Enfiava o saiote branco da minha avó pela cabeça e atava o cordão da cintura no pescoço, no sítio onde um dia cresceria uma maçã-de-adão. A roda espalhava-se pelo corpo envolvendo-o todo, a bainha bordada escondendo os pés. O sacrário de papelão já estava pronto e no copo de barro que servia de cálice já tinha colocado as hóstias que recortara em papel. O meu pai ajudava à missa e a irmã Isabel era a única beata daquela igreja infantil. A cara de lua grave, cheia de concentração, iluminava-se depois de ter sido realizado o milagre da transformação do papel em corpo de Cristo. Virava-se então o padre para o sacristão e para a beata, e dizia:
- Dòminus vobìscum
- Et cum spiritu tuo – respondiam o meu pai e a minha tia.
A minha avó espreitava de olhos verdes arregalados da janela da cozinha, calando por momentos o tilintar dos barros e dos potes de ferro. Dòminus vobìscum, repetia em murmúrio. Para cada filho sonhara o mesmo sonho e talvez aquele, que ainda não sabia ler nem escrever mas tanto jeito mostrava para o latim, cumprisse a promessa que fizera a si mesma; que fosse padre o décimo primeiro filho porque aos outros faltara vocação. A dedicação que ele mostrava pela outra irmã, a mais nova, condenada pela paralisia à pequenez eterna e à língua de bebé era coisa de santo, pensava. Ela não sabia que ele andava a investigar os milagres. Não queria ser padre nem santo, queria saber como se faziam os milagres. Precisava apenas de um; que o dòminus vobìscum curasse de vez a pequena Laura.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
dòminus vobìscum
sábado, 21 de fevereiro de 2009
ausências

© i. anton - It was enough just to sit there without words
Há toda uma cumplicidade que se faz aos poucos entre os sorrisos e olhares acanhados das pessoas, nos laços entre elas estabelecidos. Há mais que palavras para dizermos, ou talvez menos que isso, mais ainda, não sei. Sei que as palavras não nos despem, não são o que nos faz amar os corpos, quem nos faz apaziguar ausências.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
vossemecê
As mulheres entrançavam fios de palha para fazer chapéus. Pés negros de terra descalços e saias de roda, blusas apertadas até ao pescoço e até aos pulsos. Algumas usavam o lenço de mão entalado entre o pulso e o punho da blusa, outras entre dois botões no peito. O lenço era mais importante que as cuecas, peça que quase nenhuma usava. Ela agarrava duas palhas de cada vez, colocava uma na boca, e adicionava a outra à trança que ia serpenteando no chão, depois a que estava presa nos dentes e assim repetidamente ensinou-me a fazer chapéus de palha.
- A menina não devia tratar o seu pai e a sua mãe por tu. É uma falta de respeito.
- Então como devo tratar?
- Por vossemecê.
Fazia uma pausa, desencantava o lenço das profundezas da blusa e limpava o suor do rosto.
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Darwin(2)
Li inúmeros artigos nacionais e estrangeiros sobre Darwin nestes últimos dias e são muitos os que referem a guerra cultural entre evolucionistas e criacionistas. Pergunto-me se a grande projecção das comemorações teria sido a mesma sem essa polémica. Demonizado por uns por pôr em causa a existência de Deus e invocado por outros para rejeitar Deus, ele vai servindo mais como publicista do que como cientista.
As ideias, para quem perde algum tempo a analisá-las, levam ao questionamento daquilo que temos por verdades aceites e interiorizadas, mas não necessariamente à sua rejeição. Por vezes endurecem convicções e conduzem a fundamentalismos, outras vezes levam a adaptações dessas verdades para que continuem a fazer sentido. No decorrer da história os avanços na ciência foram dando origem a adaptações das interpretações religiosas dos textos sagrados ao novo conhecimento. A selecção natural, que refinou e popularizou a teoria da evolução ao explicar como ela funcionava, veio pôr em causa as origens do homem segundo a perspectiva bíblica, mas enquanto para uns a evolução elimina Deus, outros vêm nela a forma de Deus concretizar os seus objectivos. Quando em miúda comecei a questionar algumas coisas que vinham na Bíblia, como a idade da Terra e do homem, que a ciência contradizia, os padres disseram-me que a Bíblia não deveria ser interpretada literalmente, mas sim como um poema, com as suas metáforas e significados misteriosos escondidos entre linhas. Não havia contradição entre a verdade da Bíblia e a ciência porque a ciência era uma criação de Deus que permitiria ao homem chegar à compreensão dos desígnios divinos. Não fui por isso exposta ao fundamentalismo religioso que pretende eliminar a teoria da evolução, enterrar Darwin no esquecimento e substituir a história da humanidade pelo relato literal da Bíblia. Fui exposta a outras contradições e essas sim levaram-me a rejeitar a religião e a ideia de Deus. Nunca se tratou de um debate interior entre religião e ciência e penso que para a maioria das pessoas também não o é. Apenas uma minoria tem conhecimentos avançados de teologia e ciência para poder discutir à vontade coisas dessa natureza. A maioria encontrará justificações para aquilo em que acredita ou não, pela observação do que os rodeia e pelo que os afecta directamente. Em última instância, a tradição e a tendência para nos agruparmos em rebanho sob o comando de um pastor determinam muitas das escolhas que fazemos.
Entendo a necessidade de se combaterem os fundamentalismos e o culto da ignorância praticados por aqueles que nos querem sequestrar numa visão a preto e branco do mundo, mas ver um cientista como Richard Dawkins tão empenhado em apresentar a ciência como um substituto da religião, parece-me uma coisa muito religiosa. O botão vermelho destacado no seu site, “Donate to RDFRS” justapõe-se na minha mente com a caixa de esmolas das igrejas. O seu site está cheio de gente que, tendo eliminado Deus da equação, parece procurar lá um novo sentido para as suas vidas, gente para quem qualquer palavra debitada por Dawkins, ou pelos seus colaboradores, parece conter sempre uma verdade definitiva e inquestionável. Vejo-o emergir do meio deles como um pastor da ciência, emoldurado num fundo decorado com uma fotografia gigante de Darwin, com o seu quê de divino naquelas barbas fenomenais. Se ele for bem sucedido, a santificação guardianista de Darwin talvez não pareça tão irónica no futuro.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
antifascista
Sou como o José Sócrates, não tenho nada de vida ou nada na vida. Nem sequer sei se tenho vida.
Nunca me interessei por uma carreira política. À minha volta, e desde muito nova, sempre me fizeram sentir que o passado antifascista era um dado obrigatório no Curriculum Vitae de quem quisesse ir mais além da colagem de cartazes, ou das pinturas estilo soviético, nas paredes. Vitae da vida que não tenho.
Em criança, num dia aborrecido em que eu e a minha irmã mais velha estávamos de castigo, fechadas em casa pelo regime, pusemo-nos à janela a cuspir para a rua e acertamos na careca dum polícia à paisana. Assustou-nos quando se pôs a subir as escadas e a barafustar com a minha mãe. Ela negou tudo; que não senhor polícia, as minhas filhas não cospem no chão quanto mais da janela, que isto é uma casa de respeito e temente a deus. Também li um livro proibido que estava fechado a sete chaves na papeleira do meu pai. Chamava-se Tentação e deu-me muitos sonhos eróticos.
Se eu chegasse a presidente da junta não poderia incluir isto na minha biografia. A cuspidela e o Tentação não contam como luta antifascista. Imagina, o povo da aldeia no café da Prazeres a ler a minha biografia do nada e o espertinho lá do canto, que tem o nono ano incompleto, a dizer "Foda-se, então esta gaja era antifascista?".
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
cubículo
Reunião com a directora de turma do meu filho mais novo, uma hora inconveniente porque é a hora de fazer o almoço. Sentámo-nos dentro do cubículo onde se fazem as reuniões com os encarregados de educação, ela fala e eu escuto; o mau comportamento da turma, da falta de respeito, de maneiras, de atenção, e do excesso de mimo e negligência parental e de todos ao males juvenis do nosso tempo. Calculo mentalmente o tempo (não quero ofendê-la olhando para o relógio), já deve ter passado quase uma hora e o almoço dos miúdos por fazer; não faz mal, compro uma pizza no caminho de volta, mas agora tenho mesmo de ir até porque está outra mãe lá fora, à espera, possivelmente preocupada com o almoço. Encontro coragem para a interromper:
- E o meu filho? Também tem mau comportamento?
- Não! Ele é muito caladinho!
Entrega-me o relatório das notas para assinar, dois beijinhos e até à próxima.
A minha saída cruza-se com a entrada da outra encarregada de educação. Enquanto enfio o casaco, o cachecol e as luvas e a porta ainda não se fechou, ouço-a dizer à outra mãe.
- Esta turma continua insuportável. Portam-se muito mal.
Chove cá fora e não trouxe guarda-chuva. Uma corrida até ao carro, cachecol a fazer de hijab, quase mo leva o vento empurrando-me contra os carros que aguardam meninos esfomeados, estacionados em segunda fila à porta da escola, bloqueando apressados, atrasando almoços. Contente por ter um almoço para dar aos filhos, por ter escapado do cubículo do desespero. O dia vai a meio, o motor ronca por baixo da chuva; um cão amarelo levanta uma pata e urina nos muros da escola.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
raparigas, sejam mães e não usem calças ou calções porque provocam o aborto
Dear Friends and Benefactors:
Summer's end may not seem to be the cleverest moment to choose to write about women's dress. Surely the arrival rather than the departure of the warm weather would be the time to inveigh against immodest clothing. However, several ladies happen to have raised with me this summer the question of women wearing trousers or shorts (pants), and the problem is broader and deeper than just immodesty, grave though immodesty is.
(...)
The modern world will have none of Jesus Christ's solutions to Adam's and Eve's problems. Making idols of liberty and equality, to refuse any inequality or subordination of woman to man, it will deny any distinction between them, it denies of course any order of God in His creation, any need for Redemption, and it will deny if necessary God's very existence. Today's feminism is intimately connected to witchcraft and satanism.
(...)
Places of work will soon have to extract in advance from women sworn declarations whether they do, or do not, want to have advances made to them! But what was to be expected when women were pulled out of their home? It all serves the liberal men right for so misleading their women.
(...)
Heaven help us! The womanliness of our women is being rooted out and the result is a way of life doomed to self-destruction, doomed to abort.
Girls, be mothers, and in order to be mothers, let not wild horses drag you into shorts or trousers. When activities are proposed to you requiring trousers, if it is something your great-grandmother did, then find a way of doing it, like her, in a skirt. And if your great-grandmother did not do it, then forget it! Her generation created your country, your generation is destroying it. Of course not all women who wear trousers abort the fruit of their womb, but all help to create the abortive society. Old-fashioned is good, modern is suicidal. You wish to stop abortion? Do it by example. Never wear trousers or shorts. Bishop de Castro Mayer was right.
(...)
Most sincerely yours in his Sacred Heart,
+Richard Williamson
Nota : copiado e colado directamente daqui sem permissão. Os problemas deste bispo não se esgotam na negação do Holocausto. O homem é completamente louco, perverso, mau e quando morrer vai direitinho para o inferno.
Promessa Ada Lovelace Day
Gostei desta ideia. A promessa é a de escrever um post sobre uma mulher que admiramos e que crie, invente, programe, escreva sobre/ou use a tecnologia de forma inovadora, etc. A ideia é dar visibilidade a quem a merece e não a tem.
"I will publish a blog post on Tuesday 24th March about a woman in technology whom I admire but only if 1,000 other people will do the same."
“Ada Lovelace Day is an international day of blogging to draw attention to women excelling in technology. Women's contributions often go unacknowledged, their innovations seldom mentioned, their faces rarely recognised. We want you to tell the world about these unsung heroines. Whatever she does, whether she is a sysadmin or a tech entrepreneur, a programmer or a designer, developing software or hardware, a tech journalist or a tech consultant, we want to celebrate her achievements. (...)”
It’s up to you how you interpret the phrase “in technology”. We’re not just interested in hardcore ninja programmers, but any woman who creates, invents, or uses any technology in an innovative way. Feel free to interpret it as widely as you like."
Quem quiser assinar pode fazê-lo aqui.
Ada Lovelace (1815 – 1852), filha de Lord Byron, foi a primeira pessoa a escrever programas para uma máquina. Também previu que as aplicações das mesmas se expandiriam para além do mero cálculo. Mais sobre ela na Wikipedia.
isto não cabe no twitter
O Twitter é um óptimo sítio para se dar início à nossa religião, facto já apontado pelo Rui Bebiano (Bebianismo?) mas é sobretudo um bom sítio para se aprenderem factos totalmente relevantes para as nossas vidas cada vez mais virtualmente entrelaçadas. Por exemplo, fiquei a saber que os telemóveis têm tendência para cair nas sanitas, informação de extrema importância agora que o Google nos pode localizar via telemóvel. O Google Street View tira as pessoas da rua, oferecendo-nos um panorama de uma Terra Sem Nós, mas já podemos colocarmo-nos no mapa através dos nossos apêndices, todos bem amarradinhos no World Wide Web como deve ser. Também tomei conhecimento, via Twitter, que o Mac fez 25 anos em Janeiro (“When are you going to stop freezing up, motherfucker?”), que o John Cleese ainda não morreu e mais uma série de coisas.
A minha caixa “What are you doing?” permanece muda. Ontem fiquei algum tempo a olhar para ela. Vou teclar o quê? Estou a olhar para ti? Pensando bem, é uma pergunta muita estúpida. Se o meu telemóvel tivesse caído na sanita eu teria alguma coisa de interesse global para dizer, mas a mim nunca acontecem coisas assim, emocionantes, que cabem em 140 caracteres. Decididamente, o Marianismo não tem futuro.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
abraço
Borges escreveu que existem três temas que guiam a nossa criatividade. Tenho andado a pensar sobre isso e se também eu tenho três temas. Chego à conclusão que um deles só pode ser a infância, como aliás é de fácil identificação para quem lê este blogue.
Tento orientar-me pela minha memória, ligar imagens - por vezes apenas alguns frames fora de sequência - a sons, palavras, gestos, sensações, para a partir daí construir a minha história. A cronologia nem sempre é rigorosa; uma cena mais antiga pode adquirir características de outra mais recente, uma interpretação influenciada por factos que aprendi posteriormente. Quando falo da minha infância tento fazê-lo como o teria feito em criança (talvez pela necessidade de tocar essa pequena pessoa, que parece existir fora de mim, e de me ligar a ela); tarefa muito difícil, talvez impossível porque eu não tinha palavras suficientes para escrever essas histórias e não sabia então da importância delas na minha construção; não se me revelavam com o mesmo sentido que hoje têm. Ficaram assim arquivadas, suspensas, aguardando que uma palavra se ligasse a outra para que o puzzle de frames dispersas se resolvesse e revelasse uma mensagem; como se tivesse andado a deixar clips de imagem e de som num servidor virtual, que se corromperam com o tempo, para aquela que sou hoje as recuperasse, reconstruísse, e através delas viajasse no tempo rumo ao meu auto conhecimento.
Há episódios que estou sempre a reconstruir interiormente. Nunca os escrevi porque sempre que o tentei fazer sentia-me como quando mordemos um lábio em ferida, doloroso, fazendo-o sangrar. Abandonava-o dos dedos, colocando-o de volta no armário de arquivo, brincando com ele apenas na dimensão interior.
Um desses episódios aconteceu quando me imolei no fogão da cozinha. Uma menina com duas tranças talvez (penso que tinha tranças nessa altura), quatro ou cinco anos, empoleirada numa cadeira, com os cotovelos apoiados na chapa do fogão e mãos segurando uma cabeça, cujos olhos espreitavam para dentro da cafeteira com leite, assim rodeada pelos meus braços. Esperava que o leite fervesse e subisse para que pudesse interromper a erupção com o gesto de desligar a boca, evitando assim que o pequeno-almoço se perdesse e sujasse o fogão. O vestido de fazenda grossa azul com botões forrados a veludo, começou a arder. Da boca, o lume invadiu as mangas propagando-se pelos braços em direcção às axilas. Estou a gritar, com os braços abertos, intuitivamente afastados do corpo, e vejo a minha mãe meia vestida, meia despida, entrar a correr na copa, rosto deformado pela aflição. Ajoelhou-se à minha frente agarrando o fogo, primeiro com as mãos e de seguida com o seu corpo num abraço todo envolvente que em segundos extinguiu as chamas. Tremia comigo em cinzas colada aos seus seios nus.
A memória acaba aqui.
Este episódio é uma lembrança recorrente e sempre me intrigou que a memória parasse no abraço da minha mãe. Acho que o quis prolongar para sempre. Quis continuar presa nos seus braços porque na verdade, esse é o único abraço que me lembro de ter recebido da minha mãe. Um dia ela abraçou-me e eu quase tive de morrer por esse abraço. Não me lembro da dor, mas lembro-me do cheiro do desodorizante nas suas axilas.
(agora tenho de parar por aqui)


