domingo, 31 de agosto de 2008

em nome da honra

"Ms Shah said that the hapless girls and the women were first shot in the name of honour and then buried while they were alive. She also said that no criminal had been arrested so far." - via cinco dias

aborta-me mãe no meu véu amniótico
sufoca-me no cordão umbilical
nos pulsos latejam veias corta-as rápido
como peixes sufocando nas lâminas
sangue esvaído em nome da honra mãe
casa-me com as pedras os vermes a terra
antes que me levem pelo trilho nas pegadas das outras
onde antes de mim tropeçaram e depois cursarão
a bala silenciosa na lua no traje de noiva
tumuladas nos nossos vestidos e cores tradicionais
as danças macabras talvez acalmem os velhos
façam sorrir meninas da ingenuidade das larvas
pensam que me terão antes do sol mas erram
respiro ainda vivo comendo por dentro a terra
em nome da honra mãe.

Barack Obama


A obamania ainda não me contagiou. Barack Obama fará alguma da sua mudança dentro dos Estados Unidos mas na política externa, que é a que nos interessa, nada deverá mudar. Tal como os americanos, os europeus também procuram um man ou woman of destiny e na falta de um dos seus, colocam os olhos confiantes no lado de lá do oceano, chegando mesmo a desculpar-lhe qualquer coisinha, como a nomeação de Biden para vice-presidente, cuja escolha evidencia a continuação do status quo. Teve de ser, dizem, se ele quer ganhar tem de escolher gente do establishment. Pois claro que tem, porque o establishment não o deixa mudar nada, incluindo as suas escolhas. O mito da mudança está a morrer. Não basta ser bonito, bom orador, inspirador e bom rapaz. É preciso que aqueles que das sombras decidem destinos queiram também mudar.

sábado, 30 de agosto de 2008

retro



Escrever, compor musica, fotografar, digitalizar alguns desenhos, filmar e fazer pequenos clips, contar histórias, reais ou inventadas, conversas escutadas, dar uma opinião, fazer jornalismo de cidadão, partilhar um saber, uma lista de livros ou de músicas, tudo isso e mais, com a possibilidade de feedback quase instantâneo, é tão facilitado hoje pela quantidade de ferramentas disponíveis que chega a ser ridículo. Gostaria de ter tido toda essa tecnologia disponível na minha adolescência.

o riso é bom


Eu e dois cestos de roupa para brunir. A dona Fátima não brune a roupa. Foi a primeira coisa que me disse quando me veio ajudar, por causa das costas. Não me importei. Gostei dela e eu não tenho problemas de costas.
Perguntei-lhe sobre as centopeias. Na casa dela também aparecem mas não sabe o que fazer para as impedir de entrar dentro de casa.
O meu dez anos senta-se no chão e constrói figuras com as molas e o mais velho quer que lhe conte histórias de família, as mais engraçadas. Riem-se às gargalhadas com as aventuras e desventuras dos antepassados. O riso é bom.

Andei à procura do The Growing pains of Adrian Mole nas estantes mas não o encontrei. Vou comprá-lo para os meus filhos.

Chego ao jardim

e vejo o cesto de batatas que a Isabel me deixou ao pé da porta. Ela é assim. Vem sorrateira, sem ninguém se aperceber, e deixa-me as coisas sem esperar que lhe diga obrigada, que a convide a entrar, lhe faça um chá. Estou sempre a encontrar coisas órfãs na minha entrada.
Os escuteiros são barulhentos. Fazem-se anunciar de longe, batendo nos tambores e deitando foguetes, mas não vêm deixar nada. Vêm pedir dinheiro para a festa, para a igreja, para os bombeiros. Na aldeia o povo dá em silêncio, como se tivesse medo de ouvir uma recusa, e pede com barulho, como se quisesse avisar com antecedência que vem pedir, como se nos quisesse dar tempo para fingir que não estamos em casa.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

é o pão

Vejo de longe o vestido azul, entornando azuis sobre o céu cinzento. Sem esperar ao menos uma despedida, um aceno de mão, sobe a praia descalça, enrolando as pregas do vestido nas coxas, semblante endurecido pelo vento e pelo sal. Os olhos azuis dão razão ao mar.
Ela nada entende de poesia. Ela disse-me que o amor é o pão que se conquista diariamente, com o esforço de ambos, para depois ser saboreado em conjunto. Quando o homem está no mar, ela pensa que ele trará mais pão e abraça os filhos, rezando e abençoando o homem. Só depois começa a comer.

reencontro

o mar lembra aos corpos o desejo primitivo do belo
das linhas esculpidas pela praia andando
na pose estática de todas as coisas
sendo o desafio à mão de todos os espantos
o espanto de ser tão longe
do já criado
do já vivido
do já sentido;
de querer ser poeta sem fazer poesia
nada dizer nada possuir nada
que todas as coisas fossem só todas as coisas;

mas fazemos viagens repentinas não importam as horas
amamos os comboios e as estações esperamos
em cada passante uma nova viagem
cortamos todos os fios e no fim
remendamos todos os tecidos
renovamos os encontros e
dizemos nós as palavras
e inventamos nós o ar
e fazem eles o adeus
adeus adeus adeus.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

conto de fadas


Todas as ruas tinham uma maria-rapaz. Também tinham um zé-rapariga, mas esses, ao contrário delas que se vestiam de rapaz e usavam o cabelo cortado à escovinha, não andavam de minissaias a mostrar as cuecas com lacinhos. Não eram identificáveis.
Eu pensava que o Pedro me seguia por todo o lado porque estava apaixonado por mim mas, afinal, ele queria estar junto das meninas para falar de rapazes.
Sentados na soleira da porta, víamos os noivos entrar na igreja e víamo-los sair casados, correndo felizes nas escadas, de mãos dadas sob o arroz e as folhinhas de oliveira. Ele dizia que queria casar, quando fosse grande, e ia ter dois filhos. Eu imaginava-me casada com ele e com dois filhos, o dia do casamento; eu de vestido branco e cuecas de lacinhos com as minhas iniciais bordadas pela minha mãe – para não se confundirem com as da minha irmã – e ele de fato preto, camisa branca e papillon, como na fotografia da primeira comunhão.
Depois de partida a comitiva, levando consigo os risos, o roçagar dos vestidos, o fumo dos charutos, os perfumes, a festa toda, fechavam-se os portões da igreja. Corríamos até lá e apanhávamos o arroz e as folhinhas de oliveira nas escadas para atirarmos um ao outro. Colavam-se ao nosso cabelo e ríamos e eu dançava em volta dele, diz, diz, com quem vais casar, mas ele não dizia. O Pedro sonhava com dois fatos pretos.
Ia ser feliz para sempre. Por momentos. Até as pombas se precipitarem dos telhados e lhe virem comer o arroz das mãos.

arrumação

Tem a mania das limpezas. Vem à minha casa e quando me apercebo já está na cozinha a lavar loiça, a limpar bancadas, a remover as migalhas que as crianças deixaram em cima da mesa, a guardar utensílios nos sítios que julga serem certos mas que estão errados. «Não laves a loiça, mete-a na máquina», mas ela diz que é pouca coisa. Sempre foi assim. É pouca coisa.
A casa dela não a denuncia. Remove todos os indícios, elimina todas as imperfeições. Não há papéis fora do sítio, migalhas esquecidas em cima da mesa, armários em desordem ou gavetas em convulsão. Não tem um cabelo fora do sítio, nem quando está em desalinho. Desalinha-se com perfeição. Não se vê uma cã crescer, uma unha partida, umas calças fora de moda e o carro parece sempre que veio de lavar e aspirar. Quem não a conhece como eu a conheço, pensa que ela é metódica, organizada, que tem tudo arrumadinho, direitinho, no sítio certo, mas lá dentro há uma desarrumação.
Começa a ler um livro que interrompe para corrigir testes, que interrompe para enviar uma SMS a alguém, volta aos testes, que interrompe para programar as férias, «com quem vou este ano? onde vou?», que interrompe para ler este blogue, «estás a escrever sobre mim», que interrompe para pensar que talvez cá venha ver a gata que viu na montra da loja e levou para casa, que dias depois me trouxe porque ela «morde os dedos dos pés das visitas» e aqui «tem mais liberdade».
A tua gata caça os pássaros e abandona os seus cadáveres na minha entrada.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

henri cartier bresson 1908-2004


imagem tirada daqui

as medalhas que Portugal não ganha

«A discriminação salarial entre homens e mulheres pouco evoluiu numa década em Portugal. Em 1997, as mulheres recebiam 72,9 por cento do que era recebido pelos homens nas mesmas funções. Passados dez anos, essa desvantagem era de 74,6 por cento.
(...)
Estes últimos dados não são igualmente exaustivos. A nota alerta que o estudo é feito com base na contratação colectiva e que não se trata de um estudo científico, sobretudo numa área em que as comparações estatísticas são "particularmente difíceis de elaborar". Pretende-se dar apenas indícios de tendências. » -
Público de hoje

O artigo refere ainda que esta desigualdade se verifica a nível europeu, incluindo os países nórdicos, no entanto, Portugal apresenta a maior diferença de salários estando apenas à frente da Eslováquia.
Como mulher, esta é uma situação que me revolta. Como portuguesa, é uma situação que me envergonha. Não há medalhas olímpicas que me tirem a vergonha que às vezes sinto de ser portuguesa. Em dez anos, Portugal reduziu as diferenças salariais entre homens e mulheres em cerca de 2%. Por este andar nunca mais é sábado. De estudo para estudo, somos os piores em quase tudo. Exigem-se medalhas olímpicas, para levar a bandeira aos quatro cantos do mundo, porque o país precisa de vitórias, porque o povo precisa de alegrias. Eu também sou povo e também quero alegrias, mas não apenas daquelas que nos fazem bem por uns momentos, ou por uns dias, como a medalha da Vanessa e a do Nelson Évora em Pequim. Eu quero sobretudo alegrias duradouras, daquelas que significam alguma coisa, com substância.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

uma vez por mês

uma vez por mês they say
ruíam as paredes da casa do sangue
segredo intocável sentido escorrido
nos coágulos espessos nos ferrolhos da porta
doíam os filhos que poderiam ser
depois dos filhos que tinham sido
alvos acidentais danos colaterais
coágulos espessos no fogo perdido.
meninas adiam a menarca na casa do sangue
uma vez por mês they say

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

for the times they are a-changin'


Come mothers and fathers
Throughout the land
And don't criticize
What you can't understand
Your sons and your daughters
Are beyond your command
Your old road is
Rapidly agin'
Please get out of the new one
If you can't lend your hand
For the times they are a-changin'.

Em 1964, quando esta música foi editada, a minha mãe não ouviu falar dela e uma década depois, quando o Bob Dylan voltou a cantá-la, ela também não ouviu falar. Eu disse à minha mãe que não queria ser uma perfeita fada do lar, com a vida alinhavada aos finais felizes dos romances patetas, mas nos anos setenta os anos sessenta ainda não tinham chegado aqui. Ela não sabia que the times they were a-changin.

domingo, 17 de agosto de 2008

quando os mortos não falam

Está a fazer um ano que o Karl morreu. Adeline resolveu limpar o atelier onde ele se entretinha a fazer pequenas reparações e onde guardava as suas ferramentas, todas organizadas e arrumadas segundo uma lógica e uma eficiência muito alemã. Dentro de uma caixa encontrou uma prenda para ela, para lhe oferecer no aniversário. Não chegaria lá e a prenda ficou esquecida dentro da caixa, dentro do armário, no atelier, na cave.
Adeline subiu a colina e foi ralhar-lhe na sepultura. Quem estava a morrer era ela, não tinha nada que se lhe antecipar, deixá-la só a abrir caixas e a encontrar prendas de aniversário que tanto a faziam chorar. E ele que não dizia nada.

Há muitos anos, quando a mãe de Adeline agonizava na cama, pediu-lhe que enviasse um sinal depois de morrer, se na verdade houvesse vida depois da morte. Algumas semanas depois da mãe falecer, quando Adeline punha a mesa para o jantar, viu umas luzes em movimento sobre o lugar que a mãe costumava ocupar à mesa. A partir desse dia não voltou a chorar a mãe. Disse-me que foi ela quem lhe enviou as luzes.
Eu sei que ela espera ainda que o Karl fale com ela e também sei que é por isso que resolveu vir novamente a Portugal, apesar de ter dito que sem ele não voltaria. Ela sabe que ele gostava muito de cá estar e como eu sonho com ele e ela não, acho que se convenceu que ele está aqui. Acho que se convenceu que é aqui que ele lhe dirá alguma coisa.

mão esquerda


desenho a esferográfica da gata kitty-marie

Já tentei desenhar com a boca e com os pés, como fazem os artistas que pintam as obras que aparecem nos postais de natal. Escrever e desenhar com outras partes do nosso corpo, não tendo sido elas programadas para tal, é um enorme desafio e eu não consigo fazer nada de jeito. Tenho muita admiração por quem o consegue.
Desenhei a gata com a mão esquerda. Tenho andado a dar-lhe mais uso, a essa mão tão essencial e tão esquecida. Negligenciada.