terça-feira, 3 de novembro de 2009

La Planète Sauvage



Os Oms (jogo com a palavra francesa hommes) foram levados pelos Draags para o planeta Draag como animais de estimação. Os Draags são gigantes alienígenas de pele azul, com orelhas em forma de ventoinha, enormes olhos vermelhos protuberantes e uma esperança média de vida muito superior à dos seres humanos. Alguns Oms são domesticados e usam uma coleira que os arrasta até aos seu donos quando é activada por controlo remoto. Outros vivem no estado selvagem e são periodicamente exterminados para manter o seu número controlado. A forma como os Draags tratam os Oms contrasta com o seu elevado desenvolvimento tecnológico e espiritual.



La Planète Sauvage - Filme de culto, realizado por René Laloux, baseado no livro Oms en Serie de Stefan Wul, prémio especial do júri no festival de Cannes de 1973.

domingo, 1 de novembro de 2009

varanda


Kristin Bjornerud

As mulheres enchiam a varanda, o lugar mais fresco da casa, em trajes interiores, soprando a renda das combinações com pequenos leques plissados em papel de jornal. Fumavam e transpiravam o chá nos corpos; o rímel manchado nas pálpebras, as unhas pintadas de vermelho, o cabelo domesticado prestes a desmoronar-se. Eram o espectáculo preferido da minha infância. Aninhava-me aos pés delas, embalada pelas histórias de faca e alguidar, a enumeração dos defeitos dos seus homens, os palavrões que podiam dizer sem pimenta na língua e o perfume sarapintado com o suor que se evaporava nas cavas dos vestidos que descansavam nas cruzetas. Eram excessivamente mulheres para os homens que tinham.
Nessas tardes de maldizer dobrava-se o mundo numa trança para a bater na pedra dura das lavadeiras do rio, espremê-la e estendê-la a corar num relvado muito esticadinha ao sol. Era assim que suportavam os homens. A vida regressava ao seu estado imaculado. Sem manchas.

sábado, 31 de outubro de 2009

Halloween



“Hallowe’en has an undercurrent of occultism and is absolutely anti-Christian.” Parents should “be aware of this and try to direct the meaning of the feast towards wholesomeness and beauty rather than terror, fear and death” - Padre Joan María Canals, citado pelo L’Osservatore Romano (via Times Online)

Num minuto é-se uma criança vestida a rigor para uma festa inocente, bastante divertida até, e no outro é-se um agente do oculto. Terror, morte e oculto são assuntos que a igreja domina como faz questão de nos lembrar.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Alexandra e o seu cão


foto do DN


No meio de toda a trapalhada e insensibilidade do aparelho de justiça, nada mais resta à Alexandra do que abraçar o seu cão. Uma fotografia comovente que nos mete pelos olhos dentro toda essa injustiça que, dizem-nos, é justa porque está conforme as leis.

domingo, 25 de outubro de 2009

Genesis nu e cru


O Livro de Genesis sem interpretações teológicas ou académicas, ilustrado palavra por palavra. Não aconselhado a menores de meio palmo.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

múmias

Movia a ossatura, mumificado pela comitiva de bandeiras e algumas câmaras de TV, transbordando dos passeios para a rua incomodando o trânsito. O mesmo sorriso da adolescência, agora um pouco mais cínico, o mesmo corte de meia malga, agora com menos cabelo, o rosto excessivamente envelhecido, talvez, quiçá, do sol de Lisboa em demasia. Nunca pensei que desse em político, distracção minha - a política também funciona por dinastias.

Os políticos que a província embarca para a capital descem, por um dia, dos placards à calçada. Desembrulham-se na rua entre bandeiras e slogans parolos, apertando todas as mãos, beijando rostos estupefactos de mulheres encostadas nas soleiras das portas. Fazem todos os sacrifícios. Deixam as velhas lamberem-lhes a cara. Elas sabem que eles não gostam. Riem-se umas com as outras trocando detalhes do seu prazer maléfico, comparando cheiros de colónias e sabores de after-shave. Coleccionam lambidelas e no dia do voto decidem pela memória do nariz e da língua. Eles repõem no corpo camadas de linho encharcadas em resina, a toda a velocidade em direcção ao sul.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

kartoffelsalat

Esperava encontrar uma mulher vencida pelas investidas do cancro, débil, mergulhada em depressão, movendo-se penosamente da cama para o sofá e do sofá para a cama, uma resignação à inutilidade que a certa altura acomete os condenados e os faz subscrever a eutanásia ou suspirar pelo suicídio assistido; um esforço nos sorrisos e abraços nos netos com quem já não podem brincar, para quem já não tocam harmónica nem lêem livros, a quem já não ensinam a rega das flores e os segredos das criaturas do jardim. Esperava encontrar a fotocópia do Karl, resignado à morte traçada na radiografia, o mesmo distanciamento a meio das conversas, imaginando-se, talvez, como a alma de uma morta observando a vida que seguiria o seu curso depois da dela, sem ela. Imaginava-me apertando-lhe os ossos como apertei os do Karl, já morto mas ainda vivo, chorando no meu ombro quando nos vimos pela última vez, sabendo que era a última vez.

Enganei-me. Fui encontrá-la atarefada na cozinha preparando a sua famosa salada de batata para o churrasco de boas-vindas. Se não fosse pelo lenço azul que lhe esconde o crânio de onde desapareceram os caracóis cinza de que se orgulhava, dir-se-ia que ela e a doença eram desconhecidas uma da outra. A intimidade das duas só não passa desatenta a quem se dilata na auscultação da multidão de objectos de cozinha espalhados pelos balcões, sempre à mão, para evitar esticar braços para os alcançar nas prateleiras ou dobrar a espinha para os apanhar dentro dos armários ou das gavetas de baixo. A organização metódica da cozinha permanece agora com cada coisa no seu espaço determinado no granito dos balcões.

Há muitos anos que quero saber como prepara a salada de batata. Tenho atravessada nas memórias da Adeline uma nota onde está escrito “pedir o segredo da salada de batata”, mas em cada reencontro alguma coisa acontece que me impede de lho pedir ou de a ver prepará-la do princípio até ao fim. Há pequenas coisas que são assim, tão fáceis de obter ou realizar e que nunca se concretizam, como se a sua realização fechasse qualquer coisa que queremos manter em aberto; como se depois de me contar o segredo ela caísse morta no chão e desaparecesse entre caçarolas e tabuleiros. Poderia esquecer a salada de batata - já tenho várias receitas - mas a dela é diferente. É uma obsessão, como a de Karl com a pequena cancela de madeira do meu jardim que ele prometia arranjar quando viesse de visita, mas que, uma vez cá, nunca arranjava definitivamente apesar de passar horas à volta dela de martelo na mão e pregos na boca. Em vez disso plantou-me árvores ao redor das quais Adeline semeou cravos xaropes. Em vez do segredo da salada de batata trouxe comigo fotografias dos antepassados e histórias de lobos, de imigração e de guerra. Histórias de uma criança alemã da Bessaravia que atravessou a Europa como um bispo ou um cavalo atravessa um tabuleiro de xadrez, peças empurradas por homens que sem nunca a olharem nos olhos decidiram o seu destino. O destino de meninas que espreitam de fotografias sépia com duas tranças louras fechadas por enormes laços de seda.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

hall

Entrar em Portugal pela Raia é desolador. A primeira coisa que se vê logo a seguir à fronteira são círculos de erva seca ladeados por cartazes com fotografias gigantescas dos políticos que nos saúdam das alturas com promessas de progresso e melhorias, promessas tão secas como as rotundas. O hall de entrada em Portugal parece uma conspiração para tornar o regresso a casa o mais deprimente possível.

domingo, 16 de agosto de 2009

norte


Hock

Faço-me à estrada. Vou juntar-me a turistas, camionistas, imigrantes, ciganos, gente em movimento nas estradas europeias, para cima e para baixo.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

os globos do rei-sol

Os globos realizados em 1683 por Vincenzo Coronelli foram oferecidos a Luís XIV pelo cardeal d’Estrées e passaram quase todo o século XX guardados em caixas, longe da curiosidade do público. Estão na Biblioteca Nacional de França, site François Miterrand, em exposição permanente desde 2007.
Os detalhes pintados nos globos são extraordinários. Mais aqui.





Do Zodíaco, destaco o Sagitário que é o meu signo (meia humana, meia animal, claro)

nesta guerra elas não escolhem lados

«You want me to tell you what my husband thinks? My husband is not secretary of state, I am. So, you ask my opinion I will tell you my opinion, I am not going to be channeling my husband.» - Hillary Clinton respondendo à pergunta de um estudante congolês.

Há alguma especulação sobre o que o rapaz perguntou. Parece que se referia a Obama e não ao marido. O erro terá sido da tradutora que confundiu os presidentes. De qualquer forma, ela reagiu ao que ouviu e deu uma grande resposta. Mas por muito folclórico que o episódio seja, servindo de pretexto a alguma imprensa para especular sobre as supostas divergências entre o casal Clinton e de outra mais sexista para a atacar, o que a Hillary foi fazer ao Congo é muito mais importante: confrontar a impunidade dentro de uma cultura militar de violência sexual que não poupa crianças nem idosas e que vê as mulheres como propriedade a pilhar junto com os bens dos derrotados. Entre os criminosos encontram-se oficiais e soldados do exército congolês que é financiado pelos EUA e pela ONU. O encolher de ombros e a negligência começa por cima e vai descendo de patente, transformando as tentativas de responsabilização legal dos criminosos num circo.

As mulheres não escolhem lados no conflito. São vítimas dos dois. Hillary não é um canal de comunicação para as opiniões do marido, como deixou bem claro, mas empenha-se, felizmente, em sê-lo para as mulheres que visitou e escutou, o que é consistente com a sua promessa de marcar a política norte-americana para os assuntos estrangeiros com uma atenção especial aos problemas das mulheres. Para além de uma voz ela está também numa posição em que pode fazer a diferença. Oxalá o plano de 17 milhões de dólares que anunciou para combater a violência sexual no Congo seja o início do fim daquilo a que ela chamou "o mal na sua forma mais ignóbil". Oxalá assim seja.


domingo, 9 de agosto de 2009

cosmos

Oferecendo-me a escolha, prefiro habitar o espaço cósmico. Talvez não desça para exercer o meu direito, ou obrigação, nesse cargo-cult a que chamam democracia. Não é irresponsabilidade. É necessidade de distanciamento da acção; distante o suficiente para ver a curvatura da terra e reflectir sobre essa tal de clarividência das forças que moldam a humanidade.

ponto de cruz

Esta tia-avó tinha uma alma estranha colada a si e um tumor no fundo das costas que ela disfarçava usando vestidos com laços que atavam do lado esquerdo. Casou com um militar e foi viver para Coimbra onde teve uma filha a quem deixou a alma estranha. A prima escrevia-me postais no meu aniversário numa caligrafia pontiaguda que lembrava as pequenas facas que ela escondia numa das gavetas do psiché e que, nos momentos em que a alma tomava conta dela, fazia deslizar uma a uma pelos lábios perguntando-se como seria se os retalhasse em dez pedaços. Não chegava a fazê-lo. Escolhia partes do corpo que o vestuário escondia da prova dos outros e bordava a carne com pequenos cortes em cruz, imitando a posição das espadas do pai expostas na parede. Enviava-me as facas e o ponto de cruz escritos em postais com fotografias de rosas vermelhas descomunais.

sábado, 8 de agosto de 2009

Raul Solnado 1929-2009




Eram gargalhadas colossais. Numa rua de casas com paredes de papel agrafadas umas nas outras o riso trespassava-as, parecendo-nos às vezes que o rir dos vizinhos era o eco do nosso. O Raul Solnado fazia a minha mãe rir e nós, ainda pequenos, segurávamos as barriguitas e rebolávamos no chão aos pés do riso dela.