
Publicidade aos cigarros Player's no Daily Herald de Londres em 1929, pouco antes das eleições gerais onde as mulheres britânicas votaram pela primeira vez.
a Palmira F. Silva no Eleições 2009.
«(...) verborreias legislativas tradicionais à parte, boa parte das leis por que todos nos regemos resulta, directa ou indirectamente, das lucubrações de um corpo que a maioria dos europeus decide não eleger muito menos acompanhar.»

Acho inadmissível que uma mãe, ou um pai, dê aos seus filhos um gravador para registar uma aula, ainda mais quando sei, por experiência própria (como mãe), que a DREN funciona muito bem em questões de conflitos dos pais com as escolas. A DREN ouve os pais, investiga e resolve, não precisa de gravações coisa nenhuma, não precisa dos media para assegurar a resolução desses conflitos.
O que se passou naquela aula - a atitude da professora - é uma questão que não podemos simplesmente lamentar e repudiar sem tentarmos perceber as implicações da gravação. Se perdemos a capacidade de nos indignarmos com a bufaria, ainda para mais pública, não tardará muito até uma versão moderna do fascismo, propulsionado por uma tecnologia portátil e acessível a todos, se instalar. Teremos gravadores por baixo das nossas secretárias, nas nossas casas, câmaras nas salas de aulas - já acontece no Reino Unido -, nos hospitais, nas repartições públicas, nas universidades, no emprego; em todo o lado um gigantesco olho público zelando pelo nosso bom comportamento, certificando-se de que os nossos disparates não saem impunes, por todos, com mão pesada. Estaremos a permitir a criação de um sistema onde o grupo está acima do indivíduo e a vingança acima da reconciliação. Uma frase mal dita, um disparate isolado num momento de tensão, quando nem sabemos da existência desse olho e ouvido público, destruir-nos-á. Estaremos a negar ao indivíduo as suas liberdades civis, o direito de se auto corrigir, de aprender com os seus erros, assim como o direito a uma segunda oportunidade, a um recomeço.
A legitimidade moral que alguns pais atribuem à gravação é nula. Não é isto que quero para os meus filhos. Eles sofrerão muito mais numa sociedade supra vigilante, onde os informadores são estimulados e aplaudidos, do que com os traumas que uma professora supostamente lhes causará com um comportamento inadequado numa aula.
«Por que será que estas coisas só acontecem a Norte?» - Eduardo Pitta sobre o caso da professora de Espinho.
Por acaso também gostava de uma resposta a essa pergunta. Talvez a resposta me fizesse entender a pergunta.
Escuta-se os da direita e fica-se um pouquinho mais de esquerda. Escuta-se os da esquerda e fica-se um pouquinho mais de direita. A confusão é tanta que precisamos de ferramentas online para nos dizer onde nos situamos políticamente.
Nada de grave porque não vamos votar.
«People had a habit of looking at me as if I were some kind of mirror instead of a person. They didn't see me, they saw their own lewd thoughts, then they white-masked themselves by calling me the lewd one.» - Marylin Monroe
A Rosa era a prostituta mais conhecida do burgo. Uma mulher grande, gorda, cabeleira oxigenada, maçãs do rosto carmim e lábios cor-de-rosa, esborratados, vestia cores berrantes, minissaias e decotes que deixavam ver as pernas densas e a decadência das mamas descomunais que se fundiam com o abdómen. Passeava-se pela cidade, sorrindo para toda a gente, homem ou mulher, agarrada a uma mala de mão minúscula, fazendo torcer e virar todas as cabeças. A vida podia ser muito aborrecida numa cidade onde nada acontecia mas podia-se contar sempre com a Rosa para animar as ruas, as praças e os jardins. Passeava vagarosamente e os olhares pegavam-se-lhe iludindo-lhe a sensualidade - ela julgava que era a Marylin – mas o desejo que ela inventava nos olhares dos outros era de fuga à monotonia; era a vontade de condenar a indecência dela que reflectia a deles, a necessidade de sentir piedade, o pretexto para uma avé-maria por outra causa para desenjoar das muitas rezadas pelos órfãos de África, ou simplesmente de contemplar um espectáculo com o seu toque de burlesco. A Rosa era a puta dos pobres. Era com ela que rapazes ainda imberbes perdiam a virgindade, levados pela mão do padrinho, do tio, do irmão mais velho ou do próprio pai, ao casebre rural onde ela vivia, esperando pela sua vez na fila, com a nota de vinte escudos dobrada na palma da mão. Alguns deitavam-se sobre ela sem saber o que fazer e o acompanhante tinha de entrar e dar uma mão. Colocava-a sobre as nádegas do rapaz.
Gostava de olhar para ela e ela não se importava com o meu descaramento deslumbrado. Sorria infantilmente, com inocência, como os sorrisos dos rapazes que nela iniciavam a sua educação sexual, e passava, arrastando os tacões pela rua, em ziguezague para evitar os homens de branco, os da barbearia de um lado e os do talho do outro. Homens de branco costumavam levar as pessoas. As loucas. Como ela. Como eu.

Quando começaram os estágios no hospital foi-lhes apresentada a farda: saia branca, casaco cintado branco, sapatos brancos e quepe branco. Comprou os sapatos, confortáveis e bonitos, mas não chegou a usá-los. Uma colega apareceu com um modelo produzido na fábrica do pai, e, por serem mais baratos, a preço de fábrica, cada estudante de enfermagem comprou um par. Embora fossem fabricados com matérias-primas de fraca qualidade, duras dos contrafortes ao couro inflexível, fazedores de bolhas e de calos, comprou também um par. Detestava-os mas não parecia bem ter sapatos diferentes. Os sapatos não eram o problema. O quepe era o problema.
Olhando para o molde que recebeu, estendido sobre a mesa, magicava uma forma de tornar invisível o servilismo e a submissão que via nele. O quepe não servia para mais nada senão para aproximar as enfermeiras do estereótipo da sopeira, mas o seu uso era obrigatório. Lembrou-se de fazer uma cópia reduzindo-lhe um pouco as dimensões. No mês seguinte fez outro, de novo roubando às medidas. Mais um mês, novo quepe a engomar, e assim sucessivamente foi perdendo largura e altura até ao fim do último estágio.
Apresentou-se na cerimónia de fim de curso de saia branca, casaco cintado branco, charutos brancos nos pés e uma coisa minúscula branca presa na cabeça por um passador de cabelo que tinha uma estrelinha que brilhava, umas vezes sim, umas vezes não. Disseram o seu nome e ela tirou os óculos para não aparecer com eles nas fotografias. Recebeu o diploma, apertou a mão do bispo redondo, beijou as faces das monitoras e voltou-se para a audiência desfocada pelos olhos míopes, anjos brancos que a aplaudiam. Um sorriso largo nasceu-lhe, controlado a tempo, no preciso momento em que ameaçava passar a gargalhada. Os anjos pareciam coelhos, assim desfocados, de uma orelha só. Voltou ao seu lugar, sentou-se, pôs os óculos. As colegas receberam os seus diplomas e os seus aplausos, uma a uma; o bispo redondo sacudiu todas as mãos, para cima e para baixo; uma linha branca presa numa estrelinha flutuou no ar, às vezes sim, às vezes não. Depois desapareceu.

Fujo de histórias assim. Recuso sentar-me frente a frente com a minha impotência, como duas colegas da escola que de vez em quando tropeçam uma na outra, se beijam e conversam frente a uma chávena de chá. As palavras colam-se na boca, qualquer coisa impele um fluído sanguíneo e não sou eu, não sou eu quem controla. Um calor nas faces, um calafrio na coluna vertebral e os poros na nuca que se apertam e deixam de respirar. Delara deixou de respirar, suspensa no nó corredio do carrasco. Poderia ser a história de Delara, poderiam ser tantas outras histórias. Irrompem pelas nossas vidas, suspendendo-nos o movimento por uns minutos, um vago vislumbre da completa insanidade que é a vida; e logo a colher de pau regressa ao estrugir das carnes dentro da panela, o gato ao miar implorando a sua parte, o relógio numa torre à audível contagem do tempo que falta para a morte.
Voltei da casa da minha irmã com alguns livros que me emprestou. Sentei-me a virar páginas, como sempre faço, tentando decidir qual vou ler primeiro. Quando abri As Palavras e as Coisas de Foucault, deparei com uma receita escrita por ela. Atum com azeitonas. Um livro assim, com uma receita manuscrita lá dentro, nunca poderia ter vindo da biblioteca de um homem. Imagino a minha irmã lendo Foucault com a televisão ligada, a interromper a leitura para apontar uma receita que alguém confeccionava num qualquer programa de culinária, terminá-la assim: “Agitar suavemente o tacho para misturar todos os ingredientes” e, tranquilamente, voltar à leitura, satisfeita por já não ter de pensar no que vai fazer para o jantar.
Não sei se todas as mulheres são assim, se guardam pedaços do quotidiano dentro dos livros. Há livros de mulheres que têm lá dentro papelinhos coloridos de um lado, prateados do outro, daqueles com que se embrulham os bombons, outros têm uma folha de uma qualquer planta, uma flor silvestre espalmada, uma palhinha que talvez tenham apanhado nos campos, toda mordida, um pedaço de cartão da embalagem dos collants a servir de marcador, a fotocópia de um bordado em ponto de cruz, papéis com anotações sobre o que leram, uma ou outra frase que se quis escrever e não apenas sublinhar, o coração de cartolina que o filho fez na escola para o dia da mãe e, claro, as receitas. Os livros das mulheres estão cheios de ingredientes que convém agitar suavemente para se fundirem com as palavras, tudo muito bem misturado como o atum com azeitonas.
De repente, As Palavras e as Coisas talvez se torne uma leitura mais fácil.









«Não se percebe que estes códigos, ao serem reproduzidos na academia, se perpetuam nos empregos, na esfera doméstica e na sociedade em geral? Até quando tudo isto vai ser aceite sem qualquer debate?»
Leitura a não perder - A queima e o machismo, de Elísio Estanque no Boa Sociedade
via Jugular

Tenho adiado a limpeza e organização das minhas estantes mas a citação em baixo, pescada por Jacques Bonnet num manual de governo da casa vitoriano (Des bibliothèques pleines de fantômes), deu-me uma ideia, contrária à que se afirma entre as aspas, que talvez me motive para essa tarefa morosa: alcovitar a minha literatura. Vou fazer casamentos hetero e homo, ménages à trois, incestos, uniões e desuniões de facto, e tudo mais de que me lembrar.
«La parfaite maîtresse de maison veillera à ce que les œuvres des auteurs hommes et femmes soient décemment dissociées et placées sur des rayons séparés. Leur proximité sauf à être mariés ne pouvant être tolérée.»
É tradição representar os autores junto aos livros, sentados em poltronas confortáveis ou por trás de secretárias submersas em papéis. Não percebo porque não aparecem fotografados junto a um monte de louça para lavar, um monte de roupa para brunir, um monte de lenha para empilhar. Uma esfregona na mão. Se eu fotografasse os meus autores e autoras, e se me exigissem um retrato junto aos livros, clonaria a modelo da imagem que aqui pespego. Gostava de os ver assim, nus entre as prateleiras, coabitando a promiscuidade literária que donas de casa de ocasião, especialistas na lida da casa como eu, se entretêm (e divertem) a planear.
Raramente gosto do que escrevo. Partilhar alguma coisa do que escrevo é um acto de auto mortificação.