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sexta-feira, 11 de abril de 2008

a alma também murmura no corpo

estudo, leveza, lentidão
a pena cor pincel
se pinte asas em papel.
desliza o corpo pela casa azul
tapete fugido, cortinas em barulho no meu mar.
uma janela de madeira comida por mil bocas de mil bichinhos.
ninhos, pêndulo, telhado, sol
muito sol em pedaços pela casa, na alma.
calor, tira azul no horizonte.
virgem porta escancarada dos sorrisos pela rua acima
dos abraços em cruz, montanha a montanha.
em lugar de fazer alarido
restar contente sem dar a perceber ao mundo:
- a alma também murmura no corpo como mar dentro do meu búzio.

domingo, 6 de abril de 2008

ainda

hoje é cinzento e as casas partem-se de lado
as chaminés pintam o céu que se entorna em azuis
cores que se repetem sempre nas telas que pintaste para eles
como fio inquebrantável onde não principias nunca
o outro voo que ficou por lançar a asa no espaço.
e recolhes a despedida de folhas mortas todas as manhãs
como destino já demarcado no movimento.
ensaias o corpo na alma e esperas em silêncio
a face transparente de um dia de chuva.

ainda.
os teus passos vigiados arrastam pelas ruas
o outro lado do céu
como fundo de mar perdido
noutra tela que não soubeste entender.

exposição

traços indefinidos no papel
desenhando rostos, mãos e sombras
delineando sorrisos amenos
ou prantos

tinta saída de um ponto descentrado
espalhada em linhas finas pelo papel
a sorrir da gravidade desses rostos
saídos de um só pescoço

rostos talhados em pedra
o preto no branco
as molduras tão graves
a sala tão estática
cores frias
gelos

enfia-se a arte em invólucros
como mortos em caixões

ontem

óleo de A.B.

marés escondidas para além das linhas
os olhos rubros no longe tardio
entardece e espera um grito
que talvez faça espuma desta areia.
garganta enforcada em pranto ou desvairada.
garganta de sons arrepiados mas logo abafados.
cimento sobre todo o cimento e cinzento cinzento cinzento.
linhas escondidas aquém das marés.
estas que descem de um rosto e sombreiam um corpo
estas que quebram desassossegos
e se encostam nas soleiras das portas
a sorrir de nada para o dia que foi ontem.

sábado, 29 de março de 2008

tango



desprende a pele do seu sossego
e apoia-se no ombro que arrasta
apenas movendo o passo se torna ágil
leve contra a terra
tudo é feito no fundo da terra
tudo é feito no fundo dos corpos
o seu nome nos lábios que beija
murmura e quer gritar no vento
mas não é amor
não é amor







primeira comunhão fotografia primeira

apenas precisava ficar imóvel
para não tremer a fotografia
ele preparou o jogo de luz
ensaiou daqui e d'acolá
mas nada havia a fazer
às sombras da tristeza
da infância que o não era

apenas precisava ficar imóvel
para não amarrotar o vestido
erguer as mãos numa prece
apertando o terço de pérolas fingido
e pedir baixinho
Nossa Senhora do Rosário
faz com que eu fique bem

apenas precisava ficar imóvel
e aguardar pacientemente para sorrir
que ele acertasse a objectiva
e do nada dissesse olhó passarinho
mas disparou e nada disse
o clique da máquina no coração percebeu
meninas como ela não viam passarinhos

sexta-feira, 28 de março de 2008

onde se fazem pintores


aquelas artes são todas as artes
espírito em desatino pelas telas, aos trambolhões nas cores
pincel acima até à mão para onde fogem todos os encantos e desencantos
dos dias de sol, com chuva, incongruentes e azedos
uns que outros mais leves e tranquilos
amenos
propícios ao tudo que nada são
mais aqueles que se exibem cidade dentro
embrulhados como múmias em pele fina de cera.

ruas de palacetes do outro século
ruas estreitas balançadas entre dois arames de corda
roupa desfraldada como bandeiras pelas varandas
vai pingando cá para baixo no solo de pedras cinzentas
gotas de água reluzentes e quebradiças do silêncio
o silêncio do charco já feito.

estas artes são como todas as artes.
enredadas e traiçoeiras, de vértices e ângulos
uns mais explorados que outros, dispostos de maneiras diferentes.
poder-se-ia fazer tudo igual de outra forma
mas é o prisma que determina o artista.

nas águas-furtadas fazem-se tempestades.
dos caleiros rotos esverdeados, cobertos pelo musgo do tempo
pingam no chão gotas transparentes
reflectindo janelas e telhados
no charco que vai crescendo no chão.

tarde cinzenta não pára de chover.
céu entonteado, triste, sem razão angustiado
como um borrão sobre as nossas cabeças.
recordo outras tardes assim
quando imaginava que estava dentro de uma redoma
cujo vidro não se desembaciava nunca
sempre opaco.