terça-feira, 28 de outubro de 2008

baú

MIA, Two Virgins


à noite por magia levanta-se a abóbada
sob o quarto de lua nos ramos das árvores.
abre-se a luz para o som dos grilos na erva
a brisa que te suga até à folhagem do jamboeiro;
estendes-me a mão tatuada pelas criaturas da Índia
agitando fios de prata nos meus pulsos;
- leva-me a espiar a coruja espevita que aguarda a presa.

depois de tudo o regresso ao baú
que nos guarda o corpo em segredo
entre a roupa branca, linhos, mortalhas azuis,
as máscaras do último carnaval em Veneza.
ainda por magia fecha-se a abóbada
sobre o nosso lado a lado agarradas
ao grito da vítima ao sangue no chão
à nova tatuagem da criatura espevita.
fecha-se sobre nós a caverna elefantíaca
onde moram todos os deuses da Índia
que se deixaram pintar do lado de fora
noutra noite imensa de lua maldita.

tipo

Será que podias, tipo, de uma vez por todas, tipo, parar de dizer tipo, tipo, porque irritas, tipo, os meus ouvidos? Já reparaste, tipo, quantas vezes, tipo, dizes tipo, tipo, numa única frase?
Tipo, muitas vezes! É, tipo, um exagero. Não é bonito, tipo, falar em fragmentos e a pessoa com quem falas, tipo, diz tipo, tipo muitas vezes também. Será que se ouvem, tipo, um ao outro?

(Irritante esta moda do tipo que se propaga pelas bocas adolescentes com a velocidade de um vírus informático)

mulher na arte


segunda-feira, 27 de outubro de 2008

ironia

Quando vejo palavras como universidade, cérebros e formação numa frase e de seguida vejo palavras como praxe, humilhação, violentação, totalitarismo e tradição noutra, a vida assume-se de uma imensa ironia.

traduzir José Eduardo Agualusa


O diário de Daniel Hahn sobre o processo de tradução do livro de Agualusa, Estação das Chuvas. Hahn aceita sugestões e responde a quem comenta.

domingo, 26 de outubro de 2008

halloween


Um grupo de artistas de rua anda a colocar estes posters de Sarah Palin pelas ruas de várias cidades dos EUA.


Panfleto que republicanos do Minnesota e da Virginia estão a enviar para as caixas de correio da população.


Chega-se sempre a um momento em que os que fanaticamente defendem as suas escolhas acreditam que sem o medo não existe salvação. Mas é interessante ver o contraste. O poster da Palin evoca os monstros do imaginário supersticioso, das metamorfoses provocadas pela noite e pela lua, do contágio do mal induzido pela dentada do vampiro - uma metáfora para o acto de se fiar na vitória garantida de Obama e não ir votar. O panfleto que liga Obama a Ayers evoca os monstros reais fabricados em casa.

notícia

Esquematizou o plano dentro da sua cabeça. Entraria com ele no metro e regressaria a casa sozinha. Ninguém se incomodaria a chamá-la à saída da composição “Desculpe, esqueceu-se…”
Os funcionários do metro encontrá-lo-iam mais tarde e, seguindo as regras, entregá-lo-iam numa das estações da rede onde ficaria até à quarta-feira seguinte. Seria então recolhido junto com os carrinhos de bebé, as tábuas de brunir, as carteiras cheias de dinheiro, as chaves, os sacos de compras, peças de vestuário, todos as coisas que as pessoas deixam esquecidas no metro, e enviado para o comando central. Seria registado e receberia um código. Não seriam encontrados quaisquer documentos ou pistas que permitissem aos funcionários chegar até ela.
Passaria um mês numa das salas do posto de comando central à espera que ela se lembrasse de o reclamar. Ela lembrar-se-ia dele todos os dias durante um mês mas não o reclamaria. Ao fim de trinta dias, seria enfiado num saco preto e enviado para a esquadra da PSP em Custóias.
O que aconteceria a seguir não sabia. A notícia do JN não falava disso e também não era importante. Por essa altura já não lhe encontrariam o rasto.
Ela compraria um vestido novo e sapatos de salto alto. Iria à esteticista fazer a depilação e ao cabeleireiro fazer um corte de cabelo moderno, umas madeixas loiras talvez. Iria ver os golfinhos e sairia de lá a sorrir. Diria aos vizinhos curiosos que ele tinha fugido com outra. Eles teriam muita pena dela, «coitada, dedicou-lhe a sua vida, comida na mesa, cama e roupa lavada, e agora que a juventude se foi ele faz-lhe uma destas. Olhe que os homens não prestam». E ela pensaria, pois não, não prestam, e daria conselhos a outras solteiras. «Nunca levem nada que encontrem no metro para casa», como ela tinha feito trinta anos antes quando o encontrou abandonado no comboio da linha da Trofa.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

the net, baby

«Universities are, by nature, so conservative. My colleagues don’t get, don’t want to get post post-modernism. Meanwhile, their students, their children are in the midst of the real deconstruction of the entire culture and it has not, will not take place at the university but here out there. I love the way the Web has worked around anything thrown at it, especially the desire of universities, publishing, etc., to re-impose the gates for gate-keeping of quality and the maintenance of hierarchy. Just work around it. The machine easily ignores it. The author is dead all right but long live writing. This is the end of the Johnsonian Age, the end of the Romantic, Modernist Individual Genius. I think that blogs actually are retrograde—the last attempt of the old-fashioned author to hold on to old-fashioned authorship. I think very soon blogs might evolve to the point where most will be unsigned or the same blog will be written by several people together or separately and also posted without a name of a shared name. The blog lives but the idea that it is written by any one person or consciousness will be so over. It is nothing but net baby. Out of many one. Resistance is futile. Prepare to be assimilated.» - entrevista de Michael Martone no The Quarterly Conversation

vozes interiores


Iris Schwarz


As minhas vozes interiores falam umas com as outras. Diz a voz do lado esquerdo que a do direito pensa mal. A outra repõe dizendo que ela não sabe podar roseiras.
A verdade é que nunca podei a roseira da Adeline. As rosas sempre floriram aos montes, brancas, bonitas; achei que não era preciso mexer no que era perfeito. As vozes mentem uma à outra, tanto quantas as pétalas que têm.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

pirilampo

Gosto desta palavra. Tem música e faz lembrar coisas bonitas e poéticas.
Antigamente o pirilampo chamava-se caga-lume. Caga-lume também tem música mas estava para o pirilampo como a música pimba está para a erudita. Era do povo.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

odeio a escola

odeio a escola

odeio a escola

odeio a escola

o d e i o a e s c o l a

dizia o meu filho mais velho enquanto caminhava atrás de mim, contrariado, mochila às costas, sobrancelhas cerradas, linhas do rosto em revolta.

estúpido Gil Vicente

probabilidades chatas

ignorantes

un, deux, trois, quatre, cinq, six

odeio a escola

e quando penso que nada pode piorar eis que nos cruzamos com um colega de turma que se mete com o bigode dele, ou melhor, a falta dele, para me provar que estava errada

as coisas podem sempre piorar

dardos



O Lutz teve a amabilidade de me atribuir um prémio que muito me lisonjeou. Agradeço-lho e, tal como ele, não vejo mal nenhum em deixar os outros saber do meu apreço pelo que escrevem. De entre eles, escolher quinze não foi nada fácil (nunca pensei que isto fosse tão complicado) mas aqui estão:

A Natureza do Mal
A Terceira Noite
Animais domésticos
Ardósia azul
Blue Molleskin
Dias com árvores
Dois dedos de conversa
Dualitate
French kissing
Insónia
Ma-shamba
O mundo perfeito
Regabofe
Sinusite Crónica
Vontade Indómita

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

chichi

Nunca quis ser um rapaz excepto quando tinha de interromper as brincadeiras na rua para fazer chichi. Nessas alturas um pénis ter-me-ia dado muito jeito. Perdi muito tempo a correr para casa, subir escadas, descer cuecas, fazer chichi, subir cuecas, descer escadas. Quando chegava à rua os donos de pénis diziam assim:

- Quem foi ao mar perdeu o lugar.