Apetece-me às vezes escrever cartas e tenho saudades dos tempos em que esperávamos pelo carteiro com ansiedade, para ver se ele trazia cartas dos amigos, dos namorados, dos familiares. Cada carta uma caligrafia cuidada, algumas decoradas com desenhos, rematadas com poemas e citações; também havia em línguas estrangeiras, com carimbos bonitos e selos que nos davam um vislumbre de outras culturas. Tudo isso fazia parte da beleza das cartas: a espera, o envelope, os selos, a caligrafia, a leitura, a resposta escrita, primeiro em rascunho e depois passada a limpo no papel mais caro. Guardavam-se cuidadosamente numa caixa bonita de metal ou de madeira, para voltar a ler mais tarde, tocando-as, sentindo-lhes o cheiro. Hoje o carteiro só traz contas, publicidade e postais escritos à pressa por amigos que foram de férias para qualquer lado exótico e que, não raras vezes, regressam antes do postal chegar.
Não é apenas a conhecidos que me apetece escrever. Também me dá vontade de escrever a pessoas que nunca vi mas que, de tanto as ler, aprendi a conhecer. Sinto-me amiga íntima delas no meu papel de confidente anónima, que as escuta em silêncio, quando muito deixando um comentário tímido na caixa de comentários (quando a têm), que as compreende, que lhes nota as virtudes e os defeitos, e que por isso gosta delas. Fazem parte da minha vida. Todas as manhãs abro o meu leitor de RSS, para ver se pessoas que não me conhecem de lado nenhum escreveram alguma coisa, se têm novidades para me dar dos cantos que habitam ou as ideias que os seus pensamentos habitam. Eu escuto. Não digo nada mas escuto. E fazem-me bem.
O meu Google Reader substituiu o carteiro. Perdeu-se a nobreza do correio à moda antiga mas o moderno também não está mal. O carteiro nunca me trouxe cartas de desconhecidos e vendo bem as coisas, também são feitas à mão.