
XKCD Webcomic
De vez em quando o mundo precisa de aliviar a sua consciência e recompensar todos aqueles que maltrata e exclui e fá-lo adoptando a excepção que confirma a regra. A Susan Boyle vai vencer o Britains Got Talent e vai vender milhões de CDs e de objectos onde está escrito Don't Judge a Book By It's Cover e I Dreamed a Dream. Sei de tudo o que rodeia estes sucessos, da exploração dos sentimentos do público através do underdog, de quem todos se riem e por quem se embaraçam, mas que surpreende pelo talento. Sem dietas, botox, depilação, idade considerada apropriada, tinta no cabelo e silicones, sai do fundo do poço para vencer. Arranca-nos lágrimas fáceis quando começa a cantar I dreamed a dream in time gone by. São lágrimas fáceis porque invocam sentimentos depositados muito perto dos olhos.
Tudo isto tem a ver connosco, de uma forma ou de outra; todos queremos ser julgados pelas nossas capacidades e não pelo invólucro embora não hesitemos em embelezar o invólucro porque ajuda e, muitas vezes, é determinante. Emociona aquela voz bonita que sai de um corpo e uma atitude tão anti-indústria da música e do estrelato, para nos provar o quão certeiro é o ditado que diz que as aparências iludem. Mas continuaremos a julgar pelas aparências precisamente porque elas iludem e nós gostamos que nos iludam. Não tenho dúvidas nenhumas quanto a isso.
A Elvira subia as escadas até ao sótão. Despia-se apalpando os colchetes metálicos da saia e os botões da blusa, fazendo-os saltar para fora das casas. Apalpava e puxava os ganchos que prendiam o cabelo que assim desfeito, sem cuidado nem vaidade, escorria troncos grossos sobre as clavículas e as omoplatas. O espelho colossal na sua nudez, cúmplice da luz, açambarcava tudo: todo o quarto, todo o corpo, os abraços, os beijos, os entrelaçares de pernas nas almofadas, mãos sobre seios, tudo isso e ainda mais que trocava consigo. Eu - tinha por hábito esconder-me dentro dos armários e gavetões - observava-a no espelho pela frincha do pesado guarda-vestidos da minha bisavó, carregado de roupas antigas e naftalina, entre fronhas e lençóis bordados por ela, caixas de chapéus, espartilhos e véus, testemunhando oculta na penumbra o desenrolar de um amor prestes a explodir. Explodia despudorado e a Elvira adormecia bonita, mansa, troncos grossos escorrendo nas almofadas.
Com a revista nos joelhos, enquanto pintava as unhas, as dela e as minhas, sentadas no telhado que fugia das janelas do sótão, enlaçadas em pérolas de fantasia, rendas da bisavó e maquilhagem surripiada do psiché da minha mãe, explicava-me o amor que lia nas fotonovelas que alugava por dez tostões na loja da Sãozinha e cujo enredo me contava; histórias de amor côncavas, fotografia atrás de fotografia, de mulheres e de homens que não desligavam nunca a ternura da turgidez do machismo. Fingiam. Claustrofóbicas, incontinentes nos amo-tes ou te amos, dependendo da origem, mas ausentes de tranças de pernas, mãos sobre seios sobre púbis, espelhos colossais e luz. O amor era a explosão que a Elvira aprendia nas implosões do seu corpo e das quais não me falava, não me contava e que, por isso, das profundezas do guarda-vestidos que me vestia eu lhe roubava.
Curta metragem inteiramente filmada com um telemóvel nas ruas de Sydney e Nova Iorque, vencedora do Tropfest NY 2008.

O politico que vacila, a mãe que sofre, os soldados que apenas seguem ordens, o traidor, os trinta dinheiros, o clero comprometido com os seus interesses, o povo facilmente manipulável, os intérpretes e os manipuladores dos acontecimentos, a evangelização da palavra, qualquer palavra, as anunciadas curas de todos os problemas, as promessas e as profecias, o odor agressivo dos perfumes.
De repente sente-se que toda a história, toda a humanidade, caminha em círculos.
Não me fez mal nenhum, nunca o vi em carne e osso, possivelmente é uma excelentíssima pessoa, mas não posso com a imagem televisiva do Paulo Portas. Irrita-me aquele ar de menino arrogante, o penteado, a pose que dá ao discurso, os beijos na cara do povo quando tenta parecer-se com o povo. O único político que sabia ser povo é o Mário Soares. Estava à vontade e nessa vontade não transparecia esforço, ou enfado como acontecia com o Freitas do Amaral que recusou apertar a mão do Sr. Joaquim, que tinha por ele grande admiração e nele grande esperança, depois de os jornalistas terem levantado arraial da praça. Ficou ali especado, o Sr. Joaquim, entre os despojos da campanha, virando as mãos, palmas para cima, palmas para baixo, perguntando aos outros velhos se estavam sujas, as mãos rejeitadas onde se abria um novo sulco, um novo calo. Nunca mais foram as mesmas.
Estou convencida que a terra comeu o Sr. Joaquim na sepultura e deixou o calo na ossatura da mão.
A procissão do Senhor dos Passos acontecia à noite pelas ruas do burgo; uma multidão muda empunhando velas pela escuridão, seguindo o Cristo gigantesco com a cruz no ombro sobre os ombros de quatro homens robustos de batina roxa, o silêncio quebrado a intervalos rítmicos pelos tambores que entoavam dentro do meu peito feito caixa de ressonância. Era assustador. A noite revelava todos os fantasmas, todas as criaturas fantásticas, todos os monstros que povoavam os sonhos, mas eu sabia que esses não existiam, eram imaginação. Era outra sorte de medo. Este medo do Senhor dos Passos era diferente. A estátua era muito realista; um rosto sofrido encimado pela coroa de espinhos, um corpo vestido de roxo curvado sob o peso da cruz, uns olhos que me seguiam e pareciam acusar-me de qualquer coisa – ele sabia de certeza que eu tinha comido as amêndoas que deveria ter oferecido à professora. Os romanos quase se materializavam sob os meus olhos, pior, eu era um deles, acertando o som das minhas sandálias latinas pelo som do calçado da multidão nas ruas graníticas e pela música de cadafalso.
Ia deitar-me cheia de medo e culpa, e a minha irmã mais velha, para me distrair, contava-me histórias do Edgar Alan Poe, noite dentro. O Poe nunca me fez sentir culpada de nada embora às vezes me metesse medo. Mas era outra sorte de medo.
yo solo quiero caminar
como corre la lluvia del cristal
como camina el río hacia la mar
lorei lorei loreilo......... (bis)
repicando campanadas
la torre de las campanas(bis)
y un rayo de sol alumbra
la carcel de la mañana
y aguruuguuu aguruguuuu
aguruuguuuuuuaaaa.
- E tu que queres? - perguntou-me o professor de guitarra clássica na minha primeira aula.
- Eu só quero tocar como o Paco de Lucia.
Hoje, eu só quero caminhar, correr, correr, como corre a chuva de cristal, como corre o rio até ao mar, como correm os seus dedos pelas cordas daquela guitarra.
Ontem foi o dia internacional do povo romani e tal como se passa com a ghetização dos ciganos em Itália, que continua a bom ritmo, nobody gives a fuck.
"Eu quero uma revolução contra os ciganos... Eu quero eliminar todas as crianças ciganas que roubam." - Giancarlo Gentilini, vice-presidente da câmara de Treviso, que admite aplicar o "Evangelho segundo Gentilini" e os ensinamentos da escola fascista.
Os roubos parecem ser a grande preocupação das autoridades embora os comportamentos criminosos sejam mais graves e mais difundidos nas camadas mais altas do governo italiano, encabeçado por Berlusconi que se auto-ofereceu imunidade e dissolveu o gabinete do alto-comissário anti-corrupção.
Este relatório, The Life and Death of Roma and Sinti in Italy: A Modern Tragedy, dá-nos conta do preconceito, ódio e violência dirigidos contra o povo romani perseguido pelo crime da pobreza.

No liceu havia a mania dos livrinhos de autógrafos. Hoje, enquanto organizava caixas com papéis, encontrei o meu. Está repleto de dedicatórias dos amigos, poemas mais ou menos previsíveis, frases feitas e clichés, citações e desenhos, promessas de amizade e memória eterna, alguns autógrafos de gente com quem me cruzei, às vezes por mero acaso. O mais original é o do António Pinho Vargas. Tem um número de telefone por baixo do seu autógrafo. Um número antigo como já não se usa e que pertence à mesma categoria do velho telefone da casa dos meus pais que também já não se usa. Existe entre outras antiguidades. Decora.

Limor Livnat e Sofa Landver fazem parte do governo israelita como se vê pela fotografia superior onde aparecem junto dos outros ministros. Dois jornais ultra ortodoxos judeus entendem que elas não devem estar lá; o Yated Neeman alterou digitalmente a fotografia substituindo-as por homens e o The Shaa Tova limitou-se a removê-las.
As mulheres na política costumam ser apagadas mas isto ultrapassa o ridículo.
Os rapazes observavam as carnes estendidas no expositor dentro do balcão. Um cabrito serrado ao meio, simétrico e inteiro, com os órgãos repartidos por ambas as metades, era o objecto de atenção e fascínio. O mais velho apontava e pronunciava os nomes das partes, o fígado, os rins, os pulmões, o coração, o cerebelo, mostrando a utilidade das aulas de ciências nas quais, disse, tinha tocado e apalpado o cérebro dum porco. O mais novo queria saber se doía ser morto e o outro logo disse que sim, dói muito, porque os porcos gritam quando o vizinho os mata. Contemplativos ficaram-se de olhos afundados no cadáver, imagens de matanças atravessando-lhes as partes, talvez. Não havia tristeza ou revolta pela carnificina, nem tão pouco alegria ou sadismo, apenas um fascínio curioso que me fez interrogar se seria este o sentimento primário que originou um outro, mais cruel, dos rapazes do Lord of the Flies.