Isto não é um post descrevendo mais uma experiência alucinante com um call-center. Não é necessário porque não deve haver ninguém que ao ler as palavras “call-center”, não se lembre de imediato de algum dos episódios mais frustrantes da sua vida e se identifique, por isso, com a minha história ainda que eu não a conte.
Tenho um amigo que usa constantemente a palavra “merda”, verbalmente e por escrito. Explicou-me que gosta de usar essa palavra porque é das poucas com que a generalidade das pessoas se identifica de imediato. Tem toda a razão. Podemos não saber uma série de coisas mas todos sabemos o que é uma merda. A palavra call-center também é assim.
A universalidade destas más experiências deveria fazer-nos pensar em tudo o que está errado neste mundo. Não deveria ser preciso uma crise financeira para isso porque o call-center, armado em oráculo, já nos vinha a prevenir há algum tempo.
O call-center repete sempre os mesmos detalhes, as mesmas instruções. Não interessa se o problema de hoje é diferente do de ontem, as instruções são as mesmas. Por vezes fazemos uma pergunta original e há necessidade de consultar o supervisor, o que nos enche de esperança, mas em vão porque nunca ninguém sabe o que fazer e mesmo que soubesse nada pode fazer. A frustração passa a raiva que é apenas outra impotência porque é dirigida a alguém do outro lado que é tão vítima como nós ou talvez mais; não se pode defender porque o que ele diz está provavelmente a ser gravado em algum lado.
O capitalismo emprega os operadores, treina-os mal e explora-os, porque está tão concentrado em obter lucros que já não consegue vender-nos nada. Transformou o apoio técnico em caixas de esvaziamento da frustração dos clientes.
A solução para os problemas dos nossos dias?
- Por favor coloque-se junto ao sistema. Desligue-o na ficha de alimentação e volte a ligá-lo.
sábado, 20 de dezembro de 2008
call-center angst
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
cadeira
Telefonaram-me dizendo que faltavam as fotocópias dos bilhetes de identidade dos meus filhos.
- Faltam? Mas vocês ficaram com elas quando abriram o processo.
- Não. Não foram entregues, senão estariam aqui. Convém entregá-las cá ainda hoje porque estou com isto nas mãos, se quiser evitar mais atrasos.
O atraso refere-se à minha reclamação dos valores indevidamente cobrados por deus.

O funcionário arrasta uma cadeira do fundo da sala monocromática até à sua secretária. É velha, de napa preta roída, já tem alguns buracos que mostram a esponja amarela que a forra. Pede-me que me sente nela e senta-se do outro lado da mesa. Não me estendeu a mão para me cumprimentar e disse bom dia com relutância, sem mexer os lábios. Ventrículo. O incómodo é todo meu mas ele parece pensar o contrário. Mantém a cara fechada na antipatia. A cor da roupa mal se distingue da tonalidade da pele e do cabelo, penteado para trás com gel. Reparo nos papéis brancos que tem em cima da secretária, preenchidos com contas de somar e de subtrair, onde tentou zelosamente poupar todos os cêntimos possíveis ao estado. Esmiúçam o meu passado contribuinte.
Descalcei a luva da mão direita e entreguei-lhe as fotocópias dos bilhetes de identidade desculpando-me pela fraca qualidade - a minha impressora multi-funções estava com pouca tinta. Observa bem as fotocópias e finalmente diz qualquer coisa. Falta mais um documento, explica-me.
- Convém trazê-lo cá ainda hoje enquanto estou com isto nas mãos.
Não vale a pena dizer que esse documento também já tinha sido entregue, que na abertura do processo outro funcionário tinha verificado a papelada.
- Então terei de cá vir novamente…
Não pede desculpa pelo incómodo. O incómodo é todo do funcionário que não só representa deus como também as suas dores. Discretamente empurro a cadeira velha para trás tentando fugir do mau hálito dele. Não lhe consigo ver os olhos, apenas o reflexo das luzes brancas nos seus óculos, como nos filmes antigos em que o interrogador escondia o rosto atrás de uma luz muito forte que incidia na cara do interrogado enquanto lhe gritava “Confessa, confessa!”. Parece-me que quer que eu confesse qualquer coisa. Tento pensar nos meus pecados financeiros, mas não me lembro de nenhum. Ele dá uma ajuda e anuncia num tom acusador.
- A natação, assim como a ATL, não são despesas de educação.
Descalço a outra luva e ponho as mãos por baixo das coxas, apalpando a napa esburacada da cadeira. Cravo-lhe as unhas e rasgo-a devagarinho, aumentando os buracos do desespero dos outros que nela se sentaram antes de mim.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
sublime
O que devem as mulheres dizer sobre os anúncios da Triumph com a Cláudia Vieira? É um anúncio como outro qualquer mas todos estes comentários masculinos sobre uma campanha publicitária que não lhes é (aparentemente) dirigida, provam a minha teoria - a fotografia da moda foi transformada numa coisa que os homens querem lamber, seja com a língua vulgar do "comia-te toda", seja com a língua poética do homem culto. É uma coisa muito básica. Todas essas reproduções dos anúncios nos blogues masculinos fazem a sua parte na máquina de marketing da Triumph, o que não tem nada de mal. Não me incomodam nada mas também não me dão vontade de os reproduzir e de lhes escrever poemas. Lá está, acho-os bonitos mas são-me indiferentes. Sublime é outra coisa.
domingo, 7 de dezembro de 2008
aparição
Naquela igreja apareceu uma manhã um bebé dentro de uma alcofa em cima do altar. Apareceu ao sacristão que momentos antes tinha aberto os portões, verificara se estava tudo em ordem e se dirigira à sacristia de onde agora regressava. Branco, com cabelo negro, o bebé estava embrulhado numa manta de lã azul, bem protegido do frio; não chorava. Sob a luz da clarabóia tinha aura de santo, muito semelhante ao menino Jesus que estava aninhado no colo da estátua de pau de S. José. O sacristão espreitou entre os bancos, dentro dos confessionários, deu a volta ao templo por dentro e por fora, mas não havia ninguém. Era muito cedo.
Mais tarde contou a história à polícia e aos jornalistas. Apareceu na televisão e lamentou não ter um gravador VHS. Recortou todos os artigos de jornal que conseguiu encontrar e guardou-os dentro de um envelope que fechou à chave na gaveta do armário que servia de suporte ao santuário da sua casa. Seria rapidamente esquecido por todos e o nome da aldeia voltaria ao anonimato dos dias que se sucedem iguais.
Excepto quando aparecem meninos jesus no altar da igreja.
sábado, 6 de dezembro de 2008
the black art

Carlos Estevez - Amores Difíciles, 2007
A woman who writes feels too much,
those trances and portents!
As if cycles and children and islands
weren't enough; as if mourners and gossips
and vegetables were never enough.
She thinks she can warn the stars.
A writer is essentially a spy.
Dear love, I am that girl.
A man who writes knows too much,
such spells and fetiches!
As if erections and congresses and products
weren't enough; as if machines and galleons
and wars were never enough.
With used furniture he makes a tree.
A writer is essentially a crook.
Dear love, you are that man.
Never loving ourselves,
hating even our shoes and our hats,
we love each other, precious , precious .
Our hands are light blue and gentle.
Our eyes are full of terrible confessions.
But when we marry,
the children leave in disgust.
There is too much food and no one left over
to eat up all the weird abundance.
- Anne Sexton, The Complete Poems
peixes
Aterro nas memórias, coisas insignificantes – nada nas minhas memórias tem alguma importância – aconteceu-me tudo e nada me aconteceu. Se a vida fosse um pano de enxaguar o chão que se torcesse, espremesse até se romper, não sairia nada, nenhuma pinga de água rolaria pelas faces fazendo cócegas no nariz. Um espirro e era tudo. A memória pode ser um copo de vinho verde que se bebeu uma tarde na esplanada de um restaurante típico do Gerês, frente a um lago artificial forçado à existência pela barragem que o meu pai ajudou a erguer, mãos nuas e lampião a petróleo na cabeça, no turno da noite das entranhas da serra, imitando o sotaque do italiano que lhe chamava bambino, fazendo rir os homens sujos, mais pretos que os pretos, dentes a brilhar dentro da terra. As memórias do meu pai confundem-se com as minhas. Um copo de vinho verde, dizia eu, e um mergulho na água, pés feridos nas pedrinhas do fundo do lago - sangram para os peixes. O meu pai furava a terra sob os cascos dos cavalos selvagens e dos lobos, os mesmos de quem os emigrantes furtivos se protegiam quando atravessavam a serra a pé, a salto para Espanha e daí para França. A minha tia ia nesse grupo que empunhava archotes pela noite fora e pisava a terra cada vez mais fina sobre a cabeça do meu pai. A maior preocupação dele era não deixar que o lampião se apagasse. Distraiu-se e caiu da parede de betão num voo de águia para o infinito lá de baixo. Deixou a perna sangrar para os peixes, pendurada pelos tendões, foi um milagre, disseram as freiras no hospital, não ficar sem ela. Ele não sabia de quem eram os passos na terra porque ainda não conhecia a minha mãe, irmã da tia que deixou sobre os homens da serra o rasto de mil e um sonhos embrulhados com o chouriço de sangue e a broa de milho, ao lado do marido de fresco, jogador de futebol, escândalo da família, que trocaria por outro na terra da flor de lis. A tia que arreliava a viscondessa sua madrinha com a recusa na aprendizagem da etiqueta rígida do solar. Que ironia ela ser hoje especialista na etiqueta rígida da diplomacia francesa, cabelo louro, corte à Mireille Mathieu e vestidos de alta-costura, recebendo embaixadores e chefes de estado de mãos muito brancas estendidas a dizer as palavras correctas e sem nunca se enganar nos talheres. A memória pode ser um copo de beaujolais no pátio da sua casa na Nova Caledónia.
E a minha mãe? A minha mãe dói tanto que custa falar. As memórias dela não se confundem com as minhas, são as minhas. A memória pode ser uma dor imensa no fundo de um copo de vinho verde. Pode ser o riso da minha mãe na excentricidade dos peixes do rio.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
Odetta Holmes 1930-2008
When I was a little bitty baby
My mama would rock me in the cradle
In them old cotton fields back home
Oh when those cotton balls get rotten
You can't pick you very much cotton
In them old cotton fields back home
It was down in Louisiana
Just a mile from Texarkana
In them old cotton fields back home
I was over in Arkansas
People ask me what you come here for
In them old cotton fields back home
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
neve

Carlos Estevez - La relatividad del Espacio, 2007
No Domingo a neve caía mas não era neve que embranquecesse as árvores, o chão e os telhados porque derretia mal batia em alguma coisa. Não era neve grossa que se amassa e enrola nas mãos; era pouco mais que gotas de chuva geladas e que por isso caíam mais devagar transformando a janela do meu quarto num canal de televisão mal sintonizado; o plátano em grande plano e os carvalhos e castanheiros mais atrás e mais atrás ainda, o contorno do monte de Santa Marinha para cujo lado acordo todas as manhãs. A verdadeira neve caía alguns quilómetros mais para o interior, entupindo estradas e enregelando motoristas de camiões.
No Sábado adormeci sobre a leitura de «O Castelo», com o agrimensor K. perdido algures numa dessas aldeias brancas, pés enterrados na neve, arrastando-se com dificuldade ou fazendo-se arrastar por alguém, entrando e saindo das casas, encontrando pessoas que tanto são como não são qualquer coisa e vivem em redor de um castelo que tanto é como não é. Adormeci sobre toda aquela neve sem suspeitar que acordaria dentro do castelo, olhos semi-cerrados pela luz do dia porque me esqueci de fechar as portadas exteriores, e a neve que não era neve caindo à minha frente, sem deixar um caminho branco onde pudesse imprimir pegadas que pudessem servir de guia a quem me quisesse encontrar.
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
RIP a Remix Manifesto
Trailer do documentário de Brett Gaylor que recebeu o Dioraphte Audience Award em Amesterdão (International Documentary Film Festival) no último fim-de-semana. O documentário explora as ramificações artísticas e legais do remix, ou como ele mesmo definiu : "I wanted to document and explore the war of ideas between those who want to share ideas - the copyleft - and those who want to lock up ideas - the copyright."
Mais informação aqui.
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
às vezes quando se me escurece a alma penso
deveria praticar ioga
erguer-me como uma árvore assimétrica na torrente
de quando em quando o vento arrancar-me-ia uma ou outra ramada
talvez me cobrissem heras ou vinha virgem
os pássaros alimentar-se-iam de pequenos vermes e insectos
estranhos líquenes tomariam o meu torso
- Cláudia Santos Silva
Ás vezes quando se me escurece a alma recordo uma rua contínua paralela à tua, e outra ainda antiga com o arco que traçavas no papel, por onde devem ter descido rainhas e subido criadas, e talvez, mas só talvez porque não sei, a desenhavas por ter sido aí que se embruxaram os homens e despediram as mulheres.
bons seres humanos
«Language is a form of human reason, which has its internal logic of which man knows nothing.»
-Lévi Strauss
Resumindo este texto da Isabela, quando chegam à escola os alunos devem possuir uma intuição da linguagem que corresponde a cada contexto, valores, respeito pela autoridade dos professores, conhecer e cumprir as regras do debate, não serem frustrados, estarem integrados na sociedade.
Existem os ciclos viciosos que perpetuam os problemas e impossibilitam a mobilidade social. Dificultam o papel da escola, impossibilitam até, porque a escola não foi apetrechada de meios para poder intervir na cura das consequências dos males sociais que a afectam. Espera-se dos professores um heroísmo irrealista quando por outro lado se desclassifica e confunde o seu papel social. Estou convencida que ainda vamos pagar bem caro esta desclassificação social dos professores. Ela acontece a par da desclassificação social do aluno e quase não nos apercebemos do que andamos a fazer. Falamos todos muito e pensamos que eles, esses estúpidos que não sabem porque protestam nem sabem o que dizem quando exigem aulas de educação sexual, não nos ouvem, mas ouvem, e a mensagem que lhes chega é que nós, os grandes, os inteligentes que nunca perdemos o direito ao benefício do uso da língua e que tão bem conhecemos as regras do debate, linguarejamos e debatemos muito mas não sabemos resolver os problemas que nós mesmos criamos.
Há crianças que chegam à escola com todos esses requisitos para uma boa aprendizagem, e são a alegria dos professores. Motivam-se mutuamente porque não há nada mais compensador para um professor do que ver os seus alunos progredirem, sabendo que é o resultado do seu esforço e empenhamento. Mas também há crianças que não chegam assim à escola e a escola tem de saber contrariar esse ciclo vicioso. Não o poderá nunca fazer sozinha - precisará do empenhamento de todos - mas ela é uma parte essencial, se não na resolução, na melhoria das condições morais, psicológicas e intelectuais dessas crianças. Cada criança resgatada a esso ciclo vicioso vale por cem meninos educados para as elites nas escolas muito caras e muito chiques, coisa que os rankings nunca têm em conta; se tivessem haveria mais escolas públicas nos primeiros dez lugares.
O maior drama do mundo civilizado é nada se fazer por essas crianças que se agrupam em turmas isoladas, para não perturbarem os outros, e aí são esquecidas até completarem a escolaridade na secretaria, sem conhecimento e sem formação de valores. O maior drama é quase ninguém ter percebido que o país não vai ter défice de médicos, advogados, políticos, trolhas, jardineiros, carpinteiros, jornalistas… o país vai ter um grande défice de bons seres humanos.
Bracara Augusta e o tesouro arqueológico
Deve doer muito ser bracarense
«O que está claro é que o executivo de Mesquita Machado pretende lavar as mãos, acusando a Unidade de Arqueologia de ter optado por enterrar o tesouro romano agora descoberto. Tudo está a ser decidido sem o necessário debate público, sem a audição de outros especialistas e fazendo tábua rasa das opiniões versadas por alguns dos mais conceituados arqueólogos nacionais.» - no Avenida Central
os meus barbudos
Quero saber onde estão os meus barbudos cabeludos e as minhas mulheres de roupas esquisitas que logo a seguir à revolução dos cravos se tornaram meus professores, alguns vindos de longe, não sei bem de onde – o meu mapa mundi acabava no Douro – de corpo moído pelas estradas impossíveis, e me convenceram de que eu era importante; que se calavam para ouvir o que esta criança tinha para dizer e me deixavam fazer os pês e os efes como eu quisesse; se comoviam com uma redacção sobre um cãozito escanzelado e me diziam que nunca mais professor algum me iria bater com a régua muito grossa na palma da mão. Abriram janelas, encheram a escola de música e de tintas e não fazia mal sujar as mãos; e de mãos sujas seguimos a Graça Morais que, esgotando-se as telas da escola, nos pôs a pintar a nossa imaginação nos tapumes das obras pela cidade dentro. E toda a gente dizia, que bonito! que alegria a cidade toda colorida! Toda a gente estava feliz e ninguém tinha medo de nós.
Os meus barbudos cabeludos e as minhas mulheres de roupas esquisitas preencheram-me com afectos e eu era a melhor aluna do anexo de S. Francisco.
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
maison d'arrêt
Já tinha estado preso e decidira que a morte era preferível à privação moral e física. Quando vieram de novo prendê-lo fechou-se no escritório e deu um tiro na cara. Destruiu o nariz e o maxilar mas não morreu. Socorreu-se da faca corta-papel e espetou-a no pescoço repetidas vezes sem nunca encontrar uma artéria que o libertasse. Virou-se então para o coração e foi lá que enterrou a faca. Por esta altura já tinha tinta suficiente para uma despedida e de mão firme escreveu com o seu próprio sangue
«Moi, Sebastien-Roch Nicolas de Chamfort, déclare avoir voulu mourir en homme libre plutôt que d'être reconduit en esclave dans une maison d'arrêt.»
O mordomo encontrou-o inconsciente sobre uma poça de sangue. O corpo, que sofria intensamente mas se recusava a morrer, resistiu ainda um ano sob o olhar atento dum polícia a quem Chamfort pagava uma coroa por dia pelos seus serviços.