O Rui Bebiano adicionou o meu blogue à sua lista de recomendados e eu agradeço-lhe o seu gesto simpático. Não estou nada habituada a ser recomendada e, tirando algumas visitas esporádicas aqui chegadas via Miss Allen, a verdade é que também não estou habituada a ter muitas visitas. Não sei bem o que fazer com elas mas, se calhar, elas também não estão à espera que lhes faça alguma coisa. Fico muito contente que cá venham, mesmo que não achem utilidade alguma no que escrevo. Mi casa es su casa.
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
mi casa es su casa
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
blue molleskin

desenho da Cláudia Santos Silva
Um blog muito bonito, para ler sem pressa porque merece muita atenção - Blue Molleskin
troca de meninas

Yang Peiyi foi substítuida por Lin Miaoke na cerimónia de abertura dos jogos olímpicos, por não ser considerada suficientemente bonita para aparecer. Lin Miaoke cantou mas a voz que se ouviu foi a de Yang Peiyi. O mundo do espectáculo está cheio de episódios destes, mas é muito difícil encontrar alguém que não se indigne com esta troca de meninas. São crianças, não esperamos que este tipo de manipulação se estenda a elas. Mas este episódio é mais que isso, simboliza também uma China que teima em mascarar a realidade. Não há violação dos direitos humanos na China, o Tibete sempre foi deles, os regimes do Sudão e do Zimbabwe são tudo bons rapazes, e as meninas cantoras correspondem exactamente ao ideal de beleza chinês.
Yang Peiyi terá dito que não estava triste com a rejeição porque a voz dela esteve lá. Considerando tudo aquilo que a China é, este episódio será encarado pela história como a metáfora perfeita da maquilhagem que os seus líderes vão fazendo da realidade.
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
as cobras
«Caught a large snake in the herbaceous border beside the drive. About 2’ 6” long, grey colour, black markings on belly but none on back except, on back of neck, a mark resembling an arrow head all down the back. Not certain whether an adder, as these I think usually have a sort of broad arrow mark all down the back. Did not care to handle it too recklessly, so only picked it up by extreme tip of tail. Held thus it could nearly turn far enough to bite my hand, but not quite. Marx interested at first, but after smelling it was frightened & ran away. The people here normally kill all snakes. As usual, the tongue referred to as “fangs”» - Diário de George Orwell, 9-Agosto-1938
Lembrei-me das cobras. Tenho várias, conservadas dentro de frascos, em cima do armário rústico da sala. Também lá está um morcego. Ser a única mulher numa casa de machos tem destas coisas. Trazem todos os seres para casa (não, não mataram os engarrafados, encontraram-nos já mortos), desde as pequenas lagartixas às salamandras, vacas-loiras, louva-a-deus, gafanhotos, cobras, ouriços-cacheiros, etc. Pegam-lhes, acariciam-nos, observam-nos bem de um lado e do outro, fotografam-nos e depois deixam-nos ir à vida deles. Os répteis são os mais atractivos para os meus filhos, principalmente as cobras porque são as mais difíceis de encontrar. Aqui as gentes também as matam e, estranhando esse costume, perguntei um dia à Isabel porque se matam as cobras; disse-me que é por causa das crianças. Por vezes metem-se dentro das casas, de noite, e quem tem filhos pequenos receia que as cobras os estrangulem. Deve ser a matança que as leva a esconderem-se bem. Sabemos que andam por aí porque encontramos a pele delas nos campos. Nos verões muito quentes, os incêndios nas montanhas empurram-nas para os jardins, serpenteando desorientadas, e aí são vistas com mais frequência.
Estranho que sendo eu uma pessoa com várias fobias, nenhuma se relaciona com animais. Não gritar e dizer que nojo sempre que me aparecem com um ser na mão ou numa caixinha, agrada-me e agrada aos meus filhos, que me acham uma rapariga com tomates. De vez em quando levam os frascos para a escola, para mostrar à turma. As raparigas, depois de vencerem o nojo e o medo, interessam-se pelas formas e pelas cores. Quanto mede? É venenosa? Os rapazes fazem sempre perguntas assim.
Ficam embasbacados a olhar para as cobras.
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
ossetia do sul




Não tento sequer perceber os motivos, os argumentos, as hipocrisias, os antecedentes, as causas, as consequências, o futuro. Procurar carrascos e heróis parece-me um exercício fútil quando se contempla a face das vítimas de ambos os lados do conflito. A humanidade tem milénios de história para onde olhar, de onde tira lições e constrói moralidades, mas nada muda. A humanidade é isto e é isto que tem para mostrar.
sábado, 9 de agosto de 2008
os jogos da China
A cerimónia de abertura dos jogos olímpicos foi magnífica, mas o mais marcante foi ver tantos chineses empenhados em fazer dos jogos um sucesso. Não me parece que haja, por estes dias, um número significativo de chineses preocupados com os seus direitos humanos. A China fez-se notar e não há nada como uma boa dose de nacionalismo para adormecer consciências e preocupações. A fórmula é antiga e resulta sempre.
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
a minha irmã adormeceu
no sofá, depois de ter feito dois turnos seguidos. Quando acordou foi à varanda e deparou-se com um grande letreiro lá pendurado que dizia assim: “VENDE-SE”.
Esfregou os olhos. Ter-se-ia enganado? Não estaria o letreiro na varanda da vizinha? Olha novamente mas não havia como duvidar. Conseguia tocar no letreiro, estava mesmo na sua varanda. Angustiou-se, o coração desatou aos saltos e pensou nos filhos e no tecto deles. Imaginou-se a despachá-los para o pai, e a viver dentro do carro. Como é possível estar à venda? Só pode ter sido o banco. Mas porquê? Tenho as prestações em dia, foda-se!
Acordou e foi à varanda. Só aí sossegou. Afinal, era um sonho. Um pesadelo.
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
a missa das velhas
São sempre as primeiras a chegar à igreja e nos dias de semana são também as últimas. O padre diz a missa de expressão enjoada. As velhas cheiram a urina, a vaginas doentes e mal lavadas. Nunca deixam cair moedas na cestinha das esmolas, nem quando o sacristão octogenário a espeta debaixo dos seus narizes, provocador. Fingem que não é nada com elas e olham para os anjos pintados no tecto azul, quando o padre lhes dá sermões sobre higiene pessoal. Uma velha inspecciona o altar da virgem pelo canto do olho, escrutinando defeitos na decoração ou restos de cera na toalha de linho. Para além de fedorentas, são também avarentas e críticas.
O padre deixou de sonhar com funeral atrás de funeral, velha atrás de velha a descer à cova sob uma chuva de água benta espargida sobre os caixões, quando o sacristão lhe disse que naquela paróquia as velhas não morrem. "É verdade senhor padre, já cá estavam quando eu nasci, quando o meu avô nasceu e por aí fora". Inúmeras cartas foram escritas à diocese solicitando transferência para outro paradeiro, adicionando argumentos, de recusa para recusa, explicando que as velhas remontavam ao tempo dos castros e que, ao que tudo indicava, prolongariam a estadia para além das viagens inter-galácticas. "Não adianta, nenhum padre alguma vez conseguiu sair daqui. Tudo o que vai conseguir é que lhe citem o livro sagrado e o mandem aguentar como Jesus aguentou", dizia-lhe o sacristão. E assim aconteceu.
Com uma mola imaginária no nariz, o padre apressa o ritual, enfia as hóstias nas bocas sem dentes, saudai-vos na paz de Cristo, ámen, e foge rapidamente.
Depois de fechar os portões, o sacristão ondula o turíbulo pelos quatro cantos da igreja, perfumando-a com incenso, embora saiba que é inútil. A igreja continua a cheirar às entranhas das velhas.
domingo, 3 de agosto de 2008
have you ever seen the rain?
Someone told me long ago theres a calm before the storm,
I know; its been coming for some time.
When its over, so they say, it'll rain a sunny day,
I know; shining down like water.
Yesterday, and days before, sun is cold and rain is hard,
I know; been that way for all my time.
till forever, on it goes through the circle, fast and slow,
I know; it cant stop, I wonder.
Um dia destes talvez me apeteça dizer-te que quando tu não estavas, eu e as tuas irmãs invadíamos o teu quarto. Por algum motivo misterioso não se iluminava nunca, senão por uma pequena nesga de luz, derramada pela frincha da portada de madeira que a tua irmã abria com uma precisão milimétrica; apenas o suficiente para nos deixar ver a tua colecção de singles, o braço do gira-discos e os quadros do teu irmão pendurados nas paredes, ao lado da fotografia do Che e do retrato de Marx. A tua casa era a única na nossa rua que tinha um gira-discos e um dos teus singles era este, dos Credence Clearwater Revival, que ouvíamos vezes sem conta deitadas nas três camas do quarto, fingindo estar pedradas com a marijuana do teu irmão pintor. Sempre calmo, paciente, cachimbo pendurado na barba e olhar azul de ternura, nunca reclamaste das castanhas a assar por baixo da agulha do gira-discos, à conta dos tantos riscos causados por mãos de meninas pouco habituadas a lidar com aparelhos.
Someone told me long ago theres a calm before the storm,
I know; its been coming for some time.
Na sede do MES, que ficava mesmo em frente, os teus amigos barbudos vinham para a varanda ouvir a música e nós girávamos o botão do volume para o máximo. Mandavam-nos piropos revolucionários enquanto nós, miúdas de catorze anos, nos esboroávamos em risinhos parvos, e até pediam discos, imagina; havia tardes de discos pedidos de varanda para varanda.
Não sei por onde andavas mas quando o mercedes do filho do patrão do teu pai, cuja casa estava cosida às paredes do MES, foi pelos ares a meio da noite, numa chuva de vidros e metal, eu adivinhei.
Mas não disse a ninguém.
danado para a brincadeira

Time Keeper do J.P.Andrade
Estou aqui a pensar com os botões do meu pijama no acontecimento mais marcante da semana. Um presidente, danado para a brincadeira, que pregou uma partida - ia dizer ao país mas sejamos francos, o país está a banhos e tem mais em que pensar -, uma partida, dizia eu, aos jornalistas. Fê-los esperar, esperar, esperar... e no fim não fez uma declaração de guerra, não demitiu o governo e nem tão pouco falou no que mais aflige o país real que, como toda a gente sabe, é a cor das cuecas da última aquisição do Benfica. O tal furo que iria fazer correr rios de tinta não aconteceu. O presidente falou de qualquer coisa relacionada com os monótonos e longínquos Açores, que não vendem jornais, excepto nos Açores. Fiquei com uma pena imensa do jornalismo em geral, e em particular, daquele que nos serve uma juíza xenófoba que afinal não o era, para não falar no Magalhães pc que dispensa comentários.
quinta-feira, 31 de julho de 2008
terça-feira, 29 de julho de 2008
poço de desejos

Passeamos nas ruas de Caminha que se engalana para a feira medieval. Não é preciso muito; uns panos desfraldados, música medieval, alguns galegos vestidos de bobos e uma palhaça borboleta em cima de estacas é quanto basta para nos enfiarmos no túnel do tempo em sentido inverso, até ao tempo de D. Afonso V. O cenário de ruas estreitas e praças graníticas faz o resto. Segundo o panfleto distribuído, quando o rei lá passou, ouviu o povo que se queixava das taxas elevadas cobradas pelos guardas fronteiriços a minhotos e galegos, impedindo o livre trânsito de bens e pessoas. O rei deu razão ao povo e logo tratou de rectificar a situação. Caminha recria esse momento histórico e os galegos atravessam o rio para participar. Há mais galegos que minhotos nas ruas e quase todas as barracas são deles, desde as dos comes e bebes às bugigangas. As crianças não querem arredar pé da tenda das aves de rapina, fascinados pelos olhos dos mochos e das corujas. Um falcão aterra na careca de um turista e toda a gente se ri às gargalhadas. A mulher tira fotografias.
O meu sobrinho quer comprar uma fisga e o meu dez anos quer um escudo e uma espada de madeira. Temos de passar pela exposição de instrumentos de tortura para os quais mal consigo olhar. Arrepiam-me, com excepção da guilhotina que tem uma certa beleza; proporcionava uma morte rápida ao contrário das outras maquinarias que foram cuidadosamente desenhadas para infligir um sofrimento inimaginável sem matar as vítimas.
Desistimos de tentar perceber a lógica dos preços; uma fisga de pau que nada mais é que um galho ao qual se atou um elástico, custa três euros enquanto o escudo e a espada ornamentados, custam cinco. A minha irmã mais nova, que sabe os preços de tudo, espanta-se com os preços praticados nos cafés. Foram inflacionados, talvez para não ficarem atrás dos preços praticados do outro lado do rio. Não parece incomodar muito as pessoas a julgar pelas esplanadas e restaurantes cheios; a feira é pequena mas bonita e Caminha tão acolhedora, merecem ser bem pagos.
Na rua mais comprida, atulhada de tendas e de gente que passeia o bronzeado, há de tudo. As minhas irmãs experimentam pulseiras enquanto o da tenda ao lado oferece cornos de barro a quem lhe comprar uma ginjinha. A música de discoteca escapa-se de um bar, deslocada do ambiente, irritando os nossos ouvidos que preferem a música medieval. Adolescentes enfeitam o cabelo com tiaras de flores plásticas. O meu dez anos também quer uma fisga e o pai escolhe uma enquanto lhe diz que não é para atirar nos pássaros ou outros animais, mas sim em alvos inanimados para treinar a pontaria. O meu catorze anos não quer nada a não ser um cêntimo para atirar ao poço e tentar acertar no balde pendente. A câmara de Caminha vai ficar rica, diz um homem pequenino quando nos vê a dar cêntimos às crianças mas também ele acha piada e atira uma moeda lá para dentro. Junta-se uma pequena multidão em redor do poço; fecham os olhos e formulam desejos silenciosos. Quase todas as moedas falham o alvo, caindo na água turva do fundo.
sábado, 12 de julho de 2008
domingo, 6 de julho de 2008
ecografia
Toda a gente sabia que os machos daquela família raramente vingavam e que os sobreviventes o faziam incapacitados, física ou mentalmente. Sem nunca ter ouvido falar de ADN e de cromossomas, a mãe dizia que havia veneno no sangue, resultado de maus-olhados lançados aos antepassados, válidos para gerações futuras, e mal aceitou casar fez o que fizera já a sua mãe e avó antes dela. Decidiu que procriaria apenas mulheres e assim fez, seguindo os conselhos das antigas sobre as noites propícias à geração do feminino, escolhendo o ponto cardeal para onde deveria estar orientada a cama de casal conforme se alternavam os astros na abóbada que cobria o leito. Gerar mulheres não lhe tirava a ansiedade, teria de ser cautelosa na sua criação não fosse a maldição, na falta de machos, transferir-se para as fêmeas. As cinco filhas cresceram aprendendo que o mais pequeno indício de doença deveria ser tratado como desgraça iminente. Escolhiam-se santos e santas de devoção, de provas comprovadas na cura das diferentes doenças, e espalhavam-se pela casa as suas representações em papel, ao lado de lamparinas que se mantinham acesas, noite e dia, enquanto durava a agonia da mais leve depressão, os vermelhões do sarampo, as feridas da varicela. Quando a doença era contagiosa recolhiam-se todas ao leito e a mãe tratava-as pingando lágrimas e ave-marias de cama para cama, enfiando-lhes os santos por baixo dos pijamas, junto ao coração. Talvez o santo de papel se fundisse com o tecido cardiovascular e nessa fusão de átomos se expulsasse a maleita dos corpos. Não se ignorava a ciência nem tão pouco a bruxaria mas todas as artes da cura estavam sujeitas a uma hierarquia. No primeiro dia eram os santos, depois o médico e em último caso, a bruxa. Se a doença resistia, umas artes completavam as outras de forma democrática.
Mas se as doenças que vinham no ar, que ninguém podia evitar, exigiam protecção divina, sobrenatural ou científica, todas as outras ameaças requeriam atenções redobradas, de cuidados imensos, desde a vigia constante que a mãe fazia às brincadeiras de criança, removendo obstáculos e dando conselhos ininterruptos, à alimentação. Criavam galinhas, patos, coelhos, porcos, semeavam e colhiam os seus próprios legumes e frutas, isentos de pesticidas, e a carne bovina era comprada num talho de absoluta confiança. Não se bebia água da rede, da qual a mãe desconfiava, mas sim a água do poço que brotava límpida e fresca das entranhas da terra, e o leite era comprado à vizinha que tinha vacas leiteiras e tratava delas com carinho, chamando-as pelos nomes que lhes deu e falando com elas enquanto as ordenhava.
Nestes usos e costumes cresceram as cinco filhas. Nos bancos da escola e da faculdade aprenderam a evitar a troça dos colegas escondendo a superstição e dentro dos sutiãs os santos de papel, cuja função era protegê-las durante o tempo que estavam fora de casa; para não se virar a camioneta, para não serem atropeladas, para terem boas notas, e tudo o mais que pudesse esconder algum perigo.
Uma a uma foram casando e, tal como a mãe, gerando apenas fêmeas. Nas reuniões de família, bastante frequentes, o pai era o único macho que interessava e a multidão de mulheres borboleteava à sua volta, ignorando os maridos depois de os alimentarem e despacharem para o jardim. A mãe sorria satisfeita. Incutira-lhes respeito e admiração pelo pai, fazendo dele o centro da família, como forma de compensar a tristeza que ele sentia por não ter filhos homens. Tudo corria como a mãe planeara; filhas e netas saudáveis à sua volta, ligadas a ela por laços secretos que só elas partilhavam, de geração para geração, inquebrantáveis. Foi numa destas reuniões, quando as mulheres se juntaram na cozinha e os homens jogavam às cartas no jardim sob a sombra dos jacarandás, que a penúltima filha anunciou a sua gravidez. Enquanto a mãe corria a acender a lamparina por baixo do retrato do santo, a filha disse-lhe que a ecografia revelara um feto macho.



