sexta-feira, 10 de julho de 2009

das árvores e do absurdo

O Irish Times fala do cepo de uma árvore que alguns irlandeses acham muito semelhante à Virgem Maria. Cerca de duas mil pessoas assinaram uma petição exigindo que o cepo não fosse removido do terreno da igreja de uma localidade em Co Limerick, para desconforto do padre que diz que o cepo é uma árvore e não a Virgem Maria. Se um número substancial de crentes se indignar com estas afirmações, o padre poderá ser processado e condenado a pagar uma multa de 25.000 Euros, ao abrigo da famosa e estapafúrdia lei da blasfémia que ninguém pediu mas foi aprovada anteontem na Irlanda. A igreja nunca achou muita piada às iniciativas supersticiosas espontâneas que se materializam fora do seu controle. Acho muito bem que os seguidores do culto do cepo adorem o que lhes apetecer e recusem ir para casa ler a última encíclica papal onde, ao que consta, se revelam verdades sobre a economia das quais nunca ninguém ouviu falar, embora alguns dos que a leram considerem que se trata apenas de senso comum em linguagem teológica. Na Polónia, também há quem diga que uma árvore é só uma árvore e há quem diga que não. A população de Jaslo está dividida entre cortar ou não cortar a árvore que ali foi plantada há sessenta e sete anos para celebrar o aniversário de Hitler. Entretanto, do outro lado do Atlântico, o Michael Jackson resolveu imitar a Virgem Maria irlandesa e aparecer no tronco de uma árvore em Stockton na Califórnia. Suponho que este culto, à semelhança do de Elvis, irá prosperar. Prosperidade é o que se espera para Vila Nova de Gaia, onde se realiza uma feira medieval erótica que, para “atrair o público feminino, pouco comum nas feiras”, tratará de apresentar ao rei “uma mulher adúltera, que será depois enxovalhada e atirada à multidão”. O público feminino, possivelmente com os seios devidamente evidenciados por corpetes de madeira vinda de árvores sem simbolismos marianos ou demoníacos, dará gritinhos de alegria com a sucessão de orgasmos múltiplos que o sacudirá perante tamanha criatividade erótica. Também poderá aprender uma ou duas coisas sobre “acrobacias vaginais” para "apimentar a relação dos casais portugueses" que anda muito desenxabida desde que o alcaide de Gaia se lembrou de apontar a estranha parecença das suecas com o Pacheco Pereira, que até gosta de árvores. Muitas árvores alimentaram a quantidade de revistas e jornais devotados ao culto do Cristiano Ronaldo que, espero, não me apareça em nenhum limoeiro do jardim.

Sento-me na sombra acolhedora de uma árvore e desligo a fonte de alimentação das notícias do absurdo, lembrando-me que as disposições dos tempos são definidas pelas suas mentes mais tacanhas. Abundam besouros nos ramos da tília. Há uma grande quantidade de morangos silvestres que se espalham pelo jardim, determinados a dominar o relvado, e esta noite descobri que os ouriços-cacheiros gostam dos cereais dos gatos. A lagartixa que os meus filhos puseram dentro de uma tina para ser observada, deixou cair a cauda separando-a do corpo. Fazem-no para enganar os predadores, explicam-me eles com ar de biólogos.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

uma forma brilhante de subversão


«Era uma cena interessante porque eu tinha uma enorme multidão ali. Digo-te, é muito, muito estranho estar lá em cima. Sentes-te superior a toda a gente porque estás literalmente acima deles, mas também porque estás cercado pelo exército, tens a melhor roupa, tens o papel principal. E mal as pessoas começam a rir, ficas… é uma forma brilhante de subversão. Penso que é algo de que os revolucionários modernos se deveriam lembrar. Se conseguires gozar alguém, é sempre melhor e mais eficiente do que matá-lo e transformá-lo num mártir. E é isso que funciona tão bem aqui. E foi mesmo muito inquietante interpretar Pilatos para aquela gente toda, para no fim os ver rebolar, um grande número de gente que se ri de ti. Não há nada mais garantido para te pôr no teu lugar e não há nada que possas fazer contra isso. Suponho que possas matar gente por se rir de ti, mas…» - Michael Palin sobre a famosa cena de Pilatos (welease wodger) no Life of Brian

terça-feira, 7 de julho de 2009

sopa

Algumas ideias criativas dos anos 50 parecem ter sido idealizadas para demover o consumo de sopas Campbell. Nessa altura eu ainda não era nascida mas na década seguinte, sem nunca ter ouvido falar de sopas enlatadas, também tentava "melhorar" as sopas da minha mãe. Uma das minhas melhores ideias foi adicionar-lhe açúcar. Lógica imbatível, se tudo o que tinha açúcar era bom, a sopa só podia ser má porque não o tinha. Não tentei a esperteza segunda vez.



via

segunda-feira, 6 de julho de 2009

identidade


mulheres da limpeza, da série Comerciantes de Irving Penn


Quando pela primeira vez pus os pés fora de Portugal recebi a minha primeira lição de identidade. Lá fora não era com artistas, exploradores e poetas, que nos identificavam. Não era com a veia que nos levou a dar mundos ao mundo. Era com as mulheres da limpeza.

domingo, 5 de julho de 2009

aborígene

Se eu fosse uma aborígene não conheceria as palavras esquerda, direita, frente e atrás e referir-me-ia à minha mão esquerda ou à minha perna direita usando os pontos cardeais. Mas o meu pé sudoeste ou a minha mão oeste mudariam de nome se eu mudasse de posição. Uma aborígene tem de estar sempre orientada, sabe essas coisas intuitivamente, enquanto eu nem sempre distingo a mão direita do meu pé esquerdo. Qualquer coisa se perde na viagem do cérebro até à mão que escreve.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

moonwalk




Burma

Este relatório da International Human Rights Clinic da Harvard Law School, dá conta da pouca atenção que as violações dos direitos humanos em Burma, para além da prisão de Aung San Suu Kyi e da revolta dos monges budistas em 2007, tem tido por parte da comunidade internacional. O recrutamento de crianças soldado, a generalização da violência sexual, tortura e assassínio, a deslocação forçada de mais de um milhão de pessoas, a destruição de 3000 aldeias de nacionalidades étnicas ao longo da última década, trabalhos forçados e outras atrocidades levadas a cabo pelo regime militar, apesar de terem levado a ONU a emitir 38 resoluções condenando os abusos, ainda não foram suficientes para que avançasse com um processo de investigação destas violações da lei internacional. Os autores do documento pedem à ONU que crie uma Comissão de Inquérito para investigar os crimes contra a humanidade e crimes de Guerra em Burma.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

lemniscata

Agradeço ao João Paulo Videira do blogue Mails para a minha Irmã a atribuição deste prémio ao Segunda Língua.
"O selo deste prémio foi criado a pensar nos blogs que demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos seus leitores."

Os blogues que enriquecem a (minha) blogosfera são os mesmos que já premiei mas aqui estão mais alguns que nunca mencionei: Boas Intenções (Inferno Cheio), Alice in My Head, The Heart is a Lonely Place, Menina Limão, Água Lisa.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Aung San Suu Kyi


Dennis M. Sabangan/EPA

Fez hoje 64 anos. Comemorou-os na prisão de Insein com arroz e bolo de chocolate junto dos seus convidados: os médicos que a assistem e os guardas prisionais. Aung aguarda julgamento por ter violado os termos da prisão domiciliária.

«It is often in the name of cultural integrity as well as social stability and national security that democratic reforms based on human rights are resisted by authoritarian governments. » - Aung San Suu Kyi

64 words for Aung San Suu Kyi

terça-feira, 16 de junho de 2009

máquina do tempo


Conduzia daquela forma que os condutores não sabem explicar. Subitamente parecemos despertar de um coma; chegamos a um sítio sem memória de como fomos lá parar. Tentamos recordar o caminho, os sinais familiares, esta ou aquela casa, uma ou outra árvore, uma curva ou cruzamento – o cruzamento! Devo ter feito atenção à direita e à esquerda antes de prosseguir mas não me lembro – os semáforos teriam mudado de cor? Devorámos a estrada como autómatos, sem nada reter, e milagrosamente chegamos ao sítio certo sem uma beliscadura.

Há um lapso entre o início da viagem e o fim. Quando a minha mãe caiu nas escadas, desapareceu nas frinchas do soalho. Deixou ficar um corpo inerte entre dois lanços, um intumescimento na nuca e frases sem sentido. O autómato. No Hospital de S. Marcos, quando não repousava, falava. Saíam-lhe coisas estranhas, como um dedo que se esticava e apontava para os pés da cama, para um cão invisível que devorava um pão-de-ló ausente. Olhava-nos sem nos reconhecer e falava connosco sobre nós como se não fossemos nós. Dizia-me, «Não digas à Maria que te dei o linho antigo da avó», como se eu não fosse a Maria e uma parte desse linho, bordado pela minha irmã, não estivesse encaixilhado e pendurado nas paredes da minha casa. Era assim; uma estranheza. O meu pai segurava-lhe os pulsos distribuindo palmadinhas pelas costas das mãos, entabulando com ela uma conversa de dicionários, de onde saltavam palavras com definição e classificação mas sem correlação, dizendo o nome da minha mãe a cada duas palavras.

Estava a tentar trazê-la de volta; mas a minha mãe só voltou no dia em que regressou a casa. Não se lembrava como tinha chegado à sua cama - se ainda segundos antes subia as escadas – e olhava incrédula para a minha irmã - se ainda há minutos estava em África. Precisou de algum tempo para aceitar que tinham passado três meses. Vasculhou na memória tentando desfazer o hiato, mas não encontrou mais do que uma ténue impressão de ter estado presa pelos pulsos e pelos tornozelos a uma roda que girava sem parar.

Posso acordar no portão da quinta sem me lembrar de nada entre a saída do parque de estacionamento do supermercado e a chegada a casa. Por onde teria andado? Poderia ter passado por Barcelona ou por Nouméa, ter participado num qualquer ritual ancestral entre povos por descobrir, ter desfilado com fitas verdes enroladas nos pulsos pelas ruas de Teerão, ou percorrido a Via Láctea, de uma ponta à outra, sem reter uma única pista para um registo, o reconto dessa odisseia galáctica num diário. Poderia, como a minha mãe, ter sido uma mulher vitruviana à deriva num hiato.

O veículo que me transporta é uma máquina do tempo. Entrei nele há vinte anos, mas abre-se o porta-bagagens e os congelados que comprei ainda estão congelados, a alface não murchou, a fruta não apodreceu.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

racistas

-Mãe, ali há racistas. Andam pessoas a pôr bigodes e lenços aos quadradinhos no Obama.

(O filhote mais novo, comentando as notícias de Israel no canal 2)

a hierarquia dos acontecimentos

Seguindo os acontecimentos no Irão, via Twitter, alguns sites iranianos, a Palmira no Jugular (excelente o trabalho que ela tem feito ao trazer-nos os últimos desenvolvimentos) e a imprensa internacional e nacional, deparo com um comentário recorrente: a diferença entre Mousari e Ahmadinejad é nula, ambos representam uma teocracia, um regime repressivo onde quem detém o verdadeiro poder é o líder religioso, desvalorizando o que por lá se passa. É evidente que todos os candidatos são homens do regime ou não teriam sido aceites pelo aiatola para disputarem as eleições, mas fico boquiaberta com a aparente incapacidade de algumas pessoas, cuja opinião respeito, perceberem que existe uma diferença entre esses “iguais” e, imagine-se, acharem espantoso que haja quem dê mais importância às eleições iranianas do que às europeias; talvez, quiçá, porque andamos a desrespeitar uma qualquer hierarquia de importância humana segundo a qual os que são como nós (cidadãos livres num regime democrático e secular, respeitador dos direitos humanos) são mais merecedores da nossa atenção do que os que não são. Incrível.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

let's hope he can't

O slogan escolhido por Ahmadinejad na campanha para as eleições de amanhã é: "Yes, we can".

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Zahra Rahnavard


«As mulheres deveriam ter os mesmos direitos dos homens», lê-se nas palmas desta apoiante de Mir-Hossein Mousavi. Foto do LA Times.

«Today we can close our eyes and see ourselves. Never have women had so much self-awareness. Women have always been just under the skin of history. Today, we assert ourselves.» - Zahra Rahnavard

Pela primeira vez desde a revolução iraniana, a mulher de um candidato assume um papel activo na campanha presidencial. Zahra fala em liberdade de expressão, mais direitos para as mulheres nos tribunais de família, melhores oportunidades na educação e emprego e prometeu que o marido, se eleito, incluiria mulheres no seu governo. Os homens, sobretudo das gerações mais jovens, parecem estar de acordo. Fartas de serem tratadas como cidadãos de segunda, da polícia da moral, zelosa no controle da "modéstia feminina", e das limitações que lhes são impostas, as iranianas depositam muita esperança em Zahra, pela sua mensagem, mas também por aparecer ao lado do marido - e sem ele - na campanha. Na ausência de uma candidata, elas querem uma primeira-dama que dê visibilidade às mulheres (a mulher de Ahmadinejad nunca é vista), mas não se ficam por aí. Exigem acesso ao emprego em pé de igualdade com os homens. Apesar de a maioria dos licenciados serem mulheres, os homens continuam a ter preferência no mercado de trabalho. As que conseguem um emprego compatível com as suas qualificações são impedidas de o exercer na totalidade, como é o caso das arquitectas que não podem acompanhar a construção dos edifícios que projectam.

A participação activa de Zahra na campanha eleitoral do marido está a dar voz às reivindicações femininas levando outros candidatos a seguir as pegadas de Mir-Hossein Mousavi, adoptando também eles um discurso favorável às mulheres, o maior movimento social no Irão. Ahmadinejad parece ter percebido o tamanho dessa força e respondeu fazendo desaparecer temporariamente a detestada polícia da moral das ruas, como testemunham os jornalistas estrangeiros no país. Por todo lado se vêm mulheres esticando os limites impostos ao vestuário, usando lenços coloridos, mal cobrindo as cabeças, e roupas, também coloridas, que aparecem por baixo do chador que vai ficando mais curto.

"Rahnavard, Rahnavard, igualdade entre homens e mulheres!" cantam os apoiantes nos comícios, mais interessadas em ouvir Zahra do que o marido a quem falta carisma. Mas Ahmadinejad conta também com muitas mulheres nos seus comícios, estas vestidas de preto da cabeça aos pés, corpo e cabelo bem escondido pelo chador. O contraste entre os comícios é enorme. Nos de Ahmadinejad, grita-se "morte a Israel" e "morte aos Estados Unidos". Nos de Mousavi grita-se "morte às batatas" numa referência ao hábito de Ahmadinejad oferecer sacos de batatas aos pobres em troca de votos.

Parece claro que quem ganhar as eleições terá de fazer reformas que vão de encontro aos desejos da população mais jovem (mais de 60% tem menos de 35 anos), homens e mulheres. Não são apenas elas que pedem mudança e direitos iguais. Eles também.

Power of women in Iran's election - BBC
The Woman Ahmadinejad Should Fear - Spiegel
Iranian presidential candidate's wife takes the spotlight - LA Times
Can Iran’s young ring the changes? - Times Online