domingo, 14 de outubro de 2012

um segredo sobre um segredo

Houve um tempo em que construíamos as nossas autobiografias escrevendo diários pelos quais zelávamos para que se mantivessem secretos, para os nossos olhos somente. Hoje fazemo-lo através de fotografias que corremos a partilhar nas redes sociais. O excesso, porém, não é sinónimo de multiplicação da capacidade de possuir quem contempla, de lhe contar uma história ou um segredo. Talvez seja por isso que gosto tanto das fotografias anónimas do passado.  Mais do que a fotografia artística procuro a dos quotidianos, de gente que numa pausa, por vezes rara, se deixou ou se quis fotografar e que sobreviveu enterrada em arquivos pessoais ou estúdios fotográficos, como aqueles onde vamos tirar o retrato para o BI ou a foto mais ou menos pirosa de corpo inteiro. Terão passado despercebidas aos olhos dos contemporâneos mas não aos nossos, talvez porque temos entre nós e eles a distância temporal, ou cultural, e o benefício de conhecermos o resto da história.

Nas fotografias de estúdio intrigam-me os objectos escolhidos para acompanhar os retratados, assim como as poses; o que é comum a quase todas as culturas e o que é completamente diferente, aparecendo por vezes como paradoxal.

Os taliban, nas fotografias tiradas em segredo nas traseiras dos estúdios, parecem partilhar o gosto pelas armas de fogo com o gosto pelas flores. Estas não se limitam a servir de decoração, são também exibidas muito perto dos rostos, criando um contraste absurdo, quase a servir de metáfora para a destruição do belo em que tanto se empenharam.



Há fotografias que foram retocadas, a pele clareada, os olhos pintados, algumas poses com rasgos de sensualidade, outras reminiscentes de um deus hindu. Pergunto-me se toda essa estética clandestina não seria uma forma de preencher o vazio deixado pelo desaparecimento do rosto feminino. Todas as fotografias são de homens.


Outro aspecto intrigante são os afectos. No estúdio Shehrazade (Saida, Líbano), os casais assumiam poses românticas típicas dos namorados, abraços e beijos, mas eram sempre do mesmo sexo, excepto quando a mulher era de cartão. Menos intrigante é se não o desejo de pertencer a outra cultura, a vontade de fingi-lo e perpetuá-lo numa fotografia. O estúdio possuía uma miríade de objectos com os quais os retratados podiam dar expressão aos seus sonhos e fantasias.


A fotografia mais célebre da colecção é a da mulher de Baqari (desconhece-se o nome dela) que foi ao estúdio Shehrazade onde Hashem El Madani a fotografou com roupas leves e o cabelo descoberto. Quando soube, o marido ciumento, que nunca a deixava sair de casa, exigiu a destruição dos negativos, mas Madani apenas concordou em riscá-los com um alfinete. Mais tarde, após o suicídio dela, ele voltaria à procura dos retratos com a esperança de que houvesse outros que desconhecia. Queria ampliações. Queria olhar para ela.



Ao olhar para ela, lembrei-me do que dizem tantas mulheres que vivem sob a tirania de sociedades ou de maridos obcecados em cobri-las: a remoção do véu em público é um desnudamento. Transparece a timidez, o desconforto e insegurança de quem quer e no entanto receia ser olhada. O corpo parece estar em conflito com o interior, sem saber bem o que fazer consigo próprio - um conflito entre o que a mulher deseja para si e aquilo a que o corpo foi obrigado a submeter-se até lhe parecer natural. A fotografia é também a materialização de uma vontade, sempre mais poderosa do que o medo.

Os clientes de Madani gostavam de ser fotografados junto de rádios. Esta menina adicionou as suas bonecas ao cenário, o que me recordou a infância e o rádio onde a minha mãe ouvia o fado e as notícias. Com a curiosidade normal das crianças queria saber como funcionava e acabei por me convencer de que havia gente muito pequenina dentro dele que vinha nas ondas. Uma Amália em miniatura.







O gosto pela tecnologia é universal. Por vezes é a presença dela que nos situa no tempo. Nestas fotografias chinesas, o ar medieval é quebrado pela presença da electricidade e do automóvel. O homem pode fazer um esforço colossal para manter as tradições e os modos ancestrais de vida, mas parece apenas adiar a derrota.




Em muitas fotografias chinesas, devido à formalidade e inexpressividade dos rostos, a história é a ausência de histórias. Não nos é permitido acesso à pessoa retratada. Inúmeros arquivos do século XX foram destruídos devido à guerra e à revolução. Hoje existe na China uma febre por estes documentos que precederam uma época em que possuir fotografias pessoais ou de antepassados burgueses era um risco. A maioria das que existem foram salvas por britânicos que as levaram para fora do país, tendo permanecido um segredo que os chineses agora descobrem.



Num hipotético futuro em que fotografias nossas, tendo invadido já todos os recantos da existência, apareçam também como restos de um passado anónimo, terão algum segredo para contar? Diane Arbus dizia que a fotografia é um segredo sobre um segredo. Quanto mais nos diz menos sabemos.

4 comentários:

Cristina Gomes da Silva disse...

Vim de "casa" da Helena, onde passo todos os dias para '2 dedos de conversa' e dou com esta outra conversa por dentro e partilho a interrogação: "Pergunto-me se toda essa estética clandestina não seria uma forma de preencher o vazio deixado pelo desaparecimento do rosto feminino. Todas as fotografias são de homens."

E se, por acaso, a violência por aquelas paragens fosse uma manifestação da dor de uma ausência: a das mulheres com voz e corpo presentes?

Bom dia

Cristina Gomes da Silva

maria n. disse...

Olá Cristina,

Não tenho dúvidas de que o é. Os poderes por trás essa violência sabem-no e é também por isso que promovem a ausência delas.

Maria

Lutz disse...

Há muito que nãocá vim... ou a outros blogues. O post é fantástico!
Um abraço,

maria n. disse...

Olá Lutz,

Há muita gente com saudades do "Quase em Português". Obrigada pela visita que é sempre um prazer.
Um abraço,
Maria