quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

a razão dos mortos

A todas as escaladas de violência na Faixa de Gaza, seguem-se as análises e opiniões das pessoas que procuram enquadrar cada novo episódio de violência na história que vão construindo do conflito. Estas opiniões passam sempre pela atribuição de culpa e de razão. Mas haverá alguém com razão na insanidade que é o conflito israelo-palestiniano? Como se determina essa razão? Se um lado atira foguetes para o outro, aterrorizando o quotidiano de um povo, e este responde aterrorizando o quotidiano do outro, cumpre-se a justiça bíblica de olho por olho, dente por dente, a tal que nas palavras de Gandhi conduz a uma terra de cegos sem dentes. A razão de um lado é reposta pela razão do outro, sem que nada se resolva.
É uma luta desigual, não apenas pelo poderio bélico que favorece um dos lados, mas também pelos valores que favorece o outro, entre um povo ocidentalizado e próspero com tendências expansionistas e outro empobrecido e encurralado entre Israel e o Egipto – apenas ouvimos falar do bloqueio israelita mas os egípcios também o fazem não permitindo sequer a entrada no seu país dos palestinianos que tentavam fugir da ofensiva israelita – povo esse que escolheu o Hamas. Este coloca os valores da umma – colectivo dos fiéis – acima dos valores familiares e individuais, a destruição de Israel acima da vida do seu povo que não hesita em usar e sacrificar, primeiro como escudo e depois como vítimas do inimigo que exibe para as câmaras de televisão. Este lado terá sempre mais cegos e desdentados que o outro, desvantagem que é contabilizada na luta pelo apoio interno e externo, particularmente do resto do mundo islâmico, ao retratar os israelitas como assassinos impiedosos numa retaliação desproporcionada. Tentam ganhar a razão pela contagem dos mortos.

Lendo blogues verifico que esta pintura negativa dos israelitas está a ter cada vez menos eco. Vão crescendo as vozes de repúdio pelas acções do Hamas, mesmo entre aqueles que sempre se identificaram com a causa palestiniana. Os oprimidos tornaram-se opressores de si próprios pela mão do Hamas, mais eficazes a disparar que a sugerir soluções, obscurecendo a razão das vítimas. A razão dos mortos deixou de contar. Talvez seja essa também a percepção de Israel que se auto-autorizou a conduzir uma retaliação desproporcionada, curiosamente como já não fazia há anos, e precisamente a poucos dias de Obama se tornar presidente dos EUA. Ninguém diga que isto foi apenas auto defesa. Não foi. Também aqui há aproveitamento político. Também aqui falta vontade de resolver o conflito.

Há certas coisas onde não sou capaz de tomar partido e admiro as pessoas que conseguem decidir com uma rapidez espantosa de que lado da barricada estão, assim como aquelas a quem tudo isto é indiferente. Não escolher um lado e ao mesmo tempo não ser indiferente, é como caminhar na rua e ser apanhada no fogo cruzado de snipers que se alvejam mutuamente, escondidos por trás das janelas das casas de ambos os lados.

domingo, 28 de dezembro de 2008

língua das cobras

Acho muito engraçado ver a quantidade de brasileiros que o Google me envia à procura da língua das cobras. Se você é mais um, não se sinta defraudado pelo Google. Não se enganou muito porque eu tenho língua, mais de uma até, sou meia cobra e tenho uma colecção delas conservadas em frascos. Limpo-lhes o pó, aos frascos, ponho-os a brilhar. 

distribuição

Há já algum tempo que não ia ao café da Prazeres. Ontem fui lá mas ela não estava, nem atrás nem à frente do balcão, nem na cozinha à volta dos fritos. Reparei que no canto onde costumava estar a arca dos gelados se encontra agora um computador. O monitor tijolo, ultrapassado, estava comido de sujidade assim como o teclado. Cinco crianças empoleiradas em cima umas das outras numa cadeira com rodas irrequietas que chiam quando raspam a tijoleira, fitavam o ecrã e instruíam a que manejava o rato, “clica ali, clica outra vez”, para depois dizer, “pronto, perdeste, agora sou eu”.
- Anabela, anda aqui a esta senhora – disse o velho que anda sempre pegado com a Prazeres mas não arreda pé do café.
A Anabela saltou da cadeira com as rodas irrequietas. A máquina do tabaco não aceita nenhuma moeda, já sei, não preciso tentar. Ela abre-a, retira um maço, recebe as moedas que coloca dentro da máquina que volta a fechar. Distribuição manual.
Lembrei-me de lhe perguntar se já tem um Magalhães. Ainda não.

Israel

Quando eu era pequenina ia à catequese aos sábados à tarde. A minha catequista era uma ex-freira, muito magra, muito pequena, sempre vestida de escuro com uma bata preta por cima da roupa, enormes olheiras castanhas em redor dos olhos, cabelos e lábios escuros. Cresci à volta dela. Foi minha educadora no infantário, professora da ATL e catequista. Foi graças a ela que cheguei à escola primária a saber ler e escrever, somar e subtrair, disciplinada e obediente, com a história da fundação de Portugal memorizada.
- O primeiro rei de Portugal foi… – dizia.
- D. Afonso Henriques! – respondia a sala em coro.
- E nasceu em…
- Guimarães!
- Conquistou Portugal aos…
- Mouros!
- Com a ajuda de…
- Deus!
- Que está no…
- Céuuuuu!
E apontávamos para o tecto.
Na catequese contava-nos histórias da Bíblia. Eram histórias muito bonitas que diziam que os pobres, as mulheres, os doentes, os fracos, herdariam o reino dos céus. Parecia-me muito justo porque se havia alguém a precisar de um reino eram esses; reino que era sinónimo de riqueza, beleza, força, poder e justiça, tal e qual Camelote na estória aos quadradinhos do Príncipe Valente que eu lia no Primeiro de Janeiro.
Lembro-me, como se fosse hoje, do que ela contou sobre a crucificação de Jesus e da forma como o fez. Carinhas tristes, lágrimas a lavar as pestanas, quase a escorregar pelas bochechas, soltávamos suspiros pelo coração.
- Depois de crucificarem Jesus, ele contemplou a terra e disse: “Ah Israel, Israel! Nunca haverá paz em Israel”. E na verdade, como já devem ter visto nas notícias, Israel está sempre em pé de guerra.
Não sei se isso está na Bíblia, se foi ela que inventou – era uma grande apreciadora de teatro, particularmente do drama – mas a frase nunca mais me saiu da cabeça. Lia qualquer coisa sobre Israel no jornal, ou via na televisão, e lembrava-me da profecia. Ah Israel, Israel, pensava, imitando a expressão desolada dela, os dedos magríssimos colados na cara que abanava de um lado para o outro.
Hoje, ao ler as notícias de mais uma escalada de violência – é tanta e tão antiga que já não há heróis nem vilões, nem Afonso Henriques e Mouros da versão da catequista, apenas corpos que se contam mas não se contabilizam, porque a indiferença da repetição já não deixa distinguir nem memorizar – e continuo a lembrar-me da profecia que não sei bem se foi de Jesus, se foi da dona Augustinha.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

virgem

horas tardias nos campos de azul
mostram-se coerentes e não são;
virgens de Outono caem do céu verde
não são amarelas de sardónicas
nem vermelhas de sangue
são tristes não têm cor mas sinto
horas tardias soltas nos campos
batem pela mulher verde que vadia
nos campos onde vadiam as horas.

1982

poema de um poeta morto de quem nunca ninguém ouviu falar

Com ela dói-me o prolongamento das nuvens
Com ela mantenho um olhar o prolongamento da amizade
Com ela o céu ofusca-a e mata-me devagarinho o pensamento
Com ela tudo é possível
Em Beirute ela é cúmplice das crianças mortas
Sopa de napalm
Com ela não sei o quanto tudo é possível
Mas, na agrura dos monumentos erguidos ao grande deus Eros
Espero pela minha vez de a beijar no colo
Longos enlaçamentos de amor e poesia

Zé Cari, 1982


Glenn Baxter

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

in the ward before she went

in the ward before she went every day all winter she forgave me everybody all mankind she grew good God calling her home the blue mound strange idea not bad she must have been dark on the deathbed it grew again

the flowers on the night-table she couldn't turn her head I see the flowers I held them at arm's length before her eyes the things you see right hand left hand before her eyes that was my visit and she forgiving marguerites from the latin pearl they were all I could find

iron bed glossy white two foot wide all was white high off the ground vision of love in it see others' furniture and not the loved one how can one


Beckett, How It Is

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

criação

O que o Papa disse à Cúria Romana em 22 de Dezembro:

“A Igreja não pode e não deve limitar-se a transmitir aos seus fiéis apenas a mensagem da salvação. Ela tem uma responsabilidade em relação à criação e deve tornar presente também em público esta responsabilidade”.

E “ao fazê-lo – deve defender não só a terra, a água e o ar, como dons da criação que pertencem a todos”.

“Deve proteger também o homem contra a destruição de si mesmo. É necessário que haja qualquer coisa como uma ecologia do homem, correctamente entendida. Não é uma metafísica superada, se a Igreja fala da natureza do ser humano como homem e mulher e pede que se respeite esta ordem da criação.
Trata-se aqui da fé no Criador e da escuta da linguagem da criação, cujo desprezo seria uma autodestruição do homem e portanto uma destruição da própria obra de Deus”.

Via Radiovaticana

Parece-me claro que quando fala em respeito pela ordem da criação, o Papa entende estar essa ordem em perigo (subentende-se a referência à homossexualidade, mas também à contracepção). Não haverá falta de bebés tão cedo e a haver, ela terá mais a ver com a economia e a emancipação feminina do que com a orientação sexual de uma pequena parte da humanidade. Em sociedades onde a mão-de-obra é cada vez menos necessária, as populações continuarão a ajustar os seus valores e a produzir menos bebés. A aceitação cada vez maior que a homossexualidade tem, sobretudo nos países ocidentais, tem precisamente tudo a ver com este ajustamento de valores - a reprodução deixou de estar nos objectivos imediatos da população. Não se trata de destruição, mas de equilíbrio.


*nota : resto do discurso do Papa (tradução minha)

«Aquilo que é expresso e entendido com o termo "género", no fim resume-se à auto emancipação do homem da criação e do criador. O ser humano quer fazer tudo sozinho e dispor sempre e exclusivamente de tudo o que lhe diz respeito. Mas desta forma o ser humano vive contra a verdade, contra o espírito criador. A floresta tropical merece, sim, a nossa protecção, mas não a merece menos o homem como criatura, na qual está escrita uma mensagem que não significa contradição da nossa liberdade, mas a sua condição. Grandes teólogos da Escolástica qualificaram o matrimónio, que é o vínculo para a toda a vida entre homem e mulher, como o sacramento da criação, que o Criador instituiu e que Cristo – sem alterar a mensagem de criação – aceitou na história da sua aliança com os homens. Faz parte do anúncio de que a Igreja deve testemunhar a favor do Espírito Criador presente na natureza como um todo, e de especial modo na natureza do homem, criado à imagem de Deus. Nessa perspectiva, deve reler-se a encíclica Humanae Vitae: a intenção do Papa Paul VI era a de defender o amor contra a sexualidade de consumo, o futuro contra a alegada exclusividade do presente e a natureza do homem contra a sua manipulação. (...)»

cocktail Molotov

Lembram-me de como estamos sempre a um passo da barbárie, de como é frágil o mecanismo que nos mantém no lugar. Não é preciso muito para nos armarmos de cocktail Molotov. A democracia onde todos têm voz deixou de ouvir as vozes pacíficas do protesto. Estamos prontos para protestar com violência contra as incongruências da democracia neoliberal e, de seguida, estaremos prontos para o regresso dos totalitarismos. As palavras de Manuela Ferreira Leite sobre a suspensão da democracia correm o risco de se revelarem proféticas.

domingo, 21 de dezembro de 2008

beauty - 31knots




We were simply written into the script
As characters decidedly inciting some rift.
Protagonizing, agonizing.
Fictious sightseeeing, so frightening
What it might mean.

I want beauty to believe
That I can be a better sight to see.
That I can shape a saunter from a walk.
And I can grace the senses with a soft
Unassuming touch that, hitherto,
Has never seen the light of darkened rooms.
I have crowned her name
I have cursed it too.
I have held it high
As a basic truth.

But who are you?
Who are you?
Beauty,
We need to see

Still I act as if I have a chance
Relenting or abiding when I can
But, Beauty, hark that I want nothing more than to
fall right back into your arms

And you can sing me pretty lullabies
How everything that matters is in your eyes.
We're passing the massive-destruction-panic.
Didn't it stop dead in its track to vanish?
Didn't it mimic the boredom before it?
Calling into question the method of boredom.

Victory. Vanity.
Victory. Vanity.
Victory. Vanity.
Victory. Vanity.
I believe everything Victory says to me.

Oh, mirror, oh, mirror on the wall.
Is there no beauty behind the wall?

Anymore,
Everything is everywhere.
What a bore,
Who's to...
Giving more, cause everything...
I'm a whore,
from everything and everywhere.
Beauty's a whore, from everything and everywhere
Beauty is a whore for every

Who are you?
Where are you?
Beauty
We need to see.
Who are you?

Beauty is you.
See now?

sábado, 20 de dezembro de 2008

gargalhada


Nada como uma boa gargalhada para espantar a angst de uma manhã de sábado desperdiçada numa chamada para um call-center, com pronúncia e tudo.