sexta-feira, 7 de agosto de 2009

julgamento

Vieram fazer o meu julgamento. Chegaram do passado, de um tempo em que éramos jovens promessas em qualquer coisa e que escutavam as palavras de adultos, demasiado confiantes na juventude e na psicologia, como se fossem pérolas deslizando dos lábios de oráculos que não tinham outra alternativa senão acertar. Congratularam-me por ter ganho alguns quilos que esconderam o esqueleto da juventude, esse monte de ossos que incomodava tanta gente. Se tivessem vindo há anos atrás teriam mais um crime para julgar. As gravidezes deram lugar a uma deusa da fertilidade, uma vénus de Willendorf, roliça, mamas de leite inesgotável que os meus bebés sugavam com prazer aconchegados na fartura do meu corpo. Um corpo que me era estranho e me atormentava às vezes, mas nunca fui tão feliz como quando fui gorda. A maternidade quase esqueceu as neuroses, os medos, as fobias, e entendi porque é que algumas mulheres tinham ninhadas de filhos, uns atrás dos outros. Andavam a curar-se de qualquer coisa.

Sentados à volta da minha mesa, afastada a inevitável referência ao meu corpo e às raízes do cabelo onde respiram cãs a aguardar pintura, desenterraram o meu scriptio inferior. Os erros, as falhas, decisões malditas, a corrupção da língua por vocábulos estrangeiros e a sua estagnação pela falta de uso - como te atreves a usar a Língua, como se ainda fosse a tua? Escrevê-la, tu, que nem mereces possuir um dicionário. Nunca fui tão infeliz como quando escrevia bibliotecas de cadernos, caligrafias diferentes que hoje não consigo ler porque os monstros marinhos que desenhei nas margens possuem tentáculos que me querem junto deles nas profundezas da água. Não posso ir mais além de um olhar. Assusta-me perder a sanidade, essa fortaleza que julgamos garantia do império mas que é apenas mais uma fragilidade.

A fragilidade do que a vida acumula. Uma caixa de fotografias e alguns discos de vinil também vão a julgamento. Os quadros que outras pintaram por mim, as leituras e a falta de jeito para fazer bolos que me saem sempre tortos, o estado semi-selvagem do jardim, as centopeias e as aranhas. Os disparates. Vasculham no cesto da roupa suja o meu desleixo. Os abandonos, as deserções, a fila de coisas que comecei e não acabei e as que acabei sem as começar. Futilidades que desenho, que escrevo, e que não interessam a ninguém.

Abri a boca para falar em minha defesa e tudo o que saiu foi a descrição das flores pintadas à mão na chávena de chá de uma tia-avó.



Maira Kalman

sonhos

Seguro um sonho que tive e que recordo por culpa de um despertar fora de horas. Dormi com a janela do quarto aberta embora as noites sejam frescas, tão frescas que não foi preciso trocar o edredão de Inverno, e fui interrompida no sono pelos pássaros malucos da madrugada. Pessoas que não vejo há anos visitaram-me para fazerem o meu julgamento. Censuravam-me e acusavam-me de trivialidades como se fossem crimes abomináveis. Uma Inquisição. Alguns talvez já estejam mortos e eu não sei.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

sonhos

Os sonhos da noite têm poder sobre o dia.
Subi e desci o dia matutando na anormalidade que parece emprestar valor aos sonhos, como se fosse chave de uma verdade demasiado esquiva para me ser revelada quando estou acordada. Empédocles encontrou a verdade num sonho, eu encontro peças misturadas de vários puzzles que encaixam mal umas nas outras; formam composições difíceis de destrinçar mas que recusam desaparecer exigindo interpretação. Arreliam outros pensamentos de maior consequência expulsando-os para lugares recônditos da minha mente.
A minha mãe interpretava os sonhos. Sonhar com os mortos era bom porque os víamos com vida, falávamos com eles e eles connosco, matávamos saudades na sua companhia. Sonhar com a morte dos vivos significava vida longa para eles. Sempre gostei dessa forma de ver a morte, uma continuidade que se prolonga nos sonhos (terá sido aí que nasceu a crença na vida depois da morte?)
Os dia da Adeline sem o Karl seriam suportáveis se passasse as noites com ele. Fingiria que sonhava quando estava acordada e que estava acordada quando sonhava, como Chu Tse que sonhou que era uma borboleta e interrogava-se, uma vez acordado, se não seria uma borboleta a sonhar que era um homem. Adeline queria o Karl nos seus sonhos, queria viver com ele o tempo de vida que lhe restava. Ela queria ser uma mulher da Tikopia porque elas faziam amor com os espíritos durante os sonhos.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

we both screw people for money

disse Richard Gere à Julia Roberts no Pretty Woman, mas ela não enganava ninguém. O relacionamento era limpo e aberto, fechava-se a transacção na hora e não necessitava de burocracias nem bullshit.

Na China, numa sondagem à confiança das pessoas nas pessoas, ficou a saber-se que os chineses confiam mais nas prostitutas do que nos professores, cientistas e governantes. Os grupos com mais votos de confiança são os agricultores, "trabalhadores religiosos" (monges?), trabalhadores do sexo, soldados e estudantes. A grande surpresa é a confiança depositada nas prostitutas (interessante também a sua proximidade aos monges). A quebra mais dramática, em relação à sondagem anterior, foi nos governantes. O China Daily justifica esse declínio com os escândalos (sem surpresa) e com os protestos dos Uigures, embora não os mencione directamente.

The steep decline, pollsters concluded, reflects a "quite severe" drain of government credibility, which is obvious in recent "mass incidents". In most recent cases of mass protests, distrust of local authorities turned out to be a powerful amplifier of public indignation.

Nas sondagens que se fazem por cá nunca constaram os trabalhadores do sexo mas não seria má ideia incluir outros grupos para além dos habituais jornalistas, professores, políticos, médicos, juízes e polícias. Seria interessante percebermos com mais rigor em quem é que confiamos e como os grupos habituais se classificariam em comparação com outros tradicionalmente ignorados. Talvez houvesse algumas surpresas. Confiar nos professores, médicos, polícias, juízes parece-me óbvio - não temos outro remédio.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

blogconf


Assisti à Blogconf com o Francisco Louçã. Nunca deixo de me surpreender com a dificuldade que a intelectualidade tem em lidar com perguntas para as quais não tem resposta preparada, como a que o 31 da Armada colocou ao líder do BE:
- Tem amigos ricos?

transparência

Alice disse à Rainha Branca que não se podia acreditar nas coisas impossíveis, ao que a rainha respondeu dizendo que ela não tinha praticado o suficiente. Na sua juventude a rainha fazia-o meia hora por dia, às vezes chegava a acreditar em seis coisas impossíveis antes do pequeno-almoço.
Manuela Ferreira Leite acredita na transparência antes do almoço mas à tardinha deixa de acreditar e inclui dois arguidos em processos judiciais na lista de deputados por Lisboa. Tal como a rainha dizia à Alice, acreditar nos impossíveis é uma questão de prática, algo que se pode disciplinar e planear para uma determinada hora do dia.

leve dois, pague um e coitado do Afonso que não merecia isto

«Viseu não ficará atrás, também terá o seu monumento, e é para já, mas, como os tempos são outros, mais modernos, mais contemporâneos e, até mesmo, mais cosmopolitas, manda às malvas a subscrição pública e vai comprá-lo ao supermercado. Em lá chegando, procura onde fica a secção dos monumentos (é já ali, senhor, ao fundo daquele corredor, logo a seguir ao papel higiénico), e dá-se pressa, para chegar antes que esgotem, porque estão em promoção, com desconto de 50%. Ainda teve que se descabelar, arrepelar e esgadanhar com uma matrona pitosga que confundia os Afonsos Henriques com presuntos de Chaves, mas lá conseguiu apanhar um par deles. E eis agora Viseu, leva dois e paga um, toda satisfeitinha com os seus monumentos a Afonso Henriques.» - Aldo Nim no Café Toural

Eis D. Afonso I, vendedor parolo da marca Modelo:


fotografia do blogue Viseu, Fotos do AJ

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

invente qualquer coisa



Surripiado da história ilustrada "Can do" de Maira Kalman no New York Times

o meu Mondrian

myData=myMondrian é um programa interactivo onde informações pessoais do utilizador são traduzidas numa composição artística baseada na arte de Piet Mondrian. Os meus dados pessoais (cor dos olhos e cabelo, altura, estado civil, filhos, tempos livres, etc.) foram traduzidos assim:


o meu Mondrian


Ainda sobre Mondrian, Rafael Rozendaal inspirou-se na sua arte geométrica para criar uma animação flash da qual reproduzo aqui uma imagem. Vale a pena visitar o site onde Rozendaal alojou a sua animação Electric Boogie Woogie. Mais trabalhos deste artista em http://newrafael.com/



Rafael Rozendaal, Electric Boogie Woogie

via

sexta-feira, 31 de julho de 2009

full picture


Publicidade velhinha do The Guardian.

recortar os álbuns da duquesa


Que fazer durante as férias de Verão no castelo de Vigoleno, no norte de Itália, em 1933? Recortar os álbuns da duquesa, terá pensado Max Ernst. As 184 colagens de “Une semaine de bonté” criadas a partir de recortes de ilustrações de romances populares, jornais de ciência natural, catálogos de venda, enciclopédias e outras obras da biblioteca da duquesa Maria Ruspoli, estão em exposição no Museu D’Orsay ao lado de ilustrações de onde Max Ernst recortou os elementos que depois misturou e colou. A perfeição das colagens é tão fantástica como os seres resultantes delas.
Impossível não pensar na duquesa. Terá lamentado a mutilação dos seus grossos volumes?




sexta-feira, 24 de julho de 2009

chatos

O Simplex e o Jamais.



©Srinivas Kuruganti

Prostituição masculina em Hyderabad. As fotografias fazem parte do trabalho de documentação da sida na India realizado pelo autor.

lista

Quando chegou ao último item da lista pôs-se à espera. O papel amarfanhado, escurecido pelo prolongamento na carteira e pelo manusear frequente, fora escrito com a rapidez de uma lista de compras numa caligrafia redonda com as inevitáveis bolas semi-desfeitas sobre os is, as curvaturas dos dês, dos pês e dos bês imitando protuberâncias femininas e os falos curtos e gordos dos efes negando erecções a rabos e mamas de perfil. Pertences do homem que já não vivia ali. Pertences da mulher que já não era. Pertences da mãe octogenária que só parira uma vez. Pertences da casa. Sonhos de fertilidade que não tivera. Brochura da viagem a Itália onde acenara ao homem de roupas barrocas que não lhe devolveu a fé. Cigarros, batom e lenços de papel. Provas de identidade.
Um a um, desfizera-se de quase todos os itens da lista e estava à espera. A mãe apoiava-se nela, braço enfiado no braço. Assistira ao esvaziamento da casa em silêncio, nada dizendo quando os homens da empresa de recolha de pertences os foram carregar num camião branco muito sujo. Habituara-se às pequenas loucuras da filha, velha demais para a contrariar. Seguiu-a como um cordeiro até ao táxi que as deixou junto da linha do comboio. Caminharam um pouco, um último olhar à lista antes de a rasgar em pedacinhos. “Nós”, era o último item. Quando o comboio se aproximou a filha empurrou a mãe para a linha. Atirou-se de seguida na mesma direcção.
O taxista não queria acreditar quando leu a notícia no jornal. Se ele adivinhasse, se soubesse que as conduzia à morte não as teria levado. Os homens pensam que tudo depende deles. Pensam que se matam por eles. Pensam que as salvam.

(pequena estória inspirada nesta notícia)

quarta-feira, 22 de julho de 2009

fuga

Numa caligrafia muito tremida e irregular escreveu no topo da folha, “Mãe e pai, se boses batere a mim mais uma vaz eu bou fujir de casa! Ver o dezenho de mim!”.
O desenho de traço inseguro mostra um rapaz de cinco anos com uma cara redonda. A boca é uma linha curva com as extremidades voltadas para baixo. Lágrimas escorrem pelas bochechas de lua. No ombro apoia um pau que segura com uma mão e em cuja outra extremidade desenhou uma circunferência com o dinossauro com que gostava de dormir desenhado no seu interior. Caminha entre árvores e arbustos arrastando na outra mão um saco onde está escrito “muchilas, xapeos, quispos, comida” e mais duas palavras ilegíveis. Para trás fica a casa com uma janela só por onde espreitam a mãe e o pai, observando a fuga do rapaz com indiferença. Para que não houvesse dúvidas quanto à sua identidade, escapa-se da boca um balão onde escreveu “O meu nome é…”
Foi uma escorregadela de mão num momento de ebulição, uma palmada no rabo traquina, uma coisa de nada, pensamos sempre, mas nunca é uma coisa de nada. Sabemos que não o é quando eles exprimem sentimentos nos desenhos que nos metem por baixo da porta do quarto ou deixam em cima da mesa, dentro da pasta do pai. Desaperta-se o nó duma gravata, apetece alargar um sutiã, qualquer coisa onde arranjar espaço para mais ar dentro dos pulmões. Sabemos que cometemos um erro mas nada o acusa tão bem como um desenho tremido num português que se esforçou por escrever. Guardei-o estes anos todos.