

Christoph Niemann
Após vários pedidos dirigidos à Alemanha pelo Ruanda para a detenção e extradição de Ignace Murwanashyaka, líder das FDLR - milícia Hutu que agrega grupos directamente ligados ao genocídio de 1994, responsável por inúmeros crimes contra a humanidade no Congo - assim como pressões nesse sentido vindas de grupos alemães e internacionais defensores dos direitos humanos, as autoridades alemãs procederam finalmente à sua detenção.
The pressure on the German authorities had recently increased. The United Nations expressed its surprise regarding the ease with which Murwanashyaka could control his militia groups in Congo from Mannheim. - Spiegel Online
Mais incrível é Murwanashyaka não só controlar as milícias a partir do paraíso alemão como ter também estatuto de asilado nesse país com base no facto de ser “vítima de perseguição política”.
Images of broken light
Which dance before me like a million eyes
They call me on and on across the universe,
Thoughts meander like a restless wind
Inside a letter box
They tumble blindly
As they make their way across the universe
E o pagamento como é? O vendedor começa a explicar o financiamento. Não há qualquer tentativa de me convencer a optar pelo pronto pagamento, nem tão pouco o menciona, porque ninguém tem dinheiro para comprar nada a pronto pagamento e, apesar da crise, ou talvez devido a ela, já não sei, os vendedores recebem comissão pelo endividamento do cliente. Penhoramos as nossas vidas e há quem lucre com isso, contando com esse ganho extra para tirar a sua do prego. É tudo muito deprimente. Analiso o termo penhora e pergunto-me se cada memória traumatizante da nossa história pode resumir-se numa palavra.

«Manuel deixou o seu coração em África. Também conheço quem lá tenha deixado dois automóveis ligeiros, um veículo todo-o-terreno, uma carrinha de carga, mais uma camioneta, duas vivendas, três machambas, bem como a conta no Banco Nacional Ultramarino, já convertida em meticais.
Quem é que não foi deixando os seus múltiplos corações algures? Eu há muitos anos que o substituí pela aorta.»
Dois excertos aqui e aqui.
Adenda : Já está disponível no site da editora

Fui comprar um pé de alface ao supermercado da dona Conceição e dei um salto ao café da Prazeres. Tinha a televisão sintonizada para a Praça da Alegria onde o Jorge Gabriel e a Sónia entrevistavam dom Manuel Martins sobre o declínio da taxa de natalidade na Europa. Sempre fui defensora do direito à opinião de toda a gente mas, carácoles, porque é que as pessoas gostam tanto de pedir opinião sobre este assunto a quem se recusa dar qualquer contributo para o aumento da natalidade e tem um medo profundo que ela seja compensada com a imigração de gente não cristã? Adiante. A emancipação da mulher tem muito a ver com o declínio da taxa de natalidade, pois tem, mas dom Manuel, talvez adivinhando a grande alhada em que se meteria se a criticasse, não a criticou mas saiu-se com esta:
«Emancipação é uma palavra esquisita. Faz lembrar o rapaz que ficou preso na janela e depois teve de ser libertado.»
É uma forma peculiar de ver as coisas. Imagine-se a notícia nos jornais: “O rapaz que foi assaltar o supermercado acabando literalmente preso com o rabo de fora foi emancipado pelos bombeiros.”
Ah, grandes bombeiros emancipadores.
“It is good to realize that once there were times when we were not afraid to show feelings, and did not take considerateness and kindness to be a sign of weakness.” - Vaclav Havel sobre o espírito de 1989.
Estava na Alemanha pouco depois da queda do muro. Para os alemães de leste, agora à solta do lado de cá, tudo despertava ainda admiração. Distinguiam-se facilmente denunciados pela linguagem corporal, familiar porque era a mesma de muitos portugueses quando a Europa lhes entrou pela porta dentro. A distância entre as duas realidades roubava-lhes o anonimato no cenário da abundância. Sobressaíam pela timidez e curiosidade quase infantil pelos produtos expostos, empurrando carrinhos vazios dentro de supermercados, observando os outros alemães como se eles fossem também artigos de consumo, donos da vida que lhes tinha sido emparedada e selada com um beijo e que, garantiam os cem marcos de boas-vindas, agora era de todos. Mas não o era e eles tinham pressa.
Estranhos batiam à porta apresentando-se como remetentes das cartas que chegavam de longe a longe. Fizeram-se bolos e chá e encheram-se-lhes os braços de prendas e de abraços. O castelo de Neuschwanstein, o tal dos contos de fadas, estava repleto de alemães de leste e o Kurt, refugiado desde 1986, já não comprava todo o stock de cimento do armazém com receio de que esgotasse no dia seguinte.
Vinte anos depois fazemos a peregrinação das recordações do 9 de Novembro de 1989 e os sentimentos desse dia voltam a atravessar-nos o coração. Os líderes do mundo livre encadeiam discursos na porta de Brandemburgo e Lech Walesa faz cair as peças do dominó. No Euronews há uma reportagem sobre a ostalgie (nostalgia pelo leste) que alguns se apressam a interpretar como desejo de regresso ao passado. Não entendem, talvez, que é a certeza na mudança que alimenta o prazer dessa nostalgia.
Não sou estudiosa da poesia. De vez em quando atrevo-me e escrevo um poema mas sobretudo leio-a e é da leitura que quero falar. Ler um poema da Cláudia é um sobressalto. Entranha-se de tal forma que consigo repetir vários versos de memória logo após a primeira leitura. Transporto versos dispersos da Cláudia na minha cabeça.
Deu-lhe para falar dos Silvas. O texto tinha por personagem principal um homem sem qualidades de apelido Silva. “Reparem bem”, dizia o professor, “esta personagem é tão desprezível que até o seu apelido o denuncia. Não sei o quê da Silva; como quem diz, das silvas, do mato, um animal”, e sacudia o braço para trás das costas como se estivesse a empurrar um Silva imaginário para longe dele, de volta à selva de onde não deveria ter saído. O professor não era Silva nem descendente de Silvas e sabia-o porque tinha uma árvore genealógica, à qual dava extrema importância, que o garantia.
Há dias, por acaso, fui cair numa página online, onde se falava dessa sua árvore, se bem que a propósito de outra pessoa da sua família. Lá estavam os não silvas seus antepassados, enumerados mais aos locais de origem, uns atrás dos outros; os de Fafe, os de Guimarães mais os não sei de onde. Não faço ideia dos motivos que levaram o jornal a descrever a árvore genealógica da personalidade, como se o facto de descender dos ás pela parte da mãe e dos bês pela parte do pai, tivesse alguma relevância nas suas qualidades ou defeitos, mas compreendo que às vezes, quando é necessário fazer esquecer deficiências pessoais, dá jeito ter uns antepassados ilustres para celebrar.
Tenho um carinho especial pelos Silvas, não de todos mas daqueles Silvas como quem diz, das silvas, do mato, uns animais. Estes Silvas, ao contrário do professor que tinha saído dum ramo especial da evolução humana, não se põem a pensar se o fulano ou sicrano da Silva que acabaram de conhecer é da família e não seguem bifurcações nas árvores genealógicas dos Silvas à procura de um nó comum que designe graus de parentesco. Sabem que acaba tudo na selva, no primeiro homo sapiens. São primos de toda a gente.

“The thirst for objective knowledge,” he wrote, “is one of the most neglected aspects of the thought of people we call ‘primitive.’ ” - no N.Y.Times
Mal uma lágrima chega travo-a nas pestanas e empurro-a de volta para o saco lacrimal censurando-me a auto-comiseração. Há muito que não me dou licença de ter pena de mim, já não sei como se faz.
Um dia o útero da minha cunhada caiu com o feto dentro dele. Ficou atravessado entre as pernas e o pânico entre os pulmões. Ela não sabia que o útero podia tentar fugir do corpo. Eu também não. Foi uma revelação – pensava saber tudo sobre as entranhas femininas – descobrir que o útero se pode cansar de nós como nós dele. Quando se cansa de nós, ou nós dele, deveria ser absorvido pelo corpo mas a natureza não o autoriza. Fica ali a cultivar fibromas, quistos, pólipos, tumores e demais maleitas, a obrigar-nos à provação que é o check-up rotineiro da ginecologista. Deite-se aí, abra as pernas, respire fundo, relaxe.

Os Oms (jogo com a palavra francesa hommes) foram levados pelos Draags para o planeta Draag como animais de estimação. Os Draags são gigantes alienígenas de pele azul, com orelhas em forma de ventoinha, enormes olhos vermelhos protuberantes e uma esperança média de vida muito superior à dos seres humanos. Alguns Oms são domesticados e usam uma coleira que os arrasta até aos seu donos quando é activada por controlo remoto. Outros vivem no estado selvagem e são periodicamente exterminados para manter o seu número controlado. A forma como os Draags tratam os Oms contrasta com o seu elevado desenvolvimento tecnológico e espiritual.
La Planète Sauvage - Filme de culto, realizado por René Laloux, baseado no livro Oms en Serie de Stefan Wul, prémio especial do júri no festival de Cannes de 1973.

As mulheres enchiam a varanda, o lugar mais fresco da casa, em trajes interiores, soprando a renda das combinações com pequenos leques plissados em papel de jornal. Fumavam e transpiravam o chá nos corpos; o rímel manchado nas pálpebras, as unhas pintadas de vermelho, o cabelo domesticado prestes a desmoronar-se. Eram o espectáculo preferido da minha infância. Aninhava-me aos pés delas, embalada pelas histórias de faca e alguidar, a enumeração dos defeitos dos seus homens, os palavrões que podiam dizer sem pimenta na língua e o perfume sarapintado com o suor que se evaporava nas cavas dos vestidos que descansavam nas cruzetas. Eram excessivamente mulheres para os homens que tinham.
Nessas tardes de maldizer dobrava-se o mundo numa trança para a bater na pedra dura das lavadeiras do rio, espremê-la e estendê-la a corar num relvado muito esticadinha ao sol. Era assim que suportavam os homens. A vida regressava ao seu estado imaculado. Sem manchas.