sábado, 18 de outubro de 2008
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
funeral
A mão esquerda do meu irmão em cima da mesa, dentro de uma chávena. Não era a mão inteira mas sim os pedaços dela que a minha avó colheu nas paredes da cozinha. O polegar estava intacto. Vai a enterrar no cemitério, disse a minha avó.
A mão antecipava-se ao meu irmão na morte, no enterro, no do pó vieste ao pó voltarás.
De noite acordava transpirada de sonhos onde ficava sem mãos, sem pés, sem cabeça, da angústia de ser enterrada aos pedaços, assistindo ao meu funeral aos bocados. O meu irmão também acordava, aos gritos pela minha mãe. Ela levantava-se, confortava-o e voltava para a cama dela. Ele levantava-se e metia-se na minha cama. Enrolava-se na posição fetal e fazia o caracol no meu cabelo com a mão que lhe restava. Adormecíamos assim os dois.
não eram vales de compras, eram rosas
Notícia no JN sobre a abertura do centro comercial Mar Shopping em Leça de Palmeira, Matosinhos.
«Ana Pinto, de 18 anos, saiu de casa a faltarem quarenta minutos para as sete da manhã e rumou de carro até ao shopping. De rosa em punho, fruto de ter sido uma das primeiras clientes do hipermercado, a jovem "tinha esperança que houvesse vales de compras para os primeiros clientes" e, por isso, "madrugou".
Ainda assim, Ana sente que não fez a viagem em vão, até porque "é um centro comercial muito agradável", mostrando ansiedade para conhecer todas as lojas.» - aqui
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
armário

©Claude Cahun
Tinha por hábito enfiar-me dentro dos armários. O armário preferido era o da minha mãe, por causa do cheiro. Cheirava à mãe e eu adormecia nele com as portas fechadas. Ela nunca fechava os braços sobre mim para me abraçar e eu contrariava as experiências de privação dos sentidos com perfume.
domingo, 12 de outubro de 2008
mas aqui está a diferença
Tenho a casa cheia de alemães e um americano. No fim de jantar, as mulheres começam a levantar a mesa e os homens, nota-se, sentem-se desconfortáveis. Não conseguem ficar sentados enquanto nós trabalhamos. Levantam-se e ajudam. Quando digo ajuda é mesmo ajuda e não apenas levar pratos e talheres para a cozinha. Voltam a sentar-se quando nós nos sentamos.
sábado, 11 de outubro de 2008
no café da Prazeres
falavam do casamento dos homossexuais.
- Se um dos meus filhos fosse homemsexual eu teria um grande desgosto – diz-me a Rosinha que já vai no terceiro café.
- Então porquê, Rosinha? Não deixaria de ser seu filho e ser o mesmo que é.
E continuo, explicando-lhe o que penso, calando-me quando me apercebo que estou quase a dar-lhe um sermão e que ela não está a ligar patavina ao que eu estou a dizer. Vira-se para mim:
- Já viu bem o que seria a vida dele? Só de pensar no que ele iria sofrer toda a vida; aturar os outros, a fazerem pouco dele, levar porrada… Deus me livre!
Precipitei-me. Pensei que ela tinha a cabeça cheia de profecias apocalípticas e receio de não ter netos, mas afinal ela tem medo do ódio e da rejeição dos outros. Tem medo do que a civilização ocidental ainda esconde na cave, junto daquelas coisas que não sabe bem se há-de deitar fora e que por isso guarda, no caso de vir a ser preciso. Como faz o PS.
cartas feitas à mão
Apetece-me às vezes escrever cartas e tenho saudades dos tempos em que esperávamos pelo carteiro com ansiedade, para ver se ele trazia cartas dos amigos, dos namorados, dos familiares. Cada carta uma caligrafia cuidada, algumas decoradas com desenhos, rematadas com poemas e citações; também havia em línguas estrangeiras, com carimbos bonitos e selos que nos davam um vislumbre de outras culturas. Tudo isso fazia parte da beleza das cartas: a espera, o envelope, os selos, a caligrafia, a leitura, a resposta escrita, primeiro em rascunho e depois passada a limpo no papel mais caro. Guardavam-se cuidadosamente numa caixa bonita de metal ou de madeira, para voltar a ler mais tarde, tocando-as, sentindo-lhes o cheiro. Hoje o carteiro só traz contas, publicidade e postais escritos à pressa por amigos que foram de férias para qualquer lado exótico e que, não raras vezes, regressam antes do postal chegar.
Não é apenas a conhecidos que me apetece escrever. Também me dá vontade de escrever a pessoas que nunca vi mas que, de tanto as ler, aprendi a conhecer. Sinto-me amiga íntima delas no meu papel de confidente anónima, que as escuta em silêncio, quando muito deixando um comentário tímido na caixa de comentários (quando a têm), que as compreende, que lhes nota as virtudes e os defeitos, e que por isso gosta delas. Fazem parte da minha vida. Todas as manhãs abro o meu leitor de RSS, para ver se pessoas que não me conhecem de lado nenhum escreveram alguma coisa, se têm novidades para me dar dos cantos que habitam ou as ideias que os seus pensamentos habitam. Eu escuto. Não digo nada mas escuto. E fazem-me bem.
O meu Google Reader substituiu o carteiro. Perdeu-se a nobreza do correio à moda antiga mas o moderno também não está mal. O carteiro nunca me trouxe cartas de desconhecidos e vendo bem as coisas, também são feitas à mão.
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
dancemos pois
"Tudo, de facto, parecia correr bem. É essa aparente ausência de presságios que torna a situação actual ainda mais assustadora."
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
I have a cunning plan
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
educação
Leio o debate sobre a educação no blogue do grupo parlamentar do PSD e vem-me à memória a famosa frase de Mark Twain - «Education is the path from cocky ignorance to miserable uncertainty.»
blogosfera
O José Pacheco Pereira disse que apenas 1% da blogosfera* se aproveita e a blogosfera ofendeu-se. O Miguel Esteves Cardoso disse que não senhor, há pelo menos 100 blogues muito bons. A blogosfera respirou fundo e alegrou-se.
Abençoado MEC. Sem ele a blogosfera ficaria para sempre na dúvida.
*Blogosfera é o nome que se dá ao conjunto dos blogues políticos. Os restantes dão-se pelo nome de blogocubo.
para que serve a cultura
Este texto de Desidério Murcho no Público e também no Rerum Natura vem muito de encontro ao que penso sobre a "prostituição da cultura".
«(...) basta folhear um suplemento cultural de um jornal para se encontrar um uso peculiar das palavras, em que estas perderam o poder de invocar pensamentos identificáveis, colocando-se ao invés toda a ênfase na transmissão da mensagem infantil de que o autor é culto — e com isso tudo o que se pretende realmente dizer é que é superior a nós, mais elevado, mais próximo dos deuses do Olimpo: um aristocrata.»Esta aristocracia cultural não sobrevive sozinha, fechada no seu círculo de eleitos, porque se alimenta da ignorância da maioria. Usam as fontes de conhecimento dessa maioria, como os jornais, revistas e blogues para chegarem a uma audiência alargada, não para transmitirem conhecimento (que é nenhum devido aos códigos que usam para complicarem a mensagem), mas para legitimarem a existência da sua elite. Apresentam uma arrogância que acaba por torná-los vítimas do desprezo, não só daqueles que possuem conhecimento a par de uma preocupação legítima em transmiti-lo, como dos que não o têm e se sentem um pouco como o proletário de Marx subjugado pelo capitalista, excluído de algo que deveria ser do bem comum.
domingo, 5 de outubro de 2008
Há muito tempo que não vejo a mulher do Sr. José. Pequenina, magrinha, sempre atarefada, a primeira vez que a vi – juntava o feno – falou comigo como se me conhecesse de pequena. Gostou de mim e eu gostei dela. Percebemo-nos logo uma à outra. Parou de trabalhar para me falar e quis compor o cabelo. Desfez o toco deixando cair o cabelo pelas costas, comprido, fino, grisalho, linhas de prata misturadas com linhas de ouro, que logo começou de novo a enrolar, com perícia, enganchando-o de volta na nuca, o lugar onde deve ter passado quase toda a sua vida. Contou-me a história da quinta e das pessoas que a habitaram, mas nada sabia do Meireles, o tal cujo nome ficou gravado na pedra junto à data de construção.
Ela tem um olho de cada cor, um azul céu e outro azul esverdeado. O que foge mais para o verde é cego e mais pequeno que o outro. Quando fala comigo esse olho não olha para mim e eu evito olhar para ele com receio que o outro se ofenda. É estranho falar só para um olho.
Sofre do coração e já não sai de casa, nem recebe visitas, por causa das emoções diz o Sr. José, por isso, já não a vejo, mas lembro-me frequentemente dela. Imagino-a na cozinha, segurando um frango entre as pernas, faca na mão, pronta para o degolar. Penso que é igualzinha à minha avó paterna, que não conheci mas cuja imagem construí a partir do que dela conta o meu pai, dona de uma bondade sem limites até na forma de matar.


