disse o Zé ao Dimitri. Será que é assim que se tratam um ao outro, pelo nome próprio? O Lutz tem razão. Os políticos querem sempre aparecer ao lado dos grandes, mas não lhes é suficiente. Lado a lado, frente a frente, enquanto apertam mãos, trocam abraços e posam para fotografias, encontram sempre uma forma de nos envergonhar. Não quero sentir vergonha mas como evitá-la se, tecnicamente, Sócrates me representa? Não se dirá que esta é uma atitude específica deste ou daquele indivíduo, que é um tolo; não, não é assim que funciona. Dir-se-á que é uma atitude portuguesa, de Portugal, e somos todos enfiados no mesmo saco sem ter tempo para encher os pulmões e expulsar o rubor das faces. Sufocamos.
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
sábado, 22 de novembro de 2008

Se não fosse o vento forte muito frio, hoje estaria calor. O sol entrou pela casa dentro pedindo-me que fosse lá fora. As folhas que juntamos ontem voavam malucas em círculos, arreliando os gatos que tentavam apanhá-las sob o olhar dos cães. Custa a crer que há tanto barulho para lá dos montes e eu não o ouço. O silêncio instalou-se todo aqui, numa calma aveludada a convidar à proximidade da lareira, ao chá e à leitura sublinhada a lápis. O gato enrolado aos meus pés, as aguarelas das crianças a secar em cima da mesa e o cheiro do pão-de-ló que cresce no forno da cozinha.
A Isabel trouxe-me cebolas. Estava triste porque lhe morreu a cadelita. «É assim, a gente ganha-lhes amor e depois sofre». O céu muito azul, prepara-se para engolir as folhas, o esqueleto do carvalho, os ramos do choupo e o dia, tudo embrulhado nas lágrimas dos que amam e depois sofrem.
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
keep the faith, baby
“The American people…understand the real gamble is having the same old folks doing things over and over and over again and somehow expecting a different result.” - Barak Obama durante a sua campanha.
É interessante voltar aos blogues e fóruns de discussão onde americanos anónimos mostravam tanta esperança em Obama e verificar que, a cada nova escolha dele, os ânimos estremecem. Há muitas interrogações e incompreensão, mas há também ainda muito optimismo. Os mais optimistas tentam animar os pessimistas com frases do género: "dêem-lhe tempo", "escolher gente que sabe onde são os quartos de banho é bom, não é mau".
No BuzzFlash, Christine Bowman sugere que talvez seja necessário ressuscitar o velho slogan dos anos sessenta "Keep the Faith, Baby" para levantar a moral dos apoiantes mais progressistas de Obama, mas a força do "Change" parece ter esgotado as possibilidades de qualquer outro slogan. As pessoas querem mudança e querem-na já. Mantêm-se coladas às notícias, unhas roídas, tentando perceber nestes primeiros sinais o rumo que Obama vai tomar - será mesmo a mudança ou será mais do mesmo?
Alguns dos comentários tirados do BuzzFlash:
"So with the inauguration less than 60 days away, will those same young people who trudged through the snow and cold to attend their first Iowa Caucus feel as fired up for President Obama after four years of a "Triangulating Bill" Clinton administration redux? Hillary Clinton as Secretary of State, Larry Summers at Treasury, Rahm Emanuel and Eric Holder for Attorney general? This is change?"
"I'm just waiting to see if he changes some of these things. Tear up the Patriot Act. Stop sending billions for wars that are giveaways to war profiteers. Open up all the presidential papers. Investigate 9/11. Investigate the Hedge Funds. Prosecute Bush, Cheney, Rummsfeld and all the other Iraq war cheerleaders. Stop the war rhetoric. Stop giving 3 Billion a year to Israel so they can keep people in ghettos. Stop hate radio. Take care of the least among us. If he does these things he can appoint whoever hell he wants to."
"I wish someone would drive a stake through the heart of the DLC. It looks like they'll be running the show again and we will have a "center-right" government, just like the corporate press says we need for our "center-right" nation. The more things "change", the more they remain the same."
"Obama's NOT going to abandon the centrist philosophy and go left wing. And that's what's pissing us off. I'm glad I didn't give a dime to Obama's campaign."
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Há pessoas que morrem só por querer. Não falo do suicídio, falo do velho que um dia resolve morrer. Senta-se numa cadeira ou deita-se numa cama e sem violência, cordas no pescoço, medicamentos, venenos, balas, ou qualquer outra ferramenta de suicídio, desliga o coração, fecha a última porta no cérebro e morre. Está sempre a acontecer, sobretudo aos viúvos.
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
86
«Que significado terá o zumbido das abelhas no interior da colmeia? Serve-lhes para se comunicarem umas com as outras? Ou é um simples efeito da natureza, a mera consequência de estar vivo, sem prévia consciência nem intenção, como uma macieira dá maçãs sem ter que preocupar-se se alguém virá ou não comê-las? E nós? Falamos pela mesma razão que transpiramos? Apenas porque sim? O suor evapora-se, lava-se, desaparece, mais tarde ou mais cedo chegará às nuvens. E as palavras? Aonde vão? Quantas permanecem? Por quanto tempo? E, finalmente, para quê?» - José Saramago, 86 anos
domingo, 16 de novembro de 2008
de dedo bem apontado
Este país de dedo apontado percebe muito de ética e de justiça. Nas horas laborais mete-se internet dentro e aterra nas caixas de comentários dos jornais online para apontar o dedo aos vilões dos títulos. Eles sabem que os vilões são culpados mesmo que a justiça diga que não. Sabem-no tão simplesmente porque lhes está nas entranhas. Têm uma rede de fibra telepática ligada directamente às entranhas uns dos outros. Cada português tem um vilão dentro de si sempre a tentar escapar. É por isso que bradam pela cabeça dos vilões. Querem desesperadamente acreditar que há salvação.
what if
Evito ao máximo as discussões sobre a educação. Não há nada a fazer. Nunca conseguirei mudar as opiniões contrárias porque todas elas, incluindo a minha, foram muito bem pensadas e têm muita lógica. Nunca conseguirei que a minha opinião conte ou que alguém mude a sua a favor da minha nem eu mudarei a minha. Por isso, não vou por aí. É daquelas coisas da vida que me fazem lembrar a minha antiga chefe, quando numa daquelas reuniões em que ninguém concordava com ninguém, ela me dizia assim:
- What if we fire them all and start over again?
Ministra incluída.
sábado, 15 de novembro de 2008
agorafobia

Midori Yamada
Entrou no quarto e começou a despir-se. Já não tremia mas a cabeça ainda transbordava o álcool, a água e a noite. Estava a ficar grande e pesada, uma melancia que a arrastava para o sono, a morte, ou a loucura, um poço sem fundo onde se debruçaria e se deixaria cair levando consigo um desejo formulado há mil anos na agora onde o pânico a trocou por esta que ela agora é. Encontrava-se ao pé do abismo. O abismo é tudo o que há lá fora, não viveu, os risos que não partilhou, os segredos mais escondidos dos outros que se revelam nos momentos mais íntimos e depois se esquecem, a porta que a separa da rua e que insiste em fechar-se porque estraga sempre tudo, porque tem essa forma de ser de nunca levar tudo até ao fim, até às últimas consequências.
Pálida, olheiras fundas, esconde o corpo sob o lençol azul. Quase engolida pelas almofadas brancas, parece um barco à vela à deriva no mar.
- Não me olhem com essa cara de pena! Venham sentar-se aqui, perto de mim.
A Ana senta-se na cama dela e segura-lhe as mãos dentro das suas. Deito-me a seu lado e a cama protesta. Abraço-a e ela repousa a cabeça no meu ombro.
pêndulo
Uma das poucas certezas que tinha enquanto crescia era a de encontrar sempre a minha mãe em casa e, nas raras ocasiões em que isso não acontecia, eu imaginava-a dentro de um comboio, cabelos ao vento, e uma nota sobre a mesa da cozinha vazia que não cheirava a almoço, onde estaria escrito “Adeus, fui viver uma vida só minha e procurar o que tanto preciso”.
Nunca encontrei a nota e a mãe nunca fugiu. Voltava sempre. Afinal tinha ido ao médico, à missa por alma de alguém, ou a qualquer sítio desses onde se pode encontrar tudo menos o que se precisa.
Nos seus anos de depressão ia muitas vezes ao médico. Lembro-me das coisas que eles lhe receitavam, uma papa de argila para colocar sobre o abdómen, por exemplo, e havia um médico no Porto que a punha a olhar para um pêndulo. Sem se rir. Ela achava piada ao pêndulo.
Teria sido mais fácil se o meu pai fosse um monstro mas nunca o foi. Fazia-lhe o pequeno-almoço e levava-lho à cama. Ajudava-a nas tarefas domésticas e era ele quem lidava com as coisas da escola, nos dava sermões e conselhos, nos punha tintura de iodo nos joelhos. Eu pensava que os homens casados eram todos assim. Nunca me passou pela cabeça que o meu pai talvez também tivesse sonhado fugir.
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
termómetro
Qualquer coisa não estava certa. Os pés, seriam os pés? O culturista tinha uma t-shirt com palavras inglesas mas não se percebia o que diziam e a mãe com as crianças no carro, sorria, não buzinava, não barafustava com a mão direita que não se levantava furiosa para bater de encontro ao volante e até parou na passadeira, um olho mal pintado, qualquer coisa estava errada com a sua blusa. Os meus pés, reparei depois, calçavam sapatos diferentes e uma das minhas meias era de homem. A t-shirt do culturista estava vestida do avesso e a blusa da mãe que sorria estava mal abotoada, cada botão casado com a casa de cima à qual não pertencia.
Pela rua da manhã fora encontro mil e uma pequenas coisas fora dos seus sítios habituais. Meros detalhes, coisas sem consequência mas de muita importância. Um bancário não pode aparecer no banco com a ponta da gravata enfiada nas calças e manchas de suor nos sovacos. A funcionária do pão-quente não pode aparecer aos clientes com a touca do duche na cabeça. Toda a gente sabe que o toucinho-do-céu não é de porco mas era isso que dizia a etiqueta espetada no toucinho da montra do talho.
Nada pode ser como era esta manhã, repito, mas foi-o e o rapaz imberbe na esplanada do centro histórico, queixava-se da lentidão da internet free e do termómetro do amor que o perseguia nos sites de mp3 com o seu poing poing irritante. Estúpido termómetro; porque nunca mais casam a Maria e o Rui? E quem disse que o amor precisa de um termómetro? Sim. Quem foi que disse que o amor não passa de um poing poing irritante?
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
terça-feira, 11 de novembro de 2008
é das tais coisas
que não fazem sentido nenhum. Quando a esquerda começar a levar a sério os direitos da mulher, nos quais, julgo eu, se inclui o direito de pensarem pela sua cabeça, devo parar de pensar pela minha cabeça.
«(...) Quando a questão dos direitos das mulheres deixar de ser um "fait divers" nas mesas de negociações políticas do mundo, e se começar a atender a essa questão ao mais alto nível da tomada de decisões.
Até essa reforma da esquerda acontecer, uma mulher deve pensar pela sua cabeça e votar pragmaticamente naqueles que em cada momento configurarem em discurso e acção a melhor forma de solucionarem as questões públicas. Mesmo assim... o que isto não custa, pois é mais fácil enfiar um barrete e pensar que estamos em marcha.»
Aqui
(o negrito é meu)





