sábado, 5 de julho de 2008

pessoas comuns



O que são pessoas comuns? As pessoas que lêem os livros da Margarida Rebelo Pinto, parece querer dizer a capa da Ler. E as que não lêem, são o quê?
Gosto das pessoas comuns. Não consigo evitar empatia pelas pessoas classificadas como isto ou como aquilo pelos mequetrefes que se julgam herdeiros dos neurónios de uma espécie superior e que, tão frequentemente, são burros como uma porta.


O meu pai ofereceu-me os livros dele da instrução primária. Não me lembro de os ver nas estantes lá de casa. Por certo tinha-os escondidos. Eu e a minha irmã mais velha líamos tudo o que apanhávamos, desde muito pequenas, e os livros dos meus pais denunciam-no. Há folhas amarrotadas, sarrabiscos, sublinhados, desenhos, e os cantos superiores direitos das páginas estão escurecidos de tanto molhar o indicador na língua para virar as páginas. Na casa dos meus pais encontrei um livro onde tinha escrito, em letra de criança, pata peta pita pota puta a mana é uma puta. Foi a minha irmã, claro, reconheci-lhe a caligrafia. Não tínhamos autorização para dizer palavrões e, quando se zangava comigo, como não podia dizê-los, escrevia-os.
Estes dois livros estão razoavelmente conservados. Escaparam ao vandalismo de cinco filhos irrequietos. Os manuais mudavam pouco com o passar dos anos e estes, antes de serem do meu pai, pertenceram a outras pessoas. Um tem a assinatura de uma Amália e o outro a de uma Fátima. Tento imaginar a Amália e a Fátima aprendendo as lições, sonhando talvez com o invejável título de rainhas do lar.



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Patroa

A Dona Fátima, minha vizinha, é minúscula. Não sei de onde lhe sai a energia quando me vem ajudar nas limpezas depois de uma manhã passada no campo e a limpeza da sua própria casa. Esta casa é muito grande, grande de mais para uma só mulher, por isso, somos duas a limpar. Conversamos uma com a outra. Ela vê o horário escolar do meu catorze anos, colado no armário do frigorífico, e espeta o dedinho indicador sobre o nome da professora de Educação Visual. “Esta senhora também é minha patroa”. Admirei-me que soubesse o nome todo da setôra de EV. Nunca se interessou em saber o meu nome completo, porque saberia o dela? “Ontem estive na casa dela e no escritório tinha muitos papéis espalhados. Papéis com fotografias. Vi lá a fotografia do seu filho e disse-lhe, este é o filho da minha outra patroa.”.
Pergunto à Dona Fátima quantas patroas tem. Já teve três na cidade, depois ficou com duas e quando surgiu a oportunidade de trabalhar cá em casa, muito perto da sua, deixou outra. Agora só tem duas, eu e a professora de EV. “Não tive coragem de deixá-la, sabe, é boa pessoa e precisa mesmo de mim. Tem dois pequenitos que lhe sujam tudo e ela não tem tempo”.
Patroa, patroa, patroa. Fico a matutar nesta palavra que me soa tão estranha quando me é aplicada.
Uma vez, em miúda, fiz de sopeira na peça de teatro da escola da igreja. A minha patroa era uma parasita cheia de futilidades. Numa das cenas, ela, representada por uma rapariga mais velha, bonita com mamas e tudo, estava estendida num sofá e quatro criaditas de quarto pintavam-lhe as unhas; uma mão e um pé para cada uma. O meu papel consistia em dizer duas ou três frases com sotaque da aldeia, carregando nos esses. Fiz o papel muito bem, bem demais; o público desatou às gargalhadas e nos dias seguintes, toda a gente me chamava sopeirinha, pedindo-me para carregar nos esses. Nunca mais quis fazer peças de teatro, fiquei cheia de pena das sopeiras e comecei a detestar as patroas. Foi assim que o país perdeu uma grande actriz.
Aqui está a Dona Fátima a dizer que eu sou patroa dela e eu a pensar nas minhas unhas que nunca foram à manicura.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

sonhos (II)

Depois há manhãs assim, em que acordo sem recordações dos sonhos. Pensei que sonhava com um zumbido de qualquer criatura estranha, mas não; era a moto-serra de alguém a cortar troncos na montanha. Depois de me acordar, a moto serra cala-se. Aposto que é de propósito. Alguém que tem de se pôr a pé muito cedo resolveu que eu não tenho o direito de ser preguiçosa. Surgem-me dúvidas sobre a palavra motosserra; é com hífen, é tudo junto, é separado? Diz a wikipédia que as motoserras são usadas para o derrube de árvores e funcionam com motores de combustão a dois tempos com um cilindro. Era mesmo disso que eu precisava, de funcionar com motores a dois tempos. O cilindro talvez fosse útil para alisar a pele que se vai enrugando.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

sonhos


Gregory Crewdson

Os meus sonhos eróticos nem sempre são agradáveis porque nem sempre concordo com a sucessão de imagens que culmina no orgasmo. Acordo e fico aborrecida, angustiada; aquela fantasia sonhada, que eu desconhecia dentro de mim, não deveria existir, não deveria sacudir o meu corpo e causar-me espasmos vaginais. Não a quero. O meu cérebro acordado pretende mandar no adormecido, impor-lhe limites e juízo, mas este não admite intromissões; tem vida própria e faz do meu corpo o que lhe apetece.

Sonhei com o amor, não, não era amor; era uma empatia romântica. Uma conversa entre duas pessoas num café, um restaurante e de repente, numa sala de embarque muito semelhante à do aeroporto de Galway como a recordo, pequena e decadente mas extravagante; sobre o balcão, que era o mesmo em todos os cenários, crescia uma roseira brava. Uma madeixa caía num rosto masculino e uma mão afastava-a e prendia-a por trás da orelha. As minhas mãos, estranhamente, estavam enluvadas. Calcei luvas porquê? Para impedir o contacto da pele, claro, para que fosse só ternura. Estava a ser conduzida a um êxtase que nada teria a ver com o orgasmo dos sentidos corpóreos; transcendia a matéria.
Não cheguei lá; acordei demasiado cedo com o chamamento da coruja lá fora.


ceci n'est pas un chien



Não sei quem é mais idiota; os pouquíssimos muçulmanos que se sentiram ofendidos (por causa do cão) com este poster da polícia de Tayside (R.U.), publicitando um número de telefone para chamadas sem emergência, ou a polícia que pediu desculpa pelo poster. O Daily Mail já toda a gente sabe que é idiota.
Mahmud Sarwar apelou à calma dizendo que não é um cão mas apenas uma imagem.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

alberto sampaio e a política


Alberto Sampaio pelo meu dez anos, Dez. 2007

«A seu turno, os que mandam, aqueles que tiveram uma hora de sorte ao pôr o pé no estribo e por fim tomaram definitivamente as rédeas do poder, somente vêem no público – eles e os seus agentes, um gerador de impostos, a massa anónima, vil e desprezível, que não pode servir para outra coisa, mas que, contudo, é força ir ameigando deste ou daquele modo, por modo que ele, apesar da sua pacatez dos últimos trinta anos, não venha a enraivar-se, como as ovelhas tosquiadas rentes em demasia.»
(Alberto Sampaio, “Oliveira Martins e o seu projecto de Lei de Fomento Rural”, in A Província, Porto, 14 de Maio de 1887) - http://albertosampaio.blogspot.com/



digestão

Tenho um certo atrevimento em construir um resumo das coisas, como eu as sinto, como eu as apreendo, e chamar-lhe criação. As ligações que mantemos com os nossos passados são demasiado importantes. Nada podemos negar. Iludirmo-nos talvez, mas nunca negar. A criação pode ser a afirmação da realidade interpretada pelo ser, a materialização constante do passado. Sai-me quando tem de sair, da maneira que sair. Posso aplicar-lhe a disciplina, compô-la como quem compõe uma jarra de flores, mas aí transforma-se e morre. Digerimos os cadáveres dos outros e chamamos-lhes arte. A imortalidade é isso, é a digestão contínua.
A minha jarra, que não é uma jarra mas sim um frasco de azeitonas pretas com flores silvestres, indisciplinadas, que colhi nos campos, é mais bonita que as do Van Gogh. Cumprirá o seu ciclo natural e regressará ao pó de onde veio.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

A Indira, a Maria, a Golda, a Margaret, a Benazir, a Angela


Erwin Olaf

Não me interessa saber se a Indira, a Maria, a Golda, a Margaret, a Benazir e a Angela, governaram como mulheres ou homens. Ao longo dos séculos, os homens exerceram o poder através da intimidação e da opressão, guiados pelo desejo de derrotar e humilhar os que se lhes opunham. Hoje, os que exercem o poder, concentram-se mais em procurar interesses comuns e chegar a conclusões em que ambos saiam vencedores. Não há nada mais feminino do que isto. Interessa-me saber que o poder passou a incluir características e preocupações femininas. Já não se governa só para um género, governa-se para ambos.
Não é no comportamento político dos géneros que estão as minhas preocupações. Preocupa-me o quotidiano cheio de descriminações encapotadas, nas empresas, na política, na ciência, na literatura, nas fábricas, em casa, em quase tudo. Preocupa-me que sejam tão poucas a exercer o poder.

sábado, 28 de junho de 2008

poema da gata preta que morreu

A minha sobrinha de 11 anos escreveu hoje este poema sobre a gata preta que morreu, porque quis, porque lhe apeteceu, porque ainda pensa na gata e se imaginou sendo ela.


Pela sombra aqui vou eu, toda vaidosa e luxuosa,
Sou mimalha mas muito querida.

Aparece-me assim do nada uma quinta,
Que hei-de eu fazer?
Hei-de explorá-la ou arranjar donos?!

Dei a volta ao mundo dentro da minha cabeça.
Foi mais difícil do que eu pensava!
Finalmente!
Hei-de arranjar donos.

Passado dias, dias e longos dias, ainda de vida
Apareceu-me do nada uma luz tão brilhante!
O que devia fazer, não podia fazer nada
De repente comecei a voar!?
Não acreditei naquilo, Deus estava lá a minha espera!
E também consegui ver os meus 2 filhinhos a Tareca e a Vitória.

Mas não sabia o que estava a passar-se!
Depois é que vi os meus donos ali, lá no fundo a chorar!
As lágrimas escorriam muito depressa,
como se estivéssemos a escorregar num escorrega muito longo que nunca acabava!

Mais tarde comecei a lembrar-me das coisas!
Era tão terrível, tão triste, tão horroroso que poderia partir o coração a qualquer pessoa.
Eu tinha morrido! Que triste!
A minha amiguinha ali a chorar que era a minha segunda preferida.
Ela dava-me de comer, fazia miminhos e quando queria dava-me colo.
Era a minha amiga Maria.

Pelo menos sei que todos estão bem!
Os meus bebés, os meus filhos, os meus donos, as minhas amigas...

Ninguém sabe porque os animais morrem cedo de mais.
Minha bichaninha eras pretinha mas não interessa para ninguém
Pelo menos estás dentro dos nossos corações.
Voa com Deus e vive feliz como viveste aqui.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

citações

1. "nesta altura o jogo já estava perdido… e havia indignação, daquela que dá para mandar uns murros na mesa e que da para rir com o ridículo… os últimos minutos valeram por uma parte inteira, toda a concentração focava o verde da televisão a transpirar o eterno sentimento português… tá quase, tá quase… tá quase… vai… vai… vai… épa foda-se já acabou…
tanto dinheiro gasto em bandeiras para esta merda…" - Indigente Andrajoso

Diverti-me bastante ao ler este texto. Somos o país do quase lá e do
(...) quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
do Mário de Sá-Carneiro que era, como se sabe, português


2. "For the moment, all is peaceful and quiet. The political class, which loves the unitary European state precisely because it so completely escapes democratic or any other oversight (let alone control), and for whom it acts as a giant pension fund, holds the upper hand for now. But tensions and frustrations in Europe have a history of expressing themselves in nasty ways." - Arte da Fuga, citando Theodore Dalrymple sobre a União Europeia.

Não podia faltar o típico lugar comum repetido até à exaustão pelos comentadores americanos, o tal do nasty ways, que me faz pensar que há gente do outro lado do Atlântico que sonha com uma guerra à antiga, daquelas que eles ganham sempre. Os Estados Unidos só estão ainda unidos porque as suas partes são novas. Acabarão também eles por sucumbir à tendência histórica e global para a fragmentação. Qualquer europeu compreende isto e não pode deixar de sorrir ao ler coisas assim.

3. « Nas cidades as maiores provas de amor não estão nos casais de namorados que se entregam aos beijos nos banquinhos dos jardins. Nas cidades as mais fortes provas de amor continuam a estar nos cidadãos que passeiam os seus cães terrivelmente feios como se passeassem sublimes criaturas. » - do Nuno Costa Santos no Sinusite Crónica

A criatura amada é sempre sublime. Eu sei de um cão que passeia o dono terrivelmente feio e está convencido, o cão, que leva ali uma grande coisa.


4. A mulher com cara de cão no blog da Isabela porque diz bem com ela. Não sei se a Isabela acha as suas cadelas sublimes, ou as cadelas a ela, mas é amor sem dúvida.

cebola com broa

Acabo de chegar do café da Prazeres. Ela já sabe ao que vou, comprar cigarros, e faz-me esperar. Com o prato de broa e cebola cortada na mão, discute com o velhote pequenino sobre qualquer coisa que não consigo perceber. Pintou o cabelo e o rosto está mais luminoso do que o costume, quase bonito. O velhote vai dizendo o que tem a dizer por entre os palavrões e a Prazeres não se faz rogada e atira-lhe outros tantos. Alguém que está ao balcão manda calar o velhote, por minha causa; têm medo que me aborreça com tanto palavrão. Não me aborrece nada. Não tiro os olhos do prato da broa com cebola cortada que parece, não tarda nada, irá voar em direcção ao velhote, mas não; a Prazeres coloca-o por baixo dos bigodes do Berto que lhe pede uma malga de vinho. Acalmam-se. Amanhã já não será nada e o velhote lá estará de novo, de manhã, de tarde e à noite.
Dos trezentos metros que separam a minha casa do café da Prazeres, apenas cinquenta têm alguma luminosidade de noite, derramada pelo único lampião de rua entre o café e os muros da quinta. O resto do percurso divide-se entre o caminho de servidão que leva ao meu portão e à quinta da Dona Emília, mais abaixo, e o caminho já dentro dos meus campos. Não há luz nenhuma a não ser a da lua quando está cheia. Caminhei na escuridão por entre o roçagar das árvores e lembrei-me de uma história que me contou a minha tia Isabel, sobre uma noite em que também ela caminhava na escuridão em direcção a casa. Destemida, ria-se das histórias de lobisomens e bruxas que contavam na aldeia mas a partir dessa noite nunca mais se riu. Disse que quando subia a ladeira se lhe encostou uma coisa peluda ao braço nu, senti os pêlos da coisa no meu braço, e logo se lhe arrepiaram os dela. Ficou nessa noite a saber onde começavam as raízes do cabelo que, segundo ela, se pôs literalmente em pé. Correu até casa e assustou a minha avó com tanta palidez. Fez-lhe um chá de tília e atou-lhe um colar de alhos ao pescoço.
Venho andando nestas recordações quando sinto pêlo a roçar-me as pernas. Paro e vejo o gato preto, miau, de olhos verdes a olhar para mim. Andou fugido todo o dia e não sei se comeu alguma coisa, se teve sorte na caçada, mas tenho peixe cozido em casa que guardei para ele. Não me assustei mas enquanto o gato preto comia o peixe, bebi um chá de tília. Tenho saudades dos olhos azuis da tia Isabel, das histórias dela, de ser pequena e comer cebola recheada de sal com broa. A minha madrinha arrancava a cebola da terra e logo ali a descascava, fazia-lhe dois cortes em cruz onde introduzia o sal, e dava-ma a comer com uma grande fatia de broa de milho. Hoje já não sabem ao mesmo, as cebolas.


My hands are tied do José Paulo Andrade


DEITADO FRENTE Ó MAR


Lingua proletaria do meu pobo
eu faloa porque si, porque me gusta
porque me peta e quero e dame a gana
porque me sae de dentro, alá do fondo
dunha tristura aceda que me abrangue
ó ver tantos patufos desleigados,
pequenos mequetrefes sen raíces
que ó pór a garabata xa non saben
afirmarse no amor dos devanceiros,
fala-la fala nai,
a fala dos abós que temos mortos,
e ser, co rostro erguido,
mariñeiros, labregos da linguaxe,
remo e arado, proa e rella sempre.
Eu faloa porque si, porque me gusta
e quero estar cos meus, coa xente que sufren longo
unha historia contada noutra lingua.
Non falo prós soberbios,
non falo prós ruíns e poderosos,
non falo prós finchados,
non falo prós estupidos,
non falo prós valeiros,
que falo prós que aguantan rexamente
mentiras e inxusticias de cotío;
prós que súan e choran
un pranto cotián de volvoretas,
de lume e vento sobre os ollos núos.
Eu non podo arredar as miñas verbas de
tódolos que sufren neste mundo.
E ti vives no mundo, terra miña,
berce da miña estirpe,
Galicia, doce mágoa das Españas,
deitada rente ó mar, ise camiño...

poema do Galego na corte do rei Gnu

bule negro



Não se ouvem os velhos.
Há dias em que só preciso de ser eu e a casa; arrumar gavetas, organizar papeladas, limpar o pó naqueles sítios onde não chego sem a ajuda de uma escada, esvaziar o louceiro e lavar o serviço Vista Alegre que o meu pai me ofereceu, escolher uma toalha de mesa e ficar a olhar para o velho bule negro que encontramos cá em casa, dentro do armário de pedra, quando nos mudamos para aqui. O bule negro tem bico e pega de metal e a tampa não pode ser a original; esta é de barro tosco e, embora sirva perfeitamente, não diz a bota com a perdigota. Nada que incomodasse a dona do bule que por certo ao partir-se a tampa improvisou uma de barro. Não seria por falta de tampa a condizer que se deixaria de beber o chá.

Tento imaginar a dona do bule. Também ela, ao apanhar a roupa lavada estendida ao sol, com o cabelo abalado pela brisa e o sol na pele, a encostava ao rosto para respirar o odor a lavado que dela se desprendia; retirava meticulosamente os insectos pretos que se colavam à roupa, pensando que era o cheiro a lavado que os atraía. Alguns escapavam ao escrutínio e só dava por eles quando brunia a roupa com o velho ferro aquecido a carvão. O vestido de noiva minhota também é negro. Brune-o cuidadosamente porque será com ele que será enterrada; qué-lo sempre impecável, lavadinho e prontinho para vestir, porque Deus quando chama não avisa ninguém. Há-de regressar ao fundo do baú, embrulhado num pano de linho, entre os remédios para as traças e as almofadinhas recheadas de lavanda.
Fervia a água para o chá e chegavam as outras mulheres da casa a quem a sede interrompia os muitos afazeres. Estendida a toalha na mesa e o serviço de chá sobre ela, uma trazia o pão e a manteiga, marmelada e queijo, ou talvez um bolo, sentavam-se passando o bule negro de mão em mão. Nenhuma se incomodava com a tampa tosca de barro.
O vestido negro de noiva minhota há muito se deve ter desfeito, junto com a carne e os ossos. Ficou o bule negro. Não se ouvem os velhos mas ouvem-se os mortos nos objectos que deixaram para trás.