sexta-feira, 6 de novembro de 2009

poemas

Não sou estudiosa da poesia. De vez em quando atrevo-me e escrevo um poema mas sobretudo leio-a e é da leitura que quero falar. Ler um poema da Cláudia é um sobressalto. Entranha-se de tal forma que consigo repetir vários versos de memória logo após a primeira leitura. Transporto versos dispersos da Cláudia na minha cabeça.

gato com rapaz



os silvas

Deu-lhe para falar dos Silvas. O texto tinha por personagem principal um homem sem qualidades de apelido Silva. “Reparem bem”, dizia o professor, “esta personagem é tão desprezível que até o seu apelido o denuncia. Não sei o quê da Silva; como quem diz, das silvas, do mato, um animal”, e sacudia o braço para trás das costas como se estivesse a empurrar um Silva imaginário para longe dele, de volta à selva de onde não deveria ter saído. O professor não era Silva nem descendente de Silvas e sabia-o porque tinha uma árvore genealógica, à qual dava extrema importância, que o garantia.

Há dias, por acaso, fui cair numa página online, onde se falava dessa sua árvore, se bem que a propósito de outra pessoa da sua família. Lá estavam os não silvas seus antepassados, enumerados mais aos locais de origem, uns atrás dos outros; os de Fafe, os de Guimarães mais os não sei de onde. Não faço ideia dos motivos que levaram o jornal a descrever a árvore genealógica da personalidade, como se o facto de descender dos ás pela parte da mãe e dos bês pela parte do pai, tivesse alguma relevância nas suas qualidades ou defeitos, mas compreendo que às vezes, quando é necessário fazer esquecer deficiências pessoais, dá jeito ter uns antepassados ilustres para celebrar.

Tenho um carinho especial pelos Silvas, não de todos mas daqueles Silvas como quem diz, das silvas, do mato, uns animais. Estes Silvas, ao contrário do professor que tinha saído dum ramo especial da evolução humana, não se põem a pensar se o fulano ou sicrano da Silva que acabaram de conhecer é da família e não seguem bifurcações nas árvores genealógicas dos Silvas à procura de um nó comum que designe graus de parentesco. Sabem que acaba tudo na selva, no primeiro homo sapiens. São primos de toda a gente.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Claude Lèvi-Strauss 1908-2009


“The thirst for objective knowledge,” he wrote, “is one of the most neglected aspects of the thought of people we call ‘primitive.’ ” - no N.Y.Times

«Merci beaucoup, Professor Claude» - n'A Terceira Noite

terça-feira, 3 de novembro de 2009

lágrima

Mal uma lágrima chega travo-a nas pestanas e empurro-a de volta para o saco lacrimal censurando-me a auto-comiseração. Há muito que não me dou licença de ter pena de mim, já não sei como se faz.

útero

Um dia o útero da minha cunhada caiu com o feto dentro dele. Ficou atravessado entre as pernas e o pânico entre os pulmões. Ela não sabia que o útero podia tentar fugir do corpo. Eu também não. Foi uma revelação – pensava saber tudo sobre as entranhas femininas – descobrir que o útero se pode cansar de nós como nós dele. Quando se cansa de nós, ou nós dele, deveria ser absorvido pelo corpo mas a natureza não o autoriza. Fica ali a cultivar fibromas, quistos, pólipos, tumores e demais maleitas, a obrigar-nos à provação que é o check-up rotineiro da ginecologista. Deite-se aí, abra as pernas, respire fundo, relaxe.

La Planète Sauvage



Os Oms (jogo com a palavra francesa hommes) foram levados pelos Draags para o planeta Draag como animais de estimação. Os Draags são gigantes alienígenas de pele azul, com orelhas em forma de ventoinha, enormes olhos vermelhos protuberantes e uma esperança média de vida muito superior à dos seres humanos. Alguns Oms são domesticados e usam uma coleira que os arrasta até aos seu donos quando é activada por controlo remoto. Outros vivem no estado selvagem e são periodicamente exterminados para manter o seu número controlado. A forma como os Draags tratam os Oms contrasta com o seu elevado desenvolvimento tecnológico e espiritual.



La Planète Sauvage - Filme de culto, realizado por René Laloux, baseado no livro Oms en Serie de Stefan Wul, prémio especial do júri no festival de Cannes de 1973.

domingo, 1 de novembro de 2009

varanda


Kristin Bjornerud

As mulheres enchiam a varanda, o lugar mais fresco da casa, em trajes interiores, soprando a renda das combinações com pequenos leques plissados em papel de jornal. Fumavam e transpiravam o chá nos corpos; o rímel manchado nas pálpebras, as unhas pintadas de vermelho, o cabelo domesticado prestes a desmoronar-se. Eram o espectáculo preferido da minha infância. Aninhava-me aos pés delas, embalada pelas histórias de faca e alguidar, a enumeração dos defeitos dos seus homens, os palavrões que podiam dizer sem pimenta na língua e o perfume sarapintado com o suor que se evaporava nas cavas dos vestidos que descansavam nas cruzetas. Eram excessivamente mulheres para os homens que tinham.
Nessas tardes de maldizer dobrava-se o mundo numa trança para a bater na pedra dura das lavadeiras do rio, espremê-la e estendê-la a corar num relvado muito esticadinha ao sol. Era assim que suportavam os homens. A vida regressava ao seu estado imaculado. Sem manchas.

sábado, 31 de outubro de 2009

Halloween



“Hallowe’en has an undercurrent of occultism and is absolutely anti-Christian.” Parents should “be aware of this and try to direct the meaning of the feast towards wholesomeness and beauty rather than terror, fear and death” - Padre Joan María Canals, citado pelo L’Osservatore Romano (via Times Online)

Num minuto é-se uma criança vestida a rigor para uma festa inocente, bastante divertida até, e no outro é-se um agente do oculto. Terror, morte e oculto são assuntos que a igreja domina como faz questão de nos lembrar.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Alexandra e o seu cão


foto do DN


No meio de toda a trapalhada e insensibilidade do aparelho de justiça, nada mais resta à Alexandra do que abraçar o seu cão. Uma fotografia comovente que nos mete pelos olhos dentro toda essa injustiça que, dizem-nos, é justa porque está conforme as leis.

domingo, 25 de outubro de 2009

Genesis nu e cru


O Livro de Genesis sem interpretações teológicas ou académicas, ilustrado palavra por palavra. Não aconselhado a menores de meio palmo.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

múmias

Movia a ossatura, mumificado pela comitiva de bandeiras e algumas câmaras de TV, transbordando dos passeios para a rua incomodando o trânsito. O mesmo sorriso da adolescência, agora um pouco mais cínico, o mesmo corte de meia malga, agora com menos cabelo, o rosto excessivamente envelhecido, talvez, quiçá, do sol de Lisboa em demasia. Nunca pensei que desse em político, distracção minha - a política também funciona por dinastias.

Os políticos que a província embarca para a capital descem, por um dia, dos placards à calçada. Desembrulham-se na rua entre bandeiras e slogans parolos, apertando todas as mãos, beijando rostos estupefactos de mulheres encostadas nas soleiras das portas. Fazem todos os sacrifícios. Deixam as velhas lamberem-lhes a cara. Elas sabem que eles não gostam. Riem-se umas com as outras trocando detalhes do seu prazer maléfico, comparando cheiros de colónias e sabores de after-shave. Coleccionam lambidelas e no dia do voto decidem pela memória do nariz e da língua. Eles repõem no corpo camadas de linho encharcadas em resina, a toda a velocidade em direcção ao sul.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

kartoffelsalat

Esperava encontrar uma mulher vencida pelas investidas do cancro, débil, mergulhada em depressão, movendo-se penosamente da cama para o sofá e do sofá para a cama, uma resignação à inutilidade que a certa altura acomete os condenados e os faz subscrever a eutanásia ou suspirar pelo suicídio assistido; um esforço nos sorrisos e abraços nos netos com quem já não podem brincar, para quem já não tocam harmónica nem lêem livros, a quem já não ensinam a rega das flores e os segredos das criaturas do jardim. Esperava encontrar a fotocópia do Karl, resignado à morte traçada na radiografia, o mesmo distanciamento a meio das conversas, imaginando-se, talvez, como a alma de uma morta observando a vida que seguiria o seu curso depois da dela, sem ela. Imaginava-me apertando-lhe os ossos como apertei os do Karl, já morto mas ainda vivo, chorando no meu ombro quando nos vimos pela última vez, sabendo que era a última vez.

Enganei-me. Fui encontrá-la atarefada na cozinha preparando a sua famosa salada de batata para o churrasco de boas-vindas. Se não fosse pelo lenço azul que lhe esconde o crânio de onde desapareceram os caracóis cinza de que se orgulhava, dir-se-ia que ela e a doença eram desconhecidas uma da outra. A intimidade das duas só não passa desatenta a quem se dilata na auscultação da multidão de objectos de cozinha espalhados pelos balcões, sempre à mão, para evitar esticar braços para os alcançar nas prateleiras ou dobrar a espinha para os apanhar dentro dos armários ou das gavetas de baixo. A organização metódica da cozinha permanece agora com cada coisa no seu espaço determinado no granito dos balcões.

Há muitos anos que quero saber como prepara a salada de batata. Tenho atravessada nas memórias da Adeline uma nota onde está escrito “pedir o segredo da salada de batata”, mas em cada reencontro alguma coisa acontece que me impede de lho pedir ou de a ver prepará-la do princípio até ao fim. Há pequenas coisas que são assim, tão fáceis de obter ou realizar e que nunca se concretizam, como se a sua realização fechasse qualquer coisa que queremos manter em aberto; como se depois de me contar o segredo ela caísse morta no chão e desaparecesse entre caçarolas e tabuleiros. Poderia esquecer a salada de batata - já tenho várias receitas - mas a dela é diferente. É uma obsessão, como a de Karl com a pequena cancela de madeira do meu jardim que ele prometia arranjar quando viesse de visita, mas que, uma vez cá, nunca arranjava definitivamente apesar de passar horas à volta dela de martelo na mão e pregos na boca. Em vez disso plantou-me árvores ao redor das quais Adeline semeou cravos xaropes. Em vez do segredo da salada de batata trouxe comigo fotografias dos antepassados e histórias de lobos, de imigração e de guerra. Histórias de uma criança alemã da Bessaravia que atravessou a Europa como um bispo ou um cavalo atravessa um tabuleiro de xadrez, peças empurradas por homens que sem nunca a olharem nos olhos decidiram o seu destino. O destino de meninas que espreitam de fotografias sépia com duas tranças louras fechadas por enormes laços de seda.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

hall

Entrar em Portugal pela Raia é desolador. A primeira coisa que se vê logo a seguir à fronteira são círculos de erva seca ladeados por cartazes com fotografias gigantescas dos políticos que nos saúdam das alturas com promessas de progresso e melhorias, promessas tão secas como as rotundas. O hall de entrada em Portugal parece uma conspiração para tornar o regresso a casa o mais deprimente possível.