quinta-feira, 4 de setembro de 2008

quando for grande


Artist's impression of s supermassive black hole ripping apart a star and consuming some of its matter (NASA/CXC/M.Weiss). aqui


Quando o meu filho mais velho tinha seis anos:
- O que queres ser quando fores grande?
- Quero ser governo.
- Governo?
- Sim. O mundo está todo mal e eu quero pô-lo direito. 
Quando percebeu que teria de ser eleito e que para isso teria de ser popular, desistiu de ser governo. Resolveu então que queria ser astrofísico. 
- Porque queres ser astrofísico?
- Porque o espaço está cheio de mistérios. Quero descobrir o que está por trás dos buracos negros. 

Ainda não mudou de ideias. Tão jovem e já se convenceu que o mundo não o escutará.
Dizia-me a minha cunhada irlandesa que os jovens da Irlanda são uns tontos. Bebem demais, atropelam gente, vandalizam, não deixam dormir a vizinhança, são mal-educados, insultam os velhos, parecem não ter sentido algum na vida, suicidam-se. Ela sempre teve tendência para generalizar e faço-lhe ver isso, não podem ser todos assim, mas ela diz que a maior parte é assim e abençoa o dia em que ela e o meu irmão decidiram mudar-se para cá, para que os filhos aqui crescessem, porque Portugal tem muitos defeitos, diz, mas ainda é o melhor sítio para as crianças crescerem. Falamos da nossa juventude, dos nossos gostos, o que fazíamos e não fazíamos, lembramo-nos que na adolescência nós íamos mudar o mundo. Os nossos filhos escutam a conversa e o meu sobrinho mais velho(15) diz:
- Eu também quero mudar o mundo. 

Na minha juventude eu também pensava que o mundo seria muito melhor se toda a gente se calasse e me escutasse. Nunca me lembrei de estudar os buracos negros.

a rua da luz encarnada

A rua abre-se para a praça, escondendo um pouco o sol devido às sombras projectadas pelas casas antigas que gente endinheirada em tempos habitou. Vivem lá os bêbados, as prostitutas, os chulos, os traficantes, operários de salário baixo, desempregados dos têxteis, anões, ladrões, mercenários. Para melhor aproveitar os grandes espaços, os casarões foram divididos em habitações cujas paredes pouco mais absorvem o som que o lençol estendido numa corda, que há alguns anos cortava salas e famílias ao meio.
As crianças brincam na rua, muito para além dos olhos das mães. Brincam ao pião, ao esconde-esconde, jogam futebol, quando há bola, apanham pontas de cigarros do chão que fumam em poses imitando os adultos. Banham-se no fontanário da praça, que já ninguém utiliza, esparrinhando água, gargalhadas e palavrões para todo o lado, para cima de quem vá a passar, umas vezes sem querer, outras vezes propositadamente. As mães passam o tempo que estão em casa, a lavar chãos, janelas, roupa no tanque municipal num sobe e desce de bacias equilibradas nas cabeças. Descansam nas soleiras das portas que brilham e cheiram a lixívia, coscuvilhando com as vizinhas as vidas recíprocas.
As velhas só saem de casa para ir à igreja. Encostam-se à janela e penduram os rostos engelhados nas cordas, ao lado das roupas que secam ao sol.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

big brother


No Big Brother, os participantes recebem mais ou menos votos de acordo com a sua maior ou menor capacidade de fazerem figura de parvos. Normalmente o mais parvo ganha, por isso, é prematuro afirmar-se que ao escolher Sarah Palin, com todos os seus calcanhares de Aquiles, McCain já perdeu as eleições. Eu espero que não ganhe mas já não tenho assim tanta confiança no bom senso das multidões.

google owns you



O Chrome, o browser do Google, vai ser um sucesso entre aqueles que se dão ao trabalho de experimentar ferramentas diferentes das que vêm com o Windows. Estou a usá-lo desde ontem e, para já, estou satisfeita. Mais rápido e mais estável que o Firefox, tem também um design muito simples e limpo sem deixar de oferecer todas as ferramentas úteis. A possibilidade de poder navegar sem deixar registo deverá agradar a muita gente, sobretudo a quem usa o PC do emprego para assuntos privados. Sinto falta da ferramenta para encontrar palavras numa página. A do Firefox é muito útil.
O problema do Google é esse, tudo o que faz, faz bem. Com o seu Gmail, Reader, Pesquisa, YouTube, Picasa, Book Search, mapas, blogs, etc., vai bem lançado na corrida ao world domination. Como diz o meu catorze anos - "Google owns you". O Google sabe tudo sobre mim. O que leio, o que ouço, o que pesquiso, o que escrevo, a que horas, e agora vai saber ainda mais com o Chrome. Tanta informação concentrada numa só entidade não deverá ser muito saudável. Na verdade, preocupa-me mais isso do que o chip na matrícula do meu carro.

Actualização via Exame Informática 4.9.2008
«A licença de utilização do novo browser da Google é considerado abusiva e vai ser corrigida. A nova versão vai ser retroactiva.
A indignação correu pela Internet. O acordo de utilização do novo browser da Google dava à empresa o direito de usar como bem entendesse todos os conteúdos pessoais que fossem disponibilizados através dos “serviços” da Google. Por “Serviços”, o acordo entendia o browser e quaisquer outras páginas ou programas. A empresa, noticia o Ars Technica, vai rever e alterar este acordo.»


não é sentir fragmentos
esvoaçares entrecortados no céu azul
este céu denuncia outro tempo;
desce o azul pela avenida
encontra os gestos amenos de todos os dias
esta quietude resignada
da mulher parada em cada esquina

a tropa

O meu irmão mais novo, fez a tropa em Mafra. Contava-nos muito pouco dessa experiência, preferindo guardar tudo para ele. A única coisa que ficou na minha memória foi a preocupação da minha mãe com a farda, nos fins-de-semana chuvosos e húmidos, porque secava mal, e da certeza que ela tinha que a disciplina da recruta lhe quebraria os nervos. Lembro-me de ver o meu irmão já fardado, pronto para regressar a Mafra, e de o ouvir dizer à minha mãe «Adeus mãe. Vou para o estrangeiro.» Os rapazes daqui, mal passavam Coimbra em direcção ao sul, sentiam-se estrangeiros.
O mutismo do meu irmão em relação à tropa e o facto do meu pai e o outro irmão não terem cumprido o serviço militar por incapacidade física, deixou-me sem memórias dessa espécie de ritual de passagem da adolescência para a vida adulta. Resta-me um postal do meu tio, com a fotografia dele à civil, que nos enviou de Timor quando lá cumpriu o serviço militar. Ao olhar para esse postal reparo que ele parece um turista, sentado num jardim, como se lá estivesse a passar férias.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

mapa genético da europa





Uma equipa de investigadores suíços e americanos concluiu, num estudo recentemente publicado, que apesar da população europeia ser geneticamente muito semelhante, é possível saber a origem de um europeu através da análise do seu ADN, com uma margem de erro de apenas algumas centenas de quilómetros. Os mapas genético e geopolítico da Europa encaixam um no outro.

«Overall, our study showed that the autosomal gene pool in
Europe is comparatively homogeneous but at the same time
revealed that the small genetic differentiation that is present
between subpopulations is characterized by a significant
correlation between genetic and geographic distance. Furthermore,
the qualitative nature of these results is in close agreement
with expectations based on human migration history in
Europe. The major prehistoric waves of human migration in
Europe followed south and southeastern to north and northwestern
directions [1], including the first Paleolithic settlement
of the continent by anatomically modern humans [18], most of
the postglacial resettlement during the Mesolithic [19], and the
farming-related population expansion during the Neolithic [18,
20]. Thus, both the level and the change in neutral autosomal
variation in Europe can be expected to roughly follow southernto-
northern gradients as we observed, with the possible exception
of population isolates as observed for the Finns.»

via Dieneke's Anthropology Blog

domingo, 31 de agosto de 2008

em nome da honra

"Ms Shah said that the hapless girls and the women were first shot in the name of honour and then buried while they were alive. She also said that no criminal had been arrested so far." - via cinco dias

aborta-me mãe no meu véu amniótico
sufoca-me no cordão umbilical
nos pulsos latejam veias corta-as rápido
como peixes sufocando nas lâminas
sangue esvaído em nome da honra mãe
casa-me com as pedras os vermes a terra
antes que me levem pelo trilho nas pegadas das outras
onde antes de mim tropeçaram e depois cursarão
a bala silenciosa na lua no traje de noiva
tumuladas nos nossos vestidos e cores tradicionais
as danças macabras talvez acalmem os velhos
façam sorrir meninas da ingenuidade das larvas
pensam que me terão antes do sol mas erram
respiro ainda vivo comendo por dentro a terra
em nome da honra mãe.

Barack Obama


A obamania ainda não me contagiou. Barack Obama fará alguma da sua mudança dentro dos Estados Unidos mas na política externa, que é a que nos interessa, nada deverá mudar. Tal como os americanos, os europeus também procuram um man ou woman of destiny e na falta de um dos seus, colocam os olhos confiantes no lado de lá do oceano, chegando mesmo a desculpar-lhe qualquer coisinha, como a nomeação de Biden para vice-presidente, cuja escolha evidencia a continuação do status quo. Teve de ser, dizem, se ele quer ganhar tem de escolher gente do establishment. Pois claro que tem, porque o establishment não o deixa mudar nada, incluindo as suas escolhas. O mito da mudança está a morrer. Não basta ser bonito, bom orador, inspirador e bom rapaz. É preciso que aqueles que das sombras decidem destinos queiram também mudar.

sábado, 30 de agosto de 2008

retro



Escrever, compor musica, fotografar, digitalizar alguns desenhos, filmar e fazer pequenos clips, contar histórias, reais ou inventadas, conversas escutadas, dar uma opinião, fazer jornalismo de cidadão, partilhar um saber, uma lista de livros ou de músicas, tudo isso e mais, com a possibilidade de feedback quase instantâneo, é tão facilitado hoje pela quantidade de ferramentas disponíveis que chega a ser ridículo. Gostaria de ter tido toda essa tecnologia disponível na minha adolescência.

o riso é bom


Eu e dois cestos de roupa para brunir. A dona Fátima não brune a roupa. Foi a primeira coisa que me disse quando me veio ajudar, por causa das costas. Não me importei. Gostei dela e eu não tenho problemas de costas.
Perguntei-lhe sobre as centopeias. Na casa dela também aparecem mas não sabe o que fazer para as impedir de entrar dentro de casa.
O meu dez anos senta-se no chão e constrói figuras com as molas e o mais velho quer que lhe conte histórias de família, as mais engraçadas. Riem-se às gargalhadas com as aventuras e desventuras dos antepassados. O riso é bom.

Andei à procura do The Growing pains of Adrian Mole nas estantes mas não o encontrei. Vou comprá-lo para os meus filhos.

Chego ao jardim

e vejo o cesto de batatas que a Isabel me deixou ao pé da porta. Ela é assim. Vem sorrateira, sem ninguém se aperceber, e deixa-me as coisas sem esperar que lhe diga obrigada, que a convide a entrar, lhe faça um chá. Estou sempre a encontrar coisas órfãs na minha entrada.
Os escuteiros são barulhentos. Fazem-se anunciar de longe, batendo nos tambores e deitando foguetes, mas não vêm deixar nada. Vêm pedir dinheiro para a festa, para a igreja, para os bombeiros. Na aldeia o povo dá em silêncio, como se tivesse medo de ouvir uma recusa, e pede com barulho, como se quisesse avisar com antecedência que vem pedir, como se nos quisesse dar tempo para fingir que não estamos em casa.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

é o pão

Vejo de longe o vestido azul, entornando azuis sobre o céu cinzento. Sem esperar ao menos uma despedida, um aceno de mão, sobe a praia descalça, enrolando as pregas do vestido nas coxas, semblante endurecido pelo vento e pelo sal. Os olhos azuis dão razão ao mar.
Ela nada entende de poesia. Ela disse-me que o amor é o pão que se conquista diariamente, com o esforço de ambos, para depois ser saboreado em conjunto. Quando o homem está no mar, ela pensa que ele trará mais pão e abraça os filhos, rezando e abençoando o homem. Só depois começa a comer.

reencontro

o mar lembra aos corpos o desejo primitivo do belo
das linhas esculpidas pela praia andando
na pose estática de todas as coisas
sendo o desafio à mão de todos os espantos
o espanto de ser tão longe
do já criado
do já vivido
do já sentido;
de querer ser poeta sem fazer poesia
nada dizer nada possuir nada
que todas as coisas fossem só todas as coisas;

mas fazemos viagens repentinas não importam as horas
amamos os comboios e as estações esperamos
em cada passante uma nova viagem
cortamos todos os fios e no fim
remendamos todos os tecidos
renovamos os encontros e
dizemos nós as palavras
e inventamos nós o ar
e fazem eles o adeus
adeus adeus adeus.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

conto de fadas


Todas as ruas tinham uma maria-rapaz. Também tinham um zé-rapariga, mas esses, ao contrário delas que se vestiam de rapaz e usavam o cabelo cortado à escovinha, não andavam de minissaias a mostrar as cuecas com lacinhos. Não eram identificáveis.
Eu pensava que o Pedro me seguia por todo o lado porque estava apaixonado por mim mas, afinal, ele queria estar junto das meninas para falar de rapazes.
Sentados na soleira da porta, víamos os noivos entrar na igreja e víamo-los sair casados, correndo felizes nas escadas, de mãos dadas sob o arroz e as folhinhas de oliveira. Ele dizia que queria casar, quando fosse grande, e ia ter dois filhos. Eu imaginava-me casada com ele e com dois filhos, o dia do casamento; eu de vestido branco e cuecas de lacinhos com as minhas iniciais bordadas pela minha mãe – para não se confundirem com as da minha irmã – e ele de fato preto, camisa branca e papillon, como na fotografia da primeira comunhão.
Depois de partida a comitiva, levando consigo os risos, o roçagar dos vestidos, o fumo dos charutos, os perfumes, a festa toda, fechavam-se os portões da igreja. Corríamos até lá e apanhávamos o arroz e as folhinhas de oliveira nas escadas para atirarmos um ao outro. Colavam-se ao nosso cabelo e ríamos e eu dançava em volta dele, diz, diz, com quem vais casar, mas ele não dizia. O Pedro sonhava com dois fatos pretos.
Ia ser feliz para sempre. Por momentos. Até as pombas se precipitarem dos telhados e lhe virem comer o arroz das mãos.