quarta-feira, 13 de maio de 2009

quepe


Quando começaram os estágios no hospital foi-lhes apresentada a farda: saia branca, casaco cintado branco, sapatos brancos e quepe branco. Comprou os sapatos, confortáveis e bonitos, mas não chegou a usá-los. Uma colega apareceu com um modelo produzido na fábrica do pai, e, por serem mais baratos, a preço de fábrica, cada estudante de enfermagem comprou um par. Embora fossem fabricados com matérias-primas de fraca qualidade, duras dos contrafortes ao couro inflexível, fazedores de bolhas e de calos, comprou também um par. Detestava-os mas não parecia bem ter sapatos diferentes. Os sapatos não eram o problema. O quepe era o problema.
Olhando para o molde que recebeu, estendido sobre a mesa, magicava uma forma de tornar invisível o servilismo e a submissão que via nele. O quepe não servia para mais nada senão para aproximar as enfermeiras do estereótipo da sopeira, mas o seu uso era obrigatório. Lembrou-se de fazer uma cópia reduzindo-lhe um pouco as dimensões. No mês seguinte fez outro, de novo roubando às medidas. Mais um mês, novo quepe a engomar, e assim sucessivamente foi perdendo largura e altura até ao fim do último estágio.
Apresentou-se na cerimónia de fim de curso de saia branca, casaco cintado branco, charutos brancos nos pés e uma coisa minúscula branca presa na cabeça por um passador de cabelo que tinha uma estrelinha que brilhava, umas vezes sim, umas vezes não. Disseram o seu nome e ela tirou os óculos para não aparecer com eles nas fotografias. Recebeu o diploma, apertou a mão do bispo redondo, beijou as faces das monitoras e voltou-se para a audiência desfocada pelos olhos míopes, anjos brancos que a aplaudiam. Um sorriso largo nasceu-lhe, controlado a tempo, no preciso momento em que ameaçava passar a gargalhada. Os anjos pareciam coelhos, assim desfocados, de uma orelha só. Voltou ao seu lugar, sentou-se, pôs os óculos. As colegas receberam os seus diplomas e os seus aplausos, uma a uma; o bispo redondo sacudiu todas as mãos, para cima e para baixo; uma linha branca presa numa estrelinha flutuou no ar, às vezes sim, às vezes não. Depois desapareceu.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Delara Darabi


Pintura de Delara Darabi

Fujo de histórias assim. Recuso sentar-me frente a frente com a minha impotência, como duas colegas da escola que de vez em quando tropeçam uma na outra, se beijam e conversam frente a uma chávena de chá. As palavras colam-se na boca, qualquer coisa impele um fluído sanguíneo e não sou eu, não sou eu quem controla. Um calor nas faces, um calafrio na coluna vertebral e os poros na nuca que se apertam e deixam de respirar. Delara deixou de respirar, suspensa no nó corredio do carrasco. Poderia ser a história de Delara, poderiam ser tantas outras histórias. Irrompem pelas nossas vidas, suspendendo-nos o movimento por uns minutos, um vago vislumbre da completa insanidade que é a vida; e logo a colher de pau regressa ao estrugir das carnes dentro da panela, o gato ao miar implorando a sua parte, o relógio numa torre à audível contagem do tempo que falta para a morte.

sexta-feira, 8 de maio de 2009


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Para a Io e para a Helena, directamente das minhas estantes, uma página do Mira Calligraphiae Monumenta (edição facsimile).

(a arrumação dos livros por cá vai-se arrastando, arrastando...)

quinta-feira, 7 de maio de 2009

atum com azeitonas

Voltei da casa da minha irmã com alguns livros que me emprestou. Sentei-me a virar páginas, como sempre faço, tentando decidir qual vou ler primeiro. Quando abri As Palavras e as Coisas de Foucault, deparei com uma receita escrita por ela. Atum com azeitonas. Um livro assim, com uma receita manuscrita lá dentro, nunca poderia ter vindo da biblioteca de um homem. Imagino a minha irmã lendo Foucault com a televisão ligada, a interromper a leitura para apontar uma receita que alguém confeccionava num qualquer programa de culinária, terminá-la assim: “Agitar suavemente o tacho para misturar todos os ingredientes” e, tranquilamente, voltar à leitura, satisfeita por já não ter de pensar no que vai fazer para o jantar.
Não sei se todas as mulheres são assim, se guardam pedaços do quotidiano dentro dos livros. Há livros de mulheres que têm lá dentro papelinhos coloridos de um lado, prateados do outro, daqueles com que se embrulham os bombons, outros têm uma folha de uma qualquer planta, uma flor silvestre espalmada, uma palhinha que talvez tenham apanhado nos campos, toda mordida, um pedaço de cartão da embalagem dos collants a servir de marcador, a fotocópia de um bordado em ponto de cruz, papéis com anotações sobre o que leram, uma ou outra frase que se quis escrever e não apenas sublinhar, o coração de cartolina que o filho fez na escola para o dia da mãe e, claro, as receitas. Os livros das mulheres estão cheios de ingredientes que convém agitar suavemente para se fundirem com as palavras, tudo muito bem misturado como o atum com azeitonas.

De repente, As Palavras e as Coisas talvez se torne uma leitura mais fácil.

terça-feira, 5 de maio de 2009

metamorfoses

Duas sequências de Nienke Klunder que colei lado a lado. Cada sequência conta uma história de identidade e transformação. Justapostas, contam-me uma terceira história.











Nienke Klunder

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Ler

«Não se percebe que estes códigos, ao serem reproduzidos na academia, se perpetuam nos empregos, na esfera doméstica e na sociedade em geral? Até quando tudo isto vai ser aceite sem qualquer debate?»

Leitura a não perder - A queima e o machismo, de Elísio Estanque no Boa Sociedade

via Jugular

quinta-feira, 30 de abril de 2009

arrumar livros


Tim Walker (inspirado talvez nesta fotografia de Claude Cahun)

Tenho adiado a limpeza e organização das minhas estantes mas a citação em baixo, pescada por Jacques Bonnet num manual de governo da casa vitoriano (Des bibliothèques pleines de fantômes), deu-me uma ideia, contrária à que se afirma entre as aspas, que talvez me motive para essa tarefa morosa: alcovitar a minha literatura. Vou fazer casamentos hetero e homo, ménages à trois, incestos, uniões e desuniões de facto, e tudo mais de que me lembrar.

«La parfaite maîtresse de maison veillera à ce que les œuvres des auteurs hommes et femmes soient décemment dissociées et placées sur des rayons séparés. Leur proximité sauf à être mariés ne pouvant être tolérée.»

É tradição representar os autores junto aos livros, sentados em poltronas confortáveis ou por trás de secretárias submersas em papéis. Não percebo porque não aparecem fotografados junto a um monte de louça para lavar, um monte de roupa para brunir, um monte de lenha para empilhar. Uma esfregona na mão. Se eu fotografasse os meus autores e autoras, e se me exigissem um retrato junto aos livros, clonaria a modelo da imagem que aqui pespego. Gostava de os ver assim, nus entre as prateleiras, coabitando a promiscuidade literária que donas de casa de ocasião, especialistas na lida da casa como eu, se entretêm (e divertem) a planear.

masoquismo

Raramente gosto do que escrevo. Partilhar alguma coisa do que escrevo é um acto de auto mortificação.

paridade

As mulheres não pensam apenas na política, pensam em tudo. Intensamente. Como pode o meio político institucionalizado, adaptado ao papel tradicional do homem ao longo de séculos de exclusão feminina, lidar com uma coisa dessas? Não pode e por isso exige mulheres que respeitem o falo e ajam como se tivessem um porque assim podem ser facilmente classificadas como homens menores, incapazes, incompetentes. Substituíveis por homens a sério. É por isso que a lei da paridade, que não o é porque um terço não é paridade, não impede que as mulheres, depois de eleitas, sejam substituídas por homens. É uma lei que pretende institucionalizar a mulher mas não a integra.

Não é por falta de competência que as mulheres fogem da política mas sim porque a política institucional está viciada a favor do homem. As mulheres vêm-na como um jogo com regras obscuras, castradoras até, difíceis de penetrar, com uma organização do tempo que não se adapta às muitas tarefas pelas quais a mulher ainda é a maior responsável; um sistema onde as poucas mulheres existentes actuam mais como símbolos de género do que como uma força política real.
Quando ouço e leio tanta gente exprimir-se contra a lei da paridade contrapondo a competência à obrigatoriedade da presença de mulheres nas listas, traindo o que lhes vai na alma, que as mulheres incluídas nas listas por força da lei são forçosamente incompetentes porque caso contrário avançariam mesmo sem lei (como se a competência fosse tudo o que a mulher precisa para ingressar na política), tenho de dar razão a Cavaco Silva que dizia em 2006 que esta lei era um atestado de menoridade passado às mulheres. Dou-lhe razão porque é isso que a opinião pública está a fazer. Mas, por outro lado, não me parece que o número de mulheres vá aumentar sem uma mudança de fundo na política e, claro está, não são os homens que a vão fazer. É nesse sentido, e só nesse, que sou a favor da lei da paridade, como medida de transição. É preciso meter lá mais mulheres para que haja mudanças estruturais que estimulem uma maior participação feminina no futuro sem recurso à lei.

sábado, 25 de abril de 2009

registo

Encontrei a fotografia que tirei para o meu primeiro bilhete de identidade pouco depois do 25 de Abril. Um vestido estampado com flores vermelhas e com golas redondas rendadas rentes ao pescoço. Sufocavam-me as golas. Sufocaram-me ainda por muito tempo.
No Registo Civil havia uma fila de crianças que entravam por uma porta e saíam por outra com um dedo negro. Registaram as linhas do meu dedo indicador direito e a minha altura no metro de pau que teve de ser ajustado acima das medidas de criança porque eu era muita alta para a minha idade. Os bilhetes demoravam muito tempo a chegar - tudo o que era feito em Lisboa atrasava-se uma eternidade, menos as cartas de condução que demoravam menos tempo porque lá eram mais fáceis de comprar – e eu passava semana sim, semana não no Registo Civil para perguntar se já tinha chegado. Quando chegou, o meu bilhete de identidade democrático era igualzinho ao bilhete de identidade fascista da minha irmã.

25


Emma Hack

De blogue em blogue, velhas canções, o Zeca Afonso, o Chico Buarque, tanto mar, tanto mar, fotos, relatos, testemunhos pessoais, capitães, memórias que se esgravatam em baús, uns pessoais, outros colectivos, tuita-se a revolução, comemora-se.
Todos os anos me emociono com as fotografias do povo na rua, os abraços nos tropas, os cravos nas mãos, os rostos pacíficos das mulheres, tanto mar, tanto mar ainda por desbravar.

Todos os anos, todas as coisas, todos os cravos.

sexta-feira, 24 de abril de 2009


Carl Larsson

nome de código

«Someone should try an experiment with himself: he should forget everything he knows about the times and its relativity amplified by its familiarity, and then come into this age as if he were from another planet, and read some book, or some article in the newspaper: he will have this impression: "Something is going to happen tonight, or else something happened last night!"» - Kierkegaard, The Present Age (1846)


há coisas das quais os livros de história não falarão
conversas em ruas estrangulas cinzentas
revoluções feitas com murros no peito, na mesa
segredos prometidos no ouvido dos bastidores
a homens sombreados pelo movimento das pás
de uma ventoinha no tecto de uma casa outrora imponente.

há homens que não verão os seus retratos nos livros de história
testemunhas da mentira que outros lábios queimam na pronúncia
faróis amarelos na noite sob a chuva
o cigarro na esquina
o nome de código
o nome de código de que ainda me lembro.

há segredos roubados por meninas de rostos angélicos
que a história nunca saberá
guardam-nos nas tranças cortadas em caixas floridas
dentro de gavetões ao lado de uma colecção de borboletas.


marianne goldin

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Watt


Li-o inúmeras vezes e de cada vez que o faço entendo-o menos, mas gosto de o ler. Já não me interessa entendê-lo. Gosto de o ler pelo prazer de ler frases assim:

As for his feet, sometimes he wore on each a sock, or on the one a sock and on the other a stocking, or a boot, or a shoe, or a slipper, or a sock and boot, or a sock and shoe, or a sock and slipper, or a stocking and boot, or a stocking and shoe, or a stocking and slipper, or nothing at all. And sometimes he wore on each a stocking, or on the one a stocking and on the other a boot, or a shoe, or a slipper, or a sock and boot, or a sock and shoe, or a sock and slipper, or a stocking and slipper, or nothing at all.

ou assim:

The fishwoman pleased Watt greatly. Watt was not a woman's man, but the fishwoman pleased him greatly. Other women would perhaps please him more, later. But of all the women who had ever pleased him up till then, not one could hold a candle to this fishwoman, in Watt's opinion. And Watt pleased the fishwoman. This was a merciful coincidence, that they pleased each other. For if the fishwoman had pleased Watt, without Watt pleasing the fishwoman, or if Watt had pleased the fishwoman, without the fishwoman pleasing Watt, then what would have become of Watt, or of the fishwoman?

Beckett tira-nos tudo - "For if there were two things Watt disliked, one was the moon, and the other was the sun." e "And if there were two things that Watt loathed, one was the earth, and the other was the sky." - e deixa lá o trivial. É esse trivial e o ritmo com que o descreve, que me diverte.