sexta-feira, 20 de março de 2009
bonecas

Havia casas que tinham uma boneca sobre a cama. Sevilhanas de pernas abertas cobertas por folhos intermináveis, pálpebras riscadas por lápis preto, um sinal redondo pintado na face, véus de ir à missa e ao velório, elevados pela peineta espetada nas cabeleiras negras. Uma vizinha, que em tempos tinha sido prostituta cara, tinha uma boneca dessas. Eram a estampa uma da outra; as unhas e lábios sempre pintados de vermelho, rostos de cera empoeirados de branco e circunferências carmins nas maçãs do rosto, sempre metidas na cama. A dona Aninhas nunca saía da cama. Ela e a boneca viviam enclausuradas na penumbra do quarto a abarrotar de quinquilharia. Quando alguém de cerimónia a visitava, ela também usava um véu.
Compreendi muito cedo que as bonecas se assemelham às suas donas. A Natália, com quem jogava Monopólio apesar de nunca enriquecer e de ter a certeza que ela, sendo dona do jogo, jogadora e bancária, fazia batota, adicionando à socapa notas da banca à sua fortuna, tinha muitas bonecas, todas iguais a ela, com o cabelo aos canudos e vestidos do pronto-a-vestir. Nunca se sujavam e nunca era preciso dar-lhes banho.
A tia Vitória, que não era tia de ninguém, tinha bonecas de porcelana sentadas nos cadeirões. Seriam iguais à dona se não se tivessem esquecido de engordar, envelhecer e enrugar. Tinham a mesma expressão de fada madrinha da Vitória, que nos convidava, a mim e à minha irmã, para tomar chá e comer pão com marmelada. Enxotava-nos porta fora quando o primo, que nunca vi vestido com outra coisa senão um pijama às riscas e que tinha regressado do ultramar com «um parafuso a menos», desatava a chicotear as portadas das janelas do seu quarto e a chamar-lhes nomes. A tia Vitória tinha medo que o viessem buscar e o levassem para a casa amarela, caso ele chicoteasse alguém em vez da madeira grossa das portadas, os seus moinhos quixotescos. Protegia as bonecas, fechando-as à chave no armário até lhe passar a fúria ultramarina.
Havia ainda as estropiadas da Rosinha, bonecas a quem faltava um braço, uma perna, um olho, e as que tinham perdido a cabeça. Por vezes uma cabeça grande de boneca adulta era acoplada a um corpo de boneca bebé, a imitar o bebé-com-cabeça-de-homem duma pedinte da praça que o empurrava dentro de um carrinho de um lado para o outro, «uma esmola para o aleijadinho».
Não me lembro das minhas bonecas e é por isso que digo sempre que nunca as tive embora digam que as tive. Não me lembro de brincar com elas, de as vestir, lavar, pentear. Lembro-me das bonecas das outras, das escravizadas pela sua beleza e das mutiladas pela sua liberdade.
segunda-feira, 16 de março de 2009
candidatos
Fui votar e o boletim de voto estava branco. Não tinha partidos, nem caixinhas para pôr a cruz, nada, ninguém. Virei o papel dos dois lados e, achando que era defeito de impressão, dirigi-me à mesa e pedi outro. Eram todos assim. O presidente disse que ninguém queria ganhar as eleições e que não havia candidatos. E então, o que faço agora? Nada, dobre o boletim em quatro e coloque-o dentro da urna.
Os sonhos podem parecer muito estranhos, mas não são. Há sempre qualquer coisa muito verdadeira que se revela, como por exemplo, a democracia não parar por falta de candidatos.
sábado, 14 de março de 2009

A natureza é um templo onde pilares vivos
Deixam, por vezes, fugir confusas palavras;
O homem passa por lá através de florestas de símbolos
Que o observam com olhares familiares.
Como longos ecos, que ao longe se confundem
Numa tenebrosa e profunda unidade,
Vasta como a noite e como a claridade,
Os perfumes, as cores e os sons respondem entre si.
Há perfumes frescos como carnes de bebés,
Doces como os oboés e verdes como os prados;
— Outros, ao invés, corruptos, ricos e triunfantes,
Que se expandem como as coisas infinitas,
Como o âmbar, o musgo, o benjoim e o incenso
Que cantam transportes da alma e do sentido.
Charles Baudelaire, As Flores do Mal
original em francês
domingo, 8 de março de 2009
rio Lima
Deixaram muito espaço por preencher, muitos laços por prender. A vida tem o desígnio da rapidez e a velocidade dos acontecimentos é proporcional ao envelhecimento. Não há memória que diga da outra qual delas atravessou o rio Lima, porque as memórias também se perdem como os sentimentos se esquecem; ou como os rostos passam por nós dentro dessa velocidade e desse esquecimento. Tocam-nos, movem-nos, sofrem-nos, esquecem-nos. Talvez não os cruzaremos de novo, mas há rostos que nos acompanham até ao fim. São os rostos que cresceram ao lado dos nossos e se repartiram por outros lados no fim da infância ou da adolescência. O meu pai encontrou um amigo da infância. Quase setenta anos sem se verem, és tu M? Sim sou eu, reconhecendo-se como se ainda fossem meninos de bibe, caídos nos braços um do outro, espiando as rugas mútuas, a calvície, o tremor das mãos. E todos os dias se encontram no mesmo sítio à mesma hora. Dão grandes passeios e conversam, conversam. É isso que quero na minha velhice, na minha reforma. Uma pensão vitalícia de amigos perdidos da minha infância, da minha adolescência. Quero encontrá-los todos e dar passeios com eles. Perdoam-nos tudo; a flacidez do corpo, as manchas castanhas nas mãos, os descuidos, os transtornos, as falhas de memória, os amuos. E as traições. Ah, as traições… deixaremos essas para lá do rio Lima.
sábado, 7 de março de 2009
the art of the message
Janet A. Ginsburg, encontrou uma série de ilustrações antigas quando fazia uma pesquisa na biblioteca do Chicago Tribune. Apesar da má qualidade do microfilme, a estética brilhante das ilustrações chamaram a sua atenção, o que a levou a embarcar num longo processo de procura doutras jóias perdidas do jornal. No site The Art of the Message, Janet conta como tudo aconteceu e publica várias dessas ilustrações. São todas muito interessantes, como estas que tirei de lá. As preocupações culturais não mudaram muito.
1913 - Belle Squire prefere o voto a um marido. Helena Bingham prefere um marido, mas com a condição de ele votar a favor do sufrágio para as mulheres.
1914 - O último imperador da China e também o rapaz mais solitário do mundo.
1923 - Se todas as mulheres de Chicago fossem levadas para um ilha, o automóvel rapidamente seria sucata, lê-se neste artigo.
1934 - Aqui recorre-se à frenologia (pseudociência) a fim de avisar os americanos sobre quem deveriam desconfiar.
1935 - Mapa da América do Sul que ilustrava relatos de viagem por esse continente.
The Art of the Message
sexta-feira, 6 de março de 2009
que simpáticos que eles são
«"Quem provoca o aborto incorre em excomunhão 'latae sententiae', ou seja, excomunhão automática", afirmou o especialista em Direito Canónico hoje à agência Lusa, lembrando que isto não se aplica à menina, por ela ser menor.» - Vicente Ferreira Lima, presidente do Tribunal Eclesiástico de Divinópolis, Minas Gerais, Brasil - no JN
Este caso é tão revoltante que custa encontrar palavras. A igreja católica brasileira excomungou a família e os médicos e, como se preocupa muito com as crianças, não vai excomungar a menina. Deveriam excomungar quem fez e aprovou a lei do aborto brasileira, o Lula que é presidente, o povo que o elegeu, enfim toda a gente. São todos cúmplices. Mas não convém, ficavam sem fiéis o que seria uma chatice. O padrasto que violou a menina pode estar descansado e continuar a ser o bom católico que sempre foi.
quinta-feira, 5 de março de 2009
Ler
cálculo da atracção
A Isabela escreveu um texto muito bom (como o são todos que ela escreve) sobre o regresso do Rourke. Eu comentei, fazendo a comparação entre o regresso de Rourke e o da Marisa Tomei. Em resposta ao meu comentário, onde eu disse que para elas não há como escapar ao cálculo da atracção na contabilidade do sucesso, o Carlos Azevedo disse o seguinte:
“Depende daquilo a que elas pretendam ter sucesso. Na sétima arte, talvez o que diz, pelo menos em parte, seja verdade. Contudo, não é extensível a todas as actividades, e muito menos a todos os domínios da nossa existência.”
Achei este comentário muito interessante e respondo aqui porque me entusiasmei e fui escrevendo, escrevendo...
Ao cinema juntaria a televisão, moda, publicidade, imprensa, jogos de vídeo, literatura, enfim todas as actividades que comunicam com o público e transmitem formas de representação do nosso corpo. Este conjunto de actividades, o espectáculo, informa todos os outros mercados sobre a aceitação ou reprovação pública da nossa aparência, depois de a ter largamente influenciado. Quanto mais o nosso corpo se afasta das formas de representação dominantes, maiores são os obstáculos no nosso caminho, particularmente na afectividade e na sexualidade, planos onde facilmente se abala/destrói o amor-próprio e a auto-confiança, muito importantes para o sucesso noutros domínios da nossa existência.
Anúncio de iogurtes brasileiro. A modelo na imagem, que imita um ícone do cinema (American Beauty), é supostamente feia e se consumirmos aqueles iogurtes livramo-nos de um corpo assim. (clicar para aumentar).
Fizeram também outros com modelos imitando a Sharon Stone e a Marylin Monroe. Estes anúncios geraram polémica porque muitos homens acham as modelos atraentes (eu também acho) e porque a mensagem inscrita no cartaz, "Esqueça. O gosto dos homens nunca vai mudar" é cruel. Milhares de cartazes passam a mesma mensagem mas de uma forma muito subtil.
Via
Tenho alguma dificuldade em lembrar-me de actividades profissionais onde o grau de atracção não conta. Pensei de imediato na literatura, na ciência, vida académica e outras que vivem exclusivamente da intelectualidade e onde não se espera que sejamos necessariamente atraentes, mas o cálculo da atracção funciona para os dois lados. Mulheres atraentes que se dedicam a actividades intelectuais têm de ultrapassar o estereótipo da bonita burra, e depois de o fazerem continuam a ser condicionadas pela sua aparência. “Ela não é burra MAS é atraente”, “A Joana Amaral Dias, a mulher mais bonita da política, foi apagada da fotografia” (esta quase me deixou na dúvida se o apagão era por causa da política ou da beleza da Joana). No reverso temos outro tipo de condicionamento: “Ela é gorda MAS é inteligente”. É aquela ideia de que na falta de atributos físicos não há outro remédio senão exercitar os neurónios, mas se os atributos estão lá os neurónios já podem ir dar uma volta que não interessam. Há ainda a situação, mais recente, onde se espera que a mulher seja ambas as coisas, atraente e inteligente, o que implica não se poder ser apenas esperta.
Na minha experiência pessoal tenho um exemplo onde de facto não senti qualquer condicionamento baseado na minha aparência, mas o trabalho era feito no computador, na minha casa. Não tinha contactos frequentes pessoais com quem me relacionava profissionalmente. Por mera observação pessoal, tenho a ideia de que numas actividades profissionais a nossa aparência conta mais que noutras, mas há alguma onde não conte mesmo nada?
terça-feira, 3 de março de 2009
denunciador
Se ainda vivêssemos no fascismo ele seria da pide. Tenho a certeza absoluta. Pertencer a uma polícia secreta e opressora requer um certo tipo de personalidade e ele tem-na. Quase toda a vizinhança tem uma história de denúncia anónima para contar. Ele encarrega-se de fazer saber à TVCabo que a vizinha do lado continua a usufruir de um serviço que deixou de pagar. Assegura-se que um carro estacionado no mesmo sítio por mais de três dias seja sinalizado pela câmara para reboque, enquanto lê cuidadosamente tudo o que a dona Conceição colou na montra do minimercado, pronto para chamar os fiscais à mínima infracção. Ele é assim; um denunciador das pequenas infracções do quotidiano. As denúncias são anónimas, mas toda a gente sabe que é ele.
Todas as ruas têm um denunciador. Denunciam tudo, menos o que bate na mulher porque se ele o faz “é porque ela estava a pedi-las”.
sábado, 28 de fevereiro de 2009
perder

Tinha planeado uma tarde de sol. Ia lavar a escadaria de granito, molhar os pés na água e depois estender-me ao sol com a Agustina. O tempo não o permitiu. Estendi-me na cama com o meu livro de poemas favorito, feito por mim num moleskine. A estranha sensação de ter perdido alguma coisa, sem saber o quê, acontece-me frequentemente. Tenho de viver com isso, com o quase saber da perda sem nunca saber. Não é tão fácil como parece. Perdi uma tarde de sol mas não é bem assim; não se pode perder o que se não teve. Foi outra coisa. Talvez tudo tenha o propósito de se perder e, se assim é, a perda não é de facto um desastre. É uma arte.
ONE ART
The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel.
None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.
---Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.
Elizabeth Bishop
isto dói

Este armazém perto de Bristol, no Reino Unido, foi abandonado pelos seus proprietários deixando para trás um stock de vários milhões de livros. Destinados à venda online, estão agora a ser oferecidos a quem aparecer.
Impressiona a quantidade de livros espalhados pelo chão, calcados por gente que escrutina o amontoamento como quem escrutina um monte de lixo. Quando o preço é nulo as coisas adquirem desrespeito. Dói.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
scared
this is a song that I sing
when I'm scared of something
I don't know why
but it helps me get over it
the words of the song
just move me along
and somehow I get over it
at least I don't suck at life
I keep on trying despite
Scared, Zefrank
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
riqueza
«Não digo que sim, não digo que não, mas talvez a riqueza de um homem, um dia, seja contada, não pelo vinho que arrecada, não pelo chão que semeia, não pelos dividendos que detém, mas pelos crimes que carrega, as inaptidões por que responde e, em suma, pelo número daqueles que justifica.» - Agustina Bessa Luís, A Matança