sexta-feira, 28 de novembro de 2008


às vezes quando se me escurece a alma penso
deveria praticar ioga
erguer-me como uma árvore assimétrica na torrente
de quando em quando o vento arrancar-me-ia uma ou outra ramada
talvez me cobrissem heras ou vinha virgem
os pássaros alimentar-se-iam de pequenos vermes e insectos
estranhos líquenes tomariam o meu torso
- Cláudia Santos Silva

Ás vezes quando se me escurece a alma recordo uma rua contínua paralela à tua, e outra ainda antiga com o arco que traçavas no papel, por onde devem ter descido rainhas e subido criadas, e talvez, mas só talvez porque não sei, a desenhavas por ter sido aí que se embruxaram os homens e despediram as mulheres.

Bombaim

bons seres humanos

«Language is a form of human reason, which has its internal logic of which man knows nothing.»
-Lévi Strauss

Resumindo este texto da Isabela, quando chegam à escola os alunos devem possuir uma intuição da linguagem que corresponde a cada contexto, valores, respeito pela autoridade dos professores, conhecer e cumprir as regras do debate, não serem frustrados, estarem integrados na sociedade.

Existem os ciclos viciosos que perpetuam os problemas e impossibilitam a mobilidade social. Dificultam o papel da escola, impossibilitam até, porque a escola não foi apetrechada de meios para poder intervir na cura das consequências dos males sociais que a afectam. Espera-se dos professores um heroísmo irrealista quando por outro lado se desclassifica e confunde o seu papel social. Estou convencida que ainda vamos pagar bem caro esta desclassificação social dos professores. Ela acontece a par da desclassificação social do aluno e quase não nos apercebemos do que andamos a fazer. Falamos todos muito e pensamos que eles, esses estúpidos que não sabem porque protestam nem sabem o que dizem quando exigem aulas de educação sexual, não nos ouvem, mas ouvem, e a mensagem que lhes chega é que nós, os grandes, os inteligentes que nunca perdemos o direito ao benefício do uso da língua e que tão bem conhecemos as regras do debate, linguarejamos e debatemos muito mas não sabemos resolver os problemas que nós mesmos criamos.

Há crianças que chegam à escola com todos esses requisitos para uma boa aprendizagem, e são a alegria dos professores. Motivam-se mutuamente porque não há nada mais compensador para um professor do que ver os seus alunos progredirem, sabendo que é o resultado do seu esforço e empenhamento. Mas também há crianças que não chegam assim à escola e a escola tem de saber contrariar esse ciclo vicioso. Não o poderá nunca fazer sozinha - precisará do empenhamento de todos - mas ela é uma parte essencial, se não na resolução, na melhoria das condições morais, psicológicas e intelectuais dessas crianças. Cada criança resgatada a esso ciclo vicioso vale por cem meninos educados para as elites nas escolas muito caras e muito chiques, coisa que os rankings nunca têm em conta; se tivessem haveria mais escolas públicas nos primeiros dez lugares.

O maior drama do mundo civilizado é nada se fazer por essas crianças que se agrupam em turmas isoladas, para não perturbarem os outros, e aí são esquecidas até completarem a escolaridade na secretaria, sem conhecimento e sem formação de valores. O maior drama é quase ninguém ter percebido que o país não vai ter défice de médicos, advogados, políticos, trolhas, jardineiros, carpinteiros, jornalistas… o país vai ter um grande défice de bons seres humanos.

Bracara Augusta e o tesouro arqueológico

Deve doer muito ser bracarense

«O que está claro é que o executivo de Mesquita Machado pretende lavar as mãos, acusando a Unidade de Arqueologia de ter optado por enterrar o tesouro romano agora descoberto. Tudo está a ser decidido sem o necessário debate público, sem a audição de outros especialistas e fazendo tábua rasa das opiniões versadas por alguns dos mais conceituados arqueólogos nacionais.» - no Avenida Central

os meus barbudos

Quero saber onde estão os meus barbudos cabeludos e as minhas mulheres de roupas esquisitas que logo a seguir à revolução dos cravos se tornaram meus professores, alguns vindos de longe, não sei bem de onde – o meu mapa mundi acabava no Douro – de corpo moído pelas estradas impossíveis, e me convenceram de que eu era importante; que se calavam para ouvir o que esta criança tinha para dizer e me deixavam fazer os pês e os efes como eu quisesse; se comoviam com uma redacção sobre um cãozito escanzelado e me diziam que nunca mais professor algum me iria bater com a régua muito grossa na palma da mão. Abriram janelas, encheram a escola de música e de tintas e não fazia mal sujar as mãos; e de mãos sujas seguimos a Graça Morais que, esgotando-se as telas da escola, nos pôs a pintar a nossa imaginação nos tapumes das obras pela cidade dentro. E toda a gente dizia, que bonito! que alegria a cidade toda colorida! Toda a gente estava feliz e ninguém tinha medo de nós.
Os meus barbudos cabeludos e as minhas mulheres de roupas esquisitas preencheram-me com afectos e eu era a melhor aluna do anexo de S. Francisco.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

maison d'arrêt

Já tinha estado preso e decidira que a morte era preferível à privação moral e física. Quando vieram de novo prendê-lo fechou-se no escritório e deu um tiro na cara. Destruiu o nariz e o maxilar mas não morreu. Socorreu-se da faca corta-papel e espetou-a no pescoço repetidas vezes sem nunca encontrar uma artéria que o libertasse. Virou-se então para o coração e foi lá que enterrou a faca. Por esta altura já tinha tinta suficiente para uma despedida e de mão firme escreveu com o seu próprio sangue

«Moi, Sebastien-Roch Nicolas de Chamfort, déclare avoir voulu mourir en homme libre plutôt que d'être reconduit en esclave dans une maison d'arrêt.»

O mordomo encontrou-o inconsciente sobre uma poça de sangue. O corpo, que sofria intensamente mas se recusava a morrer, resistiu ainda um ano sob o olhar atento dum polícia a quem Chamfort pagava uma coroa por dia pelos seus serviços.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

fila de cavaleiros

«É a coisa mas bela da terra,
uma fila de cavaleiros» diz. «Não,
de infantes». «Não, de navios». E eu penso,
belo é o que se ama.
- Safo


Também me chateia. As mulheres sempre foram o parente pobre da intelectualidade. É ridículo mas essas listas têm as suas vantagens. Por exemplo, numa lista de trinta poetas é quase certo que só dois ou três são mulheres, e é isso que desperta o meu interesse porque fico logo a saber que escreveram os melhores poemas. Têm de ser superiores para estarem naquela lista, o que quase sempre se confirma. Tal como a Ana, não acho que estas coisas sejam intencionais mas a diferença continua a ter de ser excepcional para ser aceite. Aos homens só se pede que não sejam medíocres.

seis meses

Envia-me o estado uma carta a dizer que eu tenho uma dívida com ele e que se não me dirigir ao seu templo dentro de cinco dias, vai proceder à penhora dos meus bens. Para além de eu não fazer a mínima ideia de que dívida o estado se queixa - o estado não especifica - o tom ameaçador com que se me dirige, no estilo dispara primeiro pergunta depois, é revoltante e foi com revolta que entrei no edifício das finanças. Explicou-me a funcionária que por vezes o sistema falha, mas que posso ignorar a carta porque eu não devo nada ao estado. Apeteceu-me dizer – suspendam o sistema por seis meses e metam tudo na ordem, se faz favor, mas não disse.


Holodomor


Na Terceira Noite, o Rui Bebiano, chama a atenção para o Holodomor (praticamente ignorado pela imprensa internacional) e o revisionismo histórico que se tenta fazer do passado.
Apenas tenho a adicionar a recusa de Medvedev em estar presente nas comemorações do 75º aniversário do Holodomor em Kiev. A fome provocada pelas reformas colectivistas de Estaline matou milhões na Ucrânia mas também na Rússia, Bielorrússia, Cazaquistão. Medvedev recusou estar presente na cerimónia usando o argumento de que distanciar a fome na Ucrânia da fome noutras regiões da antiga União Soviética, era cínico e imoral. Considera também questionável que se pretenda ver na fome que causou tantas vítimas, uma tentativa deliberada de extermínio, recusando o uso do termo genocídio. Mas as suas palavras chocam com o facto de na Rússia, embora não sendo glorificada, a herança Estalinista não ser explicitamente rejeitada. Para além disso todas estas considerações não impediram Medvedev de usar a palavra genocídio mal os georgianos se aproximaram da Ossétia do Sul, voltando a usá-la em Setembro, um mês depois do procurador russo ter revisto e drasticamente reduzido a contagem inicial dos corpos.

Fonte : Berliner Zeitung (em alemão)

burro (cont.)

Este episódio do burro ficou entranhado na minha memória visual e olfactiva. Contei o que vi ao meu pai. Pareceu-me muito preocupado e ao almoço quase não comeu. Era por causa do burro, transformado em campo de batalha onde jaziam o sangue, os ossos, a carne que eu vira e o cheiro que sentira. Uma visão para quem, como ele, acreditava nas premonições, nos avisos revelados por qualquer entidade divina aos inocentes, como Maria tinha feito aos pastorinhos. Não sei se isto aconteceu no 25 de Novembro mas andou lá perto, acabando o burro e o 25 por ficar associados nas minhas memórias.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

burro

No 25 de Novembro havia um circo acampado no terreno fora da escola, tigres dentro de jaulas e um burro preso a um poste. No intervalo fomos até lá ver aquele modo de vida que nos era tão estranho, quase burlesco. Estava muita gente junto dos tigres e um cheiro insuportável sobre todas as cabeças. Nunca tinha cheirado nada assim e estava curiosa, mais do que agoniada. Furei por entre as pernas da multidão para ver o que se passava. No chão estava um monte de carne, ossos e sangue. Era dali que vinha o cheiro. Um dos homens do circo cortava o monte com um machado e outro agarrava nos pedaços vermelhos e atirava-os para dentro da jaula do tigre.
Nunca mais vi o burro.

adeus composição

O meu filho mais novo tem uma disciplina que se chama Oficina de Escrita onde a única coisa que escreve é o sumário. O mais velho também teve essa disciplina onde escrevia os sumários e pouco mais. Deveria chamar-se Oficina de Sumários.

cosas de Saramago

Porque criou Saramago um blogue?
«Quizás es esa novedad de volver a empezar. Escribir sin ningún condicionamiento. Los medios te pagarían, claro está. Pero mira, ha ganado Obama, me felicito, y a continuación escribo un artículo en el que pido sin medias tintas el cierre de Guantánamo y el cese del bloqueo económico a Cuba. Y así, sobre lo que se me ocurre. En realidad, el sistema acaba por integrarte. En el fondo no eres más que una guinda en el pastel. Te toleran. Se ríen de ti. ¡Cosas de Saramago!» - na entrevista de Saramago a Manuel Rivas, no El País Semanal.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

o album do senhor K

Gostei deste album de fotografias imaginárias de Kafka.

«Et si l'ami Max Brod ne s'était pas contenté de sauver des flammes les petits cahiers bleus. S'il avait, malgré l'interdiction, conservé aussi un mince album de seize photographies? Et ce serait cet album qui serait présenté ici. Un album de photographies improbables où Franz Kafka (Monsieur K.) apparaîtrait dans des lieux et approcherait des personnages qu'il aurait pu (ou qu'il n'aurait jamais dû) rencontrer. Une vie rêvée en sorte. Un hommage, de toute façon.»