uma das consequências catastróficas da legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Entendem que é preciso proteger as crianças da imoralidade que é o amor destes dois príncipes e exigem um referendo ao casamento, que vêem como uma espécie de conspiração gay que inclui a adopção de crianças e a educação sexual nas escolas com o objectivo de destruir a família tradicional, para impedir que essa Hidra de Lerna infecte as cabeças dos mais jovens.
Esta estória transmite a ideia de que a felicidade dos que não se encaixam no padrão da maioria é uma aspiração tão humana como a dessa maioria. Como é possível ver através dela – como faz o casal no vídeo incluído neste texto – a introdução da sexualidade nas escolas e não ver o mesmo nas estórias em que o príncipe casa com uma princesa? E como é que se “protege” uma criança da descoberta de uma realidade, que um dos seus colegas de turma tem dois papás ou duas mamãs ou que a mamã tem uma namorada e o papá tem um namorado? Não será necessário exigir também que esses meninos sejam censurados, que não falem da sua família na escola, que sejam proibidos de desenhar o agregado familiar?
É compreensível que as pessoas se assustem quando uma realidade subterrânea, que toda a gente sabe que existe mas prefere ignorar, passa a ser assumida e integrada com honestidade no nosso quotidiano. O casamento é um contracto mas para muita gente está carregado de simbolismo emocional. Não é fácil aceitar um modelo diferente daquele no qual fomos educados e no qual educamos os nossos filhos, mas o casamento entre pessoas do mesmo sexo acabará por ser uma realidade. O desafio não é tentar impedir uma inevitabilidade mas sim o de nos educarmos para ela.
Após vários pedidos dirigidos à Alemanha pelo Ruanda para a detenção e extradição de Ignace Murwanashyaka, líder das FDLR - milícia Hutu que agrega grupos directamente ligados ao genocídio de 1994, responsável por inúmeros crimes contra a humanidade no Congo - assim como pressões nesse sentido vindas de grupos alemães e internacionais defensores dos direitos humanos, as autoridades alemãs procederam finalmente à sua detenção.
The pressure on the German authorities had recently increased. The United Nations expressed its surprise regarding the ease with which Murwanashyaka could control his militia groups in Congo from Mannheim. - Spiegel Online
Mais incrível é Murwanashyaka não só controlar as milícias a partir do paraíso alemão como ter também estatuto de asilado nesse país com base no facto de ser “vítima de perseguição política”.
Images of broken light
Which dance before me like a million eyes
They call me on and on across the universe,
Thoughts meander like a restless wind
Inside a letter box
They tumble blindly
As they make their way across the universe
E o pagamento como é? O vendedor começa a explicar o financiamento. Não há qualquer tentativa de me convencer a optar pelo pronto pagamento, nem tão pouco o menciona, porque ninguém tem dinheiro para comprar nada a pronto pagamento e, apesar da crise, ou talvez devido a ela, já não sei, os vendedores recebem comissão pelo endividamento do cliente. Penhoramos as nossas vidas e há quem lucre com isso, contando com esse ganho extra para tirar a sua do prego. É tudo muito deprimente. Analiso o termo penhora e pergunto-me se cada memória traumatizante da nossa história pode resumir-se numa palavra.

«Manuel deixou o seu coração em África. Também conheço quem lá tenha deixado dois automóveis ligeiros, um veículo todo-o-terreno, uma carrinha de carga, mais uma camioneta, duas vivendas, três machambas, bem como a conta no Banco Nacional Ultramarino, já convertida em meticais.
Quem é que não foi deixando os seus múltiplos corações algures? Eu há muitos anos que o substituí pela aorta.»
Dois excertos aqui e aqui.
Adenda : Já está disponível no site da editora