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sábado, 14 de março de 2009






no meu jardim, pessegueiro em flor (esta manhã)

A natureza é um templo onde pilares vivos
Deixam, por vezes, fugir confusas palavras;
O homem passa por lá através de florestas de símbolos
Que o observam com olhares familiares.

Como longos ecos, que ao longe se confundem
Numa tenebrosa e profunda unidade,
Vasta como a noite e como a claridade,
Os perfumes, as cores e os sons respondem entre si.

Há perfumes frescos como carnes de bebés,
Doces como os oboés e verdes como os prados;
— Outros, ao invés, corruptos, ricos e triunfantes,

Que se expandem como as coisas infinitas,
Como o âmbar, o musgo, o benjoim e o incenso
Que cantam transportes da alma e do sentido.

Charles Baudelaire, As Flores do Mal
original em francês

sábado, 28 de fevereiro de 2009

perder




Tinha planeado uma tarde de sol. Ia lavar a escadaria de granito, molhar os pés na água e depois estender-me ao sol com a Agustina. O tempo não o permitiu. Estendi-me na cama com o meu livro de poemas favorito, feito por mim num moleskine. A estranha sensação de ter perdido alguma coisa, sem saber o quê, acontece-me frequentemente. Tenho de viver com isso, com o quase saber da perda sem nunca saber. Não é tão fácil como parece. Perdi uma tarde de sol mas não é bem assim; não se pode perder o que se não teve. Foi outra coisa. Talvez tudo tenha o propósito de se perder e, se assim é, a perda não é de facto um desastre. É uma arte.

ONE ART

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel.

None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

---Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

Elizabeth Bishop

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

poema de um poeta morto de quem nunca ninguém ouviu falar

Com ela dói-me o prolongamento das nuvens
Com ela mantenho um olhar o prolongamento da amizade
Com ela o céu ofusca-a e mata-me devagarinho o pensamento
Com ela tudo é possível
Em Beirute ela é cúmplice das crianças mortas
Sopa de napalm
Com ela não sei o quanto tudo é possível
Mas, na agrura dos monumentos erguidos ao grande deus Eros
Espero pela minha vez de a beijar no colo
Longos enlaçamentos de amor e poesia

Zé Cari, 1982

sábado, 6 de dezembro de 2008

the black art


Carlos Estevez - Amores Difíciles, 2007


A woman who writes feels too much,
those trances and portents!
As if cycles and children and islands
weren't enough; as if mourners and gossips
and vegetables were never enough.
She thinks she can warn the stars.
A writer is essentially a spy.
Dear love, I am that girl.

A man who writes knows too much,
such spells and fetiches!
As if erections and congresses and products
weren't enough; as if machines and galleons
and wars were never enough.
With used furniture he makes a tree.
A writer is essentially a crook.
Dear love, you are that man.

Never loving ourselves,
hating even our shoes and our hats,
we love each other, precious , precious .
Our hands are light blue and gentle.
Our eyes are full of terrible confessions.
But when we marry,
the children leave in disgust.
There is too much food and no one left over
to eat up all the weird abundance.

- Anne Sexton, The Complete Poems

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Makeup on empty space

I am putting on makeup on empty space
all patinas convening on empty space
rouge blushing on empty space
I am putting makeup on empty space
pasting eyelashes on empty space
painting the eyebrows of empty space
piling creams on empty space
painting the phenomenal world
I am hanging ornaments on empty space
gold clips, lacquer combs, plastic hairpins on empty space
I am sticking wire pins into empty space
I pour words over empty space, enthrall the empty space
packing, stuffing jamming empty space
spinning necklaces around empty space
Fancy this, imagine this: painting the phenomenal world
bangles on wristspendants hung on empty space
(...)
I wanted to scare you with the night that scared me
the drifting night, the moaning night
Someone was always intruding to make you forget empty space
you put it all on
you paint your nails
you put on scarves
all the time adorning empty space
Whatever-your-name-is I tell you "empty space"
with your fictions with dancing come around to it
with your funny way of singing come around to it
with your smiling come to it
with your enormous retinue & accumulation come around to it
with your extras come around to it
with your good fortune, with your lazy fortune come around to it
when you look most like a bird, that is the time to come around to it
when you are cheating, come to it
when you are in your anguished head
when you are not sensible
when you are insisting on the
praise from many tongues

It begins with the root of the tongue
it begins with the root of the Herat
there is a spinal cord of wind
singing & moaning in empty space

Anne Waldman, Makeup on empty space

Leitura por Anne Waldman no YouTube

sábado, 28 de junho de 2008

poema da gata preta que morreu

A minha sobrinha de 11 anos escreveu hoje este poema sobre a gata preta que morreu, porque quis, porque lhe apeteceu, porque ainda pensa na gata e se imaginou sendo ela.


Pela sombra aqui vou eu, toda vaidosa e luxuosa,
Sou mimalha mas muito querida.

Aparece-me assim do nada uma quinta,
Que hei-de eu fazer?
Hei-de explorá-la ou arranjar donos?!

Dei a volta ao mundo dentro da minha cabeça.
Foi mais difícil do que eu pensava!
Finalmente!
Hei-de arranjar donos.

Passado dias, dias e longos dias, ainda de vida
Apareceu-me do nada uma luz tão brilhante!
O que devia fazer, não podia fazer nada
De repente comecei a voar!?
Não acreditei naquilo, Deus estava lá a minha espera!
E também consegui ver os meus 2 filhinhos a Tareca e a Vitória.

Mas não sabia o que estava a passar-se!
Depois é que vi os meus donos ali, lá no fundo a chorar!
As lágrimas escorriam muito depressa,
como se estivéssemos a escorregar num escorrega muito longo que nunca acabava!

Mais tarde comecei a lembrar-me das coisas!
Era tão terrível, tão triste, tão horroroso que poderia partir o coração a qualquer pessoa.
Eu tinha morrido! Que triste!
A minha amiguinha ali a chorar que era a minha segunda preferida.
Ela dava-me de comer, fazia miminhos e quando queria dava-me colo.
Era a minha amiga Maria.

Pelo menos sei que todos estão bem!
Os meus bebés, os meus filhos, os meus donos, as minhas amigas...

Ninguém sabe porque os animais morrem cedo de mais.
Minha bichaninha eras pretinha mas não interessa para ninguém
Pelo menos estás dentro dos nossos corações.
Voa com Deus e vive feliz como viveste aqui.

quinta-feira, 26 de junho de 2008


My hands are tied do José Paulo Andrade


DEITADO FRENTE Ó MAR


Lingua proletaria do meu pobo
eu faloa porque si, porque me gusta
porque me peta e quero e dame a gana
porque me sae de dentro, alá do fondo
dunha tristura aceda que me abrangue
ó ver tantos patufos desleigados,
pequenos mequetrefes sen raíces
que ó pór a garabata xa non saben
afirmarse no amor dos devanceiros,
fala-la fala nai,
a fala dos abós que temos mortos,
e ser, co rostro erguido,
mariñeiros, labregos da linguaxe,
remo e arado, proa e rella sempre.
Eu faloa porque si, porque me gusta
e quero estar cos meus, coa xente que sufren longo
unha historia contada noutra lingua.
Non falo prós soberbios,
non falo prós ruíns e poderosos,
non falo prós finchados,
non falo prós estupidos,
non falo prós valeiros,
que falo prós que aguantan rexamente
mentiras e inxusticias de cotío;
prós que súan e choran
un pranto cotián de volvoretas,
de lume e vento sobre os ollos núos.
Eu non podo arredar as miñas verbas de
tódolos que sufren neste mundo.
E ti vives no mundo, terra miña,
berce da miña estirpe,
Galicia, doce mágoa das Españas,
deitada rente ó mar, ise camiño...

poema do Galego na corte do rei Gnu