quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

lata é coisa que nunca lhe há-de faltar

«The Danish police are resorting to brutal methods to crush resistance; many protesters are being preventively arrested.
(...)
As television channels have broadcast the footage, the world has been able to see the fascist methods used against the people in Copenhagen. The protesters, young people in the main, who have been repressed, have earned the solidarity of the peoples.»

Estas palavras saíram da pena desse grande defensor das liberdades civis dos cubanos, Fidel Castro.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

bom natal



Era véspera de Natal e dizia eu aos meus filhos que na minha meninice não havia Pai-Natal. Havia o menino Jesus que era quem trazia as prendas. O mais novo vira-se para mim:
- Que lhe aconteceu? Cansou-se?

sábado, 12 de dezembro de 2009

sê homem, usa o hijab

Majid Tavakoli, estudante iraniano que discursou numa manifestação anti-governo na universidade de Teerão, foi preso esta semana pelas autoridades iranianas. Para o humilharem, publicaram fotografias suas onde aparece com o hijab (véu), uma prática antiga que se destina a provar ao público que os membros da oposição são "menos que homens" a quem falta coragem e bravura. Mas, desta vez, os homens do movimento anti-governo responderam prontamente trocando as fotografias dos seus perfis na internet por outras onde aparecem com o hijab, transformando uma táctica de humilhação num símbolo de coragem e respeito pelos presos políticos. O hijab, normalmente visto como símbolo da opressão feminina, é assim subvertido e recriado como símbolo de resistência masculina e de solidariedade entre os membros do movimento de libertação iraniano.

Criaram ainda este vídeo impressionante.



Be a man é o site que está a recolher as fotografias.


sábado, 5 de dezembro de 2009

livros com vida

rapaz de veludo

Numa casa na baixa do Porto havia um pátio onde nas tardes delicadas de Março o rapaz de calções de veludo entretinha as convidadas do chá. Um pequeno Mozart, dizia a mãe. Um prodígio, diziam as outras. Ele sorria e atacava de novo o violino comovendo os vidros das clarabóias e as areias do granito.
Uma rapariga com um vestido preto desmedido cintado por um avental branco devorava uma fatia de pão com queijo na sala de costura. Era uma criança, não mais de dez anos, aproximadamente os mesmos do rapaz de veludo. Uma maravilha, pensava. Os dedos imitando uma pinça recolhiam uma a uma as pérolas de milho que caíam no regaço. Sôfrega, fazia-as descer pelo esófago aos trambolhões com o último átomo de queijo, mantendo-se imóvel até ouvir o estrondo da queda numa caverna maior que ela. Magríssima, não andava muito longe do esqueleto que encontrara nessa manhã dentro do caixão que estava debaixo da cama. A curiosidade rendida ao medo acabou por ceder às noites mal dormidas; não era fácil adormecer com um caixão sob a cama. Puxou a enorme caixa negra para fora do seu túmulo, os caracteres escritos a giz junto aos ferrolhos diziam: Mozart. Abriu-a e lá de dentro um sorriso ossudo ameaçou comê-la. A tampa caiu com um alarido de metal, madeiras e ossos, julgou também de vozes, talvez as vozes dos pequenos seres, alguns muito parecidos com bebés, conservados em frascos dentro dos armários da sala contínua àquela onde estava proibida de entrar. Lembrou-se do pai e das mãos que guardaram as suas durante toda a viagem na camioneta que atravessou colinas e vales, por estradas de paralelos ladeadas por vinhas, campos de milho, pastos de vacas, girassóis orgulhosos nos jardins dos solares. Mãos que nunca descolaram das suas quando cruzaram ruas e praças invictas nem quando se detiveram em frente da casa destino. Beijou o anel da mulher que surgiu à porta ao som do batente, “a sua bênção, tia” e o pai pousou a mão dela na mão da tia-avó dizendo-lhe, “aqui está a minha menina” e perdeu-se no meio da multidão. Escorregou pela rua em direcção ao rio, o pai, imaginando a filha médica, demasiado confiante no mecenato da tia, a tia que não tinha filhos e tinha posses e lhe tinha escrito “manda-me a menina” quando soube que a menina era inteligente e que pena seria ficar apenas com o ensino primário.
O rapaz de veludo recolhia os aplausos do público do pátio. A rapariga ajeitou o laço do avental e os punhos de renda do uniforme que a tia a fazia vestir quando recebia familiares, outros convidados ou as senhoras que introduzia na sala que lhe estava proibida.
- Quando estiveres de uniforme não me chames tia. Chama-me “minha senhora”.
Encostou o nariz à vidraça observando o rapaz de veludo inchado de acordes de violino. Que bem que o primo tocava e como gostaria ela de aprender violino para chorar assim os abortados nos frascos e fazer dançar o esqueleto nas noites de insónia.

domingo, 29 de novembro de 2009

King & King


O livro conta a história de um príncipe que procura alguém com quem casar. São-lhe apresentadas várias princesas por quem ele não sente qualquer entusiasmo. Uma delas vem acompanhada do irmão e é por este que o príncipe se apaixona. Casam-se e são felizes para sempre.

Na opinião de algumas pessoas, ler esta história aos nossos filhos na escola é uma das consequências catastróficas da legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Entendem que é preciso proteger as crianças da imoralidade que é o amor destes dois príncipes e exigem um referendo ao casamento, que vêem como uma espécie de conspiração gay que inclui a adopção de crianças e a educação sexual nas escolas com o objectivo de destruir a família tradicional, para impedir que essa Hidra de Lerna infecte as cabeças dos mais jovens.

Esta estória transmite a ideia de que a felicidade dos que não se encaixam no padrão da maioria é uma aspiração tão humana como a dessa maioria. Como é possível ver através dela – como faz o casal no vídeo incluído neste texto – a introdução da sexualidade nas escolas e não ver o mesmo nas estórias em que o príncipe casa com uma princesa? E como é que se “protege” uma criança da descoberta de uma realidade, que um dos seus colegas de turma tem dois papás ou duas mamãs ou que a mamã tem uma namorada e o papá tem um namorado? Não será necessário exigir também que esses meninos sejam censurados, que não falem da sua família na escola, que sejam proibidos de desenhar o agregado familiar?

É compreensível que as pessoas se assustem quando uma realidade subterrânea, que toda a gente sabe que existe mas prefere ignorar, passa a ser assumida e integrada com honestidade no nosso quotidiano. O casamento é um contracto mas para muita gente está carregado de simbolismo emocional. Não é fácil aceitar um modelo diferente daquele no qual fomos educados e no qual educamos os nossos filhos, mas o casamento entre pessoas do mesmo sexo acabará por ser uma realidade. O desafio não é tentar impedir uma inevitabilidade mas sim o de nos educarmos para ela.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

escutas



problemática dos medos nocturnos




Christoph Niemann

e as vítimas dele, têm estatuto de quê?

Após vários pedidos dirigidos à Alemanha pelo Ruanda para a detenção e extradição de Ignace Murwanashyaka, líder das FDLR - milícia Hutu que agrega grupos directamente ligados ao genocídio de 1994, responsável por inúmeros crimes contra a humanidade no Congo - assim como pressões nesse sentido vindas de grupos alemães e internacionais defensores dos direitos humanos, as autoridades alemãs procederam finalmente à sua detenção.

The pressure on the German authorities had recently increased. The United Nations expressed its surprise regarding the ease with which Murwanashyaka could control his militia groups in Congo from Mannheim. - Spiegel Online

Mais incrível é Murwanashyaka não só controlar as milícias a partir do paraíso alemão como ter também estatuto de asilado nesse país com base no facto de ser “vítima de perseguição política”.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

across the universe


Images of broken light
Which dance before me like a million eyes
They call me on and on across the universe,
Thoughts meander like a restless wind
Inside a letter box
They tumble blindly
As they make their way across the universe

penhora

E o pagamento como é? O vendedor começa a explicar o financiamento. Não há qualquer tentativa de me convencer a optar pelo pronto pagamento, nem tão pouco o menciona, porque ninguém tem dinheiro para comprar nada a pronto pagamento e, apesar da crise, ou talvez devido a ela, já não sei, os vendedores recebem comissão pelo endividamento do cliente. Penhoramos as nossas vidas e há quem lucre com isso, contando com esse ganho extra para tirar a sua do prego. É tudo muito deprimente. Analiso o termo penhora e pergunto-me se cada memória traumatizante da nossa história pode resumir-se numa palavra.

caderno de memórias coloniais


Editor: Angelus Novus
ISBN: 9789728827663


O livro que a Isabela prometeu aos leitores do seu blogue já está à venda. Ainda não é possível encomendar online no site da editora, mas já está disponível no Wook.

«Manuel deixou o seu coração em África. Também conheço quem lá tenha deixado dois automóveis ligeiros, um veículo todo-o-terreno, uma carrinha de carga, mais uma camioneta, duas vivendas, três machambas, bem como a conta no Banco Nacional Ultramarino, já convertida em meticais.
Quem é que não foi deixando os seus múltiplos corações algures? Eu há muitos anos que o substituí pela aorta.»

Dois excertos aqui e aqui.

Adenda : Já está disponível no site da editora

emancipação


cartoon de Mordillo

Fui comprar um pé de alface ao supermercado da dona Conceição e dei um salto ao café da Prazeres. Tinha a televisão sintonizada para a Praça da Alegria onde o Jorge Gabriel e a Sónia entrevistavam dom Manuel Martins sobre o declínio da taxa de natalidade na Europa. Sempre fui defensora do direito à opinião de toda a gente mas, carácoles, porque é que as pessoas gostam tanto de pedir opinião sobre este assunto a quem se recusa dar qualquer contributo para o aumento da natalidade e tem um medo profundo que ela seja compensada com a imigração de gente não cristã? Adiante. A emancipação da mulher tem muito a ver com o declínio da taxa de natalidade, pois tem, mas dom Manuel, talvez adivinhando a grande alhada em que se meteria se a criticasse, não a criticou mas saiu-se com esta:

«Emancipação é uma palavra esquisita. Faz lembrar o rapaz que ficou preso na janela e depois teve de ser libertado.»

É uma forma peculiar de ver as coisas. Imagine-se a notícia nos jornais: “O rapaz que foi assaltar o supermercado acabando literalmente preso com o rabo de fora foi emancipado pelos bombeiros.”

Ah, grandes bombeiros emancipadores.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

muro

“It is good to realize that once there were times when we were not afraid to show feelings, and did not take considerateness and kindness to be a sign of weakness.” - Vaclav Havel sobre o espírito de 1989.

Estava na Alemanha pouco depois da queda do muro. Para os alemães de leste, agora à solta do lado de cá, tudo despertava ainda admiração. Distinguiam-se facilmente denunciados pela linguagem corporal, familiar porque era a mesma de muitos portugueses quando a Europa lhes entrou pela porta dentro. A distância entre as duas realidades roubava-lhes o anonimato no cenário da abundância. Sobressaíam pela timidez e curiosidade quase infantil pelos produtos expostos, empurrando carrinhos vazios dentro de supermercados, observando os outros alemães como se eles fossem também artigos de consumo, donos da vida que lhes tinha sido emparedada e selada com um beijo e que, garantiam os cem marcos de boas-vindas, agora era de todos. Mas não o era e eles tinham pressa.
Estranhos batiam à porta apresentando-se como remetentes das cartas que chegavam de longe a longe. Fizeram-se bolos e chá e encheram-se-lhes os braços de prendas e de abraços. O castelo de Neuschwanstein, o tal dos contos de fadas, estava repleto de alemães de leste e o Kurt, refugiado desde 1986, já não comprava todo o stock de cimento do armazém com receio de que esgotasse no dia seguinte.
Vinte anos depois fazemos a peregrinação das recordações do 9 de Novembro de 1989 e os sentimentos desse dia voltam a atravessar-nos o coração. Os líderes do mundo livre encadeiam discursos na porta de Brandemburgo e Lech Walesa faz cair as peças do dominó. No Euronews há uma reportagem sobre a ostalgie (nostalgia pelo leste) que alguns se apressam a interpretar como desejo de regresso ao passado. Não entendem, talvez, que é a certeza na mudança que alimenta o prazer dessa nostalgia.