domingo, 16 de agosto de 2009

norte


Hock

Faço-me à estrada. Vou juntar-me a turistas, camionistas, imigrantes, ciganos, gente em movimento nas estradas europeias, para cima e para baixo.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

os globos do rei-sol

Os globos realizados em 1683 por Vincenzo Coronelli foram oferecidos a Luís XIV pelo cardeal d’Estrées e passaram quase todo o século XX guardados em caixas, longe da curiosidade do público. Estão na Biblioteca Nacional de França, site François Miterrand, em exposição permanente desde 2007.
Os detalhes pintados nos globos são extraordinários. Mais aqui.





Do Zodíaco, destaco o Sagitário que é o meu signo (meia humana, meia animal, claro)

nesta guerra elas não escolhem lados

«You want me to tell you what my husband thinks? My husband is not secretary of state, I am. So, you ask my opinion I will tell you my opinion, I am not going to be channeling my husband.» - Hillary Clinton respondendo à pergunta de um estudante congolês.

Há alguma especulação sobre o que o rapaz perguntou. Parece que se referia a Obama e não ao marido. O erro terá sido da tradutora que confundiu os presidentes. De qualquer forma, ela reagiu ao que ouviu e deu uma grande resposta. Mas por muito folclórico que o episódio seja, servindo de pretexto a alguma imprensa para especular sobre as supostas divergências entre o casal Clinton e de outra mais sexista para a atacar, o que a Hillary foi fazer ao Congo é muito mais importante: confrontar a impunidade dentro de uma cultura militar de violência sexual que não poupa crianças nem idosas e que vê as mulheres como propriedade a pilhar junto com os bens dos derrotados. Entre os criminosos encontram-se oficiais e soldados do exército congolês que é financiado pelos EUA e pela ONU. O encolher de ombros e a negligência começa por cima e vai descendo de patente, transformando as tentativas de responsabilização legal dos criminosos num circo.

As mulheres não escolhem lados no conflito. São vítimas dos dois. Hillary não é um canal de comunicação para as opiniões do marido, como deixou bem claro, mas empenha-se, felizmente, em sê-lo para as mulheres que visitou e escutou, o que é consistente com a sua promessa de marcar a política norte-americana para os assuntos estrangeiros com uma atenção especial aos problemas das mulheres. Para além de uma voz ela está também numa posição em que pode fazer a diferença. Oxalá o plano de 17 milhões de dólares que anunciou para combater a violência sexual no Congo seja o início do fim daquilo a que ela chamou "o mal na sua forma mais ignóbil". Oxalá assim seja.


domingo, 9 de agosto de 2009

cosmos

Oferecendo-me a escolha, prefiro habitar o espaço cósmico. Talvez não desça para exercer o meu direito, ou obrigação, nesse cargo-cult a que chamam democracia. Não é irresponsabilidade. É necessidade de distanciamento da acção; distante o suficiente para ver a curvatura da terra e reflectir sobre essa tal de clarividência das forças que moldam a humanidade.

ponto de cruz

Esta tia-avó tinha uma alma estranha colada a si e um tumor no fundo das costas que ela disfarçava usando vestidos com laços que atavam do lado esquerdo. Casou com um militar e foi viver para Coimbra onde teve uma filha a quem deixou a alma estranha. A prima escrevia-me postais no meu aniversário numa caligrafia pontiaguda que lembrava as pequenas facas que ela escondia numa das gavetas do psiché e que, nos momentos em que a alma tomava conta dela, fazia deslizar uma a uma pelos lábios perguntando-se como seria se os retalhasse em dez pedaços. Não chegava a fazê-lo. Escolhia partes do corpo que o vestuário escondia da prova dos outros e bordava a carne com pequenos cortes em cruz, imitando a posição das espadas do pai expostas na parede. Enviava-me as facas e o ponto de cruz escritos em postais com fotografias de rosas vermelhas descomunais.

sábado, 8 de agosto de 2009

Raul Solnado 1929-2009




Eram gargalhadas colossais. Numa rua de casas com paredes de papel agrafadas umas nas outras o riso trespassava-as, parecendo-nos às vezes que o rir dos vizinhos era o eco do nosso. O Raul Solnado fazia a minha mãe rir e nós, ainda pequenos, segurávamos as barriguitas e rebolávamos no chão aos pés do riso dela.

a fuga de Moses Roper






Narrative of the Adventures and Escape of Moses Roper, from American Slavery. (1815)

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

julgamento

Vieram fazer o meu julgamento. Chegaram do passado, de um tempo em que éramos jovens promessas em qualquer coisa e que escutavam as palavras de adultos, demasiado confiantes na juventude e na psicologia, como se fossem pérolas deslizando dos lábios de oráculos que não tinham outra alternativa senão acertar. Congratularam-me por ter ganho alguns quilos que esconderam o esqueleto da juventude, esse monte de ossos que incomodava tanta gente. Se tivessem vindo há anos atrás teriam mais um crime para julgar. As gravidezes deram lugar a uma deusa da fertilidade, uma vénus de Willendorf, roliça, mamas de leite inesgotável que os meus bebés sugavam com prazer aconchegados na fartura do meu corpo. Um corpo que me era estranho e me atormentava às vezes, mas nunca fui tão feliz como quando fui gorda. A maternidade quase esqueceu as neuroses, os medos, as fobias, e entendi porque é que algumas mulheres tinham ninhadas de filhos, uns atrás dos outros. Andavam a curar-se de qualquer coisa.

Sentados à volta da minha mesa, afastada a inevitável referência ao meu corpo e às raízes do cabelo onde respiram cãs a aguardar pintura, desenterraram o meu scriptio inferior. Os erros, as falhas, decisões malditas, a corrupção da língua por vocábulos estrangeiros e a sua estagnação pela falta de uso - como te atreves a usar a Língua, como se ainda fosse a tua? Escrevê-la, tu, que nem mereces possuir um dicionário. Nunca fui tão infeliz como quando escrevia bibliotecas de cadernos, caligrafias diferentes que hoje não consigo ler porque os monstros marinhos que desenhei nas margens possuem tentáculos que me querem junto deles nas profundezas da água. Não posso ir mais além de um olhar. Assusta-me perder a sanidade, essa fortaleza que julgamos garantia do império mas que é apenas mais uma fragilidade.

A fragilidade do que a vida acumula. Uma caixa de fotografias e alguns discos de vinil também vão a julgamento. Os quadros que outras pintaram por mim, as leituras e a falta de jeito para fazer bolos que me saem sempre tortos, o estado semi-selvagem do jardim, as centopeias e as aranhas. Os disparates. Vasculham no cesto da roupa suja o meu desleixo. Os abandonos, as deserções, a fila de coisas que comecei e não acabei e as que acabei sem as começar. Futilidades que desenho, que escrevo, e que não interessam a ninguém.

Abri a boca para falar em minha defesa e tudo o que saiu foi a descrição das flores pintadas à mão na chávena de chá de uma tia-avó.



Maira Kalman

sonhos

Seguro um sonho que tive e que recordo por culpa de um despertar fora de horas. Dormi com a janela do quarto aberta embora as noites sejam frescas, tão frescas que não foi preciso trocar o edredão de Inverno, e fui interrompida no sono pelos pássaros malucos da madrugada. Pessoas que não vejo há anos visitaram-me para fazerem o meu julgamento. Censuravam-me e acusavam-me de trivialidades como se fossem crimes abomináveis. Uma Inquisição. Alguns talvez já estejam mortos e eu não sei.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

sonhos

Os sonhos da noite têm poder sobre o dia.
Subi e desci o dia matutando na anormalidade que parece emprestar valor aos sonhos, como se fosse chave de uma verdade demasiado esquiva para me ser revelada quando estou acordada. Empédocles encontrou a verdade num sonho, eu encontro peças misturadas de vários puzzles que encaixam mal umas nas outras; formam composições difíceis de destrinçar mas que recusam desaparecer exigindo interpretação. Arreliam outros pensamentos de maior consequência expulsando-os para lugares recônditos da minha mente.
A minha mãe interpretava os sonhos. Sonhar com os mortos era bom porque os víamos com vida, falávamos com eles e eles connosco, matávamos saudades na sua companhia. Sonhar com a morte dos vivos significava vida longa para eles. Sempre gostei dessa forma de ver a morte, uma continuidade que se prolonga nos sonhos (terá sido aí que nasceu a crença na vida depois da morte?)
Os dia da Adeline sem o Karl seriam suportáveis se passasse as noites com ele. Fingiria que sonhava quando estava acordada e que estava acordada quando sonhava, como Chu Tse que sonhou que era uma borboleta e interrogava-se, uma vez acordado, se não seria uma borboleta a sonhar que era um homem. Adeline queria o Karl nos seus sonhos, queria viver com ele o tempo de vida que lhe restava. Ela queria ser uma mulher da Tikopia porque elas faziam amor com os espíritos durante os sonhos.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

we both screw people for money

disse Richard Gere à Julia Roberts no Pretty Woman, mas ela não enganava ninguém. O relacionamento era limpo e aberto, fechava-se a transacção na hora e não necessitava de burocracias nem bullshit.

Na China, numa sondagem à confiança das pessoas nas pessoas, ficou a saber-se que os chineses confiam mais nas prostitutas do que nos professores, cientistas e governantes. Os grupos com mais votos de confiança são os agricultores, "trabalhadores religiosos" (monges?), trabalhadores do sexo, soldados e estudantes. A grande surpresa é a confiança depositada nas prostitutas (interessante também a sua proximidade aos monges). A quebra mais dramática, em relação à sondagem anterior, foi nos governantes. O China Daily justifica esse declínio com os escândalos (sem surpresa) e com os protestos dos Uigures, embora não os mencione directamente.

The steep decline, pollsters concluded, reflects a "quite severe" drain of government credibility, which is obvious in recent "mass incidents". In most recent cases of mass protests, distrust of local authorities turned out to be a powerful amplifier of public indignation.

Nas sondagens que se fazem por cá nunca constaram os trabalhadores do sexo mas não seria má ideia incluir outros grupos para além dos habituais jornalistas, professores, políticos, médicos, juízes e polícias. Seria interessante percebermos com mais rigor em quem é que confiamos e como os grupos habituais se classificariam em comparação com outros tradicionalmente ignorados. Talvez houvesse algumas surpresas. Confiar nos professores, médicos, polícias, juízes parece-me óbvio - não temos outro remédio.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

blogconf


Assisti à Blogconf com o Francisco Louçã. Nunca deixo de me surpreender com a dificuldade que a intelectualidade tem em lidar com perguntas para as quais não tem resposta preparada, como a que o 31 da Armada colocou ao líder do BE:
- Tem amigos ricos?

transparência

Alice disse à Rainha Branca que não se podia acreditar nas coisas impossíveis, ao que a rainha respondeu dizendo que ela não tinha praticado o suficiente. Na sua juventude a rainha fazia-o meia hora por dia, às vezes chegava a acreditar em seis coisas impossíveis antes do pequeno-almoço.
Manuela Ferreira Leite acredita na transparência antes do almoço mas à tardinha deixa de acreditar e inclui dois arguidos em processos judiciais na lista de deputados por Lisboa. Tal como a rainha dizia à Alice, acreditar nos impossíveis é uma questão de prática, algo que se pode disciplinar e planear para uma determinada hora do dia.

leve dois, pague um e coitado do Afonso que não merecia isto

«Viseu não ficará atrás, também terá o seu monumento, e é para já, mas, como os tempos são outros, mais modernos, mais contemporâneos e, até mesmo, mais cosmopolitas, manda às malvas a subscrição pública e vai comprá-lo ao supermercado. Em lá chegando, procura onde fica a secção dos monumentos (é já ali, senhor, ao fundo daquele corredor, logo a seguir ao papel higiénico), e dá-se pressa, para chegar antes que esgotem, porque estão em promoção, com desconto de 50%. Ainda teve que se descabelar, arrepelar e esgadanhar com uma matrona pitosga que confundia os Afonsos Henriques com presuntos de Chaves, mas lá conseguiu apanhar um par deles. E eis agora Viseu, leva dois e paga um, toda satisfeitinha com os seus monumentos a Afonso Henriques.» - Aldo Nim no Café Toural

Eis D. Afonso I, vendedor parolo da marca Modelo:


fotografia do blogue Viseu, Fotos do AJ

segunda-feira, 3 de agosto de 2009