terça-feira, 4 de agosto de 2009

leve dois, pague um e coitado do Afonso que não merecia isto

«Viseu não ficará atrás, também terá o seu monumento, e é para já, mas, como os tempos são outros, mais modernos, mais contemporâneos e, até mesmo, mais cosmopolitas, manda às malvas a subscrição pública e vai comprá-lo ao supermercado. Em lá chegando, procura onde fica a secção dos monumentos (é já ali, senhor, ao fundo daquele corredor, logo a seguir ao papel higiénico), e dá-se pressa, para chegar antes que esgotem, porque estão em promoção, com desconto de 50%. Ainda teve que se descabelar, arrepelar e esgadanhar com uma matrona pitosga que confundia os Afonsos Henriques com presuntos de Chaves, mas lá conseguiu apanhar um par deles. E eis agora Viseu, leva dois e paga um, toda satisfeitinha com os seus monumentos a Afonso Henriques.» - Aldo Nim no Café Toural

Eis D. Afonso I, vendedor parolo da marca Modelo:


fotografia do blogue Viseu, Fotos do AJ

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

invente qualquer coisa



Surripiado da história ilustrada "Can do" de Maira Kalman no New York Times

o meu Mondrian

myData=myMondrian é um programa interactivo onde informações pessoais do utilizador são traduzidas numa composição artística baseada na arte de Piet Mondrian. Os meus dados pessoais (cor dos olhos e cabelo, altura, estado civil, filhos, tempos livres, etc.) foram traduzidos assim:


o meu Mondrian


Ainda sobre Mondrian, Rafael Rozendaal inspirou-se na sua arte geométrica para criar uma animação flash da qual reproduzo aqui uma imagem. Vale a pena visitar o site onde Rozendaal alojou a sua animação Electric Boogie Woogie. Mais trabalhos deste artista em http://newrafael.com/



Rafael Rozendaal, Electric Boogie Woogie

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sexta-feira, 31 de julho de 2009

full picture


Publicidade velhinha do The Guardian.

recortar os álbuns da duquesa


Que fazer durante as férias de Verão no castelo de Vigoleno, no norte de Itália, em 1933? Recortar os álbuns da duquesa, terá pensado Max Ernst. As 184 colagens de “Une semaine de bonté” criadas a partir de recortes de ilustrações de romances populares, jornais de ciência natural, catálogos de venda, enciclopédias e outras obras da biblioteca da duquesa Maria Ruspoli, estão em exposição no Museu D’Orsay ao lado de ilustrações de onde Max Ernst recortou os elementos que depois misturou e colou. A perfeição das colagens é tão fantástica como os seres resultantes delas.
Impossível não pensar na duquesa. Terá lamentado a mutilação dos seus grossos volumes?




sexta-feira, 24 de julho de 2009

chatos

O Simplex e o Jamais.



©Srinivas Kuruganti

Prostituição masculina em Hyderabad. As fotografias fazem parte do trabalho de documentação da sida na India realizado pelo autor.

lista

Quando chegou ao último item da lista pôs-se à espera. O papel amarfanhado, escurecido pelo prolongamento na carteira e pelo manusear frequente, fora escrito com a rapidez de uma lista de compras numa caligrafia redonda com as inevitáveis bolas semi-desfeitas sobre os is, as curvaturas dos dês, dos pês e dos bês imitando protuberâncias femininas e os falos curtos e gordos dos efes negando erecções a rabos e mamas de perfil. Pertences do homem que já não vivia ali. Pertences da mulher que já não era. Pertences da mãe octogenária que só parira uma vez. Pertences da casa. Sonhos de fertilidade que não tivera. Brochura da viagem a Itália onde acenara ao homem de roupas barrocas que não lhe devolveu a fé. Cigarros, batom e lenços de papel. Provas de identidade.
Um a um, desfizera-se de quase todos os itens da lista e estava à espera. A mãe apoiava-se nela, braço enfiado no braço. Assistira ao esvaziamento da casa em silêncio, nada dizendo quando os homens da empresa de recolha de pertences os foram carregar num camião branco muito sujo. Habituara-se às pequenas loucuras da filha, velha demais para a contrariar. Seguiu-a como um cordeiro até ao táxi que as deixou junto da linha do comboio. Caminharam um pouco, um último olhar à lista antes de a rasgar em pedacinhos. “Nós”, era o último item. Quando o comboio se aproximou a filha empurrou a mãe para a linha. Atirou-se de seguida na mesma direcção.
O taxista não queria acreditar quando leu a notícia no jornal. Se ele adivinhasse, se soubesse que as conduzia à morte não as teria levado. Os homens pensam que tudo depende deles. Pensam que se matam por eles. Pensam que as salvam.

(pequena estória inspirada nesta notícia)

quarta-feira, 22 de julho de 2009

fuga

Numa caligrafia muito tremida e irregular escreveu no topo da folha, “Mãe e pai, se boses batere a mim mais uma vaz eu bou fujir de casa! Ver o dezenho de mim!”.
O desenho de traço inseguro mostra um rapaz de cinco anos com uma cara redonda. A boca é uma linha curva com as extremidades voltadas para baixo. Lágrimas escorrem pelas bochechas de lua. No ombro apoia um pau que segura com uma mão e em cuja outra extremidade desenhou uma circunferência com o dinossauro com que gostava de dormir desenhado no seu interior. Caminha entre árvores e arbustos arrastando na outra mão um saco onde está escrito “muchilas, xapeos, quispos, comida” e mais duas palavras ilegíveis. Para trás fica a casa com uma janela só por onde espreitam a mãe e o pai, observando a fuga do rapaz com indiferença. Para que não houvesse dúvidas quanto à sua identidade, escapa-se da boca um balão onde escreveu “O meu nome é…”
Foi uma escorregadela de mão num momento de ebulição, uma palmada no rabo traquina, uma coisa de nada, pensamos sempre, mas nunca é uma coisa de nada. Sabemos que não o é quando eles exprimem sentimentos nos desenhos que nos metem por baixo da porta do quarto ou deixam em cima da mesa, dentro da pasta do pai. Desaperta-se o nó duma gravata, apetece alargar um sutiã, qualquer coisa onde arranjar espaço para mais ar dentro dos pulmões. Sabemos que cometemos um erro mas nada o acusa tão bem como um desenho tremido num português que se esforçou por escrever. Guardei-o estes anos todos.

chuva


Gosto da chuva de Verão (já sei, é quase heresia dizer isto em época de praia). O ruído desta manhã aqui para os meus lados, é muito semelhante ao som nos primeiros minutos deste vídeo dos Perpetuum Jazzile.

a antologia do esquecimento

do Henrique Bento Fialho está de volta em http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/
Fazia falta a escrita do Henrique.

vozes

No sótão habita o pó dos objectos supérfluos e mil e uma criaturas que fazem dele o seu habitat. Cumprem o seu ciclo de vida entre as minhas coisas, emigrantes, talvez, de um mundo natural, algumas, outras terão nascido e morrido ali adquirindo nacionalidade por direito de nascença. Encontro cadáveres quando levanto caixas e arrasto móveis, as mãos escuras de pó que num impulso se dirigem para o aspirador e o pé que se queda suspenso sobre o botão de ligar e desligar. Ainda não. Observa. Agora sim. A máquina abre a bocarra estrídula e devora as mil e uma mortes que coabitam o sótão com as mil e uma vidas cujas vozes, eu sei, à noite descerão veios de madeira e cruzarão paredes e tectos, até chegarem ao meu quarto. Aninhar-se-ão por baixo da cama junto das criaturas que se alimentam aspirando as células que se desapertam da minha pele.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

perna de pau


o filhote mais novo desfazendo uma curva

Os meus irmãos faziam carrinhos de rolamentos. Uma tábua que se ia pedir ao carpinteiro, quatro rolamentos que se compravam na loja do senhor Matos e uma corda ligada entre as rodas e a tábua, a servir de direcção, e já estava; um carro que atingia não sei quantos à hora na descida, eram muitos e sem travões. Ao fundo da rua havia uma casa embutida na muralha, habitada por um velho que estava sempre sentado nos degraus que desciam até ao passeio, uma perna flectida e outra sempre estendida. Cabelo no ar agarrada às orelhas do meu irmão, lá íamos nós a toda a velocidade pela rua abaixo em rota de colisão com a perna de pau.
- Ai que já vos esbarrastes - dizia o velho.
- Desculpa.
Um joelho esfolado, um cotovelo raspado, agarrávamos na corda e puxávamos o carrinho de rolamentos pela rua acima, determinados a repetir a corrida, mas desta vez era eu - Geraldo sem Pavor - aos comandos da tábua. E lá íamos nós outra vez, sem remorso, pela muralha abaixo. Toda a gente sabia que as pernas de pau não doíam.

Outubro



«[A Revolução de Outubro]Enquanto sinal de utopia, mobiliza as capacidades do ser humano para traçar colectivamente um mundo alternativo, desejavelmente melhor.»

Gosto de ler o Rui Bebiano mas nunca tive um livro dele nas mãos. Outubro, que pode ser encomendado no site da editora (compras de livros online foi uma das melhores inovações que a internet introduziu na minha vida), já vem a caminho. Parte de uma entrevista com o autor pode ser lida aqui.

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quarta-feira, 15 de julho de 2009

CEC 2012



A cerimónia de apresentação do projecto "Guimarães Capital Europeia da Cultura 2012 decorreu ontem no Centro Cultural Vila Flor em Guimarães. Cristina Azevedo, presidente da Fundação Cidade de Guimarães, afirmou que se trata de um projecto para construir e não para comprar.“Não vamos comprar por catálogo, vamos antes criar novos empregos e soltar a criatividade”.

"Guimarães, Capital Europeia da Cultura 2012, é de todos os portugueses" e “de todas as cidades portuguesas, esta é aquela de que todos os portugueses se sentem um pouco cidadãos”, disse José Sócrates, mas considerando o destaque quase nulo que a cerimónia teve nos media (com excepção dos jornais locais), a CEC2012 parece ser vista como um projecto de minhotos para minhotos.