sexta-feira, 24 de outubro de 2008

vozes interiores


Iris Schwarz


As minhas vozes interiores falam umas com as outras. Diz a voz do lado esquerdo que a do direito pensa mal. A outra repõe dizendo que ela não sabe podar roseiras.
A verdade é que nunca podei a roseira da Adeline. As rosas sempre floriram aos montes, brancas, bonitas; achei que não era preciso mexer no que era perfeito. As vozes mentem uma à outra, tanto quantas as pétalas que têm.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

pirilampo

Gosto desta palavra. Tem música e faz lembrar coisas bonitas e poéticas.
Antigamente o pirilampo chamava-se caga-lume. Caga-lume também tem música mas estava para o pirilampo como a música pimba está para a erudita. Era do povo.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

odeio a escola

odeio a escola

odeio a escola

odeio a escola

o d e i o a e s c o l a

dizia o meu filho mais velho enquanto caminhava atrás de mim, contrariado, mochila às costas, sobrancelhas cerradas, linhas do rosto em revolta.

estúpido Gil Vicente

probabilidades chatas

ignorantes

un, deux, trois, quatre, cinq, six

odeio a escola

e quando penso que nada pode piorar eis que nos cruzamos com um colega de turma que se mete com o bigode dele, ou melhor, a falta dele, para me provar que estava errada

as coisas podem sempre piorar

dardos



O Lutz teve a amabilidade de me atribuir um prémio que muito me lisonjeou. Agradeço-lho e, tal como ele, não vejo mal nenhum em deixar os outros saber do meu apreço pelo que escrevem. De entre eles, escolher quinze não foi nada fácil (nunca pensei que isto fosse tão complicado) mas aqui estão:

A Natureza do Mal
A Terceira Noite
Animais domésticos
Ardósia azul
Blue Molleskin
Dias com árvores
Dois dedos de conversa
Dualitate
French kissing
Insónia
Ma-shamba
O mundo perfeito
Regabofe
Sinusite Crónica
Vontade Indómita

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

chichi

Nunca quis ser um rapaz excepto quando tinha de interromper as brincadeiras na rua para fazer chichi. Nessas alturas um pénis ter-me-ia dado muito jeito. Perdi muito tempo a correr para casa, subir escadas, descer cuecas, fazer chichi, subir cuecas, descer escadas. Quando chegava à rua os donos de pénis diziam assim:

- Quem foi ao mar perdeu o lugar.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

funeral

A mão esquerda do meu irmão em cima da mesa, dentro de uma chávena. Não era a mão inteira mas sim os pedaços dela que a minha avó colheu nas paredes da cozinha. O polegar estava intacto. Vai a enterrar no cemitério, disse a minha avó.
A mão antecipava-se ao meu irmão na morte, no enterro, no do pó vieste ao pó voltarás.

De noite acordava transpirada de sonhos onde ficava sem mãos, sem pés, sem cabeça, da angústia de ser enterrada aos pedaços, assistindo ao meu funeral aos bocados. O meu irmão também acordava, aos gritos pela minha mãe. Ela levantava-se, confortava-o e voltava para a cama dela. Ele levantava-se e metia-se na minha cama. Enrolava-se na posição fetal e fazia o caracol no meu cabelo com a mão que lhe restava. Adormecíamos assim os dois.

não eram vales de compras, eram rosas

Notícia no JN sobre a abertura do centro comercial Mar Shopping em Leça de Palmeira, Matosinhos.

«Ana Pinto, de 18 anos, saiu de casa a faltarem quarenta minutos para as sete da manhã e rumou de carro até ao shopping. De rosa em punho, fruto de ter sido uma das primeiras clientes do hipermercado, a jovem "tinha esperança que houvesse vales de compras para os primeiros clientes" e, por isso, "madrugou".
Ainda assim, Ana sente que não fez a viagem em vão, até porque "é um centro comercial muito agradável", mostrando ansiedade para conhecer todas as lojas.» - aqui

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

armário


©Claude Cahun

Tinha por hábito enfiar-me dentro dos armários. O armário preferido era o da minha mãe, por causa do cheiro. Cheirava à mãe e eu adormecia nele com as portas fechadas. Ela nunca fechava os braços sobre mim para me abraçar e eu contrariava as experiências de privação dos sentidos com perfume.

domingo, 12 de outubro de 2008

mas aqui está a diferença

Tenho a casa cheia de alemães e um americano. No fim de jantar, as mulheres começam a levantar a mesa e os homens, nota-se, sentem-se desconfortáveis. Não conseguem ficar sentados enquanto nós trabalhamos. Levantam-se e ajudam. Quando digo ajuda é mesmo ajuda e não apenas levar pratos e talheres para a cozinha. Voltam a sentar-se quando nós nos sentamos.

sábado, 11 de outubro de 2008

no café da Prazeres

falavam do casamento dos homossexuais.
- Se um dos meus filhos fosse homemsexual eu teria um grande desgosto – diz-me a Rosinha que já vai no terceiro café.
- Então porquê, Rosinha? Não deixaria de ser seu filho e ser o mesmo que é.
E continuo, explicando-lhe o que penso, calando-me quando me apercebo que estou quase a dar-lhe um sermão e que ela não está a ligar patavina ao que eu estou a dizer. Vira-se para mim:
- Já viu bem o que seria a vida dele? Só de pensar no que ele iria sofrer toda a vida; aturar os outros, a fazerem pouco dele, levar porrada… Deus me livre!
Precipitei-me. Pensei que ela tinha a cabeça cheia de profecias apocalípticas e receio de não ter netos, mas afinal ela tem medo do ódio e da rejeição dos outros. Tem medo do que a civilização ocidental ainda esconde na cave, junto daquelas coisas que não sabe bem se há-de deitar fora e que por isso guarda, no caso de vir a ser preciso. Como faz o PS.

cartas feitas à mão

Apetece-me às vezes escrever cartas e tenho saudades dos tempos em que esperávamos pelo carteiro com ansiedade, para ver se ele trazia cartas dos amigos, dos namorados, dos familiares. Cada carta uma caligrafia cuidada, algumas decoradas com desenhos, rematadas com poemas e citações; também havia em línguas estrangeiras, com carimbos bonitos e selos que nos davam um vislumbre de outras culturas. Tudo isso fazia parte da beleza das cartas: a espera, o envelope, os selos, a caligrafia, a leitura, a resposta escrita, primeiro em rascunho e depois passada a limpo no papel mais caro. Guardavam-se cuidadosamente numa caixa bonita de metal ou de madeira, para voltar a ler mais tarde, tocando-as, sentindo-lhes o cheiro. Hoje o carteiro só traz contas, publicidade e postais escritos à pressa por amigos que foram de férias para qualquer lado exótico e que, não raras vezes, regressam antes do postal chegar.
Não é apenas a conhecidos que me apetece escrever. Também me dá vontade de escrever a pessoas que nunca vi mas que, de tanto as ler, aprendi a conhecer. Sinto-me amiga íntima delas no meu papel de confidente anónima, que as escuta em silêncio, quando muito deixando um comentário tímido na caixa de comentários (quando a têm), que as compreende, que lhes nota as virtudes e os defeitos, e que por isso gosta delas. Fazem parte da minha vida. Todas as manhãs abro o meu leitor de RSS, para ver se pessoas que não me conhecem de lado nenhum escreveram alguma coisa, se têm novidades para me dar dos cantos que habitam ou as ideias que os seus pensamentos habitam. Eu escuto. Não digo nada mas escuto. E fazem-me bem.

O meu Google Reader substituiu o carteiro. Perdeu-se a nobreza do correio à moda antiga mas o moderno também não está mal. O carteiro nunca me trouxe cartas de desconhecidos e vendo bem as coisas, também são feitas à mão.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

dancemos pois



Como diz o Rui Bebiano que esteve recentemente na Islândia:
"Tudo, de facto, parecia correr bem. É essa aparente ausência de presságios que torna a situação actual ainda mais assustadora."
e não vá a nossa aparente calma ser prenúncio de tempestades, dancemos pois enquanto podemos.
Acordei com este vídeo do YouTube, que a minha sobrinha(12) vê repetidamente, e dancei até me cansar, com os meus filhos, antes de os despachar para a escola. Hoje sou uma dancing queen.