segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

qualquer coisa


©Adam Hinton (da série Europa de Leste)

Sei onde vão a seguir à fotografia. O sabão na mão, a nudez, a esponja, a sujidade denuncia-o. Vêm de uma qualquer tarefa suja, dura, física. Há qualquer coisa pesada nos ombros. Há qualquer coisa escrava nos rostos.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

de forma sistemática

«De forma sistemática, leio o Da Literatura, o Mar Salgado, a A Terceira Noite, a Natureza do Mal e "vejo" o fworld.» - Pacheco Pereira 

Nesta frase, Pacheco Pereira lembra-me que tem gosto mas lembra-me também que ainda há muito para fazer quando descubro que ele, intelectual com barba e tudo, não lê blogues de mulheres de forma sistemática (o fworld não conta porque é só para ver).

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Estado Civil

Deixa-me muita pena o fim do Estado Civil de Pedro Mexia. O ano começa mais pobre. 

Estas pessoas não podem simplesmente desaparecer do meu ecrã. No millieu onde vivo, isolada numa aldeia minhota que gente como o Pedro Mexia não frequenta, não tenho acesso a esta intimidade, ainda que anónima, que nos aproxima muito mais de alguém do que a leitura dispersa em jornais, revistas ou livros. Bem sei, egoísmo de leitora.

maria antonieta

Lembro-me da rua mas não do nome. Havia uma loja de autómatos. Máquinas espantosas, artisticamente decoradas, com engrenagens que se accionavam para executarem uma série de movimentos, ritmados por uma música que saía de qualquer orifício invisível. Nessa rua antiga de Paris morava a tia Hélène e era lá que iria ficar um dia e uma noite, para dar descanso à outra tia, cansada de me levar a teatros, museus, exposições, concertos, monumentos, e outros locais de interesse. Eu era a sua boneca que era preciso ensinar, educar, cultivar, mas agora precisava de algum tempo para si.

A tia Hélène era muito pequena e muito magra. Poderia facilmente pegar nela ao colo – não era mais que uma criança como tantas vezes o são os velhos – mas era frenética. Sempre em movimento pela noite parisiense, mão dada com o seu gigolô, dançando pelas casas nocturnas de Paris, não estava interessada em reservar-me para os panteões da cultura francesa. Dormimos e à tardinha acordou-me, dizendo-me que eram horas de nos prepararmos para a noite, uma tarefa longa cheia de cumplicidades femininas.

A banheira da tia-avó, que era só meia banheira e onde cabia apenas sentada, estava quase cheia. Ela não tinha duche em casa. Na verdade não tinha muitas coisas, mas tinha um batalhão de cremes, loções e perfumes, para além de um broche antigo que tinha pertencido a alguém da corte de Maria Antonieta. Não estranhei que ficasse comigo enquanto me despia e entrava no banho. Eu era a sua boneca que era preciso vestir, pentear, perfumar, maquilhar. Ajudou-me a lavar o cabelo e as costas, escolheu o verniz para as unhas, a sombra para os olhos, o batom para os lábios. O nevoeiro adocicado pelo cheiro dos perfumes que ela experimentara nos meus pulsos, no meu pescoço, nos meus cotovelos, embaciava o espelho antigo, uma relíquia da sua avó, reflectindo-nos como pinturas de Degas. Eu era uma pintura de Degas.

Apanhamos o metro para Anvers. Surpreendeu-me não termos saído e entrado em várias composições, como fazia com a outra tia que via em cada cara menos europeia e mais nervosa um terrorista da OLP, sobretudo se transportasse uma mala, saindo de uma composição e esperando pela próxima para não explodir junto com a bomba.

Passeámos por Montmartre, recebendo piropos da esquerda e da direita, aos quais a tia Hélène respondia sempre de forma educada mas de passagem, para que ninguém se colasse a nós. Mas um rapaz colou-se a nós, seguindo-nos por todo o lado, incomodando-nos com as observações e perguntas que me dirigia – onde moras, o número de telefone, queres casar comigo, ah je ne serais plus le même e outras coisas assim, que soam tão bem em francês excepto quando nos são dirigidas insistentemente por alguém que não nos atrai. Tentávamos livrarmo-nos dele educadamente, mas as nossas boas maneiras apenas o encorajavam. O rosto da tia Hélène encolhia.

Descíamos as escadas do Sacré Cœur, cheias de gente muito jovem, da minha idade, descontraída. Queria juntar-me a eles e a tia Hélène, adivinhando-me, parou junto de um grupo que cantava músicas de George Brassens. Tirou um lenço de linho branco da carteira, estendeu-o no chão das escadas e sentou-se nele. Imitei-a e o rapaz imitou-me. Sentados os três lado a lado, a tia Hélène pediu-lhe mais uma vez que nos deixasse em paz. Ele não deixou. Desesperada, ela deu um salto, guardou o lenço de linho e disse que eram horas de irmos embora. Levantei-me e ele levantou-se preparando-se para nos seguir. A tia Hélène gritou “Corre” e precipitou-se pelas escadas.

Desci as escadas do Sacré Cœur a correr atrás da tia Hélène, com medo que ela caísse, «tante Hélène, tante Hélène» e o marroquino atrás de mim, «Mademoiselle, mademoiselle» e a tia Hélène «Táxi, táxi»; eu corria e tropeçava no riso porque julgara que era só nos filmes que se gritava pelo táxi. Pensava na banheira que era só meia banheira e onde cabia apenas sentada. Ela não tinha duche em casa. Na verdade, não tinha muitas coisas, mas tinha um batalhão de cremes, loções e perfumes, para além de um broche antigo que tinha pertencido a alguém da corte de Maria Antonieta.

Na tarde seguinte o meu tio foi buscar-me a casa da tia Hélène. Levou-me a Versailles, comprou-me os livros com a história do palácio, falou-me de reis e rainhas, de pão e de bolos, de factos e de mitos; e eu era a Maria Antonieta, faces empoeiradas com o rouge da tia-avó, espreitando os espelhos que me reflectiam sem cabeça.

vozes da dissidência (Gaza)

De Ramzy (Gaza)

«Hamas, Take your hands off the people!

(...)Both Israel and the Arab regimes wish they would wake up one day and find all the Palestinians have been thrown into Gaza sea. True to this, Egypt is collaborating with Israel in tightening the siege on Gaza people for no good reason. I think we do know all this and act a blind eye and a deaf ear because the suffering of the Palestinian people also makes good business for some of us. What a shame!! Unlike all now free peoples that have fought to gain their independence, we fight to trade our blood for tremendous amounts of money from countries or groups with interests in the region. Seems like good business? One would say the Palestinian factions need funds to enable themselves to fight. It is true but there is something called higher national interests that must rise above the agendas’ of the money giver. Our higher national interests must be our guide as to how and when to fight. But in our case, the orders to escalate the situation come from above regardless of the fatal consequences on part of the Palestinian innocent people. They say this is honorable Jihad!! Where the honor is in causing the death of hundreds of innocent civilians for nothing in return? We have been doing this “jihad” for the last 60 years. What have we achieved? Didn’t we learn the lesson yet? Won’t we ever change our ways? Or maybe we like the view of our people’s blood streams running before our eyes!!Ever since Hamas went to power the Palestinian people’s living conditions are from bad to worse with every day because it is internationally recognized as a terrorist group and can’t be endorsed as part of the world system without renouncing violence and recognizing Israel and therefore a tight siege has been imposed on Gaza Strip. Hamas says it can’t conform to the conditions of the international community to be recognized by it because they go against its principles and charter. No one is asking Hamas to give up on its principles and charter but for God’s sake for the people’s sake step down and let the people live a normal life since there is no way to change the world and make it accept Hamas as it is. If this is said to Hamas leaders and spokesmen, there answer would be as follows; Do you want us to renounce Jerusalem ? Do you want us to renounce the Palestinian refugee’s right to return? Do you want us to let the Israelis take the land? As if Fatah has renounced Jerusalem or the right of return or the land. As if Israel doesn’t already have Jerusalem and the rest of the land and as if Israel would ever allow the refugees to return to their homeland. Every thing they say is just an excuse to stay in power which they have fought long years to seize from Fatah, its long-life rival.»


vozes da dissidência (Israel)

De Amira Hass no Haaretz

«(...) This is not the time to recall long-forgotten history lessons to say this is not the way to topple a government. Nor is it the time to make rational recommendations for balanced statesmanship. The time for such things has passed, along with the New Order we once arrogantly tried to establish in Lebanon, which only brought us Hezbollah. Along with the Orientalists' plans to reduce the popularity of the PLO, which only paved the way for the emergence of a militant Islamic nationalist movement.

The time of such recommendations has passed, along with the grab of Palestinian lands and hyperactive construction of settlements in the Oslo era, which only laid the cornerstone for the second intifada and the fall of Fatah.

The era of reason and judgment died long ago, even before the targeted assassinations of Fatah activists in the West Bank, which soon turned into shooting attacks on soldiers and the emergence of another few thousand young people taking up arms, not to mention the phenomenon of suicide bombers.

It is never the right time to say "we told you so," because once it is possible to say those words, they are already invalid. We cannot revive the dead, nor repair the damage caused by arrogance and megalomania.



De Daniel Barenboim no The Guardian

«(...) If, on the other hand, it really is possible to destroy Hamas through military operations, how does Israel envisage the reaction in Gaza once this has been accomplished? One and a half million Gaza residents will not suddenly go down on their knees in reverence for the power of the Israeli army. We must not forget that before Hamas was elected by the Palestinians, it was encouraged by Israel as a tactic to weaken Yasser Arafat. Israel's recent history leads me to believe that if Hamas is bombed out of existence, another group will most certainly take its place, a group that would be more radical, more violent, and more full of hatred towards Israel.

Israel cannot afford a military defeat for fear of disappearing from the map, yet history has proved that every military victory has left Israel in a weaker political position because of the emergence of radical groups. I do not underestimate the difficulty of the decisions the Israeli government must make every day, nor do I underestimate the importance of Israel's security. Nevertheless, I stand behind my conviction that the only truly viable plan for long-term security is to gain the acceptance of all our neighbours. I wish for a return in the year 2009 of the famous intelligence always ascribed to the Jews. I wish for a return of King Solomon's wisdom to Israel's decision-makers that they might use it to understand that Palestinians and Israelis have equal human rights.»

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

a razão dos mortos

A todas as escaladas de violência na Faixa de Gaza, seguem-se as análises e opiniões das pessoas que procuram enquadrar cada novo episódio de violência na história que vão construindo do conflito. Estas opiniões passam sempre pela atribuição de culpa e de razão. Mas haverá alguém com razão na insanidade que é o conflito israelo-palestiniano? Como se determina essa razão? Se um lado atira foguetes para o outro, aterrorizando o quotidiano de um povo, e este responde aterrorizando o quotidiano do outro, cumpre-se a justiça bíblica de olho por olho, dente por dente, a tal que nas palavras de Gandhi conduz a uma terra de cegos sem dentes. A razão de um lado é reposta pela razão do outro, sem que nada se resolva.
É uma luta desigual, não apenas pelo poderio bélico que favorece um dos lados, mas também pelos valores que favorece o outro, entre um povo ocidentalizado e próspero com tendências expansionistas e outro empobrecido e encurralado entre Israel e o Egipto – apenas ouvimos falar do bloqueio israelita mas os egípcios também o fazem não permitindo sequer a entrada no seu país dos palestinianos que tentavam fugir da ofensiva israelita – povo esse que escolheu o Hamas. Este coloca os valores da umma – colectivo dos fiéis – acima dos valores familiares e individuais, a destruição de Israel acima da vida do seu povo que não hesita em usar e sacrificar, primeiro como escudo e depois como vítimas do inimigo que exibe para as câmaras de televisão. Este lado terá sempre mais cegos e desdentados que o outro, desvantagem que é contabilizada na luta pelo apoio interno e externo, particularmente do resto do mundo islâmico, ao retratar os israelitas como assassinos impiedosos numa retaliação desproporcionada. Tentam ganhar a razão pela contagem dos mortos.

Lendo blogues verifico que esta pintura negativa dos israelitas está a ter cada vez menos eco. Vão crescendo as vozes de repúdio pelas acções do Hamas, mesmo entre aqueles que sempre se identificaram com a causa palestiniana. Os oprimidos tornaram-se opressores de si próprios pela mão do Hamas, mais eficazes a disparar que a sugerir soluções, obscurecendo a razão das vítimas. A razão dos mortos deixou de contar. Talvez seja essa também a percepção de Israel que se auto-autorizou a conduzir uma retaliação desproporcionada, curiosamente como já não fazia há anos, e precisamente a poucos dias de Obama se tornar presidente dos EUA. Ninguém diga que isto foi apenas auto defesa. Não foi. Também aqui há aproveitamento político. Também aqui falta vontade de resolver o conflito.

Há certas coisas onde não sou capaz de tomar partido e admiro as pessoas que conseguem decidir com uma rapidez espantosa de que lado da barricada estão, assim como aquelas a quem tudo isto é indiferente. Não escolher um lado e ao mesmo tempo não ser indiferente, é como caminhar na rua e ser apanhada no fogo cruzado de snipers que se alvejam mutuamente, escondidos por trás das janelas das casas de ambos os lados.

domingo, 28 de dezembro de 2008

língua das cobras

Acho muito engraçado ver a quantidade de brasileiros que o Google me envia à procura da língua das cobras. Se você é mais um, não se sinta defraudado pelo Google. Não se enganou muito porque eu tenho língua, mais de uma até, sou meia cobra e tenho uma colecção delas conservadas em frascos. Limpo-lhes o pó, aos frascos, ponho-os a brilhar. 

distribuição

Há já algum tempo que não ia ao café da Prazeres. Ontem fui lá mas ela não estava, nem atrás nem à frente do balcão, nem na cozinha à volta dos fritos. Reparei que no canto onde costumava estar a arca dos gelados se encontra agora um computador. O monitor tijolo, ultrapassado, estava comido de sujidade assim como o teclado. Cinco crianças empoleiradas em cima umas das outras numa cadeira com rodas irrequietas que chiam quando raspam a tijoleira, fitavam o ecrã e instruíam a que manejava o rato, “clica ali, clica outra vez”, para depois dizer, “pronto, perdeste, agora sou eu”.
- Anabela, anda aqui a esta senhora – disse o velho que anda sempre pegado com a Prazeres mas não arreda pé do café.
A Anabela saltou da cadeira com as rodas irrequietas. A máquina do tabaco não aceita nenhuma moeda, já sei, não preciso tentar. Ela abre-a, retira um maço, recebe as moedas que coloca dentro da máquina que volta a fechar. Distribuição manual.
Lembrei-me de lhe perguntar se já tem um Magalhães. Ainda não.

Israel

Quando eu era pequenina ia à catequese aos sábados à tarde. A minha catequista era uma ex-freira, muito magra, muito pequena, sempre vestida de escuro com uma bata preta por cima da roupa, enormes olheiras castanhas em redor dos olhos, cabelos e lábios escuros. Cresci à volta dela. Foi minha educadora no infantário, professora da ATL e catequista. Foi graças a ela que cheguei à escola primária a saber ler e escrever, somar e subtrair, disciplinada e obediente, com a história da fundação de Portugal memorizada.
- O primeiro rei de Portugal foi… – dizia.
- D. Afonso Henriques! – respondia a sala em coro.
- E nasceu em…
- Guimarães!
- Conquistou Portugal aos…
- Mouros!
- Com a ajuda de…
- Deus!
- Que está no…
- Céuuuuu!
E apontávamos para o tecto.
Na catequese contava-nos histórias da Bíblia. Eram histórias muito bonitas que diziam que os pobres, as mulheres, os doentes, os fracos, herdariam o reino dos céus. Parecia-me muito justo porque se havia alguém a precisar de um reino eram esses; reino que era sinónimo de riqueza, beleza, força, poder e justiça, tal e qual Camelote na estória aos quadradinhos do Príncipe Valente que eu lia no Primeiro de Janeiro.
Lembro-me, como se fosse hoje, do que ela contou sobre a crucificação de Jesus e da forma como o fez. Carinhas tristes, lágrimas a lavar as pestanas, quase a escorregar pelas bochechas, soltávamos suspiros pelo coração.
- Depois de crucificarem Jesus, ele contemplou a terra e disse: “Ah Israel, Israel! Nunca haverá paz em Israel”. E na verdade, como já devem ter visto nas notícias, Israel está sempre em pé de guerra.
Não sei se isso está na Bíblia, se foi ela que inventou – era uma grande apreciadora de teatro, particularmente do drama – mas a frase nunca mais me saiu da cabeça. Lia qualquer coisa sobre Israel no jornal, ou via na televisão, e lembrava-me da profecia. Ah Israel, Israel, pensava, imitando a expressão desolada dela, os dedos magríssimos colados na cara que abanava de um lado para o outro.
Hoje, ao ler as notícias de mais uma escalada de violência – é tanta e tão antiga que já não há heróis nem vilões, nem Afonso Henriques e Mouros da versão da catequista, apenas corpos que se contam mas não se contabilizam, porque a indiferença da repetição já não deixa distinguir nem memorizar – e continuo a lembrar-me da profecia que não sei bem se foi de Jesus, se foi da dona Augustinha.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

virgem

horas tardias nos campos de azul
mostram-se coerentes e não são;
virgens de Outono caem do céu verde
não são amarelas de sardónicas
nem vermelhas de sangue
são tristes não têm cor mas sinto
horas tardias soltas nos campos
batem pela mulher verde que vadia
nos campos onde vadiam as horas.

1982

poema de um poeta morto de quem nunca ninguém ouviu falar

Com ela dói-me o prolongamento das nuvens
Com ela mantenho um olhar o prolongamento da amizade
Com ela o céu ofusca-a e mata-me devagarinho o pensamento
Com ela tudo é possível
Em Beirute ela é cúmplice das crianças mortas
Sopa de napalm
Com ela não sei o quanto tudo é possível
Mas, na agrura dos monumentos erguidos ao grande deus Eros
Espero pela minha vez de a beijar no colo
Longos enlaçamentos de amor e poesia

Zé Cari, 1982