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quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

virgem

horas tardias nos campos de azul
mostram-se coerentes e não são;
virgens de Outono caem do céu verde
não são amarelas de sardónicas
nem vermelhas de sangue
são tristes não têm cor mas sinto
horas tardias soltas nos campos
batem pela mulher verde que vadia
nos campos onde vadiam as horas.

1982

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

encontro


I pass the forest - Midori Yamada

foste sempre em mim uma floresta entrecortada de caminhos
uma crueza lúcida, uma pausa esguia

curvando-se a tua boca nos ciprestes
fala comigo conta-me a sua história
perguntas-me e já não me lembro
do caminho nas rugas da memória

digo-te o muito que transbordei
completa e transformada
na margem dos factos espancando-me
em cóleras, risos, enxurrada clara

se perduro precisa e sem mágoa
no nosso encontro te reponho
em ti a vida declarou os limites
das cascatas ágeis que transponho

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

september 11

because of this
today a woman wrote a poem
she climbed the words like a beetle
under the sun in the afternoon
hiding the face inside the earth
she shouts her September to the dead
it is her lament
it is her part

because of that
today a scrapbook will not be blank
she will add a photograph
under the poem in the evening
hiding the ashes inside the hands
she will spread her September to the living
it is their lament
it is their part

quarta-feira, 3 de setembro de 2008


não é sentir fragmentos
esvoaçares entrecortados no céu azul
este céu denuncia outro tempo;
desce o azul pela avenida
encontra os gestos amenos de todos os dias
esta quietude resignada
da mulher parada em cada esquina

domingo, 31 de agosto de 2008

em nome da honra

"Ms Shah said that the hapless girls and the women were first shot in the name of honour and then buried while they were alive. She also said that no criminal had been arrested so far." - via cinco dias

aborta-me mãe no meu véu amniótico
sufoca-me no cordão umbilical
nos pulsos latejam veias corta-as rápido
como peixes sufocando nas lâminas
sangue esvaído em nome da honra mãe
casa-me com as pedras os vermes a terra
antes que me levem pelo trilho nas pegadas das outras
onde antes de mim tropeçaram e depois cursarão
a bala silenciosa na lua no traje de noiva
tumuladas nos nossos vestidos e cores tradicionais
as danças macabras talvez acalmem os velhos
façam sorrir meninas da ingenuidade das larvas
pensam que me terão antes do sol mas erram
respiro ainda vivo comendo por dentro a terra
em nome da honra mãe.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

reencontro

o mar lembra aos corpos o desejo primitivo do belo
das linhas esculpidas pela praia andando
na pose estática de todas as coisas
sendo o desafio à mão de todos os espantos
o espanto de ser tão longe
do já criado
do já vivido
do já sentido;
de querer ser poeta sem fazer poesia
nada dizer nada possuir nada
que todas as coisas fossem só todas as coisas;

mas fazemos viagens repentinas não importam as horas
amamos os comboios e as estações esperamos
em cada passante uma nova viagem
cortamos todos os fios e no fim
remendamos todos os tecidos
renovamos os encontros e
dizemos nós as palavras
e inventamos nós o ar
e fazem eles o adeus
adeus adeus adeus.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

uma vez por mês

uma vez por mês they say
ruíam as paredes da casa do sangue
segredo intocável sentido escorrido
nos coágulos espessos nos ferrolhos da porta
doíam os filhos que poderiam ser
depois dos filhos que tinham sido
alvos acidentais danos colaterais
coágulos espessos no fogo perdido.
meninas adiam a menarca na casa do sangue
uma vez por mês they say

quarta-feira, 21 de maio de 2008


Waldfrühling - Edmund Steppes 1924

linhas em desencontro pela avenida
perspectiva dentro, sombra acima.
desliza o pincel por este azul e por este verde
compõe folhas e pássaros, asas recolhidas
incontáveis gargalhadas que espreitam todos os amanhecer
em redor das colinas;
gritos espavoridos de todos os contos
segredos e murmúrios de fadas
feitiços e florestas.

sábado, 19 de abril de 2008

arco-íris sobre o meu telhado



"Em certos estados de alma quase sobrenaturais, a profundidade da vida revela-se toda inteira no espectáculo, por mais vulgar que seja, que temos debaixo dos olhos. Torna-se o seu símbolo." - Charles Baudelaire - O meu coração posto a nu, 1861


hoje, por uns breves segundos o sol poente trespassou as nuvens
e sugando a chuva projectou este arco-íris sobre o meu telhado.
por uns breves segundos a luz entardecida penetrou no quarto do meu dez anos.
olhou pela janela os verdes molhados, cristalinos, contrastantes e estranhos;
o rectângulo aberto na parede e o pêlo amarelo dos cães era agora dourado.
por uns breves segundos a casa parou
abandonamos o computador, os playmobil e o fogão
calou-se a televisão.
saídos para o jardim, os gatos espiavam os pardais
de quem a luz revelava camuflagem.
asustados voaram para outra paragem.
os olhos dos gatos pousaram nos meus
também eles eram verdes quando me seguiam os pés.
por uns breves segundos era eu eras tu
a luz, as sombras, os verdes azuis e os cinzas
tela que sozinha se pintou
assim sem querer te tocou.

que pena as fotografias não registarem os cheiros
da chuva no sol, do jasmim e dos pinheiros.

por uns breves segundos Isabel olhou
através da janela para poente.
pensei que ela entendera
mas já ela a mão estendera;
frenética esfregava os vidros
lavando as manchas que a luz revelara.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

inocência

cai na água a passagem
da minha virgem, menina com asas
o tempo passa sem mistério sobre a juventude.

estendidas ao longo da praia
apanham sol e contam beijinhos na areia.
conversam as gaivotas, a espuma, os corpos bronzeados, os barcos!
sol, sol, é mar, é mar
maré cheia, maré vaza
meu calor, minha aventura...
tão frágeis, os seus lábios ensaiam canções sem acordes.

pescadores cosem as redes esburacadas das amarguras
perto dos barcos de tão invisíveis madrugadas.
o canto das sereias é prenúncio de tempestades.

podem elevar-se para além das dunas
e brincar aos abraços com a areia
mas a sorte pode não passar daqui
pode ninguém bastar-se a si próprio
pode até o medo ser infundado
mas afundarão na onda o passo.

estendem o corpo e abrem o peito na praia azul
sem dar de si mão ao derradeiro envelhecer.

terça-feira, 15 de abril de 2008

reflexo


vénus ao espelho - Velasquez 1650

deponho caras para logo ensaiar outras.
ninguém faz conjecturas
não há outros olhos, outras mãos.
fragmentos voltam ao seu núcleo
posso comandar, posso ser obedecida.
ando sempre com um espelho na mão.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

a tribo dos Zo-é

"Os Zo-é, Ruy, até as mulheres partilham, entre eles o ciúme parece não existir, vivem numa espécie de território desnascido ainda antes de havermos caído em desgraça. Não perdem tempo a olhar o erro, a sonhar com o altar, a selar envelopes para concorrerem a prémios, não perdem tempo a admirar um inimaginável sucesso nem a pensar no que possa ser ou não ser o sucesso, pois para eles sucesso não mais há-de ser do que ter o que comer, mulher e crias para dar continuidade a uma forma de vida tão distante e tão viva e, por isso mesmo, tão ameaçada." - publicado no Insónia


os Zo-é têm ferramentas primitivas
a floresta e o rio onde achar alimento
e tudo isso lhes basta.
ah já me esquecia
têm também mulheres e crias.

de que tribo serão essas mulheres?
perderão elas tempo com o erro
de sonhar casamentos com Z-és
esses senhores que as possuirão
sem lhes dar identidade
para dar continuidade
a não ser algo que se é?

mas eu sei que não é assim.
na tribo dos Zo-é
todos são o que são
e nada disto interessa.
é nesta lusa tribo de Zés
onde por vezes tenho vontade
de nunca ter posto os pés.

mais sobre os Zo-é na Revista Galileu

neblina


praia de Moledo

como um segredo escutamos trémulo o vento que passa
e o mar.
sabemos que o mar é só o mar e condenamos as palavras ao silêncio.
estudando as linhas do teu rosto não conspiro o teu sorriso ou o medo.
o meu corpo desprende o mar da areia
isento das teias frágeis que o seguram
recusando acreditar que se enlaça e que dentro do teu mar
nada mais deixa que neblina.

domingo, 13 de abril de 2008

laços pouco lassos

queria deixar-te laços pouco lassos
aventuras que faço floresta dentro
algumas pedras quebradas
outras refeitas
algo de interminável em acabado murmúrio.
deixo talvez tudo que não sei dizer
sem dizer.

abre em asas o azul derrubado dos olhos sobre o corpo.
expande os limites outrora leves
mas finge apenas que partes.

queria deixar-te laços pouco lassos
algumas aventuras minhas
mas mais não deixo que mentiras.

na praia de Afife

talvez valha a pena este mar em nevoeiro
ao longe, para os lados de Âncora
uma sirene toca de três em três segundos
guiando os barcos de pescadores
lançados noutras redes que não as minhas.

se fosse possível contar toda esta areia
os números não chegariam.
mas para quê contar a areia?
se eu fosse areia, junto do mar sempre
não sentir, não pensar
não pensar.
não precisar fazer nada e nesse nada
fazer tudo.

a praia que se povoa
já se ouvem gritos de crianças
a sirene
o mar nos rochedos
este papel que estala
nada mais ruído.

no porto de Viana

pelas ruas da cidade porto plenas de sol
multidões, coloridos objectos tradicionais
camisolões de pescador, aventais e blusas bordadas
tapeçarias e toalhas
cestos, vestidos de noiva minhota, negros
bordados a negro desenhando altos relevos
ao lado de pregas miudinhas infindáveis
coletes e saias, chapéus
recordações em pano e madeira.
um sem número de coisas preciosas
põe Viana nas soleiras das portas
para encher os olhos aos turistas.

embrulhada nesse movimento de luz e cor
passeio procurando o rio
que sei hei-de encontrar algures ao fundo das ruas.

fiz quilómetros a pé em círculo no mesmo lugar
em redor da mesma estátua
sob a mesma ideia, o mesmo juízo
o mesmo sentido
e quando por fim encontro o rio
no perfeito estagnar do movimento
seguro a unidade de tempo
que separa o fim do principio.
é minha, a mim pertence
a luz antes de ser do rio.

sábado, 12 de abril de 2008

solidão


caneta de feltro

a solidão é ao mesmo tempo
a antecâmera da loucura e da lucidez.
algo que se receia e se procura
como tudo o que se abre e logo se fecha
tudo o que se recorda e logo se esquece.
é estar dentro das coisas sem as possuir.

porto não sentido


ponte D. Luís - Rui Bonito


penduradas de noite, de cada lado há uma margem.
as contas infinitas que se fazem ao tempo
descrevem-se arcos e ponteiros sobre a cidade
que todos os dias se afoga e submerge
como náufrago sem destino
vagueando ao acaso na esperança louca de um s.o.s.
na angústia vermelha de um sol posto a sul
das torres das igrejas que ferem o céu
e lançam os sinos no vento.
como se Deus existisse.

imensas madrugadas se constróem paralelas
o entardecer é sempre perpendicular.
a cidade não sabe de um lugar
e interroga o espaço de olhos baços e pequenez.
como se o seu interior estivesse gasto
navega à toa num ego exterior e uno
como caravela desencontrada do porto que a nasceu.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

ilusão será

memórias perdidas vão já além
cresce segura na mente a certeza.
não sei se mente
ilusão será.

farsas correntes de água que arrasta a paisagem
e sinto-me correr dentro dela.
corro
farsas
corro
farsas correntes
não sei se mentes
ilusão será.

freaky twins


(dizem que há três pessoas em nós: a que somos, a que julgamos ser e a que os outros pensam que somos).


sou trifácea não una
existe outra que não posso enlaçar
e outra ainda vive cá dentro.
se afogada está, respira e vem
quando a toco.
momentos há em que sufoco.
e não sou eu quem olha
e sou eu e não a conheço
não me respira
não me sente
não me aproxima.