
Jack Vettriano
que não fazem sentido nenhum. Quando a esquerda começar a levar a sério os direitos da mulher, nos quais, julgo eu, se inclui o direito de pensarem pela sua cabeça, devo parar de pensar pela minha cabeça.
«(...) Quando a questão dos direitos das mulheres deixar de ser um "fait divers" nas mesas de negociações políticas do mundo, e se começar a atender a essa questão ao mais alto nível da tomada de decisões.
Até essa reforma da esquerda acontecer, uma mulher deve pensar pela sua cabeça e votar pragmaticamente naqueles que em cada momento configurarem em discurso e acção a melhor forma de solucionarem as questões públicas. Mesmo assim... o que isto não custa, pois é mais fácil enfiar um barrete e pensar que estamos em marcha.»
Aqui
(o negrito é meu)
Conheci muito bem Felgueiras. Famílias inteiras cosiam muitas gáspeas sentadas nas soleiras das portas no Verão, junto das brasas do fogareiro no Inverno, depois do trabalho na fábrica, ao serão. Crianças de corpos franzinos em linhas de produção de sapatos que jornalistas ingleses calçavam quando, posando de clientela, filmaram no segredo da câmara oculta as fábricas dos meninos e das meninas que não estavam na escola. Os jornalistas portugueses, sempre distraídos, não tinham dado pelo furo mediático. O patrão elevado a comendador que se passeava no Ferrari evitando o proletariado que lhe pedia favores. Os machos sempre muito machos que comiam todas, de inocentes passavam a usadas e daí a putas, na boca deles. Mercedes dos fundos perdidos estacionados à porta dos barrancos a que chamavam fábricas, siberianas no Inverno, equatoriais no Verão. Contabilistas manhosos artistas nas artes da falsificação, bons psicólogos da incompetência conivente da fiscalidade. Lisboa é muito longe e eles também comem, diziam todos e todos comiam a miséria das gentes que desciam montanhas e atravessavam vales, afluindo à terra dos sapatos, à procura do pão, sonhando com o seu pedaço na riqueza rápida do boom do calçado. Nunca houve corrupção em Felgueiras.
As palavras faladas ao microfone contam uma história diferente das palavras que as paredes falam. E toda a gente sempre soube de tudo mas ninguém sabe de nada. Ninguém pode saber porque ninguém pode atirar uma pedra. Foi essa a escola que a Fátima Felgueiras frequentou.

Desenho o meu catorze anos enquanto penso nele, nas suas preocupações, desde o bigode que nunca mais cresce ao estado do mundo. Não tenho todas as respostas de que ele precisa e ele pergunta tanto.
Abraça-se a mim. Eu sou a sua âncora, mesmo quando lhe digo que não sei. Algumas coisas ele terá de descobrir por si próprio.
As escolhas que fiz na verdade não foram as minhas escolhas. Limitei-me a escolher entre as escolhas que me foram dadas. Aqui está uma porta azul e aqui está uma verde. Escolhe uma. Também há uma vermelha mas essa está fora do leque das tuas escolhas. Esquece-a. E eu esqueci.
Foi mais ou menos assim.
A única escolha que foi inteiramente minha foi gostar de mim o suficiente para escolher. Em vez de morrer.
(Letra de Sam Cooke)
There’s an old friend
That I once heard say
Something that touched my heart
And it began this way
I was born by the river
In a little tent
And just like the river
I’ve been runnin’ ever since
He said it’s been a long time comin’
But I know my change is gonna come
Oh yeah
He said it’s been too hard livin’
But I’m afraid to die
I might not be if I knew
What was up there beyond the sky
It’s been a long, a long time comin’
But I know my change has got to come
Oh yeah
I went, I went to my brother
And I asked him, "Brother
Could you help me, please?"
He said, "Good sister
I’d like to but I’m not able"
And when I, when I looked around
I was right back down
Down on my bended knees
Yes I was, oh
There’ve been times that I thought
I thought that I wouldn’t last for long
But somehow right now I believe
That I’m able, I’m able to carry on
I tell you that it’s been along
And oh it’s been an uphill journey
All the way
But I know, I know, I know
I know my change is gonna come
Sometimes I had to cry all night long
Yes I did
Sometimes I had to give up right
For what I knew was wrong
Yes it’s been an uphill journey
It’s sure’s been a long way comin’
Yes it has
It’s been real hard
Every step of the way
But I believe, I believe
This evenin’ my change is come
Yeah I tell you that
My change is come..
O meu avô materno teve mil e uma profissões. Uma delas, a determinada altura da sua vida, foi escrever cartas a Salazar. A troco de algumas moedas escrevia cartas em nome de pessoas analfabetas. Transmitiam-lhe o que queriam dizer ao ditador e o meu avô traduzia a mensagem para uma linguagem cuidada e floreada, caligrafia impecável, segundo dizia a minha mãe. Por vezes pergunto-me o que terá acontecido a essas cartas. Estarão arquivadas em qualquer sítio ou terão ido directamente para o crematório?
Um dia destes, quem sabe, ainda vou ler uma carta escrita pelo meu avô a Salazar no Caminhos da Memória mas não saberei que é dele. Ele assinava com o nome de outros.

Teve audácia e hoje foi eleito presidente dos EUA. É impossível não me permitir também a audácia da esperança quando leio no seu discurso:
«And to all those watching tonight from beyond our shores, from parliaments and palaces to those who are huddled around radios in the forgotten corners of our world – our stories are singular, but our destiny is shared, and a new dawn of American leadership is at hand. To those who would tear this world down – we will defeat you. To those who seek peace and security – we support you. And to all those who have wondered if America's beacon still burns as bright – tonight we proved once more that the true strength of our nation comes not from the might of our arms or the scale of our wealth, but from the enduring power of our ideals: democracy, liberty, opportunity, and unyielding hope.»
mas a realidade (essa velha cabra) depressa me bate à porta. Mas reservo sempre alguma esperança no dia em que os que o observam dos parlamentos e palácios deste lado do Atlântico, se sintam tão inspirados por Obama quanto os povos que governam e façam a sua parte na construção de um mundo melhor. Obama não poderá nunca fazê-lo sozinho.



É uma história de ódios antigos.
A minha amiga Tutsi desistiu do sonho de regressar ao Ruanda, terra onde nasceu e onde entranhou por baixo da pele esse ódio passado de geração em geração.
Uma vez, em Munique, juntámo-nos numa mesa de amigos de várias nacionalidades. Alguém levara um amigo Hutu e apercebi-me que a distância das raízes, deixadas para trás na infância, não cura nada. A tensão que se tentava disfarçar sob uma capa de boas maneiras e uma educação universitária europeia era perceptível nos olhos que se evitavam, na proximidade física de que se fugia, no desconforto. A minha amiga, sempre tão faladora e bem -disposta, manteve nessa noite um mutismo sombrio.
Depois do extermínio de toda a família – com excepção de um irmão que vive na Polónia – no genocídio de 1994 e quando o sangue parou de correr, ela quis voltar ao Ruanda para ver se tinha sobrado alguém da multidão de irmãos, sobrinhos, tios e primos que formavam a sua família, procurar os rostos amigos e vizinhos da infância, enfim, a gente que lhe guardava as raízes. O irmão pediu-lhe que não fosse porque não era seguro. O sangue e o ódio apenas tinham parado de correr na imprensa internacional, pertença de uma comunidade que pela indiferença endossou o genocídio. O ódio ainda estava lá e o sangue fora só adiado e armazenado, à espera de baptizar as matanças futuras de Hutus e Tutsis, povos de onde saem generais que se auto intitulam libertadores, democratas e protectores do seu povo, explorando esse ódio para, como sempre, servir os seus interesses ou o dos senhores que os atiçam.
O conflito entre Hutus e Tutsis continua no leste do Congo, região muito rica em recursos naturais. Alguns jornais chamaram o conflito à primeira página mas as vozes dos deslocados, dos refugiados, dos que sofrem, são abafadas pela poluição visual e sonora de umas eleições americanas, onde tudo é reportado e esmiuçado até ao tutano, para entreter o mundo que espera o final feliz dessa grande novela.
A minha amiga disse-me que não chorou os familiares massacrados. «Não consigo chorar», disse-me e também não quis ver o Hotel Ruanda. Como se chora uma família inteira? E como choramos nós um povo inteiro? A dor pode ser de tal forma gigantesca que não chega a tocar-nos. Somos demasiado pequenos para ela, para a deixar invadir o coração.

Tom Metzger, ex líder da Ku Klux Klan e director da Director, White Aryan Resistance
“The corporations are running things now, so it’s not going to make much difference who’s in there, but McCain would be much worse. He’s a warmonger. He’s a scary, scary person–more dangerous than Bush. Obama, according to his book, Dreams Of My Father, is a racist and I have no problem with black racists. I’ve got the quote right here: ‘I found a solace in nursing a pervasive sense of grievance and animosity against my mother’s white race.’ The problem with Obama is he’s being dishonest about his racial views. I’d respect him if he’d just come out and say, ‘Yeah, I’m a black racist.’ I don’t hate black people. I just think it’s in the best interest of the races to be separated as much as possible. See, I’m a leftist. I’m not a rightist. I hate the transnational corporations far more than any black person.”
Rocky Suhayda - presidente do Partido Nazi Americano
"White people are faced with either a negro or a total nutter who happens to have a pale face. Personally I’d prefer the negro. National Socialists are not mindless haters. Here, I see a white man, who is almost dead, who declares he wants to fight endless wars around the globe to make the world safe for Judeo-capitalist exploitation, who supports the invasion of America by illegals--basically a continuation of the last eight years of Emperor Bush. Then, we have a black man, who loves his own kind, belongs to a Black-Nationalist religion, is married to a black women--when usually negroes who have 'made it' immediately land a white spouse as a kind of prize--that’s the kind of negro that I can respect. Any time that a prominent person embraces their racial heritage in a positive manner, it’s good for all racially minded folks. Besides, America cares nothing for the interests of the white American worker, while having a love affair with just about every non-white on planet Earth. It’d be poetic justice to have a non-white as titular chief over this decaying modern Sodom and Gomorrah."
Não sei o que seja o Meio. Sempre que me deparo com a palavra Meio dá-me logo vontade de olhar para as Pontas. As Pontas são sempre muito mais interessantes. São elas que dão razão de ser ao Meio.
Quando a menarca chegava passávamos a pertencer ao clube das mulheres, com pleno direito a usar o respectivo crachá – o penso higiénico. Era o mundo feminino e privado que nos engolia de uma vez, de onde não havia retorno e que punha fim a qualquer ambiguidade de género que pudesse ainda existir, povoado por factos médicos que se aprendiam nas revistas femininas e pela superstição transmitida pelas avós – aquela coisa das luas e de não lavar o cabelo ou fazer o pino para o sangue menstrual não subir, neste caso descer, à cabeça –, de olhares superiores sobre as criancinhas por abençoar com a grande dávida da mãe natureza e que não podiam, por isso, ser dispensadas da ginástica.
A dávida, a máquina de fazer bebés, rapidamente passava a maldição, pelos incómodos da torrente mensal, as dores das contracções uterinas e a irritação que, dizia-se, nos metamorfoseava em megeras. Depois havia todos os rituais associados a ser mulher, desde o uso de rímel às torturas da estética infligidas no corpo. Via as mais velhas arrancarem a pele com cera depilatória e ver doía-me tanto como a menstruação. Diziam que «para se ser bela é preciso sofrer», mas se ser mulher já era sofrer; não chegava esse sofrimento? Era preciso arrancar bigodes imaginários também? E havia os panos, e os cintos e os alfinetes para os segurar no sítio, o enchumaço sempre vermelho húmido, sempre a lembrar às raparigas essa inferioridade que era a condição feminina. A minha irmã ainda usou os panos mas eu entrei no clube em plena revolução StayFree. A maior revolução dos anos setenta foi a dos pensos higiénicos. Com fita adesiva.