quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Tiririca já não mora aqui


Numa velha anedota da antiga República Democrática Alemã, contada por Slavoj Žižek, um alemão de leste que vai trabalhar na Sibéria, sabendo que o correio é lido pelos censores, diz aos seus amigos que usará um código nas suas cartas: se a carta estiver escrita a azul o que lá vier relatado é verdade; se estiver escrita a vermelho é mentira. Um mês depois os amigos recebem a primeira carta da Sibéria, escrita a azul, onde o alemão lhes dava conta da vida maravilhosa que levava. As lojas estavam cheias de produtos, havia abundância de alimentos, os apartamentos eram espaçosos e devidamente aquecidos, os cinemas passavam filmes do Ocidente, as raparigas eram bonitas e abertas a relacionamentos sexuais… A única coisa que não havia era tinta vermelha.

No seu livro Welcome to the Desert of the Real!, Žižek interpreta esta anedota dizendo que começamos por reconhecer que temos todas as liberdades que desejamos e, de passagem, mencionamos que a única coisa que nos falta é a linguagem que nos permite articular a nossa falta de liberdade. As nossas “liberdades” servem assim para mascarar a ausência de uma liberdade mais profunda.

Lembrei-me desta anedota quando conversava com uma amiga brasileira sobre o fenómeno Tiririca. Logo a seguir às eleições e ainda chocada com os quase 1,3 milhões de votos conseguidos pelo candidato a deputado federal, contava-me que a sua empregada, ao saber que ele corria o risco de ser dado como incapaz, caso não provasse que era alfabetizado, lhe disse: «Já viu, Dona D.? Querem roubar os votos ao Tiririca por ele ser “analfabético”».

O candidato Tiririca era literalmente um palhaço. A sua campanha não continha qualquer programa, apenas alguns slogans em rima dirigidos precisamente aos “analfabéticos”:

Se não sabe ler e se complica, vote Tiririca. Só lê livro que tem figura que explica? Vote Tiririca.

Aos que, para além disso, tinham receio de votar mal e piorar a situação, o apelo era simples:
Vote Tiririca. Pior do que tá não fica.


A surpresa e incompreensão da parte letrada da sociedade ficou bem expressa na pergunta de um jornalista que quis saber do próprio candidato como é que ele convencia as pessoas a votarem nele. “Eu falo a língua deles”, respondeu.

Uma grande parte da população, tendo a liberdade de voto não sabe o que fazer com ele, como usá-lo a seu favor. Assistem ao desfilar de programas políticos e promessas e todos lhe parecem iguais, cinzentos, mentirosos e corruptos. Indistinguíveis. Não saber separar o trigo do joio, poder escolher e não saber fazê-lo é uma ausência de liberdade que a democracia também disfarça. Um milhão e trezentos mil brasileiros encontrou a linguagem para exprimir essa ausência nas rimas do Tiririca. A empregada da minha amiga angustiava-se perante a possibilidade do “roubo” dos votos porque, embora soubesse perfeitamente que o agora deputado era uma anedota, tinha mais ou menos aceite que lhe roubassem tudo excepto a sua esperança num Messias, forjado nas mesmas malhas da ignorância que ela partilhava com milhões de brasileiros. Tão despojados quanto ela.

E o que iria fazer o Tiririca se conseguisse provar que não era analfabeto e assumir o cargo? Iria construir escolas para os pobres educarem os filhos, não de qualquer maneira, mas "como o rico educa os dele". No meio da sua campanha apalhaçada parecia ter entendido perfeitamente que a liberdade não é uma coisa que a democracia dá como certa. Não se recebe nem se conquista. Compra-se.

Esta semana soube-se que Francisco Everardo Oliveira Silva, o Tiririca, vai abandonar a política e o partido alegando motivos pessoais (ganha mais como palhaço e quer ter mais tempo para a família). Cumpre assim a ameaça que tinha feito anteriormente. Na altura mostrou-se desiludido afirmando que, tendo chegado aonde chegou, pensou que iria "aprovar projectos que iam beneficiar a população e essas coisas todas, mas não é assim. Há outros interesses". Não conseguiu aprovar nenhum e nunca discursou na tribuna. É no entanto um deputado esforçado e foi considerado um dos melhores numa votação online que teve como vencedor o professor universitário e jornalista Jean Wyllys, que ganhou popularidade quando venceu o reality show Big Brother no Brasil, um programa que, como é sabido, se dedica a fabricar palhaços.

Sem comentários: