sexta-feira, 10 de abril de 2009

calo

Não me fez mal nenhum, nunca o vi em carne e osso, possivelmente é uma excelentíssima pessoa, mas não posso com a imagem televisiva do Paulo Portas. Irrita-me aquele ar de menino arrogante, o penteado, a pose que dá ao discurso, os beijos na cara do povo quando tenta parecer-se com o povo. O único político que sabia ser povo é o Mário Soares. Estava à vontade e nessa vontade não transparecia esforço, ou enfado como acontecia com o Freitas do Amaral que recusou apertar a mão do Sr. Joaquim, que tinha por ele grande admiração e nele grande esperança, depois de os jornalistas terem levantado arraial da praça. Ficou ali especado, o Sr. Joaquim, entre os despojos da campanha, virando as mãos, palmas para cima, palmas para baixo, perguntando aos outros velhos se estavam sujas, as mãos rejeitadas onde se abria um novo sulco, um novo calo. Nunca mais foram as mesmas.

Estou convencida que a terra comeu o Sr. Joaquim na sepultura e deixou o calo na ossatura da mão.

senhor dos passos

A procissão do Senhor dos Passos acontecia à noite pelas ruas do burgo; uma multidão muda empunhando velas pela escuridão, seguindo o Cristo gigantesco com a cruz no ombro sobre os ombros de quatro homens robustos de batina roxa, o silêncio quebrado a intervalos rítmicos pelos tambores que entoavam dentro do meu peito feito caixa de ressonância. Era assustador. A noite revelava todos os fantasmas, todas as criaturas fantásticas, todos os monstros que povoavam os sonhos, mas eu sabia que esses não existiam, eram imaginação. Era outra sorte de medo. Este medo do Senhor dos Passos era diferente. A estátua era muito realista; um rosto sofrido encimado pela coroa de espinhos, um corpo vestido de roxo curvado sob o peso da cruz, uns olhos que me seguiam e pareciam acusar-me de qualquer coisa – ele sabia de certeza que eu tinha comido as amêndoas que deveria ter oferecido à professora. Os romanos quase se materializavam sob os meus olhos, pior, eu era um deles, acertando o som das minhas sandálias latinas pelo som do calçado da multidão nas ruas graníticas e pela música de cadafalso.
Ia deitar-me cheia de medo e culpa, e a minha irmã mais velha, para me distrair, contava-me histórias do Edgar Alan Poe, noite dentro. O Poe nunca me fez sentir culpada de nada embora às vezes me metesse medo. Mas era outra sorte de medo.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

solo quiero caminar (2)



yo solo quiero caminar
como corre la lluvia del cristal
como camina el río hacia la mar
lorei lorei loreilo......... (bis)

repicando campanadas
la torre de las campanas(bis)
y un rayo de sol alumbra
la carcel de la mañana
y aguruuguuu aguruguuuu
aguruuguuuuuuaaaa.

- E tu que queres? - perguntou-me o professor de guitarra clássica na minha primeira aula.
- Eu só quero tocar como o Paco de Lucia.
Hoje, eu só quero caminhar, correr, correr, como corre a chuva de cristal, como corre o rio até ao mar, como correm os seus dedos pelas cordas daquela guitarra.

solo quiero caminar

Ontem foi o dia internacional do povo romani e tal como se passa com a ghetização dos ciganos em Itália, que continua a bom ritmo, nobody gives a fuck.

"Eu quero uma revolução contra os ciganos... Eu quero eliminar todas as crianças ciganas que roubam." - Giancarlo Gentilini, vice-presidente da câmara de Treviso, que admite aplicar o "Evangelho segundo Gentilini" e os ensinamentos da escola fascista.

Os roubos parecem ser a grande preocupação das autoridades embora os comportamentos criminosos sejam mais graves e mais difundidos nas camadas mais altas do governo italiano, encabeçado por Berlusconi que se auto-ofereceu imunidade e dissolveu o gabinete do alto-comissário anti-corrupção.

Este relatório, The Life and Death of Roma and Sinti in Italy: A Modern Tragedy, dá-nos conta do preconceito, ódio e violência dirigidos contra o povo romani perseguido pelo crime da pobreza.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

telefone


No liceu havia a mania dos livrinhos de autógrafos. Hoje, enquanto organizava caixas com papéis, encontrei o meu. Está repleto de dedicatórias dos amigos, poemas mais ou menos previsíveis, frases feitas e clichés, citações e desenhos, promessas de amizade e memória eterna, alguns autógrafos de gente com quem me cruzei, às vezes por mero acaso. O mais original é o do António Pinho Vargas. Tem um número de telefone por baixo do seu autógrafo. Um número antigo como já não se usa e que pertence à mesma categoria do velho telefone da casa dos meus pais que também já não se usa. Existe entre outras antiguidades. Decora.

terça-feira, 7 de abril de 2009

invisível


Limor Livnat e Sofa Landver fazem parte do governo israelita como se vê pela fotografia superior onde aparecem junto dos outros ministros. Dois jornais ultra ortodoxos judeus entendem que elas não devem estar lá; o Yated Neeman alterou digitalmente a fotografia substituindo-as por homens e o The Shaa Tova limitou-se a removê-las.

As mulheres na política costumam ser apagadas mas isto ultrapassa o ridículo.

via

domingo, 5 de abril de 2009

lord of the flies

Os rapazes observavam as carnes estendidas no expositor dentro do balcão. Um cabrito serrado ao meio, simétrico e inteiro, com os órgãos repartidos por ambas as metades, era o objecto de atenção e fascínio. O mais velho apontava e pronunciava os nomes das partes, o fígado, os rins, os pulmões, o coração, o cerebelo, mostrando a utilidade das aulas de ciências nas quais, disse, tinha tocado e apalpado o cérebro dum porco. O mais novo queria saber se doía ser morto e o outro logo disse que sim, dói muito, porque os porcos gritam quando o vizinho os mata. Contemplativos ficaram-se de olhos afundados no cadáver, imagens de matanças atravessando-lhes as partes, talvez. Não havia tristeza ou revolta pela carnificina, nem tão pouco alegria ou sadismo, apenas um fascínio curioso que me fez interrogar se seria este o sentimento primário que originou um outro, mais cruel, dos rapazes do Lord of the Flies.

terça-feira, 31 de março de 2009

engrenagem

Há algum tempo que ninguém telefona para me vender qualquer coisa. Telefonavam nas horas mais inconvenientes ou batiam-me à porta. Que terá acontecido às antigas trabalhadoras dos têxteis e do calçado agora vendedoras de aspiradores maravilha, amontoadas numa pirâmide que era preciso subir a todo o custo – só preciso vender mais um para subir de patamar -; às mulheres dos filtros para água que faziam análises e encontravam sempre os nitratos que a maquineta eliminaria, mesmo que eles lá não estivessem? E as dos colchões que curavam as dores de costas, os trens de cozinha, as fotografias aéreas da minha casa e os passeios de helicóptero? E já não recebo prémios surpresa que tenho de levantar em tal banda, a tal dia, a tal hora.
Qualquer coisa, qualquer peça, parece ter caído duma engrenagem. Sem estrondo, sem alvoroço.

a miss universo

foi visitar Guantánamo e escreveu isto no blogue dela (tradução minha):

«Esta semana, Guantánamo!!! Foi uma experiência incrível.
Chegamos a Gitmo na sexta-feira (…) a primeira coisa que fizemos foi participar num grande almoço e depois visitamos um dos bares que existem na base. Falamos de Gitmo e de como era a vida lá. Nos dias seguintes passamos um tempo maravilhoso, esta foi mesmo uma viagem memorável! Andamos com os rapazes do East Coast e eles mostraram-nos o barco por dentro e por fora, como trabalham e o que fazem, demos um passeio pelas redondezas e foi muuuuito divertido!
(…)
Visitamos os campos dos reclusos e vimos as celas, onde eles tomam banho, como passam o tempo com filmes, lições de arte, livros. Foi muito interessante.
Demos um passeio com os fuzileiros para vermos a divisão de Gitmo e Cuba enquanto nos informavam um pouco sobre a história.
A água em Guantánamo é tãooo bonita! (…)
Não queria vir embora, era um sítio tão relaxante, tão calmo e bonito.»


Por favor fiquem com ela lá, numa das celas onde os detidos se cultivam tanto, mais a coroa e o chip de silicone que tem dentro da cabeça.

via

domingo, 29 de março de 2009

segundo


Ivy Door, Oliver Gagliani

Há um ano comecei a gravar mensagens em português para alguém encontrar; talvez alguém as encontre um dia, pensei, ou talvez elas encontrem o seu caminho até alguém. São pequenos traços de mim, algo que não se toca mas que pode tocar, ainda que por vezes falte o contexto, ainda que sem um esboço do rosto para vos ajudar a situar quem ledes nas palavras. O blogue pode ser um exercício de egocentrismo, mas só o é até nos lembrar que nós não somos os melhores juízes de nós próprios. A perspectiva dos outros sobre nós é frequentemente a mais certa e, de certa forma, são essas perspectivas que procuramos ao transmitirmo-nos pelos dedos fora.
Não me apetece mergulhar no meu arquivo e fazer uma retrospectiva. Aquilo que me tocou, de forma positiva ou negativa, permanece na arrecadação mental. O que foi produzido, consumido está. Foi-se nos bits e bytes das muitas páginas que escrevi , excepto aquilo que ainda está no vosso cache mas que, não tarda muito, será engolido pela limpeza rotineira do disco duro.

Entro no segundo ano.

sábado, 28 de março de 2009

envelhecer

“The first thing to be said about growing old is that no one does it deliberately in order to annoy the young. Shakespeare is full of dramatic and entertaining old men. In Henry IV, Falstaff and old Mr Justice Shallow remembered the parties of their youth. Shallow, recalling some long-gone romance, asks if Jane Nightwork is dead. Falstaff replies with an obvious but sometimes forgotten truth: "She must be old, she cannot choose but be old."
So old age is not something gratefully put on in order to gain a seat on the bus. The truth of the matter is that our characters and characteristics are formed far back in our pasts. If you look in any school playground, you can identify that a loudmouth will become a politician or an innkeeper, the quiet lad who manages to increase his wealth by lending out his pocket money at a high rate of interest will become a merchant banker.
You can see that the one who thinks that he knows the answer to every question will become a television personality, and somewhere there is a lonely boy watching it all who may become a writer.
If, by the turn of a switch, you could see them all at an old boys' reunion lunch, you would know that little has changed other than the hair, the hearing aid and the width of their trousers. Like Jane Nightwork, they can't choose but be old and may not be any the worse for that.” - John Mortimor

aranhas

Tenho sempre a porta aberta, a quinta transformada em asilo de cães, gatos, ouriços caixeiros bebés que perderam a mãe, salamandras, esquilos, andorinhas, borboletas da noite gigantes, morcegos, uma raposa velha no jardim, pardais no interior das chaminés, poupas nas janelas e andorinhas no alpendre, e gente, gente, gente. Entram e saem. Entram e saem.
Passei uma tarde sentada no jardim, numa agradável conversa com as visitas, e descobri, ao arrumar as cadeiras, que uma aranha tinha tecido uma teia nas costas do meu assento. Acontece frequentemente encontrar teias em todos os lados, mas desta vez a aranha deixou lá as minúsculas filhas dela. Acho que eram uma centena. As aranhas não me causam espécie nenhuma e não entendo o medo que tantas pessoas têm delas.

doutores e engenheiros

O Sr. Freitas, o mecânico onde levo o meu carro, trata toda a gente por doutor ou por engenheiro. Um dia somos doutores, noutro dia engenheiros porque facilmente se esquece do título que nos atribuiu da última vez que fomos à sua oficina. Uma vez perguntei-lhe porque o fazia, se era por engano ou se era uma estratégia de marketing. Disse-me que nem uma coisa, nem outra. Havia gente que o corrigia se não os tratasse por engenheiro ou doutor e, para evitar embaraços, optou por fazê-lo com toda a gente. Ninguém leva a mal o tratamento, mesmo que não sejam doutores nem engenheiros, e ele deixou de ter chatices que só atrapalham o manejo das válvulas e a substituição das baterias.